1. LITERATÜR ÖZETI ............................................................•...................... 1 O
2.1. Uludağ Göknan Hakkında Genel Bilgiler
2.1.3. Göknar Odununun Kullanım Yerleri
O depoimento do acusado serve como meio de prova tanto da acusação quanto da defesa. É por meio do depoimento que o juiz confirmará todos os dados pessoais do acusado/réu e fará questionamentos: como é a vida pessoal do réu, se já foi acusado anteriormente, se é verdadeira a acusação a ele imposta etc. É também a oportunidade na qual o acusado/réu terá de fazer sua autodefesa, pois poderá apresentar sua versão dos fatos, e, sobretudo, é o momento em que poderá formar a convicção do jurado – adesão do auditório.
Após confirmação de identidade do acusado/réu, a ele é lida a denúncia (já analisada anteriormente) e, em seguida, o juiz pede que A1 conte a sua versão dos fatos. O réu – que daqui por diante passa a ser denominado orador –, por meio de seu depoimento/discurso, começa a construção de seu ethos para o auditório.
O orador faz uso do argumento quase lógico de incompatibilidade, ou seja, ele tenta demonstrar o caráter de bom pai e que age conforme os indivíduos em uma sociedade, o que o impossibilitaria de praticar o ato criminoso ao qual é acusado.
Vejamos como o orador utiliza-se do argumento quase lógico de incompatibilidade para a construção de seu ethos:
(...), então tinha que carregar os três e mais as coisas do porta-malas, as compras, fralda..., coisas de criança: mala, fralda, leite e as coisas que tínhamos comprado no supermercado. Eu subi para o apartamento, a A2 ficou no carro com o C e o P (filhos do casal), e eu subi com a V, eu cheguei na porta do apartamento, abri a porta, entrei
no apartamento, fechei a porta – e a V no colo – entrei no
apartamento, acendi a luz do corredor, coloquei a V na cama, que ela estava dormindo, puxei o edredom em cima dela, puxei o sapatinho dela, coloquei no chão, cobri a V, acendi o abajur dela porque ela não gostava de ficar no escuro, e em seguida fui para o quarto dos meninos, dos meus dois filhos. Eu entrei, tirei os brinquedos que estavam em cima da cama, normalmente fica, deixei a cama arrumada para a gente colocar eles quando subisse, saí do apartamento, abri a porta, fechei a porta e desci.
O orador menciona uma rotina presente no cotidiano dos pais que têm filhos, uma regra quase que habitual: vão ao mercado comprar leite, fraldas e tudo o que é necessário para o provimento da família; quando chegam em casa, precisam carregar as compras e as crianças, que geralmente dormem
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quando estão no carro em movimento. Podemos verificar ainda que o orador se utiliza da paixão aristotélica denominada “confiança” quando tenta demonstrar seu caráter de bom pai, o que o excluiria de ter praticado o crime, e, ao descrever com detalhes tudo o que aconteceu anteriormente ao crime, mostra- se um verdadeiro orador, um artista, no sentido de buscar todos os argumentos mais eficazes (REBOUL, 2004:XVI).
(...) coloquei a V na cama, que ela estava dormindo, puxei o edredom em cima dela, puxei o sapatinho dela, coloquei no chão, cobri a V, acendi o abajur dela porque ela não gostava de ficar no escuro, e em seguida fui para o quarto dos meninos, dos meus dois filhos. Eu entrei, tirei os brinquedos que estavam em cima da cama, normalmente fica, deixei a cama arrumada (...)
Ainda no intuito de conseguir a adesão do auditório, em vários momentos de seu discurso, o orador tenta passar do papel de réu para o papel de vítima e provoca nesse auditório a paixão denominada por Aristóteles como “compaixão”:
Nessa hora eu entrei em choque, até comecei a gritar dentro do apartamento, acordei o P e o C, e quando eu vi toda aquela cena eu já falei para a minha esposa: “liga para o meu pai, para o seu pai”, e enquanto ela foi ligando eu apertei o botão do elevador e quando o elevador veio nós descemos junto com as crianças.
(...) a médica permitiu que eu entrasse no local, ela estava com a blusinha meio aberta, sem a camisetinha, eu olhava ela na maca, não acreditava que ela tinha falecido, nós passamos um dia tão bom, brincamos o dia todo, brincamos na piscina, andamos de moto, se divertimos, foi toda aquela situação, passamos um ótimo dia na piscina e ela ensinando meu filho a mergulhar e tudo, e agora eu vejo ela ali falecida, aquilo tudo... Eu perdi completamente a noção do que estava acontecendo ali.
E, para conseguir firmar definitivamente a adesão do auditório, o orador se vale da paixão descrita por Aristóteles, como compaixão (2003):
(...) eu fui socorrer a V. Quando eu cheguei lá, a V estava daquele jeito no chão, com o coraçãozinho batendo acelerado, a primeira coisa que eu fiz foi escutar o coraçãozinho dela, para ver se estava batendo, eu tentei falar com ela, eu falei pra ela: “filha, calma, calma”, eu comecei a gritar pedindo socorro, pedindo resgate (...)
