YARGITAY HUKUK GENEL KURULU
YARGITAY 1. HUKUK DAİRESİ
2- Fiilen Boşaltılıp Anahtarı Teslim Edilmedikçe Sözleşmenin Haklı Feshi Kiracıyı Kira Ödeme Sorumluluğundan
De acordo com a Norma Regulamentadora 34 (NR-34), emitida pela Secretaria de Inspeção do Trabalho do MTE (Portaria SIT nº 200, de 20 de Janeiro de 2011), o trabalho na indústria de construção e reparação naval pode ser realizado tanto nas instalações utilizadas para este fim (nas oficinas ou áreas principais) quanto nas próprias embarcações e estruturas (navios, plataformas fixas ou flutuantes).
Essa Norma distingue algumas atividades características deste tipo de indústria, como por exemplo, o trabalho a quente e o trabalho em altura. O trabalho a quente compreende as atividades de soldagem, goivagem, esmerilhamento, cortes ou outras que possam gerar fontes de ignição (aquecimento, centelha ou chama) e envolve as funções de soldador, esmerilhador, chapeador e maçariqueiro.
As atividades de trabalho em altura são aquelas realizadas em níveis diferentes (qualquer trabalho realizado acima de dois metros de altura do piso) e na qual haja risco de queda capaz de causar lesão ao trabalhador, é o caso dos montadores de andaime e eletricistas.
As condições ambientais onde as atividades são desenvolvidas caracterizam-se como perigosas e penosas. Isso implica dizer que os trabalhadores estão constantemente expostos a algumas situações tradicionais tais como: calor, vibração, ruídos, gases, vapores, posições desconfortáveis, presença de espaços confinados, risco de acidentes e doenças. As imagens a seguir ilustram o trabalho no estaleiro:
Fotos 03, 04, 05 e 06 – Trabalhadores do EAS
*Fotos enumeradas da esquerda para a direita e de cima para baixo.
Fonte: Fotos 03 e 06 (Paloma Amorim); Foto 04 (Celso Kuwajima); Foto 05 (José Otávio de Souza). Disponível
em: <https://www.flickr.com>
Para oferecer um ambiente de trabalho seguro e implantar medidas de proteção, o estaleiro deve cumprir a NR-34, que também estabelece os requisitos mínimos e as medidas de proteção à segurança, à saúde e ao meio ambiente de trabalho nas indústrias de construção e de reparação naval.
Uma das medidas de proteção estabelecida por esta Norma, implementada pelo EAS, além do fornecimento dos EPIs, foi o Diálogo Diário de Segurança (DDS):
“Eles fazem um DDS todo dia [O que é o DDS?] é um diálogo diário voltado
para a segurança da gente... A gente fala de segurança todos os dias... eles
pedem para você nunca fazer nada na dúvida, sem EPI... o DDS também é usado
para passar o serviço (Operário 3: Soldador).
Conforme a NR-34, cabe ao empregador realizar essa reunião diária de curta duração, antes do início das atividades operacionais que, por sua vez, deverá contemplar as atividades que serão desenvolvidas, o processo de trabalho, os riscos e as medidas de proteção (MTE, 2014). Apesar da adoção dessas medidas de segurança pelo estaleiro, veremos a seguir, conforme relatos dos trabalhadores e informações divulgadas na mídia, que elas não são suficientes para assegurar um ambiente seguro, livre de perigo.
Algumas notícias divulgadas pela mídia pernambucana8 revelam que em menos de um ano ocorreram dois acidentes fatais envolvendo funcionários do EAS. O primeiro acidente ocorreu em Julho de 2009, quando um ajudante industrial, de 26 anos de idade, que trabalhava na construção do casco da plataforma P-55, foi atingido por uma placa metálica de aproximadamente uma tonelada. O segundo acidente aconteceu em 2010 com um montador, de 47 anos de idade, esse funcionário trabalhava na Gaiuta (base da chaminé) do navio João Cândido quando caiu de uma altura de aproximadamente 20 metros.
Conforme relato de um dos sindicalistas, o grau de risco de acidente nesse local de trabalho é muito alto e as situações são inseguras devido à presença de espaços confinados. Preocupado com as condições de trabalho ele afirmou que esse tema constitui um interesse de pesquisa e luta do próprio sindicato:
“Inclusive a gente tá com um trabalho lá agora, a gente vai fazer uma pesquisa
com algumas entidades que apoiam a gente, pra rever, inclusive, as condições de trabalho (estudar o ambiente, vê os casos de insalubridade, de periculosidade), porque tá acontecendo muitos pequenos acidentes, já houve dois acidentes fatais lá, nesse... ao longo de 7 anos, e tem acontecido muitos pequenos acidentes, até porque o grau de risco lá é o risco 4, que é o grau maior, é muito grande!”.
