SEGENREICH (2001) analisa alguns dos múltiplos aspectos que envolvem a relação entre o ensino e a pesquisa na graduação. Em trabalho intitulado “Relação ensino de graduação e pesquisa: políticas públicas e realidade institucional”, essa autora utiliza o Banco de Dados Universitas/Br para analisar a temática “ensino de graduação e pesquisa” na produção acadêmica do período entre 1968 e 1995. Esse Banco de Dados resume e categoriza a produção sobre educação superior em periódicos, livros, teses e dissertações entre outros documentos científicos produzidos no Brasil naquele período delimitado.
Analisa, também, a literatura acadêmica produzida em torno do debate sobre à promulgação da Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN/ 96) em dezembro de 1996 e a produção que aborda as propostas de Diretrizes Curriculares para os cursos de ensino superior.
Em seu estudo, essa autora identifica e discute: a interpretação que diversos autores fazem da idéia de indissociabilidade entre ensino e pesquisa; a relação que estabelecem entre o ensino de graduação e a pesquisa; as concepções e modelos de pesquisa. Ao mesmo tempo, aborda a relação entre ensino e pesquisa vista da perspectiva das políticas públicas e das definições institucionais e, os modos em que aparece nos textos essa relação na realidade institucional.
A primeira constatação que tira da literatura é que embora presente em toda a trajetória da universidade brasileira, o debate sobre a relação ensino e pesquisa ganha força quando surge a preocupação com a melhoria da graduação; torna-se mais visível em meados da década de 80 na produção que avalia os resultados da Reforma Universitária de 68 e nos estudos e publicações das mais de 20 universidades que participaram de propostas de revisão dessa Reforma. Posteriormente, no fim da década
de 80, a relação entre ensino e pesquisa aparece nas polêmicas em torno da nova Lei de Diretrizes e Bases da educação Nacional de 1996.
Na literatura acadêmica produzida no período entre 1968 e 1995, que toma por base o balanço do conhecimento sobre Educação Superior efetuado para o Banco de Dados Universitas/Br, SEGENREICH (2001) aponta três tendências que englobam diversos pontos de vista e diferentes interpretações da relação entre ensino e pesquisa:
a) Na primeira tendência encontram-se autores que defendem a associação entre ensino e pesquisa com base em um princípio que define a natureza do ensino como intrinsecamente interligada à atividade de investigação. Em oposição, encontram-se autores que definem as atividades de ensino como de natureza diferente e oposta às de pesquisa e, portanto, não necessariamente há compatibilidade entre elas na prática. Segenreic h menciona autores que criticam essas duas posições extremas por considera-las esvaziadas de seu conteúdo histórico. Isto é, o que se depreende da análise histórica do debate sobre a associação entre ensino e pesquisa é que essa convivência varia em uma mesma sociedade, e ao longo do tempo, e depende freqüentemente de vontade política.
b) A segunda tendência, encontrada na produção científica de 68 a 95, reúne as interpretações que dependem da definição de pesquisa que cada autor utiliza. Se a definição de pesquisa está restrita à atividade no campo científico, outras atividades fora desse campo não são “pesquisa”. Se a definição do autor é de investigação em sentido amplo, ela pode, também, ser inerente às atividades de ensino e uma condição para a qualidade deste. Nesta última perspectiva, o ensino com pesquisa, no sentido pedagógico, incentiva nos
alunos atitudes científicas, produção de conhecimento e não apenas sua repetição e reprodução.
c) A terceira tendência engloba estudos que consideram o nível institucional em que se desenvolve a pesquisa. Para alguns autores, a atividade de investigação exercida individualmente pelo professor contribui para melhorar seu desempenho no ensino; assim, todos os professores deveriam, em princípio, realizar atividades de ensino e de pesquisa. Outros autores, entretanto, hesitam em assumir essa posição e consideram que as universidades, em nível institucional, desenvolvem atividades de pesquisa ao lado das de ensino; portanto, nem todos os professores envolver-se-iam nas duas atividades ao mesmo tempo ou com a mesma intensidade. Esta última visão materializar-se-ia, muitas vezes, na restrição da pesquisa aos programas de pós-graduação e do ensino à graduação; alguns autores ainda questionam a separação que existe nos próprios programas de pós-graduação em que a pesquisa se restringiria à elaboração de teses e dissertações e ensino é apenas ensino no sentido tradicional de transmissão de conhecimento!
