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Farkında Olmadan Da Olsa Bir Suça Karışmaktan Korkuyor Musunuz?

4.10. Araştırma Soruları ve Hipotezlere İlişkin Bulgular

4.10.5. Farkında Olmadan Da Olsa Bir Suça Karışmaktan Korkuyor Musunuz?

No contexto da Vara da Infância e Juventude, um processo judicial inicia-se a partir de uma denúncia de violação de direitos, efetuada por outras instituições que verificaram tal demanda, como: Conselho Tutelar, Hospital, Unidades Básicas de Saúde, Delegacias e etc. Isso significa dizer que o Poder Judiciário não é “porta de entrada” de um processo judicial, a não ser que seja “provocado” por relatórios de outras instituições ou por pessoas que vão diretamente à VIJ passar por atendimento no chamado “Plantão” do setor técnico.

Segue uma tabela, apresentando as origens dos processos judiciais de 2009 da VIJ em que foi realizada a pesquisa.

Quadro 3. Processos judiciais de casos de violência sexual infanto-juvenil em 2009: origem das denúncias

Abertos Analisados

Conselho Tutelar 21 12

Hospital 6 4

Ministério Público (Denúncia pelo site da

SEDH) 4

3

UBS 2 2

Outra Vara da Infância e

Juventude 1 1 Delegacia da Mulher 1 1 Delegacia de Polícia 1 1 ONG 1 1 Pessoa física 1 1 Total 40 26

Percebe-se que a principal instituição de onde partem as denúncias é o Conselho Tutelar, seguido do hospital e do Ministério Público, por meio de denúncias anônimas realizadas pelo disque 100. O Conselho Tutelar , tem por definição, de acordo com o art. 131, zelar pelo cumprimento dos direitos das crianças e dos adolescentes: assim como a VIJ faz parte do eixo “defesa dos Direitos Humanos” pelo Sistema de Garantia de Direitos. Estipula- se, pela referida legislação, que haverá um Conselho Tutelar, no mínimo, em cada município brasileiro e que os membros a serem nomeados conselheiros tutelares serão eleitos pela comunidade local, com um mandado de três anos.

Não será possível, neste momento, tecer uma discussão mais detalhada a respeito da instituição Conselho Tutelar. Entretanto, cabe alguns apontamentos importantes.

Com a implantação do Conselho Tutelar, a partir da promulgação do ECA, a instituição passa a assumir as funções que antes eram exercidas pela Justiça da Infância e Juventude “relacionadas aos aspectos político-sociais dos direitos das crianças e dos adolescentes”(LEMOS, 2005, p.5). Desse modo, a instituição teria abarcado algumas das demandas do Poder Judiciário, no sentido de triar os casos/denúncias que se transformarão ou não em processos judiciais.

O Conselho Tutelar é implementado como uma estratégia potente de negociação de decisões e conflitos na medida em que tais ações não eram possíveis devido à concentração de tomada de decisões em torno do juiz. “A existência dessa instituição permite um diálogo maior antes de uma decisão mais contundente diante das problemáticas relacionadas à ameaça ou violação de direitos” (LEMOS, 2005, p.05).

Entretanto, verifica-se que, com a ampliação da possibilidade de efetivação de denúncia por outra via que não o Poder Judiciário, criou-se, também, uma proliferação de processos e dossiês, além de “um intenso processo de captura dos corpos, através da escrita, do exame minucioso de comportamentos e ações que atestassem algum tipo de risco ou ruptura com as normas estabelecidas de infância ou família” (LEMOS, 2005, p. 05). Práticas policialescas e investigatórias, próximo do que Donzelot (2001) explicou ser o “inquérito social”, com estratégias e requintes, entretanto, de uma sociedade globalizada, como, por exemplo, possibilidade de denúncias pela internet.

Um exemplo dessas práticas pode ser evidenciado em um dos casos escolhidos como fonte de análise: nele, duas crianças de sete e dez anos, respectivamente, são chamadas ao Conselho Tutelar, junto com sua mãe, para uma entrevista. Fazem uma redação de próprio

punho relatando seu cotidiano e, ao final, têm seus polegares marcados com carbono e passados no papel: um atestado de que seus relatos são “verdadeiros”.

Outros aspectos com relação aos Conselhos Tutelares são levantados por Hebe Gonçalves e Ana Lúcia Ferreira (2002). De acordo com elas, os Conselhos Tutelares não estão instalados em todos os municípios brasileiros, além do mais, “apresentam falta de infraestrutura para seu funcionamento, a precariedade de serviços de retaguarda para executar as medidas aplicadas, a formação heterogênea dos conselheiros e a grande demanda de serviços” (p. 317).

Os hospitais são a segunda maior fonte de encaminhamentos de casos para a Vara da Infância e Juventude, de acordo com os processos elencados. Dois aspectos podem ser apontados: o primeiro deles é que, no fluxo de atendimento de casos de violência, o Hospital ou Pronto-Socorro é o local para onde as crianças/adolescentes devem ser encaminhadas, em casos de emergência.O segundo aspecto diz respeito à obrigatoriedade de todo serviço de saúde de notificar os casos de suspeita/confirmação de violência.

Portanto, no âmbito federal, a Portaria 737, de 16/05/01, do Ministério da Saúde, criou a “Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violência” e a Portaria 1.968, de 20/10/01, do Ministério da Saúde, tornou compulsória, para todas as instituições de saúde pública e/ou conveniadas ao Sistema Único de Saúde (SUS), em todo o território nacional, a notificação de todos os casos, suspeitos ou confirmados, de maus tratos contra crianças e adolescentes. No ano 2000, o Estado de São Paulo, através da Lei nº. 10.498, estabeleceu a notificação compulsória de maus-tratos contra crianças e adolescentes.

Voltando aos processos, é importante mencionar que estes compõem uma série de documentos organizados cronologicamente e cabe aos escreventes – que trabalham dentro do setor “Cartório” – enumerar as páginas e fazer a “juntada” do processo. Com relação aos escreventes, Dayse Cesar Franco Bernardi (2005) acrescenta: “cumprem as ordens judiciais, juntando os mandatos, ofícios, relatórios, declarações, cotas e sentenças, encaminham e recebem os autos entre os atores das ´falas´, por meio de carimbos que vão estabelecendo o tempo dos autos (p.53)”.

Observa-se, portanto, que há “autores” que “falam” ou, em outras palavras, que são “ouvidos” pelo juiz (este como responsável executar as atribuições relacionadas à Justiça da Infância e Juventude, conforme artigo 146 e 147 do ECA). Dentre os atores que “falam” diretamente nos autos, afirma Bernardi (2005) estão juiz, promotor, assistente social,

psicólogo, oficial de justiça e advogados. Indiretamente estão as outras instituições que compõem a rede de atendimento.

Há, ainda, documentos anexos aos autos que, apesar de carecerem de uma “explicação” por meio de relatos, acabam por denotarem intencionalidades. Ou seja, pode-se dizer que alguns documentos performam no sentido de terem efeito nessa rede de relações.

Como exemplo, pode-se citar a ficha de um serviço de saúde relatando que a mãe passou pelo atendimento de planejamento familiar e que sua cirurgia de laqueadura está agendada, o comprovante escolar ou carteira de vacina, ou, ainda, um comprovante da “patroa” afirmando que a mãe (cujos filhos estão abrigados) trabalha como doméstica em sua casa.