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Mesmo diante da expansão do poderio sírio sobre o Líbano, o governo de Israel não implementou nenhuma ação militar que pudesse gerar um confronto direto entre ambos. Diplomaticamente o governo israelense deixava claro de que não pactuava com o tipo de intervenção militar que contava com o respaldo da Liga Árabe, e ia além ao questionar a ineficiência do governo libanês em aceitar a presença da OLP em seu território e permitir que dali fossem implementados ataques contra o norte de Israel.

A situação no sul do Líbano era controlada graças à presença da SLA dando suporte militar aos planos israelenses – que era estabelecer um limite territorial entre sua fronteira ao norte e o Rio Litani, de onde não poderiam ser atingidos pelo armamento dos palestinos –, entretanto, em 11 de março de 1978, integrantes da Fatah – organização ligada à OLP e comandada por Yasser Arafat – assassinaram vários turistas no litoral israelense e seqüestraram um ônibus na estrada entre Haifa e Tel Aviv. O ônibus foi tomado de assalto pelos soldados da IDF (Israel Defense Force) quando estava quase chegando em Tel Aviv. Os seqüestradores e 37 israelenses foram assassinados. (Fisk, 2001: 123)

Em represália à ação palestina, Israel, em 14 de março, programou a invasão do sul do Líbano no que chamou de Operação Litani. Para alcançar seus objetivos, os israelenses enviaram 28.000 soldados para o território libanês com o intuito de destruir todas as bases terroristas da OLP no sul daquele país. E, para que não houve dúvida com relação às intenções do Estado de Israel, seu Ministro da Defesa, Ezer Weizman, deixou claro que não pretendia entrar em conflito com as FAD’s e, tampouco, com o Exército libanês:

I hope, that Syria will understand that it is an operation limited to southern Lebanon, that the Lebanese government will understand that it is a preventive operation, and that the rest of the civilised world will realise that it is aimed essentially at preventing fresh attacks against Israel’s civilian population like the ones we have suffered. (Fisk, 2001: 124)

Colocada em prática a estratégia militar israelense, em apenas quatro dias seu exército já havia conquistado uma extensa faixa do território libanês que avançava até o Rio Litani e cobria os cem quilômetros de fronteiras entre os dois países.

Diante da ação israelense uma questão tornou-se preocupante: estaria mesmo o Estado de Israel estendendo seus domínios até o Rio Litani para defender-se de futuros ataques palestinos ou tentando conquistar, à força, o território que era pretendido pelos sionistas desde a Conferência de Paz de Versailles? Porque, naquela ocasião, compreendendo que a escassez

de água na região era um problema caótico, estabeleceram que ter uma fonte de abastecimento como o Rio Litani seria providencial. Também, devido à agressividade com que Israel adentrou em território libanês e violou sua soberania, logo suas intenções passaram a ser questionadas.

Em 19 de março, devido à invasão israelense ao Líbano, o Conselho de Segurança da ONU reuniu-se e publicou a Resolução nº 425. Conforme suas disposições, o Estado de Israel deveria deixar o território

libanês imediatamente para que sua soberania fosse restaurada, também, o mesmo documento dispunha acerca da criação de uma Força de Paz para a região, a Union Nations Interim Force in Lebanon (UNIFIL). Apesar de a Resolução atribuir o

caráter emergencial à saída de Israel do Líbano, tal situação perdurou até 13 de junho, porém, apesar de sua retirada, o território que havia sido conquistado passou para a milícia SLA do general Haddad, aliado dos israelenses.

A presença israelense no sul do Líbano gerou grandes transformações sociais na região. Primeiramente por ter conseguido expulsar mais de 65.000 palestinos do sul do país para localidades acima do Rio Litani e, também, por ter deslocado mais de 250.000 libaneses de seu território. A comunidade xiita, que há muito vinha sofrendo com as ações palestinas e israelenses, foi uma das mais prejudicadas. Marginalizada pelo governo libanês e perseguida pelas milícias cristãs, tornou-se solo fértil para o florescimento de pensamentos que, cada vez mais, conseguiam responder aos seus anseios, quais sejam, o desejo de restaurar um status

quo idealizado – mas não necessariamente existido em tempos passados, durante a presença

do Profeta Maomé na Terra – e lutar para a criação de uma Estado Islâmico no Líbano57.

