• Sonuç bulunamadı

ENFLASYON MUHASEBESİ UYGULAMALARININ TÜRKİYE’DEKİ DÜZENLEMELER KAPSAMINDA

2.3. Enflasyonun Mali Tablolar Üzerindeki Etkileri

Para se compreender os fundamentos da cultura popular no Brasil há de se fazer algumas reflexões sobre o conceito de Estado Nacional que durante um período importante da história européia, notadamente no século XVIII, gerou um importante deslocamento social que acabou se constituindo numa base para a formação do caráter e da identidade dos grupos sociais. Se na Idade Média o homem era primeiramente cristão e só depois um cidadão inglês, a situação se inverte e a nacionalidade ocupa um espaço sem precedentes na história do homem.

A cultura popular brasileira, principalmente através do trabalho pioneiro de Silvio Romero, se insere dentro deste contexto somente a partir do século XIX, em função da sua posição periférica em relação aos países centrais.

Importante o trabalho de Marilena Chauí, via esquema traçado anteriormente pelo historiador Eric Hobsbawn, que identifica o ano de 1830 como o marco do aparecimento do termo nação no vocabulário político. Assim, Chauí marca o período entre 1830 e 1880 como o do “princípio da nacionalidade”; os anos que se estendem de 1880 a 1918 é o “idéia nacional”. Esses princípios seriam os responsáveis pela identificação de um caráter nacional:

O caráter, então, dentro desse pressuposto teórico dá surgimento ao conceito de ideologia. Se a natureza social é “atravessada” por modelos raciais, étnicos, econômicos, se cada ser possui características próprias, se o Brasil possui um diferencial extremamente importante na formação do caráter brasileiro, que é a miscigenação, chegamos então há um ponto de convergência que define uma identidade nacional brasileira, fragilizada, composta de lacunas e ausências, uma vez que a falta de uma burguesia geradora de um plano de desenvolvimento e um proletariado sem poder de enfrentamento das elites atrasou a formação desse caráter, dessa identidade. Dentro dessa perspectiva, chamo a atenção para o livro “Cultura Brasileira e Identidade Nacional”, de Renato Ortiz, principalmente quando o autor discute a miscigenação e a O conceito de caráter é em princípio compreensivo, cobrindo todos os traços de um indivíduo ou grupo; ele é auto-suficiente, não necessitando de referência externa para sua definição; é mutável, permitindo modificações parciais ou gerais (Chauí, 2000:21).

influência do europeu civilizador sobre negros e índios, componentes da formação do caráter brasileiro:

Mas o mundo gira, a partir do início do século XX, o Brasil começa a desenvolver o seu parque industrial e a intelectualidade brasileira acompanha esse desenvolvimento, principalmente ao valorar e propor “uma carteira de identidade para o brasileiro” Há valoração do mestiço começa a ocorrer através da obra de Gilberto Freyre, “Casa Grande e Senzala”, geradora do deslocamento do conceito de raça para o de cultura. Ortiz comenta a obra de Freire:

O mestiço, enquanto produto do cruzamento entre raças desiguais, encerra para os autores da época os defeitos e taras transmitidas pela herança biológica. A apatia, a imprevidência, o desequilíbrio moral e intelectual, a inconsistência seriam dessa forma qualidades naturais do elemento brasileiro. A mestiçagem simbólica traduz, assim, a realidade inferiorizada do elemento mestiço concreto. Dentro dessa perspectiva a miscigenação moral, intelectual e racial do povo brasileiro só pode existir enquanto possibilidade. O ideal nacional é na verdade uma utopia a ser realizada no futuro, ou seja, no processo de branqueamento da sociedade brasileira. É na cadeia da evolução social que poderão ser eliminados os estigmas das raças inferiores, o que politicamente coloca a construção de um Estado Nacional como meta e não como realidade presente (Ortiz,1994:21).

Gilberto Freyre transforma a negatividade do mestiço em positividade, o que permite completar definitivamente os contornos de uma identidade que há muito vinha sendo desenhado. Só que as condições sociais eram agora diferentes, a sociedade brasileira já não mais se encontrava num período de transição, os rumos do desenvolvimento eram claros e até um novo Estado procurava orientar essas mudanças. O mito das três raças torna-se então plausível e pode se atualizar como ritual. A ideologia da mestiçagem, que estava aprisionada nas ambigüidades das teorias racistas, ao serem reelaboradas pode difundir-se socialmente e se tornar senso comum, ritualmente celebrado nas relações do cotidiano, ou nos grandes eventos como carnaval e o futebol. O que era mestiço torna- se nacional (Ortiz, 1994:41).

