Com a primeira situação experimental, procurámos colocar em confronto condicionamentos/comportamentos, procurando verificar se existem razões que nos levem
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______________________________________________________________________________________________ 96 a crer que os alunos se encontram condicionados pelas aprendizagens anteriormente efectuadas. Se mesmo em condições distintas, ou seja noutro contexto, continuam a dar o mesmo tipo de respostas.
PROBLEMA: as regras das actividades desportivas vivenciadas pelos alunos de Educação Física condicionam as respostas que são dadas em situações idênticas, mesmo fora do âmbito de aplicação destas regras.
HIPÓTESES:
H1: Os alunos lançam as bolas segundo as regras das modalidades. H2: Os alunos lançam as bolas de qualquer maneira.
H3: Os alunos lançam as bolas segundo um determinado critério.
SITUAÇÃO EXPERIMENTAL: Aluno entra sozinho numa sala onde colocámos de um dos lados 1 bola de voleibol, 1 de futebol, 1 de basquetebol, 1 de ténis em cima de uma raquete de ténis e 1 de rugby, segundo esta ordem.
Dizemos ao aluno ― tu já tiveste aulas de educação física, atira aquelas bolas para o outro lado da sala‖.
REGISTO DE DADOS COLHIDOS: é feito através do preenchimento de uma ficha quando muda o aluno que faz o teste. Nesta ficha constam os dados de caracterização - o nome aluno, data nascimento, aulas do X ano, se lança ou não (de qualquer maneira) todas as bolas segundo as regras, se realiza a situação experimental com prontidão, se lança as bolas segundo um determinado critério e um espaço para observações (fez alguma pergunta, justificou a forma de lançar quando lhe foi pedido).
MATERIAL NECESSÁRIO: ficha de registo, bola de voleibol, bola de futebol, bola de basquetebol, bola de ténis, bola de rugby, raquete de ténis.
AMOSTRA E CONDIÇÕES DE REALIZAÇÃO: Realizámos a situação experimental com duas turmas de quarto ano e uma de terceiro, num total de 45 crianças, onde os alunos têm entre 8 e 11 anos. Este foi aplicado durante a parte da tarde, no campo desportivo de uma escola dum concelho rural.
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______________________________________________________________________________________________ 97 Os dados devem ser tão objectivos quanto possível. É de evitar especular sobre situações não observadas directamente (adaptabilidade, etc.) Estas situações experimentais só permitem tirar ilações sobre o que lá é verificado. Temos, portanto, resultados da situação experimental e depois debatemos esses resultados e construímos novas conjecturas ou consolidamos as existentes.
A consolidação, tal como é referida pelos diversos autores, não é uma demonstração de verdade, mas a afirmação de que naquelas condições ainda não foi falsificada.
A situação experimental é uma situação real isolada onde se observam dados que são tratados, e que se destina a permitir analisar se as conjecturas definidas são ou não falsificadas àquele nível.
As bolas foram colocadas lado a lado, pela seguinte ordem, voleibol, futebol, basquetebol, ténis em cima da raquete e rugby, todas com a mesma distância entre si.
APRESENTAÇÃO / ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS:
Com esta situação experimental, procurámos saber se as regras das actividades desportivas vivenciadas pelos alunos de Educação Física condicionam as respostas que são dadas em problemas idênticos, mesmo fora dos âmbitos de aplicação destas regras.
Quadro 3 - Síntese dos dados da situação experimental 1, Frequências absolutas e relativas.
Lança as bolas segundo as regras das modalidades Total
Sim Não
34 (75,6%) 11 (24,4%) 45 (100%)
Critério (regras) Critério * Sem critério
34 (75,6%) 7 (15,5%) 4 (8,9%)
Nota: * Tentar chegar o mais longe possível; gosta da modalidade e conhece as regras, mas lançou com a mão porque era mais fácil; lançou com a mão para chegar mais longe e não magoar ninguém.
Após a observação realizada, constatámos (Quadro 3) que a maioria dos alunos (75,6%) lançava as bolas segundo as regras das modalidades. Apenas onze (24,4%) em quarenta e cinco não o fizeram.
