Barroco (2001)27 aprofunda a concepção ética numa perspectiva de análise que tem o seu expoente na teoria social de Marx e na construção do movimento materialista histórico e dialético, “frutos das relações sociais de produção econômica, pois somos o que as condições materiais nas relações sociais de produção nos permitem ser e porque a construção da sociedade depende das ações concretas dos seres humanos e da compreensão de suas contradições”28, do qual optamos em utilizá-la como referencial teórico.
Nesse contexto, entende-se a ética como sendo a referência de valores que estabelecem os principais parâmetros das relações individuais dentro da sociedade.
Diversas foram as mudanças desencadeadas em toda a
27 A autora na sua trajetória intelectual e docente incide sobre a problematização da Ética no centro das suas reflexões e investigações. A sua obra é uma referência para o aprofundamento e compreensão dos projetos individuais, coletivos e societários e do compromisso com a ética nos dias atuais. Dentre elas: Ética e Sociedade (2000), Ética e Serviço Social (2001) e Os fundamentos sócio-históricos da Ética (2003). In Serviço Social Crítico: Hacia la construcion del nuevo proyecto ético-político profesional.
28 Na Ideologia Alemã, Marx e Engels (p. 27-28) apresentam que
“o primeiro pressuposto de toda a história é naturalmente a existência de indivíduos humanos vivos”.
humanidade até que se destacasse a visão do homem como um ser produtor, transformador, criador e histórico, sendo estas as premissas da ética marxista que dão um valor especial às classes sociais, dentre elas ao proletariado, cujo “destino” histórico é o de abolir a si próprio e dar origem a uma sociedade “verdadeiramente” humana.
A fundamentação da ética nasce e se desenvolve em diferentes épocas e sociedades como respostas aos “problemas e necessidades”, os quais são apresentados nas relações entre os homens, assim, pode-se considerar que este vínculo com a realidade social faz com que a ética não seja desinteressada ou isolada do contexto, mas pertencente a um processo de mudança e de movimento que constitui a sua história.
A ética pode ser considerada uma práxis, algo que só é possível existir através da ação criadora do homem, isto é, ela concebe uma liberdade humana: a capacidade essencial do homem de agir, tendo como referência a escolha, a transformação, a capacidade de projetar-se e de criar novas necessidades. Na tradição marxista a ética “é uma forma de relação consciente e livre entre os indivíduos e a sociedade, na qual possibilita ao mesmo tempo adquirir a convivência de si mesmo como ser humano genérico” (Barroco, 2003:233).
Assim, tratar o ser humano como sujeito e não como um objeto é tratá-lo eticamente. Relembrando o que disse o “eterno” jornalista e cartunista Henfil29, “ninguém consegue ser legítimo pela vontade individual e arbitrária”.
Através de seus cartuns, comparava a ética como uma espécie de cimento na construção da sociedade: “se existe um sentimento ético profundo, a sociedade se mantém bem estruturada, organizada e quando esse sentimento ético rompe-se, ela começa a entrar em crise”.
Podemos constatar que os resultados das ações humanas são
29Henfil, jornalista e cartunista, foi um indivíduo e profissional bastante ativo nas décadas de 70-80, que a partir dos seus cartuns fazia uma crítica à sociedade que se desenhava no período de transição do regime militar. Apontava as mazelas dos “donos do poder” no Brasil. Tinha uma estreita relação com os movimentos sociais: as organizações dos movimentos populares e sindicais. A citação refere-se ao preâmbulo do livro “Carta para Mamãe”. Henfil partilha de um posicionamento de Leon Trotsky na obra Moral e Revolução: a nossa moral e a deles, tradução de Otaviano de Fiore, 2 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978 (Pensamento Crítico v. 21).
construídos e compartilhados nas suas relações com os outros homens, isso permite que os fundamentos da ética sejam sociais e históricos e estejam sempre revestidos de um significado (valor).
A ética pode ser compreendida também como uma mediação que está presente nas várias dimensões da vida do homem e do que é produzido socialmente, como também no campo da afirmação dos direitos individuais e coletivos fundamentais à vida e à liberdade. Neste contexto, somente quem tem a liberdade de opção e decisão pode ser responsabilizado pelos seus atos. A responsabilidade está ligada à noção de compromisso, no entanto, não podemos falar de compromissos, senão a partir de uma escolha, de uma certa forma de agir, ou de um certo caminho para percorrer esta ação.
A intervenção consciente e intencional dos homens se dá historicamente pelo trabalho, sendo ele o “primeiro pressuposto da existência humana e de toda a sua história”. O trabalho é uma atividade social, cuja realização cria valores e costumes e as condições de realização do ser humano, que a partir da sua práxis transforma a natureza, a si mesmo e aos outros homens.
