Nas relações cotidianas torna-se comum depararmo-nos com desafios e problemas práticos que exigem das pessoas decisões e julgamento imediato. Desta forma, os indivíduos defrontam-se historicamente com a necessidade de pautar o seu comportamento por uma escolha e aprovação de normas, que visam garantir a dignidade e a justiça para a ação tomada.
A ética é uma capacidade humana, cujas bases são alicerçadas pela práxis como uma atividade livre e consciente. No campo da ética os problemas são caracterizados pela sua generalidade, o que os diferenciam da praticidade dos problemas morais da vida cotidiana. Deste modo, num primeiro momento, observamos que a moral tem um caráter histórico que está inserido dentro de um conjunto de normas e regras destinado à regulação das relações das pessoas na sociedade e, portanto, possui na sua essência uma qualidade social referenciada em homens concretos, com um caráter social e que cumpre uma função determinada na sociedade.
A Ética é histórica porque reflete um modo de posicionamento de um ser social que tem por característica estar sempre fazendo, (re) fazendo e se autoproduzindo no plano da existência material, prática e espiritual.
O homem sendo reconhecidamente um ser de relações e de projetos, os seus valores morais adquirem sentido a partir do seu caráter sócio- cultural. A função social da moral consiste em regular as relações entre os homens para que os seus atos ou os de seu grupo social desenvolvam-se de forma vantajosa para o conjunto da sociedade.
concreto e real, no entanto, “[...] entre a liberdade e a norma existe a consciência do valor que dá à liberdade o caráter de algo concreto e humanamente objetivo” (Pereira, 1983:29).
Vásquez amplia a compreensão do fator social referendada pela moral, e permite-nos compreendê-la como:
“Um sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e social, sejam acatadas livre e conscientemente, por uma convicção íntima, e não de maneira mecânica, externa ou impessoal”. (Vasquez, 1989:69)
A construção do referencial social dos valores pode ser percebida a partir da constatação de que todo o comportamento moral é um fato humano, faz parte do cotidiano e tem um valor determinado para cada uma das suas ações, além de incluir a necessidade de escolha entre os vários atos possíveis e desejáveis. A premissa permite-nos inferir que um dos atos fundamentais da vida do homem é a criação de valores. “O homem, só o homem, é a fonte de valores. Porque é por ele que os valores passam pelo crivo do questionamento. O valor é uma criação do homem já que é o homem que atribui razoabilidade ou sentido aos mesmos” (Pereira, 1983:54).
As referências aos “valores” podem ser atribuídas a coisas ou objetos, quer sejam naturais ou produzidos pelo trabalho, como ao valor com respeito à conduta humana e, em especial, à conduta moral.
O termo “valor” deriva da economia. Marx faz uma análise do valor econômico e do momento quando este transcende para um significado social, humano e objetivo. Utiliza como exemplo a produção de mercadoria que tem a sua utilidade, por isso, satisfaz a uma necessidade humana determinada e possui um valor determinado para um sujeito. Por esta razão, podemos dizer que o valor de uso de um objeto ou mercadoria existe somente para o homem como ser social.
Quando os produtos têm um destino além do uso são transformados em mercadorias e passam a adquirir também um valor de troca, resultante das relações sociais fundadas na propriedade privada dos meios de produção e na exploração do trabalho humano.
O valor de uso proporciona ao objeto uma relação clara e direta com o homem e a satisfação das suas necessidades. O valor de troca impõe uma aparência e superficialidade como uma propriedade de “coisas” desvinculadas do homem como um ser social. No entanto, o valor de troca e o valor de uso são frutos objetivos das relações humanas, isto é, o “valor não é propriedade dos objetos em si, mas propriedade adquirida graças à sua relação com o homem como ser social. Mas, por sua vez, os objetos podem ter valor somente quando dotados realmente de certas propriedades objetivas” (Vásquez, 1989:121).
Os valores têm uma objetividade que somente existe em função de um sujeito que é o homem, que como um ser histórico, cria e (re) cria valores que são humanos. Esta objetividade, que se apresenta como humana e social, transcende os limites dos indivíduos ou do seu grupo social, mas não ultrapassa o âmbito do homem como ser histórico-social.
“Os valores, em suma, não existem em si e por si independentemente dos objetos reais – cujas propriedades objetivas se apresentam então como propriedades valiosas (isto é, humana, sociais) – nem tampouco independentemente da relação com o sujeito (o homem social)”. (Vásquez, 1989:127)
Constatamos que em cada época a realização da moral é inseparável de certas regras básicas de comportamento presentes na sociedade. O modo como o indivíduo age moralmente, seu modo de ser, de decidir e de agir, é algo que se inscreve como uma possibilidade do seu caráter.
