2. Uluslararası Aktörlerin Terörizme Yaklaşımları
2.4. BM ve NATO’nun Uluslararası Terörizme Yaklaşımları
O Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida trabalha, constantemente, a relação dicotômica do que é gigantesco e do que é miniatura. A própria estatueta que motivou a construção de todo aparato é muito pequena, se comparada a outras representações que possam existir de Maria69, ao passo que a Basílica Nova - que a abriga e toda a área da sua volta - formam o maior santuário mariano do mundo.
O SNA apresenta números vultosos: mais de dez milhões de visitantes, milhares de tijolos, telhas, banheiros, missas, tudo em grande quantidade. Embora se trate de um espaço que priva por medidas exageradas, grandes fluxos de visitação, o santuário tem uma imagem
69 Como, por exemplo, a estátua de Nossa Senhora de Fátima, com mais de um metro de altura, conhecida como
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bem pequena em tamanho, que fica quase que escondida no nicho que a guarda, atrás do altar central da Basílica Nova.
Figura 67 Altar central da Basílica Nova; ao fundo a passarela de acesso para passar em frente da imagem, indicada pela seta branca. Fonte: Erasmo Ballot, disponível no portal www.a12.com
Olhando uma fotografia como a figura acima, é visível o contraste das proporções: arcadas enormes sustentam uma basílica, composta por quatro grandes alas, que ficam superlotadas de pessoas quando há celebrações eucarísticas. A imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida desaparece nesse cenário todo tomado pelas grandes paredes de tijolos à vista que decoram a igreja.
O gigantismo do espaço é até percebido antes mesmo de se chegar ao SNA: da rodovia Dutra, que corta o município e toda a região do vale do rio Paraíba, quando nos aproximamos de Aparecida o SNA se coloca ao lado direito da rodovia, sentido São Paulo, e domina a visão do observador: a grandiosidade das dimensões do Santuário, seus espaços, divisões, alturas, trazem uma sensação de grandiosidade que, associada a Maria, traduz a ideia de grandeza na fé e no poder, ambos investidos em Nossa Senhora Aparecida. O adjetivo gigantesco é traduzível na observação desse espaço, e traduz uma ideia, como explica Susan Stewart (2007), de infinitude, exterioridade, de público, excessivamente natural: mais do que isso, no caso do SNA também, o gigantismo do espaço traz a sensação de que é difícil dar conta de perceber o todo, além do que gigantesco como é, é o Santuário que nos contém e não o
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contrário: ao passo que a miniatura promove a sensação de ser contida, o gigantesco é o que contém a tudo (STEWART, 2007).
Em continuidade a essa proposta, Stewart (2007) coloca que a leitura do gigantesco geralmente se associa a folclores, lendas e mitos, por questões de causalidade: utilizando o exemplo de Stonehenge70, na Inglaterra, a autora explica que as pedras ali sobrepostas só poderiam ter ali chegado, conforme conta a lenda, com o auxílio ou por vontade de gigantes: transferindo essa questão para o SNA, o espaço reforça essa interpretação, pois somente por uma fé gigantesca, por uma vontade muito grande e somente pelo imenso poder que é atribuído à Maria é que se construiu esse Santuário brasileiro.
O gigantesco também se liga à ideia de natural, de forças naturais – a autora fala que se deseja ter a miniatura velha e o gigante novo: esse gigante implica em força de dominação ou consumo71, em domínio e, no caso de exemplos como a figura dos ciclopes citados por James Joyce, em Ulisses, e de outros monstros da mitologia europeia, esse consumo é canibalesco: o gigante devora tudo que está à sua volta.
A novidade também se aproxima do gigantesco; o Novo Mundo (América do período da descoberta por espanhóis e portugueses) era o mundo selvagem, pagão e totalmente coberto de monstros e gigantes horrendos. A travessia do Oceano Atlântico era temida pelo risco de uma nau ser devorada por esses imensos monstros marinhos. Nesse sentido, ao dialogar e contrapor a miniatura e o gigante, Stewart nos mostra que são categorias indissociáveis e na construção da ideia de uma se faz presente o contraponto da outra: na oposição à pequena dimensão da estatueta de Aparecida, se contrapõe a imensidão do Santuário Nacional.
O SNA abarca todos os espaços, pessoas e objetos, em contraste com a estátua miniaturizada da representação de Nossa Senhora da Conceição, o SNA envolve toda essa realidade, não deixando nada lhe escapar.
A miniatura, diversamente do gigantesco, não é natural: é um produto cultural, produzida a partir do olhar performático de alguém sobre certas operações, que manipula o mundo físico: enquanto o gigantesco se associa a Deus, ao divino, a miniatura é criação humana (STEWART, 2007). Além disso, a miniatura é capaz de criar seu tempo paralelo, um
70 Stonehenge é um monumento formado por um conjunto de pedras sobrepostas, formando um círculo, o qual é
interpretado como tendo sido um templo religioso ou um lugar de sacrifício, localizado no sul da Inglaterra há mais de cinco mil anos.
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tipo de tempo transcendente que nega a mudança, tornando-se o fluxo da realidade vivida: a miniatura remete ao processo de construção de uma interioridade e ao processo de como o interior é construído.