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______________________________________________________________________________________________ 98 Relativamente aos alunos que não lançaram as bolas, segundo o que seria de esperar, verificámos que um dos alunos passou a bola para o outro lado da sala com o pé e que começou por lançar a bola de futebol, embora não fosse a que se encontrava em primeiro lugar. Apenas a bola de rugby foi lançada com a mão e a de ténis com a raquete. Quando questionado sobre o porquê de ter lançado as bolas daquela forma, apenas se limitou a dizer que era mais rápido e que não tinha qualquer critério para o lançamento das mesmas. É de salientar que este aluno é um dos mais velhos da sala, um aluno repetente.
Outro aluno, logo após ter terminado de enviar as bolas e mesmo antes de lhe ser colocada qualquer questão disse, ―Ah não era assim‖.
Curiosamente os outros nove elementos que não lançaram as bolas segundo as regras, a maioria são do sexo feminino (apenas três do masculino), e todas lançaram as bolas com as mãos, com a excepção da bola de ténis que foi passada sempre com a raquete. Deste grupo apenas duas raparigas lançaram todas as bolas com pé.
Quando questionadas sobre o porquê de terem lançado desta maneira, uma respondeu que lançou assim porque conhecia as regras das modalidades, mas que tinha lançado a de futebol desta forma porque era mais fácil. Outra disse que tinha lançado assim porque se tivesse lá alguém não queria magoar e também porque chegaria mais longe, o mesmo argumento utilizado pela colega seguinte. Contudo esta última tem a particularidade de lançar as bolas todas da mesma forma (sempre por cima da cabeça). Todas elas demonstraram alguma hesitação antes de lançar a bola de futebol. Este indicador pode levar-nos a acreditar que lançaram sempre com a mão pois não se encontravam aptas a lançar com os pés; contudo para refutar esta hipótese teríamos de juntar a esta situação experimental mais indicadores que nos permitissem tirar essa ilação.
Outro aspecto verificado foi o facto de estes alunos, terem sido os que demoraram mais tempo a realizar a tarefa. O que pode ser indicador de que os alunos por não se encontrarem ―formatados‖ levaram mais tempo a decidir o que fazer com as bolas, ou por outro lado pode ter sido apenas por mero desconhecimento das modalidades em causa.
Em relação a este grupo de alunos, constatámos que o seu objectivo era serem mais rápidos e eficazes, não se preocupando com o que tinham aprendido anteriormente sobre estas
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______________________________________________________________________________________________ 99 matérias. Por outro lado, os alunos podem ter tido a capacidade de se adaptarem àquela situação, e terem melhor forma de resolver aquele problema, naquele determinado momento. Estes acharam que lançando todas as bolas com a mão, seria mais rápido e eficaz; a rolar pelo chão (para não criar qualquer ―reboliço‖) levava mais tempo a chegar ao objectivo, considerámos assim que tentaram adequar-se à situação específica de forma criativa.
Pareceu-nos que os alunos até saberiam exactamente para que servem cada uma das bolas, mas pelo facto de estarem num cenário diferente do habitual, tentaram adaptar-se preocupando-se apenas com o que tinha sido solicitado. Através da observação não se pode considerar que só conseguem reagir em contextos estáveis, onde estão habituados a intervir, dentro dos parâmetros e limites que conhecem e acham que dominam. Mas para ter mais ―certezas‖ deste facto teríamos de realizar outras situações experimentais, juntando outros indicadores e avaliando outras condicionantes.
Agora iremos debruçar-nos sobre os alunos que lançaram as bolas segundo as regras. Em relação a estes verificámos que no que se refere à bola de voleibol, uns passaram-na em toque de dedos, mas ainda ouve uma minoria que o fez em serviço (15,5%). Quanto à de futebol, realizaram em passe ou remate, no que se refere à de basquetebol a maioria realizou passe picado e passe de peito; contudo existiram oito alunos (17,8%) que driblaram até ao fundo da sala e só depois pousaram a bola. Quanto à bola de ténis todos a passaram com a raquete sem qualquer excepção; a bola de rugby foi passada com a mão, em lançamento ou em passe.
