Para a América Latina, é dever do jornalista conhecer a História e a realidade político-social-econômica dos demais países. Durante os jogos pan-americanos de 2003 em Santo Domingo, na República Dominicana, um repórter da Rádio Bandeirantes, ao entrar ao vivo em um dos primeiros boletins feitos na sede dos jogos se surpreendeu ao constatar que a cidade é a mais antiga das Américas. O repórter anunciava, com certa surpresa na fala, que estava diante de uma das mais importantes e antigas catedrais, marco da colonização cristã no chamado Novo Mundo.
A América Latina é uma grande incógnita. Nomes como Mella, Miguél Mármol, Rivera, Recabarrén, Mariátegui, Martí, entre outros são desconhecidos e só aparecem nos jornais quando o México ou a Argentina produz filmes sobre determinado personagem – e quando esses filmes são premiados – ou quando alguma organização guerrilheira adota alguns destes nomes (como o Tupac Amaru, no Peru), faz um atentado e é preciso ir correndo explicar ao público com o que Emir Sader chama de “argumentos de algibeira”: enciclopédias, sites na Internet ou entrevistas-relâmpago com algum especialista em América Latina.
Parte deste desconhecimento é acadêmico. Não se ensina América Latina nas escolas, nem no Ensino Médio e nem no Ensino Superior, a não ser que se faça um curso específico no assunto. Mesmo assim, é difícil encontrar uma pós-graduação dedicada ao tema de forma integral. Aprende-se América Latina apenas o que seria necessário para entender História do Brasil: colonização, povos pré-colombianos e as guerras platinas.
As Universidades e os institutos de pesquisas acadêmicas não estabelecem parcerias com universidades latino-americanas. Há poucas linhas de pesquisa sobre a América Latina popular nas Universidades. O que é feito e produzido ainda não é o suficiente para produzir gerações de intelectuais orgânicos da América Latina, muito menos jornalistas orgânicos da América Latina.
Nas escolas de educação básica no Brasil, o ensino público foi degradado por anos de descaso dos governos e por uma campanha de despolitização dos currículos escolares
feita ainda durante o regime militar. Foram retiradas dos currículos disciplinas e conteúdos curriculares de debate e conscientização e no lugar foram introduzidas matérias com conteúdos fechados, pasteurizados. Os salários dos professores foram achatados, os investimentos diminuídos o que provocou a migração de professores para o ensino particular. As mudanças na Lei de Diretrizes e Bases e nos Parâmetros Curriculares Nacionais ainda são recentes para recuperar o estrago causado em gerações educadas com base na cartilha e na repetição. Nesse contexto, o estudo da história da América, fica restrito, quando muito, a uma “visita” longínqua às civilizações pré-colombianas e a um breve passar de olhos sobre os processos de independência, principalmente o norte- americano. Um estudante formado no terceiro ano de ensino médio conhece muito mais Lincon e Roosevelt do que Artigas e Tupac Amaru.
As poucas instituições superiores que se dedicam ao estudo da América Latina parecem fazer pregação no deserto. Esta dissertação enfrentou grandes dificuldades para encontrar linhas de pesquisa e bibliografias que não fossem aquelas usualmente estudadas. Independentemente do brilho, da qualidade, do pioneirismo e da importância dos trabalhos de José Marques de Melo e da Cátedra da Unesco, de Maria Nazareth Ferreira e do Celacs e de Cremilda Medina e do Prolam, é preciso afirmar que ainda é muito pouco para o maior país latino-americano.
Na bibliografia desta dissertação, o leitor poderá encontrar os autores tradicionais. Porém, há uma tentativa do pesquisador de buscar novas fontes, novas leituras, ou mesmo resgatar outras e traze-las para o contexto do Jornalismo na América Latina. Uma das hipóteses levantadas por este trabalho é que o enfraquecimento da América Latina popular também tem origem na pulverização dos conhecimentos. O acordo MEC-USAID, estabelecido durante a ditadura militar, fragmentou o currículo dos cursos superiores brasileiros e provocou enorme estrago, não recuperado até agora.
Quando o jornalista é chamado a cobrir algum evento num país latino-americano fica mais fácil copiar o material produzido pelas agências do que investigar com seus próprios
conhecimentos, simplesmente porque ele não os tem. Não lhe foram ensinados e ele, jornalista, também não teve motivação para ir buscá-los.
Se na mídia já há um “deserto de informação sobre a vida nacional dos povos, em benefício da notícia que privilegia o jogo das potências políticas e econômicas [...] os países latino-americanos simplesmente não interessam. A ‘globalização’ apenas acentuou o quadro de distanciamento cultural, intelectual presentes entre a elite e a nação em toda a América Latina”.189 Arbex confessou que uma das coisas que mais lhe abalaram durante o período
quem foi correspondente internacional da Folha de S.Paulo foi “saber que certas notícias eram censuradas ou descartadas não por afetaram interesses políticos ou econômicos, mas simplesmente consideradas desinteressantes a priori, mesmo se fascinantes. Eram descartadas por um processo de pura exclusão cultural”.190
O quadro para compreender a solidão da América Latina agora está mais completo. De um lado, está todo o ambiente sócio-histórico em que o jornalismo brasileiro atua: continente devastado por mais de quinhentos anos de repressão aos movimentos populares, o processo histórico de formação do Estado que alijou a participação popular de qualquer chance de manifestação, a americanização do Brasil coincidindo com o desenvolvimento da empresa jornalística, a não formação de intelectuais brasileiros orgânicos à América Latina – tudo isso tornando jornalistas e público, personagens “estranhos” ao continente. De outro lado, o próprio jornalismo, viciado na pauta consensual, nos assuntos ônibus, na circulação circular da informação, que também não se reconhece latino-americano. A tudo isso se soma a exploração do jornalista nas redações, a excessiva carga de trabalho, a ideologia do “ao-vivo”, da notícia “em tempo real” que suprime o espaço para reflexão e apuração. O jornalista explorado também não reage, pois não teve formação intelectual suficiente. A grade curricular do Ensino Superior em Jornalismo apenas o prepara para ser um cumpridor de tarefas. Mais que a grade curricular, cabe ao professor a tarefa de preparar o profissional de jornalismo consciente, crítico, que saiba diferenciar as construções históricas dos vencidos e dos vencedores. O professor é a figura que motiva a 189
ARBEX JR., José. Op. Cit.
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