O caráter de um indivíduo manifesta-se nas atitudes pessoais com respeito a uma realidade concreta. No entanto, ele forma-se sob a influência do meio social e da participação do indivíduo na vida social, tornando-o algo que pode ser adquirido, modificável e dinâmico.
O desenvolvimento da produção econômica delimita em cada época o nível do domínio do homem sobre a natureza. É através do trabalho que o homem desenvolve a sua capacidade criadora, por isso, ao mesmo tempo em que humaniza a natureza externa, o homem humaniza a si mesmo. Por ser uma atividade criadora é algo valoroso, pois responde a uma necessidade especificamente humana.
Com a transição para os tempos modernos, nasce uma economia com base na acumulação de riquezas e exploração do trabalho, onde o que se produz não está a serviço do homem.
O trabalhador não vê no seu trabalho uma atividade realmente sua, seus produtos deixam de ser uma expressão de sua força criadora e se colocam como objetos estranhos e incapazes de estabelecerem uma relação efetivamente humana, o trabalho é alienado. O trabalho perde “o seu conteúdo vital e criador, e propriamente humano” e atenua-se cada vez mais “a sua significação moral” (Vasquez, 1989:93).
Rios (1993:19) também se refere à presença dos valores na realidade social. Compreende o terreno da ética, como o espaço de aprofundamento da reflexão filosófica que se “define como reflexão crítica, sistemática sobre a presença dos valores na ação humana”. Estes valores não devem ser vistos como absolutos ou imutáveis, pois a história das sociedades remete-nos a uma constante mutação. “Numa mesma cultura constamos a mudança de valores no decorrer do tempo, assim como percebemos valores diferentes em diferentes culturas”.
Os valores são construídos socialmente e podemos dizer, então, que existe valoração na medida em que existe qualquer interferência do homem com a perspectiva de dar um significado à realidade que vivencia.
No centro das ações humanas em sociedade encontra-se o “dever” como seres sociais, o que “somos” está sempre ligado ao que “devemos ser”, que é um indicativo estabelecido pelas regras do coletivo de que fazemos parte (Cf. Rios, 1993:21). Cada indivíduo desempenha um papel dentro da sociedade, isto ocorre, em função da organização de seus membros na produção da vida material.
Organiza-se também de forma concreta o comportamento “desejável” para cada membro que participa deste processo.
Nesse contexto, cada sociedade, historicamente com uma dinâmica própria, intensifica a capacidade de construção e (re) construção do seu modo de ser, ou seja, de um conjunto de ethos, que irá conferir o caráter da organização social a qual pertence. Vásquez (1988:22) mostra-nos que o papel social tem o seu fundamento no ethos da sociedade, assim, “[...] o indivíduo trabalha e consome, participa e recebe: a universalidade do ethos se desdobra e particulariza em ethos econômicos, ethos políticos, ethos sociais propriamente ditos”.
Tanto a ética como a moral remete-nos a uma criação que é estritamente cultural, ou seja, onde “[...] o costume resulta no estabelecimento de um valor para a ação humana, que é criado, conferido pelos próprios homens, na sua relação com os outros” (Rios, 1993:21).
Uma relação importante e necessária da moral é com a política. Todas as atividades desenvolvidas na sociedade têm sempre um caráter político, dentre elas, verifica-se que existe aquela que tem por objetivo a organização do poder. Para Valls (1993:66), “todo o agir é político, inclusive e principalmente o agir ético”. Este poder apresenta-se como uma capacidade de influenciar, uma possibilidade de escolha e de definição entre alternativas de ação que venham a conferir significado para o homem. Isto é, o poder é um elemento constituinte do social.
Enquanto a moral regula as relações mútuas entre os indivíduos e grupos sociais, a política abrange as relações de grupos entre si, classes, povos, nações. Trata-se de uma forma de atividade prática, organizada e consciente desempenhada por indivíduos reais e concretos que defendem os interesses dos grupos sociais a que pertencem. A práxis política é uma das atividades que possibilita responder coletivamente aos conflitos sociais e àqueles da vida cotidiana. É uma atividade que supõe a interação entre os homens e objetiva uma transformação social.
Como práxis, a ação política permite aos indivíduos saírem de sua singularidade, elevando-se ao humano-genérico. “[...] a superação da singularidade mediante uma relação consciente com o humano-genérico é uma possibilidade posta tanto pela ética como pela política” (Barroco, 2001:50).
A reflexão ética é uma práxis que supõe a suspensão da cotidianidade, visa “[...] sistematizar a crítica da vida cotidiana, pressuposto para a organização da mesma para além das necessidades voltadas exclusivamente para o ‘eu’, ampliando as possibilidades de os indivíduos se realizarem como individualidades livres e conscientes” (Ibid, 55).
2.4 O compromisso da ética com os projetos individuais,