• Sonuç bulunamadı

1. Terörizmin Günümüze Kadar Gelişim Süreci

1.1. Terörizmin Tanımı

1.3.6. Etnik Terörizm

1.3.1Categorias construídas e descritas

As categorizações são marcantes dentro do SNA e são uma reprodução de divisões que são próprias do pensamento ocidental moderno.

Modern Western thought places a low value on the material world and its products, paralleling traditional Christian morality: both are at odds with modern Western capitalism, which places an inordinately high value upon the possession of material. This is one of the fundamental paradoxes of Western life, and museum collections are part of the heart of it. Here we are

ϭϯϬ

concerned with the role Western philosophy has allotted to material culture, a role which objects are seen as merely the outcome or the product – or even the detritus – of primary thinking, feeling and acting which is carried out elsewhere (PEARCE, 1993, p. 17)50.

Ao retomar a divisão de Platão sobre a dualidade inerente à tradição ocidental, Pearce comenta que essa dualidade (ou seja, separar o que é imaterial do que é material, ideal versus real), composta de duas colunas (a da esquerda que concentra a superioridade essencial do que não é material, enquanto que a coluna da esquerda concentraria o que é material, além de termos a isso associados, tais como mau, impuro, etc) define a maneira de pensar do mundo ocidental, sempre pautado por essa dualidade que define a vida em sociedade e a forma como os homens organizam sua visão de mundo. O que é material está sempre associado ao mundo físico, enquanto que o que for metafísico associa-se ao não-material. Material, explica Pearce (1993) se origina da palavra “mãe”, associando assim essa palavra ao que é feminino, enquanto que o não-material fica associado ao masculino.

Figura 41 Quadro de dicotomias que marcam o pensamento ocidental. Homem Mulher Coletivo Unidade Imaterial Material Bom Mau Mundo divino Mundo físico

Ideal Real Gigante Miniatura Perene Efêmero História social Biografia

Trajeto (legislação) Desvio

Mercadoria Fetiche Sagrado Profano

Essa visão dualística, que está atrelada a uma visão cosmológica, que vê o material como sendo passivo, acaba por influenciar também a visão que Descartes terá da razão 

50 O pensamento moderno ocidental coloca um baixo valor sobre o mundo material e seus produtos,

paralelamente à moralidade tradicional cristã: ambos são discordantes com o capitalismo ocidental moderno, o qual atribui um valor excessivamente alto sobre a posse do material. Isto é um paradoxo fundamental da vida ocidental e coleções de museus são parte central disso. Aqui nós estamos preocupados que regra a filosofia ocidental tem atribuído para a cultura material, uma norma na qual os objetos são vistos como meramente o resultado ou o produto – ou mesmo o detrito – de um pensar primário, sentir e agir, o qual é posto em prática em qualquer lugar (Tradução livre).

ϭϯϭ

humana. A visão cartesiana novamente classifica o mundo material, dividindo entre corpo e mente, gerando uma crença na razão humana, atribuindo-lhe um papel superior ao que representa a materialidade. Mas o que se dá é que a ideia não sobrevive sem o material, os objetos são “inscrições intencionais sobre o mundo físico o qual incorpora significado social; [...]. Ideia e expressão não são duas partes separáveis, mas a mesma construção social” 51 (PEARCE, 1993, p. 21).

As dicotomias são categorias que podem ser infinitamente contrapostas. Nessa passagem, Pearce evoca que o ato de conhecer o mundo - essa abstração gigantesca que nos envolve, que nos contém – só se torna perceptível se tivermos o objeto material, a unidade que nos ponha em contato com o mundo e que nos aproxime da realidade para melhor percebê-la e conhecê-la. A materialidade dos objetos, portanto, é recurso imprescindível para se perceber o mundo. O caráter físico dos objetos implica que eles possam ser possuídos: eu não posso possuir a lua, mas posso ter uma réplica sua em minha casa. Assim a ideia com relação à Nossa Senhora Aparecida: não é permitido tocar ou retirar a estátua do século XVIII de seu nicho no SNA, mas é possível comprar réplicas, miniaturas, ex-votos, toda sorte de objetos que torne mais íntima a relação do devoto com esse universo em torno de Nossa Senhora Aparecida.