Outro aspecto identificado, foi que um dos alunos lançou a bola de rugby a rolar pelo chão, e outra aluna ao lançar a bola de ténis, jogou-a ao chão e só depois a passou.
Ao questionarmos estes alunos sobre o porquê de terem lançado assim, a maioria respondeu logo ―porque são as regras‖, outros identificaram as modalidades que correspondiam a cada bola, outros simplesmente disseram ―é a forma de a mandar‖, outro facto de salientar é o de terem respondido ―a professora ensinou assim‖, ou pura e simplesmente ―aprendi assim‖. Apenas um destes alunos disse que era por ser mais rápido e porque lhe tida apetecido, e outro ainda disse que não sabia o porquê, mas que era assim.
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______________________________________________________________________________________________ 100 Estas respostas, podem indiciar-nos que os alunos se encontram condicionados pelo que conhecem, não se questionando o porquê de ser assim, se é mais eficaz ou não, buscam apenas reproduzir o que lhes foi ensinado. Contudo se nas aulas passarmos o tempo a transmitir que só o resultado final é que interessa, condicionamo-los e não podemos esperar à partida que reajam de outra forma. Este é apenas um indicador, obtivemos estas respostas nestas condições específicas, contudo se lhe tivéssemos juntado outras condicionantes, as tendências poderiam ter sido outras.
Um dos alunos antes de começar a situação experimental questionou se lançava com as mãos ou com os pés, ao qual foi respondido que já tinha tido aulas de Educação Física, curioso é que quando questionado no final do porquê de ter lançado daquela forma ele disse ―porquê não é assim?‖. Este aluno foi um dos que realizou o drible até ao fim da sala e só depois pousou a bola. Verificámos também que antes de qualquer lançamento, olhou sempre para a bola e para o local onde ia lançar e posicionou-se em relação à mesma e só depois executou o gesto. Neste caso, por exemplo, se tivéssemos dado outro tipo de resposta, à partida também iríamos obter outro tipo de execução. Pelo simples facto de termos dito que já tinha tido aulas de Educação Física, já condicionámos a acção do mesmo. Se à sua questão tivéssemos respondido ―faz como quiseres‖, em princípio poderíamos ter outra solução para o mesmo problema.
Verificámos também que apesar de as bolas estarem colocadas segundo uma ordem (voleibol, futebol, basquetebol, raquete e bola de ténis, rugby), alguns alunos não realizaram a situação experimental sequencialmente, começando pela bola de futebol; estes quando questionados o porquê de terem lançado daquela forma, disseram que começaram pela de futebol porque era a que gostavam mais e conheciam melhor. Contudo temos a noção de que se as bolas fossem colocadas de outra forma, mais juntas, onde não existisse espaço para as lançar ou chutar sem ser de modo sequencialmente, poderíamos ter outros resultados.
De algum modo acabaram por se adaptar àquela situação específica, estes alunos não foram os que levaram menos tempo a executar a situação experimental, pois apesar de terem começado rapidamente depois demoraram mais tempo nas outras, muito possivelmente pelo facto de como disseram não terem tanto à vontade com as outras bolas e terem de reflectir melhor sobre o que fazer com elas.
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______________________________________________________________________________________________ 101 Com a observação realizada, não nos pareceu existirem comportamentos fora da tarefa, nem nenhum aluno se recusou a efectuar a situação experimental. Conseguimos verificar as estratégias que utilizavam e as suas capacidades organizativas, através das dinâmicas criadas.
Outro indicador pode ser o tempo despendido para realizar a tarefa, o facto de terem realizado a situação experimental com prontidão (em pouco tempo), demonstra alguma confiança por parte dos alunos, ou seja pelo facto de não demonstrarem hesitação leva-nos a crer que terão capacidade de darem respostas às questões solicitadas, embora sempre dentro das regras que já conhecem, o que não significa que se adaptem da melhor forma ao contexto, pois dão uma resposta eficaz, mas que nem sempre é a mais adequada à situação em causa.