São associações tangentes à miniatura, que em muito se encaixam na observação do SNA: enquanto a pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida é esse produto cultural, fruto da vontade humana, que remete à interioridade da relação com ela estabelecida, para que ela tenha destaque no cenário se contrapõe a ela o gigantesco Santuário que a abraça, exterior, gigantesco e que consegue abarcar tudo que a ela chegue, todos que a ele recorrem. Assim como o Santuário é esse território permeado pela grande proporção que é sua marca registrada, os espaços que o compõem também dialogam em duplicidades.
O gigantesco e a miniatura podem ser sentidos e percebidos no contexto da sala das promessas; as imensas quantidades de objetos que por ali passam diariamente estabelecem fluxos de entrada e saída, mas nesse processo, poucos objetos ficam nela ancorados, porque deixam de ser vistos como meros objetos votivos e passam a ser objetos de exposição, de museu, se tornam documentos e, por essa razão, estabelecem esse tempo em paralelo que corre com a história social dos objetos. Esse tempo compõe a biografia desses ex-votos, que são representações de fé, de devoção, objetos de mediação e de manifestação de uma vontade humana de agradecer ou pedir por algo à Nossa Senhora Aparecida.
Esse contraste quanto ao gigantismo e a miniaturização é uma duplicidade também presente na sala das promessas. A sala é imensa, indicando uma espacialidade muito grande e necessária para envolver a ideia de que Nossa Senhora Aparecida é milagrosa e que somente um espaço muito grande seria capaz de dar conta de uma quantidade tão grande de objetos como a que ali está e o volume diariamente recebido.
No portal A12.com consta que a sala das promessas é o segundo lugar mais visitado do SNA, só perdendo para a visitação da imagem de N. Sra. Aparecida. Recebe, em média, mensalmente dezenove mil objetos e, nos meses de outubro, esse número alcança trinta mil72. Conforme o portal, são setenta mil fotos que ornamentam a sala das promessas e, na entrevista feita com o padre Rodrigo Arnoso, responsável pela sala em 2010, essas eram trocadas, ao menos, uma vez no ano.
72 Disponível em http://www.a12.com/santuario/pastoral/sala_das_promessas.asp, acesso em 27 de agosto de
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A sala é ornamentada com fotografias e objetos de todo tipo, os quais estão arranjados nas paredes ou em vitrines que se localizam penduradas nos pilares de sustentação da construção. As fotografias compõem, atualmente, a maior parte dos objetos dados como votivos na sala das promessas.
ϭϳϵ 3.1.1 O gigantismo dos artefatos de cera
Figura 69 Homem segurando garganta feita em cera. SNA, dez. 2010.
Homem, 49 anos, Jaru/RO.
Em 1969. Nós “era” de uma família muito pobre no interior, na roça, e a gente se alimentava muito mal e eu ali comendo ali uma canjica de milho e acho que um pedaço de pedra que tava dentro da canjica e perfurou a garganta e por 17 dias não saía. Daí por 17 dias...minha mãe, na época a gente não tinha rádio, mas a mulher do patrão tinha rádio aí minha mãe foi e o padre Vito dava a bênção da água através do rádio e minha mãe foi e levou a água pra ser abençoada em cima do rádio, e passou pra mim, mandou que eu bebesse. Naquele desespero, porque eu tinha ido ao médico e ele falou que eu precisava fazer cirurgia, mas meu pai não tinha condições de pagar. Ao tomar essa água, três minutos depois que eu bebi a água aquele objeto se soltou da garganta, e graças a Deus, porque eu só tava pele e osso, porque não podia se alimentar, mas como era de família péssima, nem assim caldo de vitamina não podia tomar, né, tomava caldo assim, né...isso foi 1969.
B.: O senhor tinha quanto anos?
Eu tinha 8 anos. De lá eu fui pro interior de Rondônia. Minha mãe já faleceu há 13 anos, mas antes de morrer ela falou: “você tem essa promessa, você tem que ir a Aparecida, eu to prestes a morrer, mas você vá”. E aí, pela primeira vez hoje eu saí do estado de Rondônia, vim visitar uns parentes, mas aí eu falei, nessa saída minha Aparecida tá incluído.
Além das fotografias, o outro objeto que é muito recebido na sala das promessas são as peças confeccionadas em cera. São artefatos que imitam o formato de órgãos humanos. A
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tradição do uso das peças feitas em cera como votivas é antiga. Assim como o senhor acima fotografado, os objetos de cera sempre vêm associados a males de saúde, com exceção de flores, casas e velas de cera. Todos os demais objetos feitos em cera que estão à venda no SNA assumem formas de órgãos humanos, partes do corpo humano, individualizados e classificados nas gôndolas das lojas por tipo, tamanho, etc.
Ludmilla Jordanova (1989, p.36) menciona os usos das peças de cera, explicando que desde o século XVII essa matéria-prima era utilizada para fazer réplicas de corpos e órgãos, a fim de servirem à educação de médicos, bem como foram importantes utensílios na educação sexual, além do uso como objetos votivos.