Objetos podem ser possuídos, estocados, manipulados, manuseados por qualquer pessoa. Possuem valor, os quais são atribuídos a eles pelos indivíduos. A forma física deles permite que contatemos essa esfera abstrata, divina, ideal que não podemos tatear, pois está além da materialidade mundana. Sem o material, o imaterial não se constitui. Sem o gigantesco, a miniatura não se constrói, sem o descartável, o que é perene não tem razão de ser. Na composição desse cenário, é que se propõe alicerçar a análise desses objetos em dicotomias selecionadas, que nos auxiliarão a bem conhecer, interpretar e perceber o que são os ex-votos do SNA e como estes medeiam relações sociais e concretizam em si mesmos o caráter documental.

Feita essa análise, cabe destacar que as categorizações tornam-se instrumento de classificação e para a interpretação do material coletado.

Todas as entrevistas foram transcritas e seus trechos selecionados conforme tais categorias previamente pensadas: alguns objetos trazem contribuições sobre uma reflexão 

51 “...intentional inscriptions on the physical world which embody social meaning;[…]. Idea and expression are

ϭϯϮ

própria, sobre o que é sagrado e o que é profano, sobre o que é masculino e o que é feminino, o gigante e a miniatura, o vendido e o doado, o efêmero e o permanente, anônimo e identificado. Para se proceder essas categorizações a observação participante, técnica etnográfica, foi um exercício primordial para perceber essa construção de valores dentro da sala das promessas.

Tais categorias, especialmente mencionadas, foram em princípio um norte para pensarmos como interpretar e classificar esse universo observado. Vale destacar que, ao final, percebeu-se que elas não dariam conta de explicar e demonstrar com maior veracidade a realidade da sala das promessas. Seria um tanto reducionista pensar a sala apenas por categorias dicotomizantes; elas não definem o espaço e foram insuficientes para a análise. Todavia, elas foram sobremodo úteis para se pensar outras relações que se dão no interior da sala e entre essa esfera com outras pertencentes ao SNA.

O principal instrumento de trabalho do etnógrafo é seu olhar. Seus olhos captam aquilo que o profissional descreverá em um segundo momento, como sendo a realidade observada e totalizada em seus diários de campo. Desde 2007 foram feitos diários e anotações, coleta de material como folhetos explicativos, fontes secundários de jornais e revistas, todo material impresso que informasse sobre o SNA.

Outro instrumento importante na construção da observação etnográfica foi o uso de fotografias. Novamente, desde as primeiras visitas de familiarização em 2007 e 2008, fotografei o espaço da sala, do Santuário, de outros locais adjacentes, do circuito religioso que abriga outras cidades. A câmera fotográfica, por produzir documento e fazer prova da realidade a favor daquilo que a descrição etnográfica apresenta, é também uma maneira de memorizar o observado: no acervo feito pela pesquisadora constam 607 fotografias, sem levar em conta fotografias retiradas de outras fontes52.

Por fim, para melhor caracterizar a observação do espaço, optou-se por trabalhar com entrevistas breves e sem estruturação na abordagem dos devotos. Entrevistas, ou melhor, falas curtas e objetivas, que respondessem à questão central: por que você, devoto ou devota, trouxe esse objeto até a sala das promessas?

Primeiramente, não haveria necessidade de longas entrevistas, sendo que a questão principal a ser respondida pelo visitante era: por que trazer aquele objeto até a sala das 

52 Há fotografias utilizadas que fazem parte do acervo fotográfico disponível no portal A12.com e em outros

sítios eletrônicos. Também fotografias retiradas de revistas foram devidamente colocadas e mencionadas suas fontes originais.

