Em um comércio integrado internacionalmente, a proporção das diferenças em desenvolvimento entre os países faz-se sentir, na forma que grandes quantias de riqueza são acumuladas por países com capacidades tecnológicas e organizacionais aprimoradas. Um comércio internacional livre pode trazer desequilíbrios para as regiões menos capacitadas, ou organizacional ou tecnologicamente. Dessa forma, uma integração comercial e política em nível internacional que tenha o objetivo de trazer uma estabilidade econômica e política para as regiões menos desenvolvidas, precisa adequar políticas que considerem as distintas características regionais. No mesmo sentido, essas políticas podem proporcionar os ganhos econômicos necessários para os planos internos de combate às mazelas sociais. Os países menos desenvolvidos devem receber esses benefícios internacionais para que consigam estruturar-se economicamente, na medida em que um comércio livre, mas em desequilíbrio entre as partes, não viabilizará para todos os efeitos benéficos das trocas de mercadorias. Para que um processo de abertura econômica funcione para as distintas regiões, um tratamento diferenciado para os países menos desenvolvidos deveria ser considerado, na medida em que, como explica Dupas:
As profundas reformas estruturais induzidas pelo discurso hegemônico – abertura, privatização e exposição à concorrência internacional – aumentaram intensamente o grau de vulnerabilidade externa da maioria dos grandes países da periferia mundial,
271
Idem, Ibidem, p. 221.
109 a qualidade dos empregos se deteriorou e a distribuição de renda se tornou ainda mais perversa.273
A simples abertura comercial em si não é suficiente para que países menos desenvolvidos consigam atingir bons resultados econômicos. A abertura não é eficiente para esses países, se eles não atingirem um grau de competitividade tecnológica e de inovação que se traduza em ações práticas e em ganhos. O processo integrativo deveria, assim, estar coordenado com os países periféricos de modo que políticas sejam estabelecidas e as intervenções necessárias sejam conduzidas, para que os empreendimentos adequados gerem o dinamismo econômico pretendido. Por isso, em uma integração econômica deve-se também incentivar as parcerias entre os países, onde os países menos desenvolvidos tenham as oportunidades de beneficiar-se das experiências bem sucedidas e de fatores de produções, inovações e organizações mais desenvolvidas. Acordos diferenciados, nesse sentido, devem ser afinados de modo a trazer vantagens de aprimoramento das capacidades para os países em condições desfavoráveis, assim como promover a inserção desses países no mercado internacional, para a promoção do crescimento econômico e as melhorias das questões sociais. É uma solução de compromisso, onde os países podem ter benefícios mútuos, melhorar a eficiência e possibilitar, com medidas de suporte, uma maior equidade entre os países. Nesse cenário de equilíbrio, tão importante quanto receber recursos, é o fator do conhecimento e da inovação nos diversos setores. Precisa-se, porém, de processos transparentes de cooperação internacional, que viabilizem recursos sem a interferência e as imposições de condições de modelos econômicos que reforcem as distinções entre as regiões, facilidades de acesso a tecnologias e as informações necessárias.
Para a evolução dos países em desenvolvimento não é suficiente a adoção das políticas de atração do investimento estrangeiro. Tais políticas devem ser conjugadas com planos mais ambiciosos de desenvolvimento interno, dada à dependência desses investimentos do setor de importação que proporcionam balanças comerciais negativas.274 O desenvolvimento dos setores e estruturas internas próprias deveria ser de caráter prioritário para o equilíbrio das contas no comércio internacional. É nesse quadro que o processo integrativo pode fornecer as condições apropriadas, ao estabelecer as regras diferenciadas para esses países conquistarem melhores oportunidades na relação entre os países e regiões.
273
DUPAS, Gilberto. Hegemonia, Estado e Governabilidade. São Paulo: Ed. SENAC, 2001. p. 136.
110 O economista John Maynard Keynes, que participou ativamente dos eventos econômicos e institucionais no período pós-guerra, e no acordo monetário de Bretton Woods como representante do tesouro da Inglaterra, estabeleceu um nexo entre o comércio e a paz internacional, em seu tratado “The Economic Consequences of the Peace”(1919):
The Economic Consequences clearly suggests a link between trade and peace.