Perante essa nova realidade que transformava o sul do Líbano, um nome despontava como emblemático, o líder da Organização AMAL (Esperança, na sua tradução para o

57 Essa proposta não era unanimidade junto aos xiitas, devido a esse fato que, posteriormente haveria a cisão do

AMAL e a criação do Hizbullah.

português), Musa al-Sadr58. Líder carismático, mantinha fortes ligações com as autoridades religiosas iranianas – dentre eles, o aiatolá Khomeini –, entretanto, ao mesmo tempo em que pautava sua trajetória nas questões religiosas, pairava sobre si a suspeita de que recebia auxílio financeiro da Líbia para enfrentar os israelenses.

Se, no sul do Líbano, havia um movimento xiita que iria tornar-se mais forte no futuro, no norte do país as relações no interior da comunidade cristã se deterioravam mais ainda. Em 31 de maio, na cidade de Chekka, partidários de Gemayel e Franjieh se enfrentaram numa disputa pelo domínio da região. Os falangistas de Gemayel pretendiam expandir seu poder até o ‘feudo’ de Franjieh. O resultado dos confrontos foi a morte de quatro membros da Falange. Com o pretexto de chegarem a um acordo com relação à região de litígio, em 13 de junho partidários de Gemayel se reuniram com Tony Franjieh em sua propriedade e, após o fim da reunião deixaram o local mas retornaram na mesma noite para assassiná-lo. Juntamente com a morte do filho de Suleiman Franjieh, foram assassinados sua nora, neta e 31 partidárias.

Como represália, em 18 de junho, Franjieh mandou aprisionar 22 falangistas. Em seguida eles foram assassinados e mutilados. A resposta serviu para que Gemayel não mais atacasse a região de Chekka, clamada por Franjieh como sendo pertencente a sua área de influência.

O ano de 1978 ainda seria marcante devido a dois eventos que teriam repercussão nos acontecimentos posteriores da história libanesa: em 25 de agosto, após uma viagem à Líbia, o líder espiritual dos xiitas, Imã Musa al-Sadr, desapareceu. Devido ao aspecto místico agregado ao fato, sua figura passou a ser ainda mais idolatrada e serviria como incentivo para o surgimento de movimentos fundamentalistas xiitas no Líbano. Também, com a anuência do presidente norte-americano, Jimmy Carter, iniciaram-se as reuniões em Camp David entre o presidente egípcio, Anwar Sadat e o primeiro-ministro israelense, Menachem Begin em 5 de setembro. A pretensão dos Acordos que ali nasceram deveriam ser o ponto de partida para a solução do conflito árabe-israelense, mas os desdobramentos históricos provam que não aconteceu exatamente como o esperado.

Depois de muita tensão e posições adversas no tocante às questões relacionadas à anexação do leste de Jerusalém à Cisjordânia e com relação à devolução dos territórios ocupados no Sinai para o Egito, devido à pressão estadunidense, chegou-se a assinatura de

58 Sobre Sadr, o Amal e os acontecimentos que levaram à criação do Hizbullah abordaremos no próximo

capítulo, contudo, é fundamental salientar que Sadr transformou-se numa personalidade importante para a comunidade xiita e, quando, ainda em 1978, desapareceu, após uma viagem à Líbia, tornou-se uma figura idealizada e que fortaleceria o desejo de vitória dos xiitas perante seus algozes (os israelenses, conforme defenderão em seguida).

dois documentos por parte de Sadat e Begin, que foram intitulados de “Um Plano para a Paz no Oriente Médio” e “Um Plano para a Conclusão de um Tratado de Paz entre Israel e Egito”, ambos foram assinados no último dia de Camp David, 17 de setembro de 1978.

