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3.2. YÖNTEM

3.2.2. Araştırma Modelleri ve Hipotezler

A observação participante pode ser considerada como um processo pelo qual o pesquisador se faz presente numa determinada situação social para coletar dados, numa relação face a face com os observados e participando da vida deles, com a finalidade de realizar uma investigação de natureza científica. Portanto, o observador torna-se parte do contexto observado, modificando-o e sendo modificado por ele (Minayo, 1992).

Essa proposição descreve aquilo que foi realizado durante o trabalho de acompanhamento ou observação das reuniões do Consep. O pesquisador manteve-se presente nas reuniões, tomadas como situação social na qual são realizadas trocas informacionais, numa relação pessoal (face a face), como forma de coleta de dados. Mais do que descrever comportamentos, procurou encontrar e registrar práticas informacionais, tidas como formas de construção de informações sobre criminalidade e sua prevenção. Buscou identificar os sentidos que aquelas atividades adquiriram para o grupo e, a partir disso, chegar aos processos de construção de informações e conhecimentos. Interessou-se pelas informações mais relevantes e significativas e pelo processo social que alicerçou sua construção.

Assim definida a situação de coleta de dados por observação, considera-se o investigador como um participante da situação observada. Em primeiro lugar, simplesmente por estar presente e, portanto, exercendo, com essa presença, ainda que involuntariamente, algum tipo de influência sobre os acontecimentos e, em segundo lugar, porque algumas coisas foram mais observadas do que outras, pois toda observação faz-se a partir de esquemas teóricos pré-determinados. Não há, portanto, neutralidade nesse processo de observação participante.

Minayo (1992) salienta três princípios gerais propostos por Malinowski. O primeiro diz que o investigador deve imergir na realidade mas sem perder de vista os referenciais teóricos; o segundo refere-se à disposição que deve possuir para viver no contexto do grupo, e o terceiro a uma atitude de abertura à realidade. Além desses princípios, procurou-se observar também as recomendações seguintes acerca das atitudes no trabalho de campo.

(a) O observador deve colocar-se no mundo de seus entrevistados, buscando entender os princípios gerais que os homens seguem em sua vida cotidiana para organizar sua experiência, particularmente as de seu mundo social. Desvendar essa lógica é condição preliminar da pesquisa; (b) Manter uma perspectiva dinâmica que ao mesmo tempo leve em conta as relevâncias dos atores sociais, e tenha em mente o conjunto de relevâncias de sua abordagem teórica, o que lhe permite interagir ativamente com o campo; (c) Abandonar, na convivência, uma postura externa ‘de cientista’, entrando na cena social dos entrevistados como uma pessoa comum que partilha do cotidiano. Isto é, sua estrutura de relevâncias teóricas fica implícita. Sua linguagem no campo é a mesma do senso comum dos atores sociais (SCHUTZ, citado por MINAYO, 1992, p.140).

Além disso, considera-se que o pesquisador não tem total controle sobre seu papel no interior do grupo observado, pois, em boa medida, isso vai depender da situação de pesquisa. Isso quer dizer que a construção da imagem do pesquisador é marcada por referências do próprio grupo. Na verdade há, durante o processo de observação, uma construção mútua de papéis: pesquisador e pesquisado. Sobre essa questão, considerou-se que, de modo geral, o grupo observado olha o pesquisador muito mais pelo seu comportamento e personalidade do que pela base lógica de seus estudos. Assim, os grupos se preocupam com o que o pesquisador fará com os dados coletados e perguntam-se: Será que ele fará algum mal ao grupo? Será que trairá segredos e estratégias encontradas de viver a realidade concreta? Será que ele é uma boa pessoa?

Dessa forma, procuraram-se meios de dialogar com o grupo mediados pelo próprio trabalho e cuidou-se para que houvesse um adequado entendimento quanto aos seus objetivos. O grupo foi informado sobre esses objetivos e o pesquisador procurou manter-se rigorosamente dentro das propostas. Além disso, o pesquisador procurou abster-se de efetuar julgamentos de valor e de fazer prescrições, pois sua principal meta era compreender as situações e, tanto quanto possível, explicá-las com base nas teorias que embasam a pesquisa.

