Apesar de algumas vezes questionadas, as ideias propostas pelas três abordagens comentadas continuam válidas para explicar a terceira onda da internacionalização das empresas, que traz como novos protagonistas as multinacionais de países emergentes (MPEs). Os estudos conduzidos por Ramamurti e Singh (2009) e outros pesquisadores de países emergentes permitiu testar as teorias de NI existentes, dentro do contexto das MPEs, fortalecendo ou, em alguns casos, até refutando tais teorias. Estes estudos apontam que há alguns aspectos da internacionalização das MPEs que as abordagens tradicionais não conseguem explicar.
Uma característica muito importante das MPEs é que elas não se internacionalizam somente para explorar suas vantagens competitivas pré-existentes, mas também para adquirir novas capacidades (MATHEWS, 2002). Grande parte das MPEs precisa superar um duplo desafio no processo de internacionalização: o risco de ser estrangeiro (liability of foreignness) e o desenvolvimento de competências, dada sua base de recursos inicial limitada. Além disso, tipicamente a sua expansão internacional é mais acelerada do que é preconizado pela abordagem comportamental, fato este que afeta as experiências, as competências e os conhecimentos acumulados pela firma.
Também é importante observar os diferentes estágios de internacionalização que se encontram as multinacionais de mercados emergentes e aquelas de países desenvolvidos. Por muitos anos as teorias de NI estiveram focadas em empresas em estágio avançado de internacionalização; embora haja um número crescente de pesquisas envolvendo MPEs, Ramamurti (2009b) destaca que ainda não há um modelo teórico consolidado para descrever a estratégia das EMNs infantes. Todavia, uma importante contribuição para o estudo de negócios internacionais envolvendo MPEs foi dada por Ramamurti (2009a; 2009b) ao propor um framework teórico que contempla cinco estratégias genéricas de internacionalização, empregadas pelas multinacionais emergentes: integradora vertical de recursos naturais; otimizadora local; parceira de baixo custo; consolidadora global; pioneira global (first-mover).
A partir dos conceitos de CSA e FSA propostos por Rugman e Verbeke (2001), Ramamurti (2009a) aprimora a análise das trajetórias de internacionalização das MPE, incorporando o papel dos contextos macro internacional e da indústria, como representado graficamente na Figura 3.
Figura 3 – Papel do contexto na internacionalização das MPEs. Fonte: RAMAMURTI, 2009a, p. 421.
Assim, uma característica comum importante pode ser observada nas MPEs: comparadas com as EMNs de países desenvolvidos, a maioria delas se internacionalizou tardiamente, porque seus países de origem abraçaram a globalização mais tarde. Isto criou um conjunto comum de desafios, para boa parte das MPEs – enfrentar inicialmente a competição de multinacionais em seu próprio mercado local, atingir um nível avançado de tecnologia e de melhores práticas, e expandir suas operações para mercados externos. Empresas que venceram esses desafios transformaram o seu status de retardatárias (late movers) em uma vantagem, não somente em outros países emergentes, mas também em países desenvolvidos.
Ramamurti (2009a) destaca que as MPEs não constituem um grupo homogêneo de empresas: os países de origem, as indústrias nas quais atuam, as vantagens competitivas que exploram, os mercados alvo e os caminhos de internacionalização são muito diversos, portanto não permitem generalizações. Segundo Ramamurti, as MPEs se internacionalizaram em um contexto diferente das EMNs que surgiram anteriormente; o ambiente tecnológico e as políticas internacionais mudaram muito a partir de 1990, com mercados mais abertos, muitos
avanços tecnológicos em telecomunicações e tecnologia da informação (TI), o surgimento da Internet e a revolução digital, acarretando custos muito menores de coordenação e internacionalização. Além disso, com a globalização, os mercados de capital também estão mais abertos, e há maior disponibilidade de serviços de alta qualidade. Este contexto diverso influencia de forma determinante a trajetória de internacionalização que as MPEs estão experimentando.
Esse contexto também é considerado por Casanova (2009), que estuda o fenômeno da emergência das chamadas Global Latinas – multinacionais originárias da América Latina que se expandiram mundialmente. A autora procura explicar essa expansão a partir da premissa de que essas corporações criaram modelos de negócios desenhados para sua inserção internacional, fortalecidas pela sobrevivência às sucessivas crises políticas e econômicas da região, por meio da análise de empresas como Cemex, Embraer, Vale e Politec, buscando validar esse enfoque. Ela alega que essa região experimentou uma forte abertura econômica nos anos 1980 e 1990, em parte devido a pressões de organismos internacionais como o FMI (Fundo Monetário Internacional), e que países como Brasil, Chile e México foram transformados em um “laboratório do mundo”, com a passagem de ativos do Estado para as mãos do mercado privado. Segundo a autora, essas privatizações contribuíram para o surgimento, na região, de algumas empresas globais muito bem sucedidas, que se beneficiaram do maior dinamismo no mercado na ocasião.
No caso específico das multinacionais brasileiras, prevalece de 1930 a 1980 no Brasil um modelo de Estado desenvolvimentista, com proteção ao mercado interno e atuação direta do estado em muitas atividades econômicas produtivas do país (FLEURY; FLEURY; REIS, 2010). Estas políticas econômicas provocaram, por exemplo, alterações nos custos relativos para atuação das empresas em determinados setores, determinando assim o contexto no qual teve início a industrialização do Brasil. A relativa dependência dos empreendedores locais em relação às instituições governamentais, que se pode observar até hoje, é explicada por estes fatores, bem como o seu alto grau de aversão ao risco, e sua visão limitada do cenário para negócios internacionais (FLEURY; FLEURY, 2009).