4.1. Bilimsel Bilginin Deneysel Yapısına İlişkin Bulgular ve Yorumlar
4.1.4. ÖA4’ten Elde Edilen Bilimsel Bilginin Deneysel Yapısına İlişkin Bulgular
Um ser chamado
personagem
Na literatura de ficção, a personagem é, geralmente, definida como um ser fictício construído à imagem e semelhança dos seres humanos – “se estes são pessoas reais, aqueles são ‘pessoas’ imaginárias, se os primeiros habitam o mundo que nos cerca, os outros movem- se no espaço arquitetado pela fantasia do prosador”.1 Em meio às muitas configurações possíveis para as personagens, seja no texto oral ou escrito – ser humano imaginado, objeto ou animal falantes em apólogos ou fábulas... –, percebe-se que sua existência é de importância fundamental para uma narrativa. Anatol Rosenfeld, em A personagem de ficção, observa que a personagem é o elemento que “torna patente a ficção”.2
Razões mais intimamente “poetológicas” mostram que a personagem realmente constitui a ficção.
A descrição de uma paisagem, de um animal ou de objetos quaisquer pode resultar, talvez, em excelente “prosa de arte”. Mas esta excelência resulta em ficção somente quando a paisagem ou o animal (como no poema “A pantera”, de Rilke) se “animam” e se humanizam através da imaginação pessoal.3
No mesmo livro, Antonio Candido também destaca a importância da personagem em um texto narrativo. Ele chama a atenção para o fato de que o enredo de uma narrativa tem existência através das personagens. O autor observa que a personagem representa a “possibilidade de adesão afetiva e intelectual do leitor” a uma narrativa, uma vez que ela vive o enredo e as ideias de um texto narrativo e os torna vivos.4
Essa importância da personagem também é observada por estudiosos que se dedicaram às narrativas de tradição oral, destacando-se Vladímir Propp. O pesquisador russo constatou que as personagens são responsáveis pelas ações que estruturam os contos orais e, assim, constituem-se como elementos de grande importância para o conto. A partir dessa premissa, Propp desenvolveu os estudos de sua Morfologia do conto maravilhoso.5
Junto à importância atribuída à personagem, é possível perceber nos estudos literários a ausência de um consenso acerca da definição desse elemento da narrativa. Assim, uma definição conforme a apresentada no primeiro parágrafo deste capítulo – “personagem como representação fictícia de um ser” – torna-se apenas uma possibilidade dentre outras. Em diferentes estudos que se dedicaram a esse elemento da narrativa, podem ser encontrados
1 MOISÉS. Dicionário de termos literários, p. 396.
2 ROSENFELD. Literatura e personagem. In: CANDIDO et al. A personagem de ficção, p. 13.
3 Ibidem, p. 19.
4 CANDIDO. A personagem do romance. In: CANDIDO et al. A personagem de ficção, p. 39.
entrecruzamentos entre Literatura e História que acabam por constituir a personagem num entrelugar em que dialogam a ficção e a realidade.
Beth Brait chamou a atenção para a presença desse diálogo entre ficção e realidade nas próprias definições presentes em dicionários.6 O Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa, por exemplo, refere-se à personagem ora como “pessoa” ou “posição social”, ora como “papel representado” ou “figura humana fictícia”.
1. pessoa que é objeto de atenção por suas qualidades, posição social ou por circunstâncias
2. papel representado por ator ou atriz a partir de figura humana fictícia criada por um autor
3. Derivação: por extensão de sentido.
figura humana imaginada pelos autores de obras de ficção 3.1. Derivação: por extensão de sentido.
figura humana representada em várias formas de arte Ex.: o principal p. do quadro é um pastor de longas barbas 4. Derivação: por extensão de sentido.
o homem definido por seu papel social ou comportamento7
Na história da teoria e crítica literárias, essa aproximação entre pessoa e personagem pode ser encontrada em diferentes épocas. Horácio, por exemplo, em sua Arte poética, no século I a. C., ao conceber a personagem sob uma perspectiva pedagógica, estabelece um diálogo entre o real e a ficção. Para o poeta latino, que tem como base as ideias de Aristóteles, a ficção deve se aproximar da realidade e, assim, a personagem não se constitui apenas como a representação dos seres vivos, mas como um modelo a ser imitado, identificado com o ser humano.8
Nos séculos XVIII e XIX, com o surgimento de uma concepção psicologizante em torno da personagem, novamente realidade e ficção se aproximam. Sob essa concepção, a personagem é compreendida como “a representação do universo psicológico do seu criador.”9
A partir dos estudos empreendidos pelos formalistas russos, houve um distanciamento dessa concepção que aproximava a personagem do universo psicológico do seu criador. A personagem passou a ser compreendida como um elemento da linguagem.