O outro princípio observado refere-se a métodos de seleção e coleta de dados. Buscou- se, para estudar a “informação em movimento”, aquilo que Malinowski (1980) considera o material da pesquisa participante: os “imponderáveis da vida real” ou fenômenos que só podem ser captados pela presença atenta do pesquisador. Nas palavras do próprio etnógrafo: “há uma série de fenômenos de grande importância que não podem ser registrados através de perguntas, ou em documentos quantitativos, mas devem ser observados em sua realidade” (p.55). Tratou-se, portanto, de fazer anotações minuciosas num diário de campo, listando declarações etnográficas, colhendo narrativas de informantes, expressões típicas, fórmulas, histórias e casos que pudessem expressar a mentalidade do grupo.

Minayo (1992), baseando-se em distinção elaborada por Gold, distingue quatro situações em termos observação participante, que denomina: a participação-total (imersão total), o participante-como-observador, o observador-como-participante e o observador-total. A partir dessa categorização pode-se dizer que, nesta pesquisa, tem-se uma situação que pode ser caracterizada como “participante-como-observador”, ou seja:

... o pesquisador deixa claro para si e para o grupo sua relação como meramente de campo. A participação, no entanto, tende a ser a mais profunda possível através da observação informal, da vivência juntos de acontecimentos julgados importantes pelos entrevistados e no acompanhamento das rotinas cotidianas. A consciência, dos dois lados, de uma relação temporária (enquanto dura o trabalho de campo) ajuda a minimizar os problemas de envolvimento que inevitavelmente acontecem, colocando sempre em questão a suposta ‘objetividade’ nas relações (MINAYO, 1992, p.142).

Mintz (1984) observa que a pesquisa de cunho etnográfico deve voltar-se para um “objetivo relacional” (p.49), considerando que os fenômenos estudados não existem fora das relações sociais. Com isso, questiona a crença positivista-naturalista numa realidade exterior

acabada. Em outras palavras, isso quer dizer que o objeto da pesquisa (informação) não existe num mundo externo, mas no contexto, ou dentro, de relações ou situações sociais e históricas.

Entretanto, adverte Cardoso (1986), “a prática de pesquisa que procura esse tipo de contato”, ou seja, a pesquisa participante, precisa valorizar também a observação. Daí o termo “observação participante”, um tipo de pesquisa no qual a participação é a “condição necessária para um contato onde afeto e razão se completam” e a observação deve fornecer “a medida das coisas” (p.103).

Observar é contar, descrever e situar os fatos únicos e cotidianos, construindo cadeias de significação. Esse modo de observar supõe, (...), um investimento do observador em seu próprio modo de olhar. Para conseguir essa façanha, (...), é preciso ancorar as relações pessoais em seus contextos e estudar as condições sociais de produção dos discursos. Do entrevistador e do entrevistado (CARDOSO, 1986, p.103).

Isso é muito importante porque a participação e a identificação, sem a observação, podem levar o pesquisador a tomar as informações dos entrevistados como se elas falassem por si mesmas, naquilo que Durhan (1986) chamou de “participação observante”, situação na qual o pesquisador torna-se um porta-voz do grupo ou comunidade estudada e a pesquisa limita-se à denúncia de situações políticas indesejadas. Nesse caso, como observa Cardoso (2002), ignoram-se os atores sociais com sua subjetividade, como suportes do discurso.

A relação intersubjetiva não é o encontro de indivíduos autônomos e auto- suficientes. É uma comunicação simbólica que supõe e repõe processos básicos responsáveis pela criação de significados e de grupos. É nesse encontro entre pessoas que se estranham e que fazem um movimento de aproximação que se pode desvendar sentidos ocultos e explicitar relações desconhecidas (CARDOSO, 1986, p.103).

Descobrir, em ciências humanas e sociais, é um aprendizado sobre (outras) maneiras de olhar as situações, que só podem ser identificadas quando se fala com os outros (nas reuniões e entrevistas, por exemplo) que, por seu turno, também podem entender melhor aquilo que pensam à medida que falam sobre suas experiências, sob o estímulo de uma escuta interessada de seu interlocutor. Ao falar com alguém sobre seu próprio pensamento, o entrevistado organiza-se e produz uma interpretação das situações.