A autora segue adiante, exemplificando a discussão com os modelos de cera de Madame Tussaud: “In her mind, a moral Project was uppermost – exact likenesses of major figures involved in the French Revolution had a valuable lesson to teach their audiences”73. A cera serviu para reproduzir modelos inanimados de pessoas e, ainda hoje, é utilizada como matéria-prima para confeccionar objetos bem detalhados, como os ex-votos. O uso da cera constitui-se em uma prática recorrente ao longo da história seja para moldar corpos ou partes dele, pois tem essa característica de fácil adaptação a qualquer forma.
A cera é facilmente manipulada para se fazer qualquer forma, portanto; no santuário de Aparecida é possível encontrar uma grande variedade desses objetos em diferentes formatos, tais como coração, rins, fígado, pulmões, mãos, pés. Não apenas ali, mas outros santuários ou lugares sagrados no Brasil recebem tais objetos votivos também, como é o caso de um santuário de visitação no município de Maracaí/SP (FREITAS, 2006), dedicado à memória do menino Antonio Marcelino74.
Artefatos confeccionados com cera estão presentes e são itens comuns nas lojas do SNA. E, geralmente, estão associados a graças e relatos de milagres relativos à recuperação de saúde ou cura de doenças.
73 “Na mente dela [Madame Tussaud], um projeto moral era o principal – a exata semelhança com as maiores
figuras envolvidas na Revolução Francesa era uma valiosa lição para educar suas audiências” (Tradução livre).
74 Conta a tradição local que o menino teria nascido normal, no ano de 1900, porém o crescimento de seu corpo
foi prejudicado e vivera em cima de uma tábua de lavar roupas. Conta-se que vivia apenas de água e leite e nunca vestira uma peça de roupa e que, mesmo no inverno, se desfazia delas misteriosamente. Faleceu em 1945, foi enterrado com a tábua sobre a qual vivera.
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Figura 70 Artefatos de cera pendurados na sala das promessas. SNA, dez. 2010.
Há outros formatos para esses objetos, tais como mãos (direita e esquerda), pernas, todos os órgãos humanos internos, cabeças, olhos, etc. Há somente um único dentre esses que não é relativo ao corpo humano: há casas feitas com cera. Possivelmente, como os pedidos de cura, o desejo de adquirir uma casa seja bastante comum, fazendo com que esse tipo de representação em cera seja corriqueiro de ali ser encontrada. E também nesse caso o devoto representa especificamente o fulcro de seu pedido para a estatueta de Aparecida.
Os objetos feitos com cera são leves, facilmente manipulados pelas pessoas. Geralmente são de uma única cor, mantendo a aparência da substância (cera). Os formatos variam, pois representam órgãos e membros humanos, sendo assim muito próximos do real: o tamanho, as características físicas, e o molde (usado no fabrico da peça) ajudam a pôr o peregrino em contato direto com aquilo que é o ponto central de sua prece à Maria.
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Figura 71 Objetos de cera à venda no SNA: é possível identificar nas etiquetas das prateleiras (de cima para baixo) cabeças de adultos e de crianças, úteros, seios, casinhas de cera e coxas. Fonte: Revista Unesp Ciência.
Fotógrafo: Guilherme Gomes. Dez.2010.
Este tipo de oferta, representativa de órgãos humanos, é bastante recorrente em santuários católicos. Outros santuários, muitos deles na Europa, mantêm suas coleções de objetos votivos. Entretanto, é fácil encontrar nesse continente, especialmente, ex-votos feitos em prata, o que confere outras qualidades aos objetos75. A prata é mais cara que a cera, provavelmente isso influencie em não ser esse tipo de objeto encontrado em Aparecida ou inviabilize seu uso em virtude dos custos mais elevados. Além disso, a cera pode concretizar uma forma tridimensional, diferentemente da prata, que permite apenas uma forma bidimensional ao objeto votivo.
O ex-voto feito com prata demanda mais trabalho, habilidade para fazer e criar, fato que o torna mais caro também. Ele precisa de aptidão para ser esculpido ou moldado na forma
75 Há vários santuários marianos na Europa; um deles, onde há uma coleção grande de ex-votos de prata fica em
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desejada. Peças feitas em cera, no entanto, são mais fáceis de fazer, só dependem do molde e esse as confere o realismo que as caracteriza. Possivelmente, esse é o ponto que faz com que os devotos se sintam atraídos por eles: os visitantes não oferecem a si próprios, mas a peça de cera oferecida é um caminho que os faz presentes, em materialidade e em pensamento, naquele lugar sagrado, pondo-os próximos à imagem de Aparecida.
Figura 72 Gôndolas com objetos de cera, à venda em loja no interior do SNA. Dez. 2010.
Figura 73 Caixotes contendo objetos que cera, retirados da sala das promessas. Essa rampa dá acesso à sala. SNA, dez. 2009.
Como dissemos anteriormente, as quantidades de objetos recebidos e de artefatos de cera são consideráveis, haja vista a agilidade que os define como ex-votos. Diariamente, as pessoas os compram nas lojas dentro do SNA ou nas imediações; então os deixam na sala das promessas. Quando o volume de peças de cera é grande e não havendo ele dano em sua