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3.3. KARA AVRUPA ÜLKELERİNDE OMBUDSMAN KURUMU

3.3.2. Fransa Ombudsmanı

A história do estudo do grafismo infantil é recente. Registros de desenhos feitos por crianças da pré-história, da época clássica e do Renascimento são praticamente inexistentes. Antes da era moderna, poucas pessoas se interessavam ou conservavam os desenhos infantis. Apenas com o desenvolvimento das disciplinas científicas o desenho se torna objeto de interesse por parte de psicólogos, educadores, artistas, psiquiatras, sociólogos e etnólogos, que definem suas funções, qualidades e possíveis usos. A seguir apresento uma composição dos principais elementos destacados por autores que se dedicaram, de forma mais ou menos crítica, a contar a história do estudo do desenho infantil (Bossche, 2006; Cox, 2000; Derdyk, 2003; Gardner, 1980; Greig, 2004; Méridieu, 2003; Vigotsky, 1930/2006; Wallon, 2001).

Os primeiros registros do desenho humano datam de trinta mil anos e acompanham a evolução cultural de nossa espécie (Coppens, 1983; Nougier, 1993). Tudo nos leva a crer que as crianças também desenhavam, em suportes não perenes como a areia, o corpo ou outras matérias naturais. A conservação e valorização destas obras é que é recente, e decorre do interesse moderno pela criança e por suas produções. Gardner (1980) aponta três tendências que agem como causa da pouca valorização artística do desenho infantil no passado recente. A primeira vê o desenho como simples reflexo do estado afetivo da criança, e de manifestação de inquietações inconscientes. A segunda tendência, de ênfase cognitiva, vê no desenho apenas uma necessidade

compulsiva da criança em mostrar o que conhece, e o utiliza como instrumento de medida de inteligência. A terceira tendência, formada pelos entusiastas do desenho infantil, considera as produções das crianças como índices de fenômenos mais gerais da vida, “expressão da nossa busca em ordenar o universo complexo, exemplos de comunicação, indícios do tipo de sociedade em que se vive, lembranças de nossa vitalidade e de nossa inocência perdida” (p. 25).

Sob o olhar científico, o grafismo se revela uma oportunidade ímpar para compreender a peculiaridade infantil em sua essência e funcionamento. Desde o início do século passado, o desenho é interpretado como modo expressivo próprio da criança. Enquanto alguns educadores recomendam mínima intervenção adulta no desenhar da criança, com a finalidade de garantir o desenvolvimento natural de suas potencialidades, outros, ao contrário, destacam a plasticidade da infância como oportunidade a ser explorada no ensino diretivo das técnicas do desenho. Além do interesse científico, outros fatores modernos, como a diminuição do custo do papel e do lápis e a mobilização social e familiar para a educação das crianças, contribuem para a importância cada vez maior atribuída ao desenhar infantil.

Os estudos iniciais atendem a uma orientação descritiva e comparativa, efetuada a partir de análise estilística e iconográfica. Este olhar sobre o desenho infantil estabelece relação entre os processos de produção artística, de evolução humana e de desenvolvimento psicogenético. Coincidindo com os primeiros estudos etnológicos da arte primitiva, esta orientação prepara o terreno para os testes psicométricos. Durante o primeiro quarto do século XX, a abordagem psicométrica é predominante e orienta o estudo do desenho como instrumento de avaliação do nível psicológico (ou QI). Em 1926, Goodenough formula o teste do personagem, no qual os elementos presentes no desenho são pontuados quantitativamente. Esta abordagem parte do princípio de que a

evolução do desenho acompanha o desenvolvimento cognitivo da criança, identificando o número crescente de detalhes gráficos com uma maior capacidade de conceitualização e representação (Gardner, 1980).

A partir dos anos pós-guerra se desenvolve uma abordagem projetiva de inspiração clínica e psicanalítica. Entre seus representantes podemos situar Machover/1949 e seu teste do personagem, no qual são destacados os aspectos iconográficos e morfológicos, além do simbolismo das diferentes partes do corpo e dos detalhes das vestimentas; Porot e Minkowska/1965 e Kos e Bierman/1977, com a análise da família desenhada; Koppitz/1968 que inicia uma combinação entre abordagem emocional e cognitiva; Aubin/1970 que busca, através da análise dos arquétipos, os elementos reveladores da personalidade da criança com auxílio da apreciação do contexto infantil e Royer/1977 que se dedica ao estudo da personalidade através do desenho (Gardner, 1980). Do estudo de casos individuais, a tendência projetiva alcança a análise de grupos, o que permite avançar na direção de uma compreensão mais ampliada do grafismo infantil.

Paralelamente, se configura uma abordagem cultural que se diferencia por destacar o papel da arte infantil na arte de qualquer cultura, e por nem sempre considerar adequada uma aproximação entre a arte primitiva e a arte infantil. Para a abordagem cultural, a criança se apega preferencialmente aos objetos tais como eles aparecem na vida concreta, praticando um simbolismo não convencional. Sua produção gráfica, ao contrário daquela do adulto, não é destinada a ser compreendida pelos outros e, por essa razão, é mais pessoal em seu conteúdo. É possível destacar alguns representantes como Ricci/1887, que inicia a análise iconográfica estilística e técnica; Levinstein/1905, pioneiro em destacar o caráter expressivo do desenho infantil; Durand/1963, com foco na interação entre mundo afetivo e mundo cultural; Rump e

Southgate/1967, Cameron/1971 e Lecouvet/1998,1999 com a análise da apreciação da arte pela criança; Barbichon/1975 e as representações das cidades; Smart e Smart/1975 e Cambier/1970 com estudos comparativos entre grupos e culturas; Verbist/1972 em um estudo da Unesco visando fomentar a compreensão internacional; Widlöcher/1977 e a apreciação das influências do contexto cultural; Knapp e Seagrim/1981 com a ideia de que as estratégias de codificação de elementos visuais ou verbais são presentes em todos os grupos e refletem diferenças individuais; Goodnow, Wilkins e Dawes/1986 e o estudo sobre as diferenças entre as obras espontâneas e aquelas solicitadas pelos adultos; Derdyk (2003) e a ênfase no processo criativo e expressivo e Bossche (2006) com sua abordagem integrativa intercultural.

Como vimos, as abordagens psicométricas, projetivas e culturais apresentam diferenças, mas, sobretudo, interfaces conceituais. A noção de evolução, subjacente ao interesse moderno pelo desenho infantil, conduz aproximações deste com as pinturas rupestres, a arte de culturas primitivas e a arte naïf3, todas marcadas pelo espontaneismo

e minimalismo de suas formas, cores e perspectivas. No desenvolvimento do grafismo encontramos a noção de etapas ou ciclos, que “cada criança normal, progredindo em seu próprio ritmo, parece passar por esta sequência” (Gardner, 1980, p.17). Em linhas gerais, e como veremos em detalhes mais adiante, na abordagem evolutiva predominante no estudo do grafismo infantil, a criança segue o seguinte percurso: inicialmente, expressa no desenho um ponto de vista particular, o seu próprio, para em seguida representar simultaneamente vários pontos de vista e, enfim, ser capaz de adotar um ponto de vista comum a todos e correspondente à realidade.

3

Arte naïf – ou arte primitiva moderna, praticada por artistas sem formação acadêmica tendo como características principais a organização desajeitada das formas e das perspectivas, uso de cores primitivas, e marcada pela simplicidade.