“Lá a gente tem muitas situações inseguras, tipo espaço confinado, é terrível! O
cara trabalha soldando lá dentro do tanque, aí respira os gases, tem máscara, tem tudo, mas é muito perigoso” (Sindicalista).
8
Estaleiro//Funcionário é sepultado. Diário de Pernambuco, 22 jul. 2009. Disponível em: < http://www.dpnet.com.br/includes/imprimir.asp?xurl=http://www.dpnet.com.br/2009/07/22/urbana5_0.asp>. Acesso em: 02 de out. 2014.
Operador cai e morre no Estaleiro Atlântico Sul, em Suape. Diário de Pernambuco, 21 maio 2010. Disponível em:http://www.old.diariodepernambuco.com.br/nota.asp?materia=20100521113824&assunto=124&onde=vidau rbana>. Acesso em: 02 de out. 2014.
Luto e indignação no Estaleiro Atlântico Sul. Metalúrgico caiu de uma altura de 20,02m. Portal Pinzón – Ipojuca, 24 maio 2010. Disponível em: <http://www.pinzon.com.br/index.php?i=5&c=8&n=3505>. Acesso em: 02 out. 2014.
Entre estas situações destacamos as características do trabalho em ambientes confinados. A NR-33 define um espaço confinado como “qualquer área ou ambiente não projetado para ocupação humana contínua, que possua meios limitados de entrada e saída, cuja ventilação existente é insuficiente para remover contaminantes ou onde possa existir a deficiência ou enriquecimento de oxigênio” (MTE, 2014).
Uma descrição pormenorizada das condições deste tipo de ambiente de trabalho aparece em um relato feito por um dos entrevistados:
O trabalho no estaleiro é loucura, se for dentro do navio então... imagine que isso aqui é um bloco de um navio, tá fechado, isso aqui é um espaço confinado e
aqui tá um soldador soldando; estou eu ali cortando uma peça que tá errada,
soltando fumaça; tá outro ali tirando a rebarba de solda; aí, você olha daqui para ali, e eu te vejo bem embaçado, devido a fumaça, né? Então, se você entrar dentro de um navio, é loucura! É perigoso!
No estaleiro é assim... tem setores que são de difícil acesso, aí você tem que ter mais de uma pessoa e, no espaço confinado você não pode entrar só, jamais...
não tem como entrar só, tem que ter alguém... na entrada tem que ter um vigia,
com um rádio; tem que ter um sensor de gás e, se ele alarmar, o vigia manda todo mundo sair; se alguém passar mal aí o vigia passa o rádio e pede socorro; [Hoje você trabalha em espaços confinados?] na minha oficina não, hoje não tem muito espaço confinado, mas, nos navios sempre tem, os tanques dos navios são sempre espaços confinados [e todas as funções podem trabalhar lá?] todas as funções: mecânica, elétrica, solda, pintura, montagem, tudo isso aí trabalha em espaço confinado... porque a pintura tem que ir lá no porão, a elétrica tem que ir, a
mecânica... quase todas as funções da produção do estaleiro trabalham em
espaços confinados... quando se está a bordo não tem como não trabalhar nesses espaços (Operário 4: Montador de tubulação e estrutura).
Para trabalhar nesses espaços, os funcionários precisam estar devidamente certificados com a autorização da Permissão de Entrada e Trabalho (PET), emitida pela empresa, e treinados para situações de emergência e resgate. Além disso, as atividades executadas por eles deverão ser sempre acompanhadas por um vigia e um supervisor de entrada, profissionais responsáveis pelo acompanhamento do trabalho e das questões relativas à segurança no interior dos espaços confinados.