Ainda nesta tendência, outra perspectiva, mais radical, localiza a relação entre ensino e pesquisa como característica do sistema de ensino superior nacional como um todo. Assim, diversificam-se os espaços de pesquisa – algumas universidades e institutos, por exemplo – e os espaços de ensino – faculdades, centros universitários, escolas, etc. Na atividade de ensino, caberia um mínimo de investigação com finalidade didática. As idéias de diversificação do sistema de ensino superior nacional encontram legitimação
e tradução nas políticas públicas para o ensino superior implantadas no final da década de 90.
As três tendências descritas acima abordam a relação entre ensino e pesquisa de modo geral na literatura científica do período entre 1968 e 1995. Em relação à materialização na graduação, especificamente, SEGENRECH (2001) identifica duas práticas mais comuns: a socialização para a pesquisa e a pesquisa como prática pedagógica.
A socialização para a pesquisa é considerada uma forma de levar alunos a entrar em contato com pesquisa científica. Inclui os programas de Iniciação Científica (IC) e de integração entre graduação e pós-graduação (PROIN), entre outros. Atinge apenas 5% dos alunos de graduação e envolve 20% dos professores. Embora esse tipo de programa implique em benefício para o desempenho acadêmico do aluno participante, volta-se para a formação de possíveis futuros pesquisadores o que leva alguns autores a questionar sua eficácia para a melhoria da qualidade do ensino de graduação.
Os autores que escrevem, no período entre 68 a 95, desde a perspectiva de pesquisa como prática pedagógica e de ensino com pesquisa são responsáveis pela produção de relatos de experiências concretamente desenvolvidas em sala de aula e pelas descrições e análises teóricas sobre esse tipo de propostas.
Encontram-se, por exemplo, relatos de seminários, de aulas práticas e experimentais, de uso de metodologia de pesquisa e de laboratórios. As análises teóricas versam sobre utilização com sentido didático de método científico, de metodologia experimental, de pesquisa-ação ou pesquisa aplicada e de desenvolvimento de atitudes de investigação, entre outros.
Uma indagação que SEGENREICH (2001) faz é: até que ponto as experiências relatadas conseguem realmente aliar ensino de graduação e pesquisa e promover mudanças qualitativas? O que a autora constata na produção examinada desse período é que as situações variam por área de conhecimento, em função da trajetória histórica de cada área e dentro do contexto de cada instituição e que, a visão de sociedade que o professor imprime no seu trabalho pedagógico também influencia: o professor pode, por exemplo, trabalhar desde uma perspectiva de construção ou de reprodução de conhecimento.
Após analisar a produção científica sobre educação superior produzida no período entre 1968 e 1995, a Segenreich passa a analisar a produção que focaliza o processo de tramitação da nova LDB (promulgada em dezembro de 1996), as políticas públicas de diversificação das estruturas organizacionais de ensino superior e as discussões sobre as Diretrizes Curriculares para os cursos de graduação no período entre 1996 e 1999.
A literatura científica que debate a tramitação e os projetos para a nova LDB, conforme percebe a autora, centra-se na diferença e nas conseqüências dos requisitos mínimos para constituição da universidade: a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão da Reforma Universitária de 1968 dá lugar à institucionalização da pesquisa pura e aplicada e à produção científica comprovada sem necessidade estabelecida de relação direta com o ensino.
