Já mencionamos no início desta discussão que a identidade é vista como metamorfose do humano, que se concretiza nas relações sociais.
Sobre esse processo é possível afirmar, ainda que de maneira resumida, em um primeiro momento que o processo identitário se delineia basicamente como identidade de papel e só posteriormente ocorre uma transformação para uma identidade do eu. Essa transformação sugere a estruturação de uma instância interna, compreendida pelo eu que, por possuir uma natureza autônoma, confere as condições de apropriação seletiva de fatores externos com os quais o indivíduo se relaciona para a configuração de suas idiossincrasias.
Nessa discussão, Ciampa (2006/2007) afirma que essa metamorfose é, em essência, o que ocorre na identidade e caracteriza-se pelo movimento de pressuposição/posição/reposição, que ocorre como condição da manutenção das dimensões coletivas e individuais.
Com o propósito de discorrer didaticamente sobre esse movimento, podemos afirmar que a constituição da identidade inicia-se com nosso confronto com a predição da identidade pelos outros que nos rodeiam (pressuposição). Essa prática termina por favorecer a aquisição de comportamentos na mesma direção do que foi anteriormente previsto por nossos pares (posição), numa tentativa de preservar inalterada essa imagem outorgada por aqueles que estão em relação conosco, pelo processo de reposição. Esse último se caracteriza como uma espécie de atualização da identidade, atribuída por aqueles com os quais interagimos.
Para entender como se dá esse complexo movimento, podemos apontar como exemplo o que ocorre no nascituro, que antes mesmo de vir ao mundo e constituir-se como filho, já é representado como filho de alguém, ou seja, já tem sua identidade pressuposta, pertencente a uma família e, assim, ao nascer, cumpre uma condição anteriormente prevista pelas relações estabelecidas tanto em seu nascimento quanto em sua concepção, tornando-se um ser posto. Assumir essa pressuposição é justamente materializar outro momento da identidade: a posição; momento em que o papel de filho é encarnado nesse nascituro. (CIAMPA, 2006a/2007)
É possível reafirmar que, após a identidade ser pressuposta e posta, ela é re- posta. No caso do exemplo dado, o nascituro/filho evidenciará, ao longo de suas interações, algumas tentativas para atender à expectativa generalizada que lhe foi
direcionada antes mesmo de seu nascimento por aqueles que constituirão suas primeiras relações.
Uma situação ilustrativa de reposição da identidade seria o caso de uma amizade entre duas pessoas adultas que perdura desde a adolescência. Nessa situação, ambos realizam a reposição do vínculo da amizade, a partir da preservação de seus constitutivos como, por exemplo, a confiança, o afeto ou o respeito como forma de manterem-se amigos, já que, assim, a relação entre os dois não se modifica, assim como atribuições e expectativas que cada amigo construiu em relação ao outro.
Frente ao exposto, importa esclarecer que a ocorrência do movimento de reposição implica necessariamente a participação do indivíduo em rituais sociais realizados continuamente e que confirmem essas atribuições dirigidas pelo meio que nos circunda. Esse movimento permite manter uma aparência de inalterabilidade e de conservação de uma condição prévia, de suposta estabilidade da identidade, denominada por Ciampa (2007) de mesmice de si mesmo, na qual o indivíduo se manifesta como um ser estável, cristalizado. Nesse estado cria-se a impressão de uma identidade dada permanentemente, negando o fato de que a ocorrência da reposição de uma identidade refere-se a alguma ocasião quejá foi posta.
Diferentemente da mesmice, o autor refere-se à mesmidade, definida como “ser-para-si”, que consiste numa forma de superação da identidade pressuposta, e materializa um estado de emancipação do homem, ao possibilitar a este a liberdade no agir na direção da concretização de suas próprias metas e desejos, que se encontram para além do estabelecido. Nesse movimento, o sujeito procura ser o “outro” outro que ele de alguma forma já é. (CIAMPA, 2007)
De acordo com Lima (2007), a discussão sobre a mesmidade é possibilitada pela analogia com o termo alterização, que alude à superação da personagem vivida pelo indivíduo, por seu potencial para formular projetos de identidade, ainda que seus conteúdos não estejam prévia e autoritariamente definidos; momento indicativo do sentido emancipação do processo identitário.