O primeiro afirmava em seu preâmbulo: “A base estabelecida para um acordo de paz no conflito entre Israel e seus vizinhos é a Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU em todas as suas partes”. O plano tratava da Cisjordânia e de Gaza e visava nada menos do que “à solução do problema palestino em todos os seus aspectos”. Egito, Israel, Jordânia e os representantes do povo palestino deveriam participar das negociações, que aconteceriam em três etapas. Na primeira, seriam estabelecidas regras básicas para eleger uma “autoridade soberana” para os territórios e seriam definidos os poderes dessa autoridade. Na segunda etapa, tendo sido estabelecida a autoridade soberana, começaria um período de transição. O governo militar de Israel e sua administração civil se retirariam; as forças armadas de Israel também se retirariam e as tropas remanescentes seriam reposicionadas em locais específicos de segurança. Na terceira etapa, que não deveria passar do terceiro ano após o início do período de transição, aconteceriam negociação para determinar a situação final da Cisjordânia e Gaza. As negociações teriam de reconhecer “os direitos legítimos do povo palestino e suas exigências justas”. (Shlaim, 2004: 423)

Apesar de os Acordos vincularem quaisquer possibilidades de paz à devolução da península do Sinai ao Egito e, ao reconhecimento da autonomia dos palestinos, internamente, em Israel, Begin passou a ser fortemente atacado por ter cedido em demasia durante as negociações. Concomitantemente, Sadat era atacado “tanto por pan-arabistas seculares quanto por islamistas [que] rejeitaram tal acomodação e a denunciaram como traição. Os espíritos se inquietaram ainda mais com a assinatura do acordo de paz em 1979. No mesmo ano, Sadat defendeu a separação entre Estado e religião. A oposição ao regime autoritário foi crescendo, tanto do lado de intelectuais progressistas, quanto de fundamentalistas. Paralelamente a repressão aumentou.” (Demant, 2004: 214)

O Líbano, cada vez mais imerso na guerra civil, com a OLP ganhando cada vez mais poder e autonomia em seu território, não conseguia vislumbrar uma saída para a crise que se abatia ao Estado. A forte repulsa dos países árabes pela posição assumida pelo Egito (ratificada pela expulsão do Egito da Liga Árabe, durante a convenção ocorrida em Bagdá, em 1980), no tocante à negociação com Israel, também estava presente nos grupos paramilitares em ação no Líbano. Sem conseguir resolver os problemas internos, os grupos que encontravam-se em estado de beligerância no Líbano, já encontravam outros pontos que aumentariam a divergência entre si.

Durante os anos de 1979 e 1980, os atritos entre as milícias cristãs também se intensificaram e, dessas com os muçulmanos. Contudo, três novos ingredientes trouxeram mais problemas para a situação dos países do Oriente Médio: 1) Após a Revolução Iraniana e ascensão ao poder do aiatolá Khomeini, os grupos políticos que lhe faziam oposição foram eliminados, fato que fortaleceu o Estado Islâmico e dificultou a propagação de quaisquer idéias contrárias que pudessem nascer de seus nacionais; 2) A crise dos reféns norte- americanos que ficaram presos em Teerã e que acabou contando com o auxílio de Arafat como negociador, modificando a percepção internacional da OLP59; e 3) A criação de um

‘estado independente’ no sul do Líbano, governado pelo Comandante Saad Haddad, líder da SLA, aliada de Israel.

A essas três complicações que interferiam diretamente na problemática da guerra civil libanesa, outra questão pode ser incluída: a dificuldade de os libaneses estabelecerem um posicionamento político em quaisquer questões regionais sem que provocasse represálias por parte dos adversários. Isso tornou-se evidente durante a guerra entre Irã e Iraque, que teve início em 1980. O conflito, cuja motivação inicial pode ser classificada como uma luta pela hegemonia política regional, ampliou-se e passou a implicar em interesses estratégicos de outros países. Nesse contexto, os Estados Unidos surgiram como o principal interventor, entretanto, não é possível desconsiderar o apoio que o Iraque recebeu da União Soviética e França que, em um plano mais amplo de análise, temiam o alastramento da revolução islâmica e modificação na estrutura geopolítica do Oriente Médio. Antagonicamente à visão das potências européias, os xiitas libaneses se colocavam ao lado dos iranianos, devido, em

59 “Em 4 de novembro de 1979, estudantes invadiram a embaixada dos Estados Unidos em Teerã, fazendo 66

reféns por 444 dias. No momento da ação, havia 90 pessoas dentro, mas seis americanos fugiram e os não- americanos foram libertados. Os estudantes exibiram os reféns vendados para humilhar os EUA, chamado de ‘grande satã’. Eles exigiam a expulsão do xá Reza Pahlev, que estava nos EUA em tratamento contra o câncer, depois de ter sido derrubado no Irã.