(...) “eu gostaria de pegar a V para resgatar”, e ele falou “não mexe”, eu falei: “eu não sei, eu tenho que levar ela para o hospital, ela não pode ficar desse jeito” (...)
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Para que uma imagem negativa seja desconstruída, repetidos atos positivos podem levar a uma nova construção da imagem do sujeito, e, por meio da escolha lexical, o orador tenta persuadir o auditório no intuito de demonstrar um ethos bom e sensível, diferentemente do ethos apresentado pelo MP na denúncia: “coloquei a V na cama”, “puxei o sapatinho dela”, “acendi
o abajur”, “deixei a cama arrumada”, “entrei em choque”, “comecei a gritar”, “fui
socorrer”, “escutar o coraçãozinho”, “filha calma, calma”, “desesperado gritando
socorro”, “chamando a ambulância”, “eu gostaria de pegar a V para resgatar”, “tenho que levar ela para o hospital”, “ela não pode ficar desse jeito”.
Faz uso, mais uma vez, por meio da escolha lexical, de outra técnica argumentativa, que é a utilização das figuras, que são recursos de estilo e sempre são notadas em virtude dos objetivos do orador: movere (emoção suscitada), docere (conhecimento transmitido) e delectare (prazer oferecido) (FERREIRA, 2010).
Aquilo ali para mim foi o pior dia da minha vida, não sei nem como..., descrever esse dia. Ali eu perdi tudo o que mais..., tudo de mais valioso na minha vida estava ali.
Quando o orador diz: “foi pior dia da minha vida”, “eu perdi tudo o que
mais... tudo de mais valioso na minha vida estava ali”, ele se vale da figura de presença “repetição”. Em todo o momento o orador busca mostrar que o bem mais precioso que ele possuía em sua vida era a filha e tenta persuadir o auditório para que ele – auditório – não esqueça que a filha era o bem mais valioso que ele tinha, e assim não seria concebível a ideia de ele dispor desse bem. Tenta o orador despertar o sentimento de presença. Segundo Ferreira (2010:23) “Figuras de presença: despertam o sentimento de presença do objeto do discurso na mente do auditório.”
Podemos perceber que o orador se vale do jogo de palavras, por meio da repetição lexical, para refutar o ethos a ele impingido na denúncia no intuito de trocar de papel e passar de acusado para vítima. Repete que brigou pela vida da menina e utiliza-se, ainda, de outra figura de presença, denominada “sinonímia”: “discussão” e “lutei”. Com a inversão de papéis, ele tenta persuadir o auditório por meio da emoção, no sentido de que ele, sim, era vítima, ou seja, ele é bom.
57 eu olhando a V, eu passei o dia todo com ela, eu olho ela daquele jeito, eu perdi completamente tudo ali, estava indo embora a minha vida ali. Antes de a V nascer eu briguei por ela, para ela nascer, foi uma briga grande que eu tive com a avó materna dela, que ela queria que a mãe de minha filha tirasse a V e houve uma briga muito grande, uma discussão entre nós, e a mãe de minha filha também não aceitava essa imposição da própria mãe e ela acabou até escondendo a gravidez até aproximadamente quatro meses de idade. Então começou a passar um monte de coisas na minha cabeça, eu falava: “o que está acontecendo aqui, meu Deus”, e houve todo aquele negócio, eu falei: “é a minha princesinha que estava ali, ela é tudo na minha vida”, e eu comecei a falar com meu pai: “pai, eu perdi tudo que eu tinha de mais valioso”, eu lutei por ela desde o começo, desde que a mãe de minha filha ficou grávida. (grifo nosso)
É chegado o momento em que o MP começa a se valer das estratégias retóricas que visam à adesão do auditório, e a primeira estratégia utilizada pelo promotor de justiça foi o argumento “lugar da quantidade”, pois “Números são sempre persuasivos”(FERREIRA, 2010:71).
MP: Tem relatos do senhor e de sua esposa e nos interrogatórios do que continha exatamente no seu apartamento. O que havia nesse apartamento da família, na residência da família, no Edifício L? D: O senhor relata qual apartamento? Nós tínhamos dois no L. MP: Eu disse no apartamento onde o senhor e sua família residiam, o senhor chegou a residir no apartamento ?
D: Não.
MP: Havia televisão lá de dez mil reais lá, é verdade isso?
D: Doutor, eu não estava com minha esposa no depoimento dela, não posso precisar o que ela falou.
MP: Quanto valia a televisão que havia no apartamento de vocês? D: Não sei.
(...)