Frente às questões abordadas sobre os movimentos constituintes da identidade, fica mais uma vez ratificada a natureza dinâmica desse processo, que vai de encontro com outras perspectivas que focalizam a identidade como substância.
Por isso, apesar de Ciampa (2006a) mencionar a importância da interação em diferentes grupos em que o indivíduo realiza o reconhecimento de si mesmo, ele também alerta para o fato de que essa mesma interação pode erroneamente dar a
impressão de que pensar em si como substantivo no momento em que nos descrevemos para um “outro” não é o modo adequado de nos reportarmos à nossa identidade, pois, dessa maneira, estaríamos nos referindo apenas a uma das dimensões da identidade: aquela relacionada à determinada substancialidade que julgamos possuir.
Nessa direção, Ciampa esclarece que, se em algum momento me apresento com a informação “sou nordestino” ou “sou comunista,” essas menções não indicam necessariamente a suposta substância relativa à nordestinidade ou ao comunismo ao qual estou me referindo. Assim, no primeiro caso, ser nordestino, requer ter nascido ou morar no nordeste, falar com sotaque dessa região e compartilhar de seus costumes, hábitos valores como igualmente seus, pois não se trata de uma identificação superficial com a região em questão. No segundo caso, não se pode perder de vista que comunista é aquele que age como tal, e se um indivíduo assim se reporta pelo simples fato de possuir ideias comunistas sem sequer as ter vivenciado, ainda que esse fato já indique a determinação de comunista, este indivíduo ainda não o é de fato.
Ao compartilhar desse entendimento, Ciampa (2006a) quer chamar atenção para o fato de que o uso do substantivo nesse cenário da identidade, de certa forma auxilia como um mecanismo na pressuposição da ação do homem antes que esta aconteça. E isso pode interferir ao contribuir com a ocultação do fato de que é na ação e no fazer do homem que a identidade se dá, pois, como sabemos, é mediante a atividade que o homem vai determinando sua própria existência no mundo.
Ao afirmar que a identidade se materializa na atividade do homem no mundo, com outros homens, podemos apreender dessa perspectiva que o homem só é o que é na condição de estar sendo pelo seu agir no mundo, e não o habitual, de pressupor uma identidade antes da ação ou do fazer. Para Ciampa (2006a, p. 64), é somente “pelo agir, pelo fazer, que alguém se torna algo” de maneira que, por exemplo, ao desenvolver a atividade de estudar, tem-se o estudante; ao viajar, o viajante; ao trabalhar, o trabalhador, ao pescar, o pescador. Essas situações sublinhadas pela análise de Ciampa nos dão indícios de que a identidade é mais do que uma abstração, possui materialidade. E como manifestação do ser, a identidade “é sempre uma atividade”. (Ciampa, 1994, p. 132)
Pensar a identidade mediada pela atividade traz outro desdobramento que é o olhar para a tríade identidade-atividade-consciência que, segundo o autor, são categorias fundamentais para o estudo do homem, impossíveis de serem analisadas isoladamente. No entendimento de Carvalho (2011a/2011b), essa relação entre as
categorias em questão podem ser entendidas da seguinte maneira: para o indivíduo tornar-se quem ele é (identidade) envolve-se necessariamente o agir (atividade) e o dizer (consciência), tendo em vista que as transformações da identidade são acompanhadas concomitantemente por transformações na consciência.
Sobre essas categorias, consideramos oportuno recordar as colocações de Lane (1995) que vão ao encontro do que propõe Ciampa, em relação ao entrelaçamento dessas categorias no âmbito da dimensão psíquica do homem. Esta autora considera que o homem é, ao mesmo tempo, as atividades que desenvolve, a consciência que reflete o mundo e a afetividade em relação a esse mundo. Segundo Lane (2002), somente com a posse dessa bagagem é possível nos identificarmos e igualmente sermos identificados por aqueles que estão ao nosso redor, o que se relaciona com o processo identitário.
Na discussão sobre a tríade identidade-atividade-consciência, Ciampa (2007) reafirma o entendimento de que o estudo da identidade deve considerar em sua realização tanto a análise da dimensão representacional (identidade como produto), quanto à análise do modo como esta se produz (identidade em seu modo de produção). E essa posição consiste na refutação de Ciampa de que identidade seja vista como um atributo estático, pois é movimento, é metamorfose.