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Intimamente ligada à questão da (falta de disponibilidade) de recursos financeiros está a questão da disponibilidade de outros recursos para o gestor de Relgov, especialmente no caso de recursos humanos. O número de profissionais trabalhando diretamente na área de Relgov nos dados capturados para esta pesquisa, variou entre 1 e 15 profissionais, com média de 4 profissionais. Para este levantamento, foram usadas diversas fontes de dados. A primeira fonte, foi na forma de pergunta direta feita durante as entrevistas. A informação foi também triangulada com informações obtidas na através dos sites das empresas e outas fontes de informação sobre os profissionais de Relgov.

Tabela 18 - Número de profissionais nas áreas responsáveis por Relgov Entrevistado # Profissionais na área de

Relgov

Descrição das posições

Ent1 3 profissionais Gerente sênior e dois gerentes Juniores

Ent4 2 profissionais 2 Diretores

Ent5 4 profissionais 1 Diretor, três gerentes

Ent7 1 profissional 1 Gerente

Ent8 1 profissional Responsável por Relações Governamentais Ent9 5 profissionais 1 Diretor, 2 Gerentes, 2 Analistas

Ent10 3 profissionais 1 Gerente, 2 Analistas

Ent11 2 profissionais 1 Diretor, 1 Analista

Ent15 15 profissionais Nd

Ent16 1 profissional 1 Diretor

Ent18 10 profissionais Diretor, gerente, 2 profissionais em Brasília, 6 pessoas alocados em fábricas

Ent19 3 profissionais Diretor e Gerente

Ent20 3 profissionais Diretor, gerente e analista

Ent21 4 profissionais Gerente, 2 analistas e 1 estagiário

Ent22 2 profissionais 1 Diretor, 1 Gerente

Ent25 2 profissionais 1 Gerente, 1 analista

Ent26 3 profissionais 1 VP América Latina, 1 Diretor Brasil, 1 Gerente

Ent28 2 profissionais 1 Diretor e 1 Gerente

Ent29 2 profissionais 1 Diretor e 1 Gerente

Ent30 2 profissionais 1 Diretor e 1 Gerente

Evt4Dep2 4 profissionais 1 Gerente e 3 analistas Média 4 profissionais

Fonte: Análise do autor com base nos dados da pesquisa e triangulação com informações de sites empresariais ligados à Relgov e negócios. Nd=Não disponível

Nesta amostra, a média de profissionais dedicados a Relgov foi de quatro colaboradores “full- time”. Como comparação e triangulação, a pesquisa já citada anteriormente (realizada em 2013 por profissionais da Oxiteno [Evt4Dep3]), encontrou uma média de 5 colaboradores por empresa42. Outra medida de relação entre os tamanhos das áreas de Relgov das multinacionais do Brasil em comparação com as matrizes no exterior foi dada no depoimento de um CEO de multinacional operando no Brasil. Ao descrever as diferenças entre Relgov feito no Brasil e nos EUA citou:

No Brasil, eu tenho três pessoas, inclusive está aqui na sala o nosso Relgov [Nome], três pessoas para fazer lobby. Em um prédio em Washington, a empresa tem mais de trezentas. Trezentas em um prédio só, só fazendo lobbying (Evt6Dep1) 43.

Considerando o número de issues que estas áreas de Relgov têm de mapear e acompanhar, somado à complexidade das escolhas em termos de táticas e adicionado as necessidades de deslocamento para contato com agentes governamentais, alguns entrevistados classificaram o tamanho das áreas de Relgov como “enxuto” (Ent12). Na checagem das possíveis causas desta dimensão das áreas nas subsidiárias de MNE´s operando no Brasil, três foram oferecidas: i) falta de entendimento e awareness da importância de Relgov para a estratégia das empresas, ii) a dificuldade em mostrar resultados de curto prazo e conseguir contrapartida em disponibilidade de recursos (que se coaduna com a questão dos prazos para mostrar resultado, citados na sessão de issues management), iii) que áreas de suporte em MNE´s são naturalmente enxutas (Ent9, Ent11, Ent12, Ent22).