Manifestantes cercaram a embaixada depois de o novo líder, o aiatolá Khomeini, ter pedido que alvos israelenses e americanos fossem atacados.

A libertação dos reféns se tornou uma das prioridades do governo democrata de Jimmy Carter e seu fracasso contribuiu para sua derrota contra o republicano Ronald Reagan na eleição de 1980. Duas semanas depois, Khomeini mandou libertar 13 reféns: as mulheres e os negros. Em julho de 1980, com esclerose múltipla, o vice- cônsul Richard Queen também foi libertado. Os demais permaneceram em cativeiro por 444 dias.

Em abril de 1980, os EUA tentaram uma operação de resgate que terminou em mais humilhação. Dois helicópteros quebraram durante uma tempestade de areia, e um terceiro se chocou contra um avião que estava decolando. Oito americanos morreram no choque entre o helicóptero e o avião.

Para evitar outra operação, os seqüestradores separaram os reféns e os espalharam por vários locais no Irã. Os reféns foram libertados no dia da posse de Reagan (20 de janeiro de 1981) e depois da morte do xá Reza Pahlev. Os EUA desbloquearam fundos iranianos no valor de US$ 8 bilhões e anistiaram os seqüestradores. Os reféns chegaram a Washington, onde tiveram uma recepção de heróis, com direito a desfile e a recepção na Casa Branca - já ocupada por Ronald Reagan.” (“Os 25 anos do seqüestro de 444 dias no Irã” in www.bbcbrasil.com, 06/11/2004)

grande parte, à influência social e religiosa que o Irã passara a exercer junto à comunidade local.

Nesse ambiente conturbado interna e externamente, o Líbano acabou sendo cenário de mais uma crise internacional que se estenderia de dezembro de 1980 a junho de 1981. A Síria, para evitar que fosse construída uma estrada que ligasse Zahle (enclave cristão numa região predominantemente muçulmana) ao porto de Junieh, passou a implementar ataques aéreos à cidade. O receio sírio era de que, com a construção da estrada, facilitaria um ataque israelense surpresa por aquela localidade. Como estratégia para dominar Zahle, o governo de Assad construiu cinco rampas de foguete SAM-6, na planície de Bekaa, despertando preocupação aos israelenses e modificando o entendimento que existia entre os dois países desde a invasão síria ao Líbano, qual seja, de que a Síria não ultrapassaria o Rio Litani, tampouco colocaria em risco a segurança da região norte de Israel.

O risco de um enfrentamento maior entre Síria e Israel fez com que os Estados Unidos enviasse para o Oriente Médio Philip Habib, para mediar uma provável negociação entre as partes. Habib manteve contato com Assad e lideranças israelenses para que se chegasse a um consenso e evitasse a guerra. Não houve qualquer possibilidade de negociação e a tensão se estendeu até que Israel, numa ação arrasadora, enviou 80 aviões de combate para destruir as bases de mísseis sírios.

Após a destruição das baterias sírias e conseqüente reeleição de Begin60, a postura de Israel, no tocante à questão libanesa e aos palestinos, tornou-se mais incisiva. Tanto é fato que, logo no mês de julho de 1981 foi programada uma violenta ação militar contra as bases da OLP no sul do Líbano. E, diante do agravamento da situação política entre os atores, novamente, os Estados Unidos encarregaram Habib de negociar um cessar-fogo.

Habib conseguiu chegar a um entendimento e o cessar-fago foi estabelecido. Entretanto, a trégua passou a ser vista de maneira distinta pelas partes. Os palestinos entenderam que, devido aos Estados Unidos terem negociado diretamente com a OLP, tinham-na reconhecido tacitamente – uma vitória relevante e que poderia facilitar as relações como outros atores no futuro –; por outro lado, Israel também sentia-se vitorioso por ter conseguido destruir parte da Resistência da OLP e, com isso, ter ratificado seu poderio militar, talvez até, fazendo com que os palestinos pensassem duas vezes antes de iniciar qualquer ataque contra alvos israelenses.