Essas condições de trabalho típicas da indústria naval e/ou das operações marítimas podem comprometer a saúde e a segurança dos funcionários. A partir das entrevistas realizadas com os trabalhadores observamos o surgimento de algumas doenças que acometem esses profissionais com maior frequência:
[Durante o tempo de permanência na empresa, no exercício de suas funções, você adquiriu algum problema de saúde?] eu já tive uma hérnia umbilical, fiz uma
cirurgia; peguei artrose no ombro e que às vezes ainda dói, devido ao esforço de bater com marreta... [você pode indicar os tipos de doenças mais comuns, que
ocorrem com maior frequência?] são problemas de coluna; artrose; alergias;
hérnia umbilical principalmente nos homens [por que a hérnia umbilical?] por
conta do peso, do esforço... problemas com a rótula (os soldadores principalmente, porque eles ficam muito tempo ajoelhados), quem trabalha no navio sobe muito
degrau, trabalha muito tempo agachado (Operário 4: Montador de tubulação e estrutura).
Eu, sinceramente, quando eu entrei lá não tinha nenhum tipo, eu não digo de doença, mas eu não tinha nenhuma coisa assim pelo corpo. Depois que eu entrei lá eu
comecei a sentir algumas dores na região abdominal, aí eu fiz um ultrassom e acusou uma hérnia umbilical. Hoje mesmo eu faltei por conta da coluna, por que eu tava sentindo muita dor na coluna, é assim... A maioria das pessoas que
trabalha lá sempre sofre de alguma coisa [É muito comum ter problema de saúde lá?] eu acho que é... se você fizer uma pesquisa lá, para sondar com os funcionários o que eles sofreram depois de ter entrado ali, eu acho que é mais nessa parte da
coluna, por conta do trabalho, por que a gente trabalha em espaço confinado
também, em lugar apertado, que as vezes é ate difícil o acesso, você tem que
trabalhar agachado (Operário 2: Meio oficial de montagem de tubulação).
Entre os principais problemas destacados estão: hérnia umbilical (dos cinco trabalhadores entrevistados dois apresentaram esse problema) devido ao esforço físico e a necessidade de pegar peso; lesões no joelho e na coluna (notadamente entre os soldadores que muitas vezes precisam trabalhar ajoelhados/agachados, permanecendo durante muito tempo em uma mesma posição); artrose; além de problemas respiratórios e alergias.
Com base no relato dos trabalhadores também é possível destacar que, mesmo com a adoção das medidas de proteção e do uso correto dos EPIs, isso ainda não seria suficiente para garantir condições adequadas ou a segurança necessária à realização das tarefas:
Eles investem em segurança do trabalho, cobram muito o uso do EPI, o uso do equipamento adequado... Tem que ter todas essas condições, apesar de que nunca funciona, nunca dão as condições esperadas!
Então, eles trabalham muito nisso aí, para reduzir os acidentes e já tem um índice de acidente até alto... às vezes acidentes sem afastamento, acidentes leves, né? Você se
machuca... isso aqui foi com o maçarico (nesse momento o entrevistado mostra
marcas de queimaduras espalhadas pelos braços, devido ao uso do maçarico) e eu
uso EPI, você tem que usar EPI, camisa de manga... [Mas ainda assim não são suficientes?] não, por que tem lugar... vou dar um exemplo: aqui em baixo, eu tenho que vir aqui, mesmo com todo o couro (avental de couro, próprio para
utilização nas operações de soldagem e corte com maçarico), mas eu tenho que
entrar aqui em baixo, me deitar aqui e o fogo vai cair em cima de mim, as vezes não tem como evitar... acontece essas coisas leves, ainda acontece de cair uma borrinha (Operário 4: Montador de tubulação e estrutura).
Essa constante exposição aos riscos e à incidência de acidentes leves acaba motivando os afastamentos, as ausências nos locais de trabalho e, apesar disso, os funcionários do estaleiro não recebem os adicionais de insalubridade e periculosidade, um direito assegurado ao trabalhador pela legislação trabalhista. De acordo com a Lei nº 6.514 de 22 de Dezembro de 1977 (referente à segurança e medicina do trabalho), uma vez comprovado o exercício de atividades em condições insalubres ou perigosas, acima dos
limites de tolerância estabelecidos pelo Ministério do Trabalho, cabe ao empregador efetuar o pagamento de um adicional sobre o salário do trabalhador (BRASIL, 2014).
Os sindicalistas destacam a necessidade de reivindicar os adicionais de insalubridade e periculosidade. Todavia, eles asseguram que, mais importante que reparar financeiramente o trabalhador, é necessário que a empresa ofereça condições dignas e um ambiente de trabalho seguro:
A luta do sindicato é para conseguir o local, o ambiente de trabalho seguro para que não tenha insalubridade, porque na realidade muitos trabalhadores lutam
para receber a insalubridade, mas, pra gente não é importante que ele receba
financeiramente, o importante é ele não correr risco. Quando o cara chega aos 45, 50 anos, se ele não tiver um bom acompanhamento, um bom EPI, ele vai tá doente... ele pode ter recebido 1 milhão, mas e a saúde? Aí a gente preza por isso aí, pra que o trabalhador ele não precise receber insalubridade, mas que ele tenha um ambiente seguro para trabalhar e que ele não adoeça (Operário 3:
Soldador).
