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O que faz da informação um fenômeno cultural é que ela só pode ser compreendida dentro de um contexto: a cultura. Isso significa dizer que a informação é construída a partir de relações e práticas sociohistóricas, podendo ser tomada como um modo de relação dos agentes com a realidade, como um artefato cultural.

Essa concepção tem a ver com uma abordagem relacional da informação (campo informacional) e permite ver a questão do usuário e suas necessidades informacionais sob um novo ângulo, pois assume uma postura ativa como um sujeito social, capaz de elaborar a informação que lhe é dirigida de acordo com um quadro de referência interno, respaldado em suas experiências e conhecimentos prévios e num determinado contexto social, histórico e cultural (habitus informacional).

Dessa forma, a informação é, na realidade, uma probabilidade ou uma proposta de sentido que só se concretiza no usuário na condição de sujeito social. Pode-se falar então de práticas informacionais (MARTELETO, 1994) para dizer de uma mediação na relação do sujeito com a realidade, de mecanismos por meio dos quais os agentes sociais selecionam (aceitando ou rejeitando) determinados sentidos de acordo com dispositivos socioculturais. Dessa maneira, em suas interações sociais os sujeitos apropriam-se das informações, agregando-lhes novos valores e conteúdos.

Nesta pesquisa, presume-se que os Consep são um tipo de organização que, embora tenham sido, inicialmente, estimuladas, ou mesmo criadas, pela PM, vêm sendo, aos poucos, apropriadas pela comunidade, num processo que enfrenta dificuldades, idas e vindas, e no qual a informação pode ser abordada da perspectiva da lógica informal da vida real. Portanto, como um objeto (tradicional) da análise antropológica e também como parte de um campo social no qual se desenrolam disputas de natureza simbólica, ou seja, informação em movimento num processo de comunicação.

Perguntou-se então: Que informações são ali construídas? Que práticas informacionais são ali desenvolvidas? Que informações ganham maior sentido? Que informações são rejeitadas? Quais as dificuldades encontradas para dar sentido às informações trazidas ao Consep, através de seus membros? Que dispositivos ou critérios sócio-culturais de seleção são adotados?

A pesquisa, portanto, assume dois pressupostos e procura articular-se com base neles. O primeiro, de cunho teórico, diz que a informação precisa fazer sentido para ser considerada como tal, e isso quer dizer que não ocorre naturalmente, mas precisa ser buscada e, aí sim, encontrada, num processo que só pode ser realizado por um sujeito ativo, detentor de subjetividade, que faz escolhas dentro de um determinado contexto. Entretanto, como um processo interpretativo, esse não ocorre num vazio, mas no contexto de uma realidade sociohistórico-cultural no qual o habitus (e o campo social) têm relevante papel.

O segundo, de cunho metodológico, diz que a análise sociocultural não tem referência na ciência experimental, ou seja, aquela que busca leis e generalizações, mas na ciência interpretativa, que busca o significado e o sentido. A hermenêutica-dialética, considerada como um método articulador da compreensão e da crítica, as contribuições do método etnográfico e a teoria dos campos sociais são utilizadas, não só na definição/abordagem do objeto, mas como apoio na realização de uma análise sociohistórica e de uma descrição minuciosa das dinâmicas informacionais de um grupo social como o Consep.

É importante notar uma particularidade quanto ao significado dessa aproximação do método etnográfico na CI. Sabe-se que tem suas raízes numa tentativa da antropologia de romper com o evolucionismo (linear) e com uma abordagem etnocêntrica que via as diversas culturas numa perspectiva naturalista. Considera-se que é possível traçar um paralelo entre essa crítica, feita por etnógrafos como Frans Boas aos antropólogos clássicos, e aquela que González de Gómez (1984) faz aos cientistas da informação que, baseando-se no paradigma físico e cognitivista, vêem a informação apenas como redutora de incertezas. Essa perspectiva é expressão de um naturalismo, ainda muito presente na CI, no qual, como já foi dito, se desconsidera que cada grupo social constrói uma consciência comum que estrutura suas práticas informacionais. Isso quer dizer que o sujeito (usuário/receptor-construtor/emissor) da informação não é um produto de mecanismos biológicos, naturais e deterministas, mas assume um caráter sociohistórico, no qual se constitui a partir dos interesses, conflitos e contradições próprios de sua classe ou grupo social.

Assim, o uso de princípios metodológicos da etnografia em CI tem esse significado adicional: torná-la menos etnocêntrica, na medida em que permite abandonar o estudo exclusivo da informação ligada a uma cultura douta, documental, registrada, podendo constituir-se num guia para o entendimento da informação na prática cotidiana das pessoas comuns (senso prático), sobretudo ao se organizarem em grupos para resolver seus problemas. É isso que procura fazer a antropologia da informação: re-valorizar esse tipo de saber prático e cotidiano, sobretudo quando interage com os conhecimentos científicos, naquilo que conceituou como terceiro conhecimento.

Procurou-se, dessa forma, um lugar de onde fosse possível olhar os fatos investigados e dali ter uma visão que, por sua vez, permitisse ao pesquisador analisá-los, contando uma estória, entendida como um misto de realidade e imaginação (sociológica). Esse lugar, que é, em grande medida, o da antropologia da informação, além de levantar

questões específicas sobre a realidade, implica uma opção que procura reconhecer a “informação em movimento” e o conhecimento prático como objetos de pesquisa da CI.