KARŞILAŞTIRILMASI
1.2. Avrupa Borç Krizi
Ah, felicidade é coisa pra rico. Já viu pobre feliz nessa desgraceira de mundo, sô? Todas as veis que as coisa tão miorando acontece uma desgraça. Pro sinhô vê... eu tava trabaiando lá na dona Odete (a patroa) ganhando 350 real, o Miltinho (o filho, de 14 anos) tava ganhando salário lá na Comigo (cooperativa de Rio Verde), compremo televisão, sofá e até um ventilador porque ninguém guenta esse calorzão, inda mais morando na Promissão. Aí fico grávida de novo (Cida tem quatro filhos, cada um de um pai), inté parece que só acontece com ieu! Fazia meis que eu num namorava, aí num prestei atenção e deu no que deu, tô de quatro meis (...) tirá eu num tiro, é um fi de Deus e ieu tenho fé que Deus pois, Deus cuida (...) a gente fica meio atazanada mais é a vida, né, é o destino. Agora, qui fiquei estrupiada com dona Odete eu fiquei, parecia que era gente boa. Foi só ieu falá pra ela que ela mi dispensô (...) o Ciranda é muito bão! Eu venho pra cá, solto os menino no mundo e fico sapiano as coisas, pego uma pipoca, um picolé e inté isqueço das preocupação (...) tinha que tê mais, só quatro (etapas do Projeto Ciranda) é muito poco! (Maria Aparecida, 39 anos, doméstica, mãe de Cejane, Aparício, Deusdeth e Vera, de 4, 6, 7 e 12 anos ,respectivamente)
O que é essa tal felicidade? De que é feita essa argamassa que provoca arrepios, tremores e até lágrimas felizes? De onde vem, para onde vai, onde a encontramos, por que a perdemos? Nessa longa marcha do homem desde o Neanderthal, percorremos caminhos longos, acidentados, interrompida em vários pontos porque o tempo, como o espaço, tem os seus desertos e as suas solidões.
Essa marcha tinha apenas uma razão de ser: alegrar o coração e acalentar o corpo do homem. Milhares de anos se passaram até que se conseguisse domar o fogo necessário para cozinhar os alimentos e se defender do frio, domesticar o cão e fazer do trenó um “alívio” para as grandes marchas em busca não só de alimentos, mas de sonhos reais e imaginários. Milhares de anos de experimentos levaram o homem a lançar a flecha e tornar próximo, seu, o que estava distante. Há 10 mil anos a mulher começou a experimentar o trabalho na agricultura e o homem descobriu que pastorear lhe agradava. Na Mesopotâmia de cinco mil anos atrás, nasceram o eixo da roda, a astronomia, a matemática e a escritura.
Essas tecnologias pareciam tão extraterrenas que Aristóteles, no primeiro livro da metafísica, declarou que tudo o que podia imaginar para tornar mais cômoda a vida do homem e satisfazer as suas necessidades práticas já tinha sido descoberto. Portanto, nada restava senão se dedicar de corpo e alma à elevação do espírito.
Durante os oito séculos da sua história, gregos e romanos fizeram poucos progressos na ciência ou na tecnologia. Em Atenas, Péricles atendia 50 mil cidadãos livres através do trabalho escravo de 300 mil prisioneiros de guerra. Roma, em seu ápice, possuía 10 milhões de escravos numa população de 50 milhões. A cada ano, através de guerras de conquistas, 500 mil escravos eram capturados. Somente na Gália Júlio César fez um milhão de prisioneiros. Apenas na Idade Média, quando os escravos começaram a rarear é que o homem descobriu que poderia criar “coisas” para amenizar o seu cotidiano. Os óculos, a pólvora, o moinho de água e de vento, os arreios e os estribos, a roca de fiar, a rotação das culturas agrícolas, o relógio mecânico, a bússola e a imprensa levaram o homem ao Iluminismo e à Revolução Industrial. No século XIV, diante das descobertas de um novo homem, afirmaria que tudo o que se podia fazer para o espírito já tinha sido feito pelos gregos e romanos e que nada mais restava ao homem senão se dedicar aos estudos das obras e à aplicação do intelecto às coisas concretas, ao desenvolvimento industrial para tornar o cotidiano do homem mais leve e feliz.
Assim, após uma Revolução Industrial que contaminou todos os setores da sociedade, desde a iluminada Paris à corte do pequeno imperador chinês, gerando revoluções como a de Einstein na física, Freud na psicologia, Picasso na pintura, Tchaikovski na música, Joyce na literatura, Le Corbusier na arquitetura, a sociedade mundial, como um poderoso tsunami, passou a receber ondas atrás de ondas que, juntamente com o progresso, traziam vagalhões destruidores de tradições, histórias, mitos e sonhos.