Para Barroco (2001:29) o produto da práxis é a expressão concreta da relação entre o sujeito e objeto, entre indivíduos e o gênero humano. Os valores têm um “[...] caráter objetivo, eles sempre correspondem à necessidade e possibilidades sócio-históricas dos homens em sua práxis”.
A história está aí para lembrar-nos de que em todas as épocas tivemos períodos de maior ou menor valorização do comportamento ético, pois tanto a liberdade, a democracia, a justiça, a igualdade e outros conceitos são construções históricas e, sendo assim, modificam-se com o tempo, estando sempre abertas às possibilidades de ampliações ou limitações que as transformações sociais trazem consigo, bem como os reflexos dos jogos de interesses dos diferentes segmentos sociais.
O homem é um ser da práxis e de projetos. Desta forma, a sua liberdade caracteriza-se por ser concreta e histórica, em apreender as condições
sociais para a sua existência.
A burguesia, no seu processo de desenvolvimento, construiu uma concepção de liberdade onde todos os homens são livres e iguais diante da lei e de Deus, mas, na sua concretude, prevalece a exploração do homem pelo homem, a implementação das forças produtivas e a formação dos grandes Estados que possibilitam o alicerçamento de uma ética focada no individualismo, no imediatismo e no consumismo.
Enquanto uma classe social constituída historicamente, a burguesia recusa-se a enxergar que a igualdade é a liberdade na prática, do mesmo modo que não admite que a sociedade dividida em classes entre os desiguais fere os princípios básicos da liberdade, tornando-a algo irreal e incapaz de realizar-se plenamente dentro do sistema capitalista, mas aceita torná-la uma grande violência para o homem, entendendo a concepção de violência como sendo todo o ato pelo qual o ser humano é desprovido da sua humanidade e tratado como uma coisa/objeto.
A história recente do Brasil, se considerada como a história da dominação de alguns grupos sobre a maioria, revela que a atuação dos setores que implementam as políticas neoliberais priorizam a procura do “melhor produto” e do maior lucro em detrimento da justiça social e de políticas públicas favoráveis ao conjunto dos seres humanos. Assim, pensar, refletir e decidir devem ser reduzidos a níveis mínimos e orientados ideologicamente para a construção de cidadãos submissos e manipuláveis, que não subvertam o processo de produção e de consumo.
Os meios de comunicação tornaram-se instrumentos ideais de alienação ao anular “o diálogo“, ao manipular a opinião pública, ao criar necessidades e estimular o consumo exacerbado através da criação de “falsas necessidades”.
O imediatismo cria a ausência de esperança num futuro melhor. Deparamo-nos com as pessoas numa incansável busca de resultados cada vez mais rápidos em detrimento das conquistas que são ligeiramente disponibilizadas para
que novos valores sejam buscados.
O ser humano torna-se eticamente descartável, seja nas relações afetivas (separações, preconceitos, discriminações, amizades passageiras), seja nas relações comerciais, onde as demissões ocorrem sem qualquer constrangimento. Em contrapartida, as relações políticas globalizadas reforçam a pauperização e as desigualdades sociais ao transferir para a sociedade civil as soluções dos problemas sociais e ao estimular o desejo de dominação e exploração dos seus semelhantes sem quaisquer escrúpulos.
A ideologia capitalista insiste em esconder as lutas de classes e as catástrofes sociais, religiosas, econômicas e culturais, não permitindo que possamos enxergar o significado das “coisas silenciosas” que estão além das aparências, impedindo que tenhamos a consciência de como as “coisas” são, como funcionam, como se articulam, como os indivíduos produzem e como as pessoas se relacionam.
O pensamento neoliberal reforça a imagem do indivíduo como um ser desvinculado da sociedade. Ter a consciência crítica da realidade é nos relacionarmos com o mundo que buscamos compreender de modo concreto, sendo capaz de analisá-lo em suas bases fundantes e não somente na sua aparência.
O desenvolvimento da história da humanidade também nos apresenta a possibilidade da ética poder ser dirigida à emancipação humana, capaz de criar condições para a vivência e a universalização da liberdade, na medida em que supere a sociedade capitalista, permitindo que as pessoas se reconheçam como sujeitos e como potenciais de transformação.
A construção desses projetos depende das condições históricas para as reais transformações da sociedade, como também se tornam inevitáveis, visto que nesta sociedade espera-se que as novas relações entre as pessoas sejam mais honestas, justas e livres.
Os homens não agem sobre o mundo somente de modo individual, mas, principalmente, de forma coletiva através do trabalho como um processo de
produção, pois o homem ao produzir, produziu também a sua cultura: resultado da superação das suas necessidades e das relações com outros homens que se organizaram socialmente e aumentaram as suas contradições.
Consideramos serem essas as premissas determinantes daqueles que estão construindo efetivamente as lutas das classes trabalhadoras, pautadas nas relações éticas que garantam os direitos fundamentais, a eqüidade, a justiça social e a diversidade.