Nesse sentido, ao estudar as particularidades da narrativa, os formalistas preocupam-se com os elementos que concorrem para a composição do texto e com os procedimentos que organizam esse material, denominando fábula o conjunto de eventos que participam da obra de ficção, e trama o modo como os eventos se interligam. De acordo com essa teoria, a personagem passa a ser vista como um dos componentes da fábula, e só adquire sua especificidade de ser fictício na medida em
6 BRAIT. A personagem, p. 9.
7 PERSONAGEM. In: Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa.
8 HORÁCIO. Arte poética. In: ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica, p. 58-59. 9 BRAIT. A personagem, p. 37.
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que está submetida aos movimentos, às regras próprias da trama. Finalmente, no século XX e através da perspectiva dos formalistas, a concepção de personagem se desprende das muletas de suas relações com o ser humano e passa a ser encarada como um ser de linguagem, ganhando uma fisionomia própria.10
É interessante observar que, mesmo com a concepção de personagem como ser linguístico, desafios e questões em torno das abordagens da personagem não abandonaram o estudo da narrativa. Roland Barthes, por exemplo, observou tais desafios no estudo da análise estrutural da narrativa.
Desde Propp, o personagem não cessa de impor à análise estrutural da narrativa o mesmo problema: de um lado os personagens (por qualquer nome que lhes chame
dramatis personae ou actantes) formam um plano de descrição necessário, fora do qual as “pequenas ações” narradas deixam de ser inteligíveis, de sorte que pode bem dizer que não existe uma só narrativa no mundo sem “personagem”, ou ao menos sem “agentes”; mas por outro lado estes agentes bastante numerosos não podem ser nem descritos nem classificados em termos de “pessoas”, seja que se considere a “pessoa” como uma forma puramente histórica, restrita a certos gêneros (em verdade, os que conhecemos melhor) e que por conseguinte é preciso reservar o caso, muito vasto, de todas as narrativas (contos populares, textos contemporâneos) que comportam agentes, mas não pessoas; isto é, que se admita que a “pessoa” não é mais que uma racionalização crítica imposta por nossa época a puros agentes narrativos.11
Percebe-se que os entrecruzamentos entre Literatura e História, ser humano e ser imaginado se fazem presentes com frequência quando a personagem é abordada em um texto literário. Antonio Candido, por exemplo, destacou esse entrecruzamento em torno das personagens de romances.
A personagem é um ser fictício, — expressão que soa como paradoxo. De fato, como pode uma ficção ser? Como pode existir o que não existe? No entanto, a criação literária repousa sobre este paradoxo, e o problema da verossimilhança no romance depende desta possibilidade de um ser fictício, isto é, algo que, sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão da mais lídima verdade existencial. Podemos dizer, portanto, que o romance se baseia, antes de mais nada, num certo tipo de relação entre o ser vivo e o ser fictício, manifestada através da personagem, que é a concretização deste.12
E quando as atenções se voltam para o personagem negro no texto literário, os vínculos desse “ser” com o real são sempre retomados. São vários os estudos que exploram as representações do negro na literatura em diálogo com a própria situação dos indivíduos negros em nossa sociedade. Assim, se, no Brasil, em vários momentos de sua história, o negro enfrenta situações de exclusão social, também no texto literário essa exclusão é frequentemente destacada.
10 BRAIT. A personagem, p. 44.
11 BARTHES. Introdução à análise estrutural da narrativa. In: BARTHES et al. Análise estrutural da narrativa: pesquisas semiológicas, p. 43.
O personagem negro em textos literários brasileiros
Muitos pesquisadores têm destacado uma ocultação da voz do negro desde os primeiros escritos que iriam constituir a literatura brasileira. Em muitas obras, o negro foi silenciado por intermédio da criação de estereótipos e de uma visão distanciada por parte dos escritores. Zilá Bernd, por exemplo, observa uma representação inventada do negro ao longo da história da literatura brasileira.
A literatura atua em determinados momentos históricos no sentido da união da comunidade em torno de seus mitos fundadores, de seu imaginário ou de sua ideologia, tendendo a uma homogeneização discursiva, à fabricação de uma palavra
exclusiva, ou seja, aquela que pratica uma ocultação sistemática do outro, ou uma representação inventada do outro. No caso da Literatura Brasileira, este outro é o negro cuja representação é, via de regra, inventada.13
O silenciamento do negro e essa representação inventada foram observados por diversos pesquisadores, como Domingos Proença Filho, David Brookshaw e Roger Bastide, em diferentes momentos históricos da literatura brasileira.
Roger Bastide destacou a criação de estereótipos envolvendo a figura do negro já em Gregório de Matos.
Encontramos estereótipos raciais quase desde as origens da literatura brasileira. Em Gregório de Matos, por exemplo. Trata-se de um satírico e de um satírico que imita muitas vezes os poetas europeus; apesar de suas imitações, ele é, todavia, o crítico azedo da sociedade colonial e nele aparece o estereótipo do mulato como vaidoso: pardos de trato
a quem a soberba emborca. __________
mulato muito ousado...