Em termos de entrevistas, os relatos obtidos foram, então, considerados como uma re- construção do passado do entrevistado, pois acredita-se que é apenas falando que as pessoas podem, realmente, saber aquilo que pensam. Considera-se, assim, que nas entrevistas em profundidade os entrevistados (e o entrevistador) tiveram oportunidade de sistematizar alguns de seus pensamentos e idéias sobre o que se passou na realidade. É esse tipo de conhecimento interpretativo, produzido nas entrevistas, transcritas e tomadas como um texto, que constituirá um dos objetos da análise interpretativa nesta investigação.

O encontro com desconhecidos, com quem se pode cultivar uma relação de alteridade, é que permite conhecer o modo de operar os sistemas simbólicos diversos que são postos em movimento por essa interlocução. O objeto do conhecimento é aquilo que nenhum dos dois conhece e que, por isso mesmo, pode surpreender. Logo, a novidade está na descoberta de alguma coisa que não foi [ainda] compartilhada (CARDOSO, 1986, p. 103).

A construção de um “tópico guia” para realização de entrevistas, conforme recomendações de Gaskell (2002), funcionou não só como um roteiro mnemônico para o entrevistador, mas também como um elemento padronizador das conversas que, mesmo permitindo flexibilidade, não deixasse que o foco fosse abandonado, ou seja, que as conversas se diversificassem a ponto de se afastarem dos temas comuns.

Capítulo 6

Apresentação e análise dos dados

Este capítulo organiza e apresenta, analiticamente, os dados coletados, através da observação participante e da entrevista em profundidade. O material obtido foi tratado como um texto a ser interpretado, no qual se procurou identificar significados e sentidos, muitas vezes concorrentes, ou seja, descrever e elucidar práticas informacionais que têm lugar no Consep. Como produto formularam-se algumas noções e mostrou-se como esse grupo, ao construir ou deixar de construir informações, vem sustentando diferentes formas de fazer policiamento e de promover a segurança pública numa determinada região.

No início deste trabalho de interpretação dos textos é importante lembrar, com Geertz (2003), que:

Imaginar que algumas instituições, costumes e mudanças sociais possam ser de alguma forma ‘lidas’ é alterar totalmente o nosso entendimento do processo que dá origem a essa interpretação, direcionando-o para tipos de atividades mentais mais parecidas com aquelas utilizadas pelo tradutor, pelo exegeta, ou pelo iconografista do que aquelas que são típicas de aplicadores de testes, analistas de fatores ou pesquisadores da opinião pública (p.51).

É esse tipo de trabalho que será feito a seguir, ou seja, um esforço interpretativo que assume uma postura ou uma maneira de olhar específica, na qual o pesquisador procura comportar-se como um leitor atento de um processo de construção de informações, realizado pelos sujeitos sociais. O contexto sociohistórico, tomado como elemento determinador de sentidos, torna-se particularmente importante para a compreensão dos fenômenos informacionais.

Isso significa dizer que eles não ocorrem naturalmente, mas dentro de um determinado espaço social, neste caso, num conjunto de bairros de classe média (alta e baixa) que compõem uma determinada companhia de polícia militar (CPM), num determinado momento histórico, no qual cresce a criminalidade urbana e a insegurança pública, ganhando corpo uma pluralidade de discursos concorrentes acerca da violência e das formas de combatê-la. Na base desses discursos existem concepções que vão desde as mais repressivas e punitivas, que fundamentam o modelo quase militar de polícia (law officer), de maior penetração na sociedade, sendo, inclusive a mais disseminada pela grande mídia, até as mais preventivas, baseadas na análise dos eventos. Estes, por sua vez, fundamentam o modelo preventivo e comunitário de policiamento (peace officer), uma alternativa ainda em construção, vista com bons olhos por movimentos sociais ligados à defesa e promoção de direitos humanos e cidadania e também por uma parcela, mais inovadora, de oficiais da própria PM.