ϭϯϯ

promessas? Dessa forma, as respostas foram as mais variadas possíveis; boa parte delas, retornando à biografia do objeto em questão. Assim, os entrevistados narravam os milagres motivadores da doação do objeto. Alguns, quando solicitados pela pesquisadora, explicavam a origem e/ou procedência do objeto. Em especial, essa questão era feita quando se deparava com objetos especialmente feitos para serem ex-votos.

Noutro polo, as questões tangenciavam a fé das pessoas em Nossa Senhora Aparecida, e reforçavam que a vinda até o SNA, com o objeto votivo em mãos, era manifestação de agradecimento e de fé. Poucas vezes se consultou os entrevistados sobre o destino dos objetos. Isso porque, ao contrário do que se achava inicialmente, os indivíduos tinham sim uma pré-concepção de que o objeto que estavam doando não permaneceria na sala, com exceção das fotografias, que os próprios funcionários do balcão se encarregam de revelar que, cedo ou tarde, serão coladas no teto da sala. Quando indagados, respondiam que sabiam que o destino era para fora da sala; mesmo que não conhecendo ao certo, estava implícito em suas falas que a sala era um lugar de entrada, como porta de chegada, para então outro destino ser dado ao ex-voto.

Havendo essa percepção, compreendeu-se que tornara-se irrelevante tal questionamento, mas ainda assim a algumas pessoas foi feito para se mapear o conhecimento do fato. Isso porque uma das conclusões observadas e retiradas das falas dos devotos foi que não importa o que ocorra com o objeto depois; vale a experiência de tê-lo deixado na sala, encerrando a relação de agradecimento e de manifestação de fé para com Nossa Senhora Aparecida. Trata-se de uma experiência relacional, encerrada no momento de deixar o objeto sobre o balcão.

Tais entrevistas, como já dito, aconteceram entre os dias 14 e 18 de dezembro de 2010 e somam 84 entrevistas gravadas e fotografadas. Outras 30 sem fotografia e sem registro oral, pois as pessoas não quiseram gravar. Dessa maneira, são especialmente citados os relatos gravados, mesmo que sem fotografia em poucos casos, mas que tenha na fala escrita o documento da entrevista. As demais entrevistas e abordagens, sem registro de áudio ou fotografado, serviram para reforçar análises e descrições da sala e do comportamento dos romeiros.

Outro tipo de entrevista, de longa duração, foi feita com os representantes da igreja, que foram: padres Júlio Brustoloni, Rodrigo Arnoso, Maciel Pinheiro; a professora Zilda Ribeiro; o diretor do museu, Michel Oliveira. Com o padre Elcio Tosta e com o padre Darci

ϭϯϰ

Nicioli, os respectivos diretores do SNA durante os anos da pesquisa, nenhum deles concedeu entrevista para a pesquisa. Contudo, ambos conversaram informalmente, revelando dados e elementos importantes para a compreensão do SNA e da sala onde a pesquisa era desenvolvida.

Já essas entrevistas tinham o que se chama de roteiro semi-estruturado. Não por perguntas, mas por temas, essas entrevistas traziam à tona o tema sobre o qual estávamos interessados em conhecer melhor. Geralmente, todos falaram sobre a sala e os ex-votos, temáticas recorrentes e centrais no estudo. Também, pedia-se minimamente um esclarecimento quanto à posição da pessoa do Santuário, sua atuação, o que redundava também em saber um pouco mais acerca da estrutura do lugar e sua hierarquia. Em especial com esses dois membros do clero, a observação participante, na tentativa de captar o relato, a fala e os elementos que permeavam a mesma, foi feita, tendo em vista que não quiseram dar entrevista formal.

Ambos os diretores receberam-me em particular e colocaram-se à disposição para auxiliar na pesquisa. Sempre questionando o cunho da mesma, perguntavam como seria a coleta de dados e que para procedê-la, que utilizasse a identificação do crachá da imprensa. Em breves conversas – não superiores a 15 minutos cada uma delas – os padres Darci Nicioli e Elcio Tosta – apresentaram brevemente suas posições e colocaram-se disponíveis para encaminhar-me onde fosse necessário e nos contatos internos com outros responsáveis.