Em termos de configuração de capacidades políticas, um reflexo de áreas enxutas nas

subsidiárias parece ser a “terceirização de atividades”. Uma das maneiras é contratação de

consultorias de Relgov para auxiliar em algumas etapas do processo de issues management. Os dados coletados apresentam evidência de utilização de consultorias principalmente para auxílio nas etapas de monitoramento e análise da gestão de issues (Ent1, Ent14, Ent15, Ent21, Ent22, Ent29). Algumas destas relações são de longa data, mais de 15 anos de relação entre a subsidiária e a consultoria contratada (Ent22). A segunda forma de “compensar” as áreas com poucos colaboradores é a utilização das associações de classe, especialmente nas fases de

42 Não obstante, a pesquisa Oxiteno foi realizada tanto com empresas locais como com empresas multinacionais. 43 Não fica claro se as trezentas pessoas são funcionários internos ou se o número inclui consultores de Relgov

contratados. Não foi possível checar este número em outras fontes. Entretanto, esta empresa figura entre as 10 empresas mais ativas em CPA, segundo dados do ONG de monitoramento de atividades políticas, Opensecrets.org (https://www.opensecrets.org/lobby/top.php?indexType=s&showYear=a)

monitoramento da legislação, mas também nas fases de implementação do plano de ação (diversos respondentes). Novamente, a pesquisa da Oxiteno de 2013 pode ajudar a triangular o uso das associações: na pesquisa com sessenta e cinco respondentes, o número médio de associações das quais cada empresa faz parte foi de quatorze (Evt4Dep3).

A mudança do perfil do profissional de Relgov, do “modelo” Portaborse para o perfil mais técnico (ver também sessão expertise a seguir) também coloca um desafio para o gestor das capacidades políticas em termos da contratação e formação de quadros. Cerca de 80% dos profissionais não começaram na função de Relgov (Pesquisa Oxiteno). Concomitantemente, parecia existir uma demanda “aquecida” por profissionais para a área, evidenciada por três fontes. A primeira, pelo número de vagas disponíveis para cargos na área. Fontes de vagas como o LinkedIn durante o ano de 2016, mostraram vagas disponíveis em diversas empresas multinacionais: Amazon.com, Airbnb, Bridgestone, Cargill, Danone, Facebook, Ford, Honeywell, Johnson & Johnson, Kimberly-Clark, Mondelez, Novo Nordisk, Procter & Gamble, Uber, Visa4445. Adicionalmente, a revista Exame cita estudo da Michael Page que aponta Relgov como uma das “Profissões do futuro” (Connors, 2012). A segunda fonte, como uma resposta a necessidade de prover esta demanda de um novo perfil, é a criação de diversos cursos de preparação e formação de profissionais de relações governamentais a partir de 2014. Entre eles, um curso de curta duração oferecido pelo Insper, São Paulo, um MBA de 360 horas oferecido pela FGV Management nas cidades de São Paulo e Brasília, uma especialização na graduação em Relações Internacionais na ESPM, além de cursos diversos46. A terceira fonte de evidência para os reflexos da formação de quadros é a contratação de pessoal com experiência anterior. De certa maneira contrastando com o “novo perfil” de profissional, experiência do profissional de Relgov ainda é valorizada. Um dos entrevistados afirma que é uma das poucas profissões com sobrevida depois dos sessenta anos (Ent8). Outro entrevistado expressou a valorização da experiência da seguinte maneira:

Cabelo branco. Para que você possa transitar com uma certa carga de respeitabilidade dentro do poder público, né? Você pode ser um jovem brilhante, mas um Secretário Executivo, geralmente, de qualquer Ministério, ele tem uma carreira já dentro do poder público que possivelmente ele vai ser uma pessoa também de cabelo branco (Ent11).

44 Coleta em sites de emprego, sites das empresas e comunidades de relações governamentais em sites de rede

sociais

45 Para efeitos de comparação, Hirata (2015) cita que as duas maiores associações de profissionais de Relgov tem

juntas, 400 membros.

As evidências coletadas mostram uma tendência, pelo menos nesta amostra, de aquisição de experiência anterior. Esta “aquisição” parece focada em experiências em governo, consultorias de Relgov e Associações de classe. Em nossa amostra de entrevistados e depoentes, 28% tinham alguma passagem por Associações de Classe, 22% por Consultorias e 16% pelo Governo e suas entidades. No total, cerca de 50% dos entrevistados têm experiência em relações governamentais e defesas de interesse em organizações que não são empresas. Embora existam artigos evidenciando a questão da troca de posições dos profissionais de Relgov e posições de governo (Che, 1995; Hillman, Zardkoohi, & Bierman, 1999), existe,

pelo menos na amostra desta pesquisa, significativa evidência de “contratação” de

competências vindas também de Associações e Consultorias. Parece, portanto, haver um misto de atividade de aquisição (contratações externas) e acumulação (via treinamentos) deste recurso.