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A política de desenvolvimento de um processo de integração visa a dar as condições de sustentação em longo prazo para os diversos países. Nesse caso, não se trata de tão- somente uma distribuição de recursos, mas é essencial um planejamento coordenado entre os atores e as instituições para que os efeitos positivos façam-se sentir. Por isso, não são essencialmente as políticas de curto prazo que são priorizadas, de modo que as de curto prazo e emergenciais devem estar combinadas com as de longo prazo. Não se defende, portanto, apenas as transferências diretas para as regiões menos desenvolvidas, mas a construção de oportunidades para a própria rentabilidade local. Nesse aspecto, tem-se presente a ideia de que se não for resolvido o problema do desenvolvimento em um sistema capitalista que tende a concentrar altas quantias de recursos em poucos locais, a autonomia dos Estados estará comprometida.

O desenvolvimento não se refere somente aos aspectos tecnológicos e de conhecimento, mas também à questão organizacional das atividades que poderão proporcionar condições sociais mais aceitáveis. Joseph Schumpeter já expressava os fatores organizacionais

106 como fundamentais para o desenvolvimento.265 Este aspecto também é relevante para um integracionismo. As questões organizacionais devem ocupar, de fato, um destaque proeminente para o sucesso de uma cooperação entre países, para melhor coordenar a aplicação dos recursos na busca por medidas corretas para o desenvolvimento econômico e social, e na melhor utilização das características das regiões. O processo visa a coordenar os planos de ações e ordenar as informações e conhecimentos pertinentes parece tão significativo quanto o aporte de recursos necessários.

Os avanços nos processos institucionais e nas ações que proporcionam investimentos podem ter resultados tão satisfatórios quanto às evoluções tecnológicas e científicas. Regiões menos desenvolvidas precisam, fundamentalmente, desse tipo de avanços organizacionais para a utilização mais apropriada dos recursos que são disponibilizados. Como explica Galvão: “isso sinalizaria que as tarefas prioritárias de desenvolvimento ainda devem recair fundamentalmente sobre a constituição de meios físicos e humanos sobre o estímulo à constituição das instituições necessárias à implantação de uma agenda de desenvolvimento”.266 Portanto, políticas que propiciam uma condição organizacional eficiente e equitativa devem ter prioridade em um processo integrativo.

No aspecto organizacional, é importante ressaltar o papel do conhecimento, que pode delimitar os alcances de sucesso dos programas a serem executados. As estruturas organizacionais de Estados menos desenvolvidos precisam estar em sintonia com os conhecimentos em nível regional e internacional para não retardar o ritmo de seu desenvolvimento. Para Stiglitz, é o conhecimento “de como organizarmos empresas, como organizarmos sociedades, como vivermos vidas mais saudáveis e de maneiras que sustentem o meio ambiente”, e não somente o conhecimento patenteável. 267 Para isso, a coordenação de políticas para um desenvolvimento econômico e social precisa de um compartilhamento de práticas e pesquisas que deve ser facilitado pelas instituições internacionais para o desenvolvimento:

O conhecimento aumenta a produtividade do capital. O relatório recente do nosso departamento de pesquisa sobre a Avaliação da ajuda (Assessing Aid) mostra que a ajuda causa um impacto substancial no crescimento econômico em países que põem em prática boas políticas, enquanto tem efeito ínfimo nos países que não o fazem.

265 SCHUMPETER, Joseph. A. A Teoria do Desenvolvimento Econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1982. pp. 48-

49.

266 GALVÃO, Antônio Carlos Filgueira. Política de Desenvolvimento Regional e Inovação. Lições da experiência

Europeia. Rio de Janeiro: Garamond, 2004. p. 243.

267

STIGLITZ, Joseph E. O Conhecimento como um Bem Público Global. In: Bens Públicos Globais. Cooperação Internacional no Século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2012. p. 363.

107 Saber se boas políticas estão sendo praticadas nos países em desenvolvimento e adaptar os programas de empréstimos do Banco Mundial para refletirem essas realidades são portanto um elemento importante de um programa de empréstimos bem-sucedido.268

O papel da inovação também deve ser destacado. A inovação é a característica principal da evolução do desenvolvimento, ou em outras palavras, é o motor do desenvolvimento. Ela promove a substituição de estruturas e tecnologias e favorece mudanças em toda a sociedade. Sendo assim, o processo inovador envolve riscos, investimentos, perdas e, às vezes, grandes ganhos. Com isso, faz-se necessário que a inovação esteja presente como um dos objetivos da integração política e econômica, como fator de dinamização da renda e da renovação de estruturas institucionais e organizacionais ultrapassadas. A inovação faz-se ainda mais necessária em países menos desenvolvidos, na busca por soluções locais criativas e mais efetivas em relação aos problemas que se apresentam.

Na visão que privilegia a capacidade de inovação – em especial de base tecnológica – como peça-chave na geração de transformações, a gravidade do quadro dos desníveis regionais compromete mais do que se imagina o desenvolvimento das regiões, diluindo o efeito dos esforços realizados. Essa fragilidade implica maiores vazamentos de renda, que reduzem o efeito multiplicador dos investimentos e diminuem as chances de uma superação da condição de subdesenvolvimento absoluto ou relativo.269

Os processos inovadores, porém, para países menos desenvolvidos, devem ter respaldos de instituições regionais e internacionais, que facilitem o acesso ao conhecimento e informações para que as mudanças possam efetivar-se. Os incentivos à inovação são importantes, na medida em que a falta de inovação para o desenvolvimento pode ser um dos fatores de desigualdades que refletem no nível de vida social dos indivíduos. A União Europeia, por exemplo, tem como um de seus objetivos a inovação, não somente tecnológica, mas organizacional, como aspecto propulsor do desenvolvimento. Essa ideia de defesa da inovação é reforçada pela constatação de que ganhos volumosos com a inovação por empresas multinacionais são revertidos para os países de origem dessas empresas. Processos de inovação são promovidos para alavancar os ganhos econômicos e os resultados sociais270, conforme explana Galvão:

268 Idem, Ibidem, p. 364. 269

GALVÃO, Antônio Carlos Filgueira. Op. cit. p. 197.

108 A estratégia em vigor de constituição de uma Área Europeia de Pesquisa – com a intensificação do intercâmbio de pesquisadores, o deslanchar de espaços da pesquisa cooperativada, o estímulo à estruturação de projetos integrados, e assim por diante – resultou da preocupação manifesta de que o objetivo global estabelecido em Lisboa, de deslanche de um processo de transição em direção a uma economia baseada em conhecimento, fosse prejudicado pelas desigualdades existentes na UE.271

Para os processos de inovação, não são, essencialmente, condicionantes as características próprias de uma região, mas o grau de adequação que se processa para que as políticas tomem efeitos em diferentes regiões. Nesse sentido, as experiências da UE mostram que não existe uma deficiência cultural ou “genética” para que certos países venham a fracassar no desenvolvimento. Não é encontrado, portanto, “uma espécie de determinismo geográfico, como tantos que se proliferaram no passado das ciências sociais”.272