Finalmente, os comerciantes do CAR foram abordados e solicitei entrevistas. Creio que em virtude da identificação no pescoço escrita “Imprensa” e na abordagem feita, os comerciantes repeliam o contato. Indaguei-os primeiramente sobre como era a relação com o SNA. De pronto, demonstraram repulsa em responder. Quando perguntava dos romeiros, aí sim falavam com maior liberdade, mas todos, sem exceção, limitavam à resposta da primeira questão ao fato de manterem relações cordiais com a direção do SNA.

Não era o objetivo da pesquisa, todavia, compreender essa relação. O intuito era melhor compreender o todo. O silêncio, dessa maneira, revelava um assunto sensível, ao menos do ponto de vista dos comerciantes. Mas como ensina José Guilherme Magnani (2002) acerca da etnografia, ela pode se valer de várias técnicas; ele, o método etnográfico, é um modo de acercamento e de apreensão, e não uma reunião aleatória de fragmentos. Todavia, reforça o autor, não é a preocupação com fragmentos que o caracteriza, mas a forma como se olha para esses fragmentos. Nesse sentido, para detalhar tanto o CAR, como outros espaços

ϭϯϱ

do Santuário Nacional de Aparecida, foram esses fragmentos que, arranjados dentro de um todo, passavam a fazer sentido na compreensão daquela realidade.

Da observação do lugar e dos sujeitos envolvidos desdobraram-se as técnicas utilizadas: entrevistas, fotografia, diários de campo e documentos secundários. Para formar o trabalho, o antropólogo, para encerrar o trabalho etnográfico, descreve, inscreve, transcreve a realidade observada, buscando dar conta de sua totalidade.

Conforme explica Roberto Malighetti (2004, p. 111), a etnografia é mais que simples passagem do oral para o escrito. Ela é também “movimento de contínua reelaboração do escrito, de transcrição de documento a documento, produzindo um texto compósito que reúne várias formas de fontes escritas”. Por fim, o autor menciona que na Antropologia, a construção interpretativa de um objeto é sempre artificial; esta se produz na integração dos diversos níveis e das diferentes temporalidades que se misturam e fundam o processo de saber. A escritura, portanto, é um filtro dessas negociações. A experiência etnográfica só tem razão de ser na escritura etnográfica, com seus diverso procedimentos para esquematizar, para ordenar eventos e ações (MALIGHETTI, 2004).

Em resumo, o autor descreve o trabalho do etnógrafo como sendo o de um tradutor. A técnica, ou melhor, as técnicas empregadas são instrumentos para melhor desvendar o que é desconhecido e intangível caso o etnógrafo não revele.

O ato de tradução, implícito em todas as interpretações culturais, vê o etnógrafo como mediador entre um conjunto distinto de categorias e

conceitos culturais em interação. Tal como a interpretação, a tradução se

caracteriza por uma entropia que nasce do hiato entre dois universos discursivos. O etnógrafo deve dar sentido ao que é estrangeiro. Como o tradutor, aponta à solução do problema da estranheidade, cabendo-lhe comunicar a estranheidade que suas interpretações hão de negar, tornando familiar o estranho e ao mesmo tempo preservando sua estranheidade. O escopo da etnografia está em nos fazer encontrar, em nosso próprio horizonte, em nossas práticas lingüísticas, em nossa própria experiência, os recursos que nos permitam confrontar-nos com o que é estranho. Esta compreensão requer uma relação dialética entre nossas pré-compreensões e as formas de vida que estamos tratando de compreender, colhendo a “sua” visão com o “nosso” vocabulário, a nossa linguagem, a nossa escritura (MALIGHETTI, 2004, p. 114).

ϭϯϲ

CAPÍTULO 2 – PARA CHEGAR (ANTES) E ESTAR (DURANTE) NA