Em face disso, eles também ressaltaram a preocupação do sindicato em realizar um estudo sobre o ambiente de trabalho no estaleiro, com o intuito de diagnosticar as condições que são nocivas à saúde dos trabalhadores e que podem representar perigo para eles. O interesse pelo estudo é descrito no depoimento do operário a seguir:
Inclusive a gente tá com um trabalho lá agora, a gente vai fazer uma pesquisa com algumas entidades que apoiam a gente, pra rever as condições de trabalho, estudar o ambiente para vê os casos de insalubridade, de periculosidade. O
problema é mais segurança mesmo, que a gente precisa focar mais [Quais são as condições necessárias para efetuar essa pesquisa?] Primeiro tem que fazer um
acordo com a empresa e solicitar a entrada do técnico, normalmente a empresa faz um laudo, com um técnico pago por ela, sem o nosso acompanhamento ou com o nosso acompanhamento, depende de empresa pra empresa. Depois a gente faz o nosso acompanhamento, com um técnico pago por nós, com as entidades que apoiam a gente e a gente acompanhando pra ver as situações inseguras (Operário 3: Soldador).
Entretanto, cumpre destacar que, como o reconhecimento desse direito corresponde a um adicional pecuniário que, por sua vez, implica em aumento de custos para a empresa, acreditamos que assegurar o devido cumprimento desses adicionais para os trabalhadores não figura entre as prioridades do estaleiro. Vejamos, por exemplo, um operário nos contar o que acontece nos bastidores, quando um fiscal do Ministério do Trabalho vai até o estaleiro para realizar uma perícia sobre as condições de insalubridade e periculosidade no espaço fabril:
[Ninguém reivindica os direitos a insalubridade e a periculosidade?] Não... reivindica nos bastidores... há um grupo de trabalhadores que dizem: ‘ah, a
gente tem direito!’ mas, eu vou dizer a vocês como é que funciona, eu estive a
frente do sindicato e foi um dos motivos para eu renunciar: vem um fiscal do MT fazer as medições que eles fazem lá, a empresa leva ele num setor onde tem
um fluxo menor de impurezas, de fumaça... Naquele dia que ele vem, como é
que se diz, a empresa faz um ‘maquiagem’ mas, apesar disso, o fiscal diz: ‘aqui
tem que ter insalubridade, a empresa tem que pagar’... Aí, a empresa vendo que vai ter que pagar insalubridade a 5.000 pessoas, que isso vai gerar tantos milhões a mais em cima da folha de pagamento; aí, ela chega para o fiscal, que
também quer se dar bem, e dá um ‘cala boca’ pra ele... Aí, podem vir mil fiscais que não vai dar em nada... O funcionário não fica nem sabendo. Então, isso era um
trabalho para o sindicato tá em cima, marcando, porque é ele quem representa o trabalhador... E tinha que ter esse direito porque você fica em contato com impurezas. Então, dentro de uma empresa daquelas, você sempre tá exposto ao risco, sem contar o risco de explosão, para quem trabalha com gás [E como é que está essa situação hoje? Poucas funções tem direito a insalubridade?] hoje tá tendo só na elétrica, os eletricistas [Todos correm risco, mas, só algumas
funções têm direito?] É, por que eles fazem as medições, eles alegam... tem aquela
coisa, quando o fiscal vem ele primeiro vai conversar com o diretor e, quando ele faz a fiscalização, ele volta para conversar com o diretor novamente... E lá
ele ‘bota na mesa’ o que tem e o que não tem... aí o diretor entra com ‘as coisas’, né? É assim que funciona a coisa no Brasil, isso é o Brasil! (Operário 4:
Montador de tubulação e estrutura).
Esse testemunho apresentado pelo operário nos diz sobre o descaso da empresa em relação à segurança de seus funcionários, do corrompimento e da cumplicidade dos órgãos de fiscalização e da gestão do sindicato à época. Uma vez exposto esse quadro, nos voltamos para uma análise dos diferentes momentos da atuação sindical no estaleiro.