MP: Fls. 1.774 e 1.775, (lido em parte o interrogatório). Na página seguinte há uma pergunta minha, ela falou em relógios e objetos. O Dr. M., perguntou de correntes, se tinha mais coisas além disso; resposta da corré: “tinham várias correntes, o A1 gosta de correntes de ouro”. (grifo nosso)
Ao mesmo tempo em que o MP utiliza-se do lugar da quantidade, tenta conseguir a adesão do auditório ao mostrar o ethos do réu/acusado e, para tanto, vale-se do argumento pragmático, que é baseado na estrutura do real, ou seja, como ele poderia ser um bom pai se pagava à vítima um valor de pensão alimentícia tão ínfimo, que mal dava para a sua sobrevivência, além de
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não arcar com o valor integral, tendo de ser ajudado pelo avô paterno da vítima? Preferia o pai comprar uma televisão de dez mil reais a contribuir com a subsistência da filha ou ainda ter dois carros na garagem, como mencionado um pouco mais adiante no discurso da promotoria. Propõe o MP um vínculo causal entre ser um bom pai e dar condições de sobrevivência ao filho e inspira, dessa forma, a credibilidade de seu discurso. O argumento pragmático inspira credibilidade porque é bastante verossímil (FERREIRA, 2010).
MP: Quanto o senhor pagava de pensão para a V mesmo? D: Senhor?
MP: Quanto o senhor pagava de pensão para a V? D: R$ 300,00
MP: O senhor pagava ou o seu pai pagava? D: Eu pagava.
MP: Como era dividido? Existe informação de que “eram R$ 315,00, o pai do senhor pagava R$ 180,00 num convênio médico e o senhor complementava, entregando à A.O. R$ 135,00”, palavras dela que estão no processo.
(...)
MP: Quantos carros o senhor tinha naquele apartamento? D: Eu estava com dois carros no apartamento.
MP: O senhor que comprou? D: Não, os carros não são meus.
MP: O apartamento também não era do senhor? D: Era meu.
MP: Estava em seu nome? D: Não.
A partir desse ponto começa então o MP a construir o ethos do acusado. Notório que um pai responsável trabalha pela sobrevivência de seu filho e arca com a mantença sozinho, sem necessitar de ajuda de terceiros.
MP: Tem informações no processo que esse quarto da V foi montado por sua mãe para ela, não pelo senhor.
D: Foi tudo ao gosto dela, as coisas que tem no quarto até hoje, foi montado segundo ela escolheu.
MP: O senhor não respondeu, o quarto foi montado pelo senhor ou por sua mãe, avó de V?
D: Por nós todos juntos, nós, como família, sempre estivemos juntos e ela foi escolher a cor dos vidros do armário dela que foi lilás, o lustre que era rosa, foi tudo escolhido por ela, o baú que ela queria da
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Hello Kitty, foi tudo do jeito que ela queria, foi montado exatamente do jeito que ela queria.
O MP tenta conseguir a adesão do auditório ao mostrar que o acusado possui um caráter mentiroso. É mais uma construção do ethos de A1 pelo promotor de justiça. A escolha lexical: “todas as pessoas chegaram com essa
mesma história” se contrapõe ao ethos bom e sensível, demonstrado por A1 no início de seu depoimento:
MP: Tem dois depoimentos no início do processo, no início do inquérito policial, foram lidos os depoimentos das duas pessoas que depuseram no processo e foi dessa forma que a ocorrência foi transmitida para o Copom, todas as testemunhas chegaram com
essa mesma história, fls. 12 e fls. 16. Depoimento da testemunha A.
L.: “A1 apareceu lá embaixo, próximo as crianças, perguntou da
sacada ao A1 o que havia acontecido e ele respondeu que havia um ladrão lá em cima, que arrombou a porta do apartamento, rasgou a tela de proteção e jogou a sua filha lá em baixo”.
Depoimento de W: “A1 apareceu dizendo que haviam arrombado
seu apartamento, cortado a tela e jogado a sua filha do sexto andar”. Temos a informação que chegou ao Copom e, não existe um
policial que chegou lá dizendo isso, existem trinta e sete policiais dizendo a mesma coisa, essa mesma informação que foi passada por ele, o réu, a essas pessoas.
J: Qual a pergunta então, doutor?
MP: Ele disse que não falou em arrombamento, todos eles
inventaram isso?
J: O senhor tem conhecimento de que essas informações foram passadas por várias testemunhas?
D: Em momento algum eu falei em arrombamento. (...) (grifo nosso)
Essa mesma escolha lexical é também a estratégia retórica lugar da quantidade, já apresentada anteriormente pelo MP, quando faz uso das seguintes escolhas lexicais “todas as testemunhas chegaram com essa mesma
história” e “existem trinta e sete policiais dizendo a mesma coisa” para demonstrar o caráter mentiroso do réu/acusado.
E, por fim, utiliza-se da ironia para provar seu argumento de que o réu é inescrupuloso, mentiroso e sagaz. Enfim, não era, o réu/acusado, um bom pai, como pretende demonstrar no início de seu depoimento e que poderia, sim, ter cometido o crime sem o menor pudor.
MP: E já vou finalizar, Excelência, o réu, ele apareceu hoje com óculos. Ele teve algum problema nesses dois anos, problemas de visão?
60 MP: Eu nunca vi.
D: É que o senhor não acompanha a minha vida. J: O senhor tem problemas nos olhos?
D: Eu tenho sim. J: Miopia, estrabismo?
D: De enxergar de longe, eu não consigo muito, e os meus olhos andam muito irritados.
MP: A ponto de não saírem lágrimas quando o senhor chora? J: Doutor, indeferida a pergunta.
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