Nessa onda de pós-modernidade que vivemos, nossa população é doze vezes maior que na época de Isaac Newton. A nossa vida média (700 mil horas) é seis vezes mais longa que a do homem de Neanderthal e mais que o dobro dos nossos avós (300 mil horas). Enquanto eles trabalhavam 120 mil horas no curso de suas vidas, nós trabalhamos apenas 80 mil. Os nossos filhos, por sua vez, viverão em média 900 mil horas e trabalharão não mais que 50 mil horas.
e no consumismo, novos valores florescem neste homem pós-moderno, tais como: criatividade, estética, confiança, subjetividade, feminilização, afetividade, desestruturação do tempo e do espaço, qualidade de vida. O que, por sua vez, sugere um novo tipo de bem-estar, a ser reinventado. Assim, com o homem sendo substituído pela máquina, surge uma grande problemática que a ele cabe resolver: como viver melhor, mais feliz, se o desemprego tende a ser cada vez maior. Se no século XIX o índice tolerável de desemprego numa economia próspera era de 2%, hoje os Estados Unidos têm 8%, a Europa Ocidental, a que mais emprega, 12%. Europa Oriental, Rússia e Índia ultrapassam os 15%. Os tigres asiáticos ficam na faixa dos 7%, e mesmo a China, na boca de todas as mídias como o fenômeno deste novo século, permanece estacionada nos 5%. Os números dos americanos do sul, com raros períodos de desenvolvimento, estão sempre acima dos 10%. Assim, haverá cada vez mais massa humana nas avenidas, ruas e esquinas das cidades. Por outro lado, se há dez anos atrás havia um êxodo rural incessante, hoje ocorre um refluxo em direção às pequenas cidades do interior brasileiro, razão do “inchamento” de Rio Verde e de outras cidades “emergentes” localizadas principalmente no Centro-Sul do país. Aristóteles (1987:31), pai da cultura ocidental, sonhava: se cada ferramenta pudesse, a partir de uma ordem dada, trabalhar por conta própria, se os teares tecessem sozinhos, se o arco tocasse por si nas cordas da cítara, então os empreendedores poderiam privar-se dos operários e os proprietários, dos escravos. Hoje, o sonho de fábricas robotizadas é uma realidade presente em quase todos os países do mundo.
Já aqui, nesses trópicos quentes e úmidos, nossa cultura sobrevive de enganos em enganos, friamente estampados em barrocos coloniais levantados sobre as cabeças de milhões de homo sacer pretos fedorentos, imprestáveis, abjetos seres que “só dão trabalho ao gentio bom dessa terra!”, como afirma um coronel goiano ao Matutina Meiapontense, o primeiro jornal de Goiás, veiculado na cidade de Pirenópolis no século XIX. Nele, o tal “coronel” oferecia uma dúzia de moedas de ouro por um tal de Onofre, vivo ou morto! Foi essa sociedade corrupta e selvagem que fez de Gregório de Matos e Antônio Vieira os porta-estandartes da miséria e do inferno. O “paraíso terrestre na terra” e “brasileiro bonzinho” são feridas abertas na alma brasileira e em sua gente.
intelectuais mais consagrados. Gilberto Freyre com o seu luso- tropicalismo, Sérgio Buarque de Holanda com o seu homem cordial, Mário de Andrade com sua macunaíma, Darcy Ribeiro com sua sociedade que ri de si mesmo, Jorge amado com suas prostitutas alegres, generosas, “dadeiras”. O cineasta Carlos Diegues, em Bye, bye, Brasil fotografa esse Brasil como uma projeção, um sonho imanente de fazer do país um lugar “abençoado por Deus e bonito por natureza”, mas que, cotidianamente, é inviabilizado pelo Brasil pobre, sujo, imundo, dos infernos. O mito do “bonzinho brasileiro” caiu por terra nas masmorras da ditadura militar e foi enterrado definitivamente na democracia de Sarney & cia.
Todavia, sem a proteção do mito caído, não paramos mais de falar e desdizer e amaldiçoar coisas, gentes e lugares onde viva o Brasil. O severinismo xique-xique, entre outras criações geradas pelos herdeiros de Sarney, provocou uma euforia negativista em relação a tudo que se refere às interferências na sociedade via Estado. Ignoramos ingenuamente que a vida política é a única mediação que temos para sair do dilema. Se a destruirmos, perderemos o rumo mais viável para se chegar ao bem-estar social.
A sociedade humana há tempos descobriu que a democratização só é possível através da ponte da cultura. Ser civilizado é viver nela e por ela. E se é na diferença que se encontram as respostas, nosso caldeirão étnico é um fértil laboratório de misturas. O poeta e filósofo Antonio Cícero (1996:79) aponta: “Podemos dizer que o paradoxo do Brasil está em, sendo capaz de oferecer a prefiguração da solução de alguns problemas que poucos países conseguem efetivamente enfrentar, não ter conseguido efetivamente enfrentar alguns problemas que muitos outros países já resolveram total ou parcialmente”.
Gramsci (1968:176) talvez tenha uma fórmula: “estimular o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade”. Ou, quem sabe, brasileiramente, possamos dizer como Manuel Bandeira, pensando no Brasil: “Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?”.