Keynes argued that obstacles to trade (including currency disorder and inflation) lead to impoverishment, especially because of the need for trade to sustain the population; that privation leads to domestic disorder and extremism (either revolution or reaction); and that these lead to international hostility, perhaps war.275
Um dos argumentos fundamentais de Keynes, nesse tratado, era de que o empobrecimento da Alemanha levaria ao empobrecimento da Europa e traria consequências desastrosas e repercussões políticas, como guerras e revoluções. Nesse sentido, Keynes faz duras críticas ao Tratado de Versalhes (1919), que impôs pesados encargos aos perdedores da Primeira Guerra. O problema que países como Alemanha e Áustria, naquela época, enfrentavam para sustentar suas populações fazia com que Keynes acreditasse que o foco deveria ser invertido dos aspectos políticos para os econômicos: “Keynes believed that, in an interdependent Europe, the security of one state was not advanced by the destruction of others”.276 Keynes defendia um mercado livre, mas com um programa combinado para as ações internacionais, que diferia dos pensadores do laissez-faire.277
No Tratado de Keynes, já era possível vislumbrar uma necessidade em um modelo de interdependência por um processo integrativo internacional equilibrado, que possibilitasse uma relação entre mercado livre e maior equidade como condição para uma estabilidade política. O Tratado, em linhas gerais, já prenunciava a sua obra mais importante, a “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”. Nessa obra, Keynes defende, em seus aspectos de
filosofia social, a eficiência, a equidade e a liberdade como princípios norteadores.
A proposta de Keynes em Bretton Woods, diferente do colega americano, Harry Dexter White, era encorajar o crescimento econômico. Os dois representantes polarizaram e rivalizaram as propostas para o novo sistema que estava por ser criado, que incluía o Fundo Monetário Internacional, o Banco para a Reconstrução e o Desenvolvimento e o Banco Mundial. Enquanto White argumentava que os déficits das balanças comerciais era um
275 MARKWELL, Donald. John Maynard Keynes and International Relations. New York: Oxford University Press,
2006. pp. 102-103
276
Idem, Ibidem, p. 105.
111 problema apenas dos países deficitários, Keynes imaginava um comércio internacional que equilibrasse as balanças de pagamentos dos países.
Na sua obra principal, Keynes pondera que o mercado livre não é suficiente para manter a paz. A luta pelos mercados e a pressão da população (falta de controle em natalidade) seriam fatores de guerra, caso o mercado não encontrasse saídas mais balanceadas. A luta pelos mercados, o fator principal em seu argumento, indicava que o mercado livre não tinha a inclinação para a paz como seus defensores pensavam, por isso, o mundo precisava de um capitalismo reformado:
Against the advocates of laissez-faire, Keynes defended ‘the enlargement of the functions of government’ which he proposed ‘as the only practicable means of avoiding the destruction of existing economic forms in their entirety’, and perhaps of avoiding authoritarianism. The ‘world will not much longer tolerate the unemployment’ associated ‘with present-day capitalistic individualism’.278
Keynes acreditava que, da mesma forma, que os Estados protegiam-se do livre mercado, a cooperação internacional demandava políticas econômicas para promover o progresso nos assuntos internacionais, e, de forma análoga, as políticas internas precisavam estar direcionadas para o pleno emprego. Pode-se deduzir desses dois trabalhos de Keynes, que um mercado internacional desregulado e incapaz de gerar prosperidade em países menos desenvolvidos ou empobrecidos traz consequências para os demais, principalmente pela instabilidade política e social que provocam. Por isso, uma ordem internacional que pretenda ser pacífica precisaria conduzir a sua economia e as desigualdades acentuadas para um estado mais equilibrado, com políticas que facilitassem a possibilidade desses países alcançarem patamares aceitáveis de desenvolvimento econômico e social, através do aprimoramento e da valorização de suas indústrias e de seus produtos.