A realização da situação experimental mais rápido ou mais devagar, pode ser condicionado por outras condicionantes, por exemplo eu posso realizar a tarefa com um tempo superior, por ter equacionado todas as variáveis do mesmo; se o condicionarmos e lhe dissermos exactamente como deve lançar qualquer bola, provavelmente teríamos um tempo inferior. Este indicador dá-nos algumas evidências, mas não pode ser visto de forma linear e definitiva.
Constatámos com esta situação experimental e nesta situação específica, que os alunos se encontram ―formatados‖ para o realizar segundo as regras específicas das modalidades e não tiveram a capacidade de se adaptarem a um contexto diferente; não foram criativos e autónomos. Mas esta era a reacção que esperávamos por parte dos mesmos, pois se durante anos são levados a realizar uma tarefa de determinada forma, não poderíamos esperar outra reacção. Isto leva-nos a crer que dentro destas condições não podemos refutar a nossa conjectura, ou seja, verificámos que as regras das actividades desportivas vivenciadas pelos alunos de Educação Física condicionam as respostas que são dadas em problemas idênticos, mesmo fora dos âmbitos de aplicação destas regras.
Procurámos que os dados fossem tão objectivos quanto possível, de modo a não fazermos especulações sobre situações não observadas directamente. Demonstrámos assim que nesta situação, com estas condições, a nossa afirmação não foi falsificada.
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______________________________________________________________________________________________ 102 Com esta situação experimental, procurámos gerar um problema cuja solução tivesse implícita a necessidade de solicitar comportamentos que conduzissem ao desenvolvimento das capacidades e das potencialidades, que mais eficientemente possam responder às necessidades de responder aos objectivos mediatos e imediatos previamente definidos como objectivos a visar, procurando assim solucionar ou ultrapassar os obstáculos e problemas enfrentados pelos alunos no seu dia-a-dia.
Em todas as situações experimentais, foram recolhidos dados tendo em consideração a faixa etária e o sexo, mas nem sempre foram tratados estes dados, porque tendo em conta custos e benefícios não se justificava. Contudo foram recolhidos dados que se vier a realizar-se um dia mais tarde um estudo longitudinal, poderão ser importantes para perceber a evolução dos alunos.
Quadro 4 - Síntese da análise estatística relativa ao lançamento das bolas segundo as regras das modalidades.
Hipótese Nula Teste Valor T Valor p Conclusão
A proporção de alunos que lançaram as bolas segundo as regras das modalidades é igual à proporção de alunos que não o fazem
Estatística de
Teste T 3,99 - A proporção de alunos que lançaram as bolas segundo as regras das modalidades não é idêntica à proporção de alunos que não o fazem
O facto de os alunos não lançarem as bolas segundo as regras das modalidades é
independente do facto de o fazerem ou não com critério Teste de Independência do Qui- Quadrado Exacto - 0,002 O facto de os alunos não lançarem as bolas segundo as regras das modalidades não é independente do facto de o fazerem ou não com critério
Através da análise estatística (Quadro 4), constatamos que, o valor de sig é superior a 1,645 (valor correspondente a sig 0,05), assim a probabilidade de termos uma proporção igual não se verifica. Este facto confirma-se através do desvio padrão que se encontra fora do limite esperado.
Com 95% de confiança, podemos afirmar que a probabilidade de os alunos lançarem as bolas segundo as regras não é de 0,5. Verificámos que 75,6% dos alunos lançavam segundo as regras.
Para a Falsificação da Conjectura – ou de alguns dos seus aspectos _________________________________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________________________ 103 Também verificámos que o desvio padrão da proporção fica fora do intervalo esperado, o que vem confirmar o que foi dito anteriormente.
Outro aspecto a referir, é o de os alunos não lançarem as bolas segundo as regras das modalidades não ser independente do facto de o fazerem ou não com critério (Quadro 4).
Em síntese os alunos que lançam as bolas segundo as regras das modalidades é significativamente superior aos que não o fazem (aceitamos H1). Quanto aos alunos que lançam as bolas de qualquer maneira não tem valor significativo (rejeitamos H2). Constatámos também que os alunos lançam as bolas segundo um determinado critério (aceitamos H3).