60 Sua reeleição também esteve apoiada na ação empregada contra o Iraque (1981), quando optou por destruir o

reator nuclear de Osirak – construído com o apoio francês – que, segundo sua percepção, daria poderes para que Saddam Hussein destruísse o Estado de Israel. Diante do perigo iminente, Begin não viu outra possibilidade senão uma ação militar intensa e pontual. O reator nuclear de Osirak foi destruído e Begin reeleito.

Ainda, antes do próximo acontecimento que mudaria drasticamente a história do conflito libanês, ocorreu um evento no cenário médio oriental que apontou para a intensificação do movimento fundamentalista: em 06 de outubro de 1981, na cidade do Cairo, o Presidente Anwar Sadat foi assassinado por extremistas que rejeitavam a aproximação que o Egito vinha tendo com Israel. “Em todos os campos de refugiados palestinos do Líbano as metralhadoras dispararam para o alto em sinal de festejo.” (Del Pino, 1989: 133)

2.4 - 1982, UM NOVO REINÍCIO PARA UMA GUERRA SEM FIM

Ainda, reflexo dos Acordos de Camp David, é possível concluir que o processo de paz iniciado entre Egito e Israel, de certa forma, enfraqueceu a OLP, haja vista a ‘Questão Palestina’ ser um elemento que unia os árabes na luta contra os israelenses. Aceitar as bases do acordo e iniciar o diálogo já era – segundo o ponto de vista de algumas organizações fundamentalistas islâmicas mais radicais –, por si só, um ato de traição. Que foi sublimado com o assassinato de Sadat.

Pensando nesse panorama adverso para os palestinos, o governo de Israel resolveu que deveria colocar em prática uma estratégia que visava retirar a OLP, definitivamente, do jogo político. Em junho de 1982 Israel resolveu invadir o Líbano.

Dois elementos da política israelense levaram à invasão em grande escala do Líbano, em junho de 1982: a aliança com os cristãos libaneses e o desejo de destruir a OLP. Menachem Begin apoiava fortemente esses dois elementos de sua política. Durante seus anos na oposição, desenvolvera uma concepção político-estratégica semelhante, em alguns aspectos, àquela de seu grande rival David Ben-Gurion. Essa concepção enfatizava os interesses comuns a Israel, aos países não-árabes ou não-muçulmanos e às minorias no Oriente Médio e em sua periferia. Dentro dessa concepção, os cristãos do Líbano tinham um lugar especial, porque alegadamente enfrentavam o perigo de destruição nas mãos de seus oponentes árabes e muçulmanos. (Shlaim, 2004: 447)

Com um contingente militar nunca antes empregado contra o Líbano, Israel colocou em prática a “Operação Paz na Galiléia”. Invadiu o sul do Líbano em 6 de junho e marchou rumo à capital. Num primeiro momento a intenção dos israelenses parecia ser destruir as bases da OLP no sul do país invadido de forma que Israel não mais tivesse sua integridade territorial violada, contudo, o plano de Ariel Sharon, ministro da defesa e responsável pela ação militar, era bem mais ambicioso e pretendia aniquilar as possibilidades de reação da

organização palestina, expulsando-a do Líbano. A ação de Sharon acabou por desvirtuar as intenções de Begin – que restringia-se a destruir as bases da OLP no sul do Líbano –, então primeiro-ministro, fazendo com que ele se sentisse traído pelo ministro da defesa. Com isso, os efeitos negativos da “Operação Paz na Galiléia” e seus desdobramentos, também atingiram politicamente Begin.

Utilizando seu potencial bélico de maneira arrasadora, Israel colocou em prática sua estratégia militar bombardeando todas as localidades onde pudesse haver resistência palestina, inclusive os campos de refugiados nos subúrbios de Beirute. Gradualmente a conquista do sul foi se consumando e a marcha em direção a Beirute passou a representar um risco para o

status quo sírio no Líbano. O que fora um “acordo de cavalheiros” – não ultrapassar as

fronteira do Rio Litani –, e que a síria honrou para evitar o atrito direto com Israel, acabou sendo esquecido em prol dos interesses israelenses.