Esclarecemos que tomamos como ponto de partida para a discussão do referencial teórico a concepção psicossocial de identidade. Esta escolha deve-se, sobretudo, ao entendimento de que a identidade não é algo acabado, sendo compreendida como constante construção/reconstrução, que incorpora em sua realização plasticidade, movimento, instabilidade, além de significação. (Ciampa, 2006a/2007)
Essa concepção de identidade ergue-se em contraposição a outras perspectivas, em que esta é concebida como sucessão temporal dos acontecimentos da vida do sujeito, em que a acessibilidade à identidade ocorreria mediante a reunião do maior número de informações descritivas do sujeito, pois estas demonstrariam correspondência direta com a identidade de uma determinada pessoa, pelo fato de esta última ser vista, nessa perspectiva, como sinônimo de estabilidade.
Um dos pontos de partida da teoria é certamente a de que a identidade deve ser compreendida como uma relação, concreta e genuína, entre indivíduo e sociedade, ancorada em intenso dinamismo e que proporciona metamorfoses pelas quais nos tornamos humanos. (CIAMPA, 2007)
Ciampa estabelece, no desenvolvimento da teoria, diálogo com produções de outras áreas de conhecimento, como, por exemplo, os estudos de Berger e Luckmann (2007) que compreendem a identidade como construção social. Um aspecto importante da teoria desses sociólogos sobre a construção realidade social refere-se à existência de
três movimentos oriundos da dialética entre homem e sociedade, que por sua vez incrementam a própria realidade humana.
De forma sumária poderíamos dizer que, em princípio, cada indivíduo ao mesmo tempo em que torna externo seu jeito próprio de ser (exteriorização) também leva para dentro de si aquilo que tem acesso no mundo externo (interiorização). Nessa relação, os produtos exteriorizados pela atividade do homem no mundo conquistam, por sua vez, o status de objetividade (objetivação).
A realidade social pensada nesses moldes levou os referidos sociólogos ao entendimento de que a realidade humana é uma construção possível, pela dialética estabelecida entre mundo objetivo e mundo subjetivo. A retomada dessas ideias se deve ao fato de localizarmos sua presença entre as interlocuções feitas por Ciampa (2007, p. 86) em apreciações no tocante ao reconhecimento da natureza social relativa à constituição da identidade pelo fato de que esta “se concretiza na atividade social. O mundo, criação humana, é o lugar do homem”.
Os movimentos (exteriorização-interiorização-objetivação) definidos por Berger e Luckmann (2007) relacionam-se com a apreciação de que os processos de socialização ocorrem concomitantemente a um processo de individuação, sendo a identidade o constructo produzido nessa dinâmica, considerado pelos autores como elemento central da realidade subjetiva do homem. A socialização, segundo esses teóricos, é vista como a introdução dos indivíduos de maneira ampla e consistente no mundo objetivo de uma sociedade ou de algum setor da sociedade, envolvendo tanto oportunidades de homogeneização quanto individuação.
Ao discorrerem sobre o processo de socialização, esses autores o fazem mediante a distinção em dois momentos, em que a inserção social se dá em níveis diferentes, conhecidos por socialização primária e a socialização secundária. Nesses dois tipos de socialização se processam a interiorização de aspectos do social como normas, valores e papéis sociais, com o auxílio daqueles que já vivenciaram esse momento, e que são apontados por Berger e Luckmann (2007) como outros significativos.
A socialização primária permite uma apropriação inicial do social, e ocorre basicamente na infância, envolvendo a colaboração de outros significativos, que por já estarem socializados, se encarregam de promover as primeiras interações da criança com o mundo, favorecendo mediações oportunas, que garantem a ocorrência de algumas apropriações desse mundo pela própria criança.
Os outros significativos, que por ocasião da socialização primária pertencem normalmente à instituição família, e atuam na mediação entre a sociedade e o indivíduo que nela deseja tomar parte pela seleção de aspectos do mundo real pautados em sua localização na estrutura social, bem como em suas idiossincrasias. Em função disso, é possível dizer que o que a criança apreende do mundo nos primórdios dessa inserção social é filtrado inicialmente por esses outros e só posteriormente por ela mesma, revelando-se um processo de dupla seletividade da realidade social. (BERGER e LUCKMANN, 2007)
Na socialização secundária ocorrem aprendizagens em relação aos papéis sociais, com base em rituais, componentes normativos e cognitivos, que se encontram diretamente ligadas a questões como o desempenho do próprio indivíduo, bem como à institucionalização. Diferentemente da socialização anterior, os processos relativos à socialização secundária estão fundamentados pela racionalidade e não exigem alto grau de identificação com os outros significativos para ocorrerem, de maneira a ocorrerem eficientemente apenas com a identificação mútua presente na comunicação que o indivíduo estabelece com os outros em seu cotidiano. (BERGER e LUCKMANN, 2007)
Esses aspectos da teoria de Berger e Luckmann (2007), relativos aos tipos de socialização aos quais os indivíduos estão expostos, reverberam em alguma medida sobre apreciações de Ciampa (2007, p. 86), como a de que “uma identidade que não se realiza na relação com o próximo é fictícia, é abstrata, é falsa”. Esse posicionamento denota que o próximo ao qual se refere é sempre um parâmetro não só no início da inserção social, mas configura-se como uma espécie de referência, que é possível pela existência de um processo ininterrupto como a socialização.
O lugar atribuído ao social na perspectiva psicossocial da identidade de Ciampa (2007) envolve, ainda, a consideração quanto às determinações oriundas das condições históricas, materiais e culturais que repercutem sobre a identidade, e promovem uma diversidade de configurações da identidade em função da dinâmica da ordem social; em outras palavras, implica dizer que a identidade tem sido tratada de modos diferentes a depender do tipo de sociedade e momento histórico vivido pelos indivíduos.