É nas cidades, local de consumo por excelência, onde os resíduos que podem vir a ser recicláveis são descartados em grande quantidade25, que soluções mais
eficazes assumem caráter de urgência. Consumismo, desperdício, falta de saneamento básico e gerenciamento ineficiente são alguns dos fatores responsáveis pelo agravamento dessa situação.
Embora haja uma crescente preocupação em relação à temática dos resíduos entre consumidores, empresas, governos e acadêmicos (McCARTHY; SHRUM, 1993; JACKSON, 2005), pouco ainda se conhece sobre os motivos das escolhas individuais de selecionar os itens recicláveis dentro domicílio. As pessoas participam de programas de coleta seletiva por motivos que não são aparentes e nem diretamente identificados (MORGAN; HUGLES, 2006).
25Diariamente foram gerados dois bilhões de toneladas de resíduos sólidos mundialmente em 2006.
A previsão é de que até 2011 haja um crescimento de 37,3% do volume, segundo dados do Market Research, 2007, divulgados pelo estudo Vínculos de Negócios Sustentáveis em Resíduos Sólidos (INSTITUTO ETHOS, 2008).
Entretanto para serem efetivos, programas de reciclagem devem fornecer aos participantes razões ou motivos que justifiquem sua ação. Estes motivos devem ser duradouros o suficiente para resistir ao tempo, mantendo o interesse contínuo das pessoas no programa de reciclagem (MORGAN; HUGLES, 2006).
De acordo com Fishbein (1991, p. 243), “a chave do sucesso para as intervenções comportamentais é a identificação dos determinantes específicos daqueles comportamentos que se quer manter ou mudar”. Assim, estratégias efetivas que promovam a preservação ambiental deveriam envolver o entendimento de seus determinantes (MIDDLESTADT ., 2001).
Muitos estudos reconhecem que atitudes pró9ambientais positivas não são automaticamente transformadas em comportamento pró9ambiental. Todavia, uma explanação definitiva para o CPA não foi encontrada (KOLLMUSS; AYGEMAN, 2002). Diversos modelos teóricos têm sido desenvolvidos para explicar a lacuna entre a posse de conhecimento, envolvimento, valores, atitudes ambientais (de um lado) e a demonstração de comportamento (do outro), o que tem sido conhecido como “hiato atitude9comportamento” (DARNTON 2006; JACKSON, 2005; KOLLMUSS; AYGEMAN, 2002; MENESES; PALACIO, 2006). Esta é a premissa que fundamenta esta Tese, mostrando uma oportunidade de formular um arcabouço teórico para integrar resultados prévios e guiar pesquisas futuras tanto no âmbito acadêmico como para políticas públicas direcionados ao consumo e meio ambiente. Como corrolário, o problema da Tese é:
Que determinantes influenciam o comportamento para reciclagem? Quais implicações disto para formulação de políticas públicas direcionadas ao comportamento para reciclagem?
Para entender quais determinantes do comportamento para reciclagem, é necessário identificar quais escolhas comportamentais estão envolvidas no descarte dos resíduos domésticos. O descarte de lixo nas residências é uma tarefa habitual rotineira e fácil.
Apesar de a maioria dos estudos de CPA mostrar a importância do avanço teórico e empírico para o entendimento do hábito em relação ao comportamento (McCARTHY; SHRUM, 1993; STERN, 2000; GARDNER, STERN, 2002), só
recentemente esta variável começou a ser verificada sistematicamente (BAMBERG; MOSER, 2007). Comportamento para Reciclagem é uma tarefa, cujas características permitem analisar a força do hábito em relação ao comportamento. Portanto a escolha dos modelos derivados de TCP, TCI e ABC testados de maneira comparativa pode contribuir para reduzir as lacunas no entendimento de hábito. A partir disto deriva9se duas questões de pesquisa, conforme segue:
(Q1) Qual é o modelo, entre os selecionados, que melhor prediz o CR?
(Q2) Qual é a importância do hábito para o CR?
Dado que muitos modelos teóricos tem sido aplicados para entender comportamento pró9ambiental (CPA), é útil comparar alternativas explanatórias. Isto é um aspecto da sistemática abordagem conclamada por Stern (2000a). O autor discute que a pesquisa em CPA frequentemente coloca pouca atenção na comparação teórica, o que impossibilita uma síntese com diferentes abordagens teóricas. O argumento não é o da teoria imutável, mas que teorias coerentes desenvolvem9se através de pequenos degraus que foram construídos por pesquisas anteriores (WALL 2007).
A revisão da literatura revelou somente o estudo de Do Valle (2005) que recentemente usou uma mesma amostra para comparar a habilidade explanatória de diferentes modelos teóricos para explicar Comportamento para reciclagem. Os autores combinaram Teoria de Ativação da Norma (SCHWARTZ, 1968) e Teoria do Comportamento Planejado (TCP) para explicar comportamento para reciclagem em residentes de uma cidade mexicana, sob a premissa de que o uso de teorias com conceitos comparados e integrados melhora a predição de comportamento alvo.
Poucos têm examinado a complexa relação entre CPA e seus antecedentes utilizando modelos comparativos (STERN, 2000a). O objetivo desta Tese justamente remete à preocupação de Stern (2000) para síntese da teorias construídas através da comparação de modelos consolidados principalmente em comportamento de consumo e meio ambiente. Assim, o objetivo geral da Tese é:
Entender o quanto os modelos cognitivo comportamentais predizem e explicam o comportamento para reciclagem
(CR), buscando examinar a relação cognição
comportamento proposta pela sua fundamentação teórica.
Nesta Tese optou9se pela análise comparada de modelos teóricos que estudam a relação atitude9comportamento, derivadas do arcabouço teórico de escolhas racionais (TCP e TCI) comparados com uma abordagem que focaliza a importância da integração de fatores pessoais e contextuais para avaliar o comportamento humano em relação ao meio ambiente (ABC). Apesar de diferentes abordagens propostas pelos três modelos selecionados para esta Tese, todos advêm da teoria cognitivo9comportamental.
Isto posto, os objetivos específicos são:
(1) Comparar o poder explicativo dos modelos TCP, TCI e ABC para CR.
(2) Avançar no entendimento do hábito no comportamento para reciclagem
Pesquisas anteriores (AARTS 1998; RONIS ., 1989) tem sugerido que comportamento atual pode ser influenciado tanto por influências racionais (atitudes, intenções, e outros) e influencias não racionais (hábitos) Pesquisas recentes têm demonstrado que hábitos podem cancelar o efeito de avaliações cognitivas (AARTS ., 1998). Isto sugere que hábitos podem trabalhar do lado de fora dos modelos de escolha racionais (GREGORY; DI LEO, 2003).