Para desenvolvimento dessa pesquisa, foi escolhida a abordagem qualitativa pelo entendimento de que a interpretação do objeto de estudo favorece a problematização e a operacionalização das questões de pesquisa, priorizando a compreensão da realidade social e considerando a perspectiva que os interlocutores têm do objeto desse estudo. Para sustentar essa opção também recorri a Ludke e André (1986, p. 11-12), que apresentam cinco características básicas da pesquisa qualitativa:
A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento; os dados coletados são predominantemente descritivos; a preocupação com o processo é muito maior do que com o produto; o “significado” que as pessoas dão às coisas e a sua vida são focos de atenção especial pelo pesquisador; a análise dos dados tende a seguir um processo indutivo.
Para operacionalização dessa pesquisa, utilizo-me de princípios do tipo estudo de caso, conforme colocado por Ludke e André (1986, p. 17):
O caso é sempre bem delimitado, devendo ter seus contornos claramente definidos no desenrolar do estudo. O caso pode ser similar a outros , mas é ao mesmo tempo distinto, pois tem um interesse próprio, singular... O interesse , portanto, incide naquilo que ele tem de único, de particular, mesmo que posteriormente venham a ficar evidentes certas semelhanças com outros casos ou situações. Quando queremos estudar algo singular, que tenha um valor em si mesmo, devemos escolher o estudo de caso.
Neste contexto da metodologia do estudo de caso, o Programa Access é um curso de ensino da Língua Inglesa semelhante a outros cursos que têm formatos parecidos, porém ele traz a sua singularidade na medida em que será dada ênfase à questão sobre a possibilidade de favorecimento da autonomia intelectual e da reflexão crítica sobre a realidade como exercício de cidadania no decorrer do programa, o que é objeto de pesquisa deste trabalho. A delimitação e clareza do recorte da pesquisa ficam bastante evidentes uma vez que a realidade a ser estudada se limitará aos grupos de alunos do PA na cidade de Porto Alegre, não levando em conta os Programas Access que acontecem em outros lugares do Brasil e em cerca de outros oitenta países no mundo.
O estudo de caso para este trabalho foi qualitativo ou naturalístico, que na concepção das autoras Ludke e André (1986, p. 18): “[...] é o que se desenvolve numa situação natural, é rico em dados descritivos, tem um plano aberto e flexível e focaliza a realidade de forma complexa e contextualizada”.
Dentre as características fundamentais do Estudo de Caso Qualitativo citadas por Ludke e André, duas, especificamente são fortes alicerces para este trabalho. A primeira característica que afirma que os estudos de caso visam à descoberta corrobora profundamente a forma como as questões de pesquisa serão tratadas, pois a investigação deverá manter certa imparcialidade, apesar da necessária influência de pressupostos teóricos e da experiência da pesquisadora no programa a ser investigado. É necessário reforçar que é preciso manter um olhar atento e aberto a novas descobertas e assuntos emergentes durante o trabalho. A segunda característica importante para este trabalho colocada pelas autoras diz respeito à interpretação em contexto enfatizada pelos estudos de caso. Com o objetivo de obter informações que possam dar conta da problematização e das questões desta pesquisa, a contextualização é imprescindível, portanto, as percepções, os comportamentos e as interações dos interlocutores devem estar muito bem contextualizadas.
6.2 CENÁRIO
Conforme já foi mencionado, o Programa Access (PA) oferece bolsas de estudo de inglês com duração de dois anos para alunos em situação de vulnerabilidade social da rede pública de ensino entre 14 e 16 anos. Em Porto Alegre o programa acontece no Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano em parceira com a Embaixada Americana.
Atualmente são cinco turmas com cerca de quinze alunos cada uma, sendo que uma é no turno da manhã e as outras quatro no turno da tarde. As aulas acontecem duas vezes por semana e têm duração de duas horas e meia com intervalo, o que difere bastante dos cursos de inglês oferecidos no mercado, que duram bem menos do que isto, em geral em torno de uma hora, uma hora e meia no máximo. O fato da aula ser longa, permite que as professoras possam criar oportunidades para que todos participem, além disso, elas também podem oferecer atividades variadas, com uso do livro ou com outros recursos: vídeos, jogos, músicas, textos, etc.
Uma premissa do PA é que os alunos se aproximem da cultura americana, uma vez que é a Embaixada Americana que subsidia o programa, portanto é esperado que assuntos relativos aos Estados Unidos sejam tópicos discutidos em aula. Paralelo a isto, também são trazidos para as discussões e projetos assuntos sobre o Brasil e outros países também.
O trabalho voluntário é também bastante estimulado durante o programa, havendo um empenho por parte das professoras de buscar oportunidades através das quais os alunos possam ter, a maioria deles, a primeira experiência com este tipo de atividade. Além do trabalho voluntário ter um importante papel na cultura americana, ele certamente contribui para que haja uma abordagem educativa mais humanizadora.
O PA também proporciona aos alunos experiências estéticas, principalmente através de idas a exposições de arte. Este contexto faz com que o PA não seja apenas um curso de inglês, pois além do aprendizado da Língua Inglesa, os alunos têm a oportunidade de ampliar seus horizontes.
6.3 INTERLOCUTORES
Os interlocutores da pesquisa são as professoras e os alunos do Programa Access de Porto Alegre.