A partir do Governo Vargas, em 1930, a cultura passou a ser um “local” de interferência do Estado no sentido de se produzir um ideal de homem brasileiro embora houvesse um embate teórico onde se digladiavam os pensadores que viam na “alma brasileira” um caráter espontâneo, autêntico e puro se digladiando com o analfabeto, o deseducado e o inconsciente, enfim, um humano carente da intervenção do Estado no sentido de educá-lo e instruí-lo. O populismo getulista, através de “seus” intelectuais, tiveram um papel importante no resgate das coisas populares no período.

A década de 50 trará um novo momento de avanço democrático e de industrialização do país, o que exigirá novas conceituações em relação ao nacional e ao popular. Uma nova ideologia baseada no nacional desenvolvimentista ocupa o conceito de dependência tolerada, expressão utilizada pelo economista Paul Singer para definir o período em que o Brasil ocupava um espaço “yes, nos temas bananas!” no cenário internacional, que relegava ao país uma posição de mero produtor de matérias-primas. Essa nova relação do pensamento brasileiro com a cultura entendia que não era no passado que se deveriam buscar as fontes de uma nacionalidade genuína, pura e imaculada. A cultura brasileira era percebida como um vir a ser. A professora Lúcia Lippi de Oliveira citando Maria Isaura Pereira da Costa esclarece que para os isebianos o homem brasileiro seria:

A década de 60, o Centro Popular de Cultura (CPC) ocupa o lugar do Iseb propondo um caminho de vanguarda para a cultura popular brasileira ancorada no propósito de promover a consciência social das camadas mais baixas da população, uma vez que os integrantes desse pensamento viam o ser deste extrato como incapaz de obter sozinhos as informações que o libertariam do jugo ideológico das classes dominantes, lembrando que esse período (1962-1964) era um momento de efervescência política e a emergência dos militares na condução política do Estado. Ferreira Gullar, membro do CPC e poeta, explica:

Um homem sem passado, alienado no íntimo do seu ser porque fora colonizado, ao qual haviam sido impostos conjuntos culturais transferidos do exterior; tornava-se urgente criar ou descobrir uma cultura nacional válida, que assim se apresentava como um projeto ligado ao futuro, como uma utopia do porvir que serviria de motor à ação. (Queiroz apud Oliveira, 1992:71)

A expressão cultura popular surge como uma denúncia dos conceitos culturais em voga que buscam esconder o seu caráter de classe. Quando se fala em cultura popular acentua-se a necessidade de pôr a cultura a serviço do povo, isto é, dos interesses efetivos do país. Em suma deixa-se clara a separação entre uma cultura desligada do povo, não-popular e outra que se volta para ele e, com isso, coloca-se o problema da responsabilidade social do intelectual, o que o obriga a uma opção (Gullar, 1965:01)

A indústria cultural adquire, portanto, a possibilidade de equacionar uma identidade nacional, mas reinterpretando-a em termos mercadológicos; a idéia de nação integrada passa a representar a interligação dos consumidores potenciais espalhadas pelo território nacional. Nesse sentido se pode afirmar que o nacional se identifica ao mercado; a correspondência que se fazia anteriormente, cultura nacional-popular, substitui-se uma outra, a cultura mercado-consumo (Ortiz, 1994:165). No Brasil pós-64, ocorre à implantação de uma série de empresas de comunicação no país, em sua maioria compondo com os militares uma rede de interesses múltiplos e escusos, principalmente com o início das redes nacionais de televisão, implantada primeiramente pelas vias tortuosas e obtusas comandadas por Assis Chateubriand. Renato Ortiz identifica no período a “criação de um mercado de bens simbólicos” que, através das mídias então emergentes, fomentará o surgimento de uma indústria cultural onde a mercadologia ditará os rumos que se seguirão:

O lado irônico dessa história é que os militares foram os prepostos da identificação entre cultura de massa e democracia, tese defendida pelos teóricos americanos que viam a cultura de massa como índice de realização democrática. Para Ortiz, a equivalência entre cultura popular de massa e cultura nacional será amplificada através dos meios de comunicação de massa, principalmente da televisão que então se fortalecia através da criação das redes. O cinema nacional, depois da débâcle dos Estúdios Vera Cruz e da Atlântida e do esvaziamento do cinema novo com a criação da Imbrafilme, que propunha popularizar o formato e o conteúdo do cinema brasileiro, uma vez que o cinema anterior, o “novo”, não conseguir atingir as camadas mais populares da sociedade. Assim, a ausência de reflexão e de apropriação do estético, acabaria por formar filas nas portas dos cinemas e vazios nas telas.