A diversificação de instituições e as Diretrizes Curriculares são tema de alguns documentos que focalizam políticas públicas para o ensino superior. Neles, escreve-se sobre a relação entre ensino e pesquisa ao tratar da diferenciação entre universidades, centros universitários e institutos de educação superior entre outros. Cabe às universidades associar ensino e pesquisa enquanto que as outras modalidades de
instituição desenvolveriam algum tipo de investigação como prática dos alunos. A questão dependeria das políticas públicas de financiamento do ensino e da pesquisa:
O que se pode também depreender do discurso oficial é que não se pretende investir (com recursos) no sentido de transformar uma boa parte das atuais universidades, inclusive públicas, em “universidades de pesquisa”, mas consolidar critérios diferenciados de distribuição de recursos que já vêm sendo implantados há anos (bolsas de pós-graduação e recursos para pesquisa, por exemplo).
(...) distinção entre tipos de instituição – Universidades, Centros Universitários, Faculdades Integradas ou Escolas isoladas - é parte da política do MEC, no sentido de diversificar o sistema de ensino superior brasileiro.
Esta política admite que instituições que associam ensino e pesquisa constituem um segmento importante do sistema, mas não podem ser consideradas nem como modelo nem como paradigma das demais instituições de ensino (...). (SEGENREICH, 2001, p. 203-4)
Salienta ainda, a discrepância presente nas políticas direcionadas à área de formação de professores para a educação infantil e o ensino fundamental. Ali, as propostas situavam essa formação em instituições isoladas de ensino: os Institutos Superiores de Educação. Conclui que, sem compromisso com pesquisa e com exigências contraditórias, essas propostas de formação navegariam na contracorrente da área acadêmica:
Enquanto na área acadêmica, os especialistas cada vez mais reconhecem a necessidade da presença da pesquisa na formação do professor, que é problemática até nas universidades ditas consolidadas , a política governamental passa a privilegiar um espaço institucional para formação de professores que não tem nenhum compromisso com a pesquisa, mesmo vista como princípio educativo. Entretanto, esta mesma política passa a exigir, n o s p a r â m e t r o s c u r r i c u la r e s d o e n s i n o f u n d a m e n t a l e m é d i o , h a b i l i d a d e s e competências de pesquisa. Esta mesma tendência pode ser observada nos cursos superiores. (SEGENREICH, 2001, P. 204- 5 )
A pesquisa como prática pedagógica (instrumento didático) está, segundo (SEGENREICH, 2001, p. 205), “(...) entre as habilidades e competências exigidas para os concluintes dos diferentes cursos”. Entendida como “ensino com pesquisa”, e não
apenas como uma disciplina de metodologia da pesquisa, deve permear o currículo em sua totalidade.
Parece que a definição de pesquisa utilizada nessas propostas é bastante ampla para incluir, entre outros,
a iniciação científica, a apresentação de trabalhos em seminários e os estágios em laboratórios, (...), a socialização para a pesquisa científica pas s a a ocupar posição destacada. (...), pesquisa bibliográfica, estudo de caso, pequenos trabalhos de campo sob orientação de docentes, trabalho em escritórios (...) O que não ficou claro é (...) como compatibilizar essas exigências com a diferenciação de estruturas e funções (...). (SEGENREICH, 2001, p. 205)
Ou seja, as propostas políticas apresentam, contraditoriamente, a exigência de pesquisa definida, por vezes, de maneira muito ampla e difusa, ao mesmo tempo em que criam a possibilidade de existênc ia de cursos de graduação em instituições que não incluem essa atividade entre suas funções.
Segenreich alerta ainda sobre diferenças na interpretação da proposta de inserção curricular da atividade de pesquisa quando considerada a discussão dos paradigmas educacionais. Aparentemente, o modelo proposto por alguns autores refere-se a um tipo de pesquisa descritiva e explicativa, voltada para exigências do mercado. Um outro movimento aborda o tema com mais cautela e, com base em autores como Bourdieu, Bernstein e Freire, defende uma pesquisa que promova formação crítica e emancipatória.
2) ENSINO COM PESQUISA
O TRABALHO DE MARIA ISABEL DA CUNHA
Para expor a idéia de ensino com pesquisa tomamos por base, principalmente, parte da obra de Maria Isabel da Cunha. No conjunto de seus trabalhos, a atividade de ensino com pesquisa na graduação é tomada como uma alternativa para o ensinar e