E o método que utiliza para humilhá-lo ainda mais é, justamente, insistir sobre as origens africanas:
Ter sangue de carrapato, Seu estoraque do Congo Cheirar-lhe a roupa a mondongo É cifra de perfeição.14
Ao lado desses estereótipos, percebe-se uma ocultação do negro que se estende à literatura produzida no século XVIII, período em que se desenvolveu com vigor a atividade mineradora no Brasil, diante da crise na produção de açúcar. Nesse período, houve um aumento significativo do contingente de negros escravizados no País, especialmente em Minas Gerais.
Os moradores da costa com seus escravos lançaram-se imediatamente a uma corrida a essas jazidas de ouro. Até a descoberta do ouro, no final do século XVII, o sertão de Minas Gerais, no coração da região aurífera, fora povoado apenas por índios não conquistados. Provavelmente já em 1710 havia cerca de 20 mil livres e igual número
13 BERND. Literatura e identidade nacional, p. 21.
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de escravos habitavam na região; em 1717, o número de escravos aumentara para 35 mil, e no início da década seguinte ultrapassou os 50 mil. O marco de 100 mil na população cativa provavelmente foi atingido na década de 1730, e nos anos 1760 havia 249 mil escravos e pessoas livres de cor e apenas 71 mil brancos na capitania. Na época do censo de 1776 foram registrados 266 mil pessoas de cor, das quais 157 mil eram escravos e a notável quantidade de 109 mil eram livres.15
Apesar do enorme contingente de negros em Minas Gerais, Jean Carvalho França, em Imagens do negro na literatura brasileira, observou a escassez de representações do negro na poesia da chamada escola mineira, em obras de autores como Cláudio Manuel da Costa, que viveram e escreveram nesse período de auge da mineração com enorme contingente de negros no trabalho escravo.16
Roger Bastide também destacou a ocultação do negro nesse período por intermédio de Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga:
Durante todo o período colonial, a imagem do negro estará indissoluvelmente associada à do trabalho servil, e o poeta branco procurará ocultar de sua bem-amada a visão horrível ou repugnante dos trabalhadores miseráveis:
Tu não verás, Marília, cem cativos Tirarem o cascalho e a rica terra...17
O mesmo pesquisador também observou a instauração do estereótipo da mulher negra sensual em outra obra de Tomás Antônio Gonzaga: Cartas chilenas.
A obra mais importante desse século, todavia, do ponto de vista que nos interessa, são sem dúvida nenhuma as Cartas chilenas. Nela encontramos um estereótipo que atravessará toda a literatura brasileira, chegando até os nossos dias, o da sensualidade da mulher de cor (assim com o gosto dela pelo luxo):
A ligeira mulata em trajes de homem Dança o quente lundu e o vil batuque _______ As vis mulatas _______ A lasciva umbigada _______ As negras quitandeiras
A custo dos amigos, só trajavam Vermelhas capas de galões cobertas...18
A partir do século XIX, a presença do negro amplia-se no discurso literário e esse personagem surge como tema central de algumas obras. David Brookshaw observou que as representações do negro no discurso literário se fizeram de forma mais intensa a partir de 1850, quando a abolição do tráfico de escravos “forçou os escritores brasileiros a voltarem sua
15 LUNA; KLEIN. Escravismo no Brasil, p. 50.
16 FRANÇA. Imagens do negro na literatura brasileira, p. 30.
17 BASTIDE. Estereótipos de negros através da literatura brasileira. In:______. Estudos afro-brasileiros, p. 117. 18 Ibidem, p. 118.
atenção aos escravos, e em particular ao tratamento que recebiam [...].”19 Conforme apontou Brookshaw, “um dos fatores responsáveis por esse fato foi, sem dúvida, o sentimento antiescravista”, 20 que começou a ganhar fôlego no século XIX.
Apesar de o negro tornar-se tema central de algumas obras dessa época, o contexto em que ele foi representado não sofreu grandes alterações, mesmo naqueles textos que se ocuparam da temática da escravidão. Foram instaurados estereótipos em torno da figura do negro e sua voz seguiu ocultada em meio a preconceitos.
Segundo David Brookshaw, O comendador, de Pinheiro Guimarães, considerado o primeiro texto literário que se dedicou à temática da escravidão, acabou por desenvolver uma descrição do negro que contribuiu para sua desumanização.
Assim, a literatura de 1850 em diante demonstra, em grande parte, preocupações pelo escravo, aparecendo o primeiro romance em folhetim com essa temática em 1856, intitulado O Comendador, de Pinheiro Guimarães. Os escravos são descritos com um misto de desgosto e piedade, e seu senhor como protótipo do feitor malvado. A exagerada descrição de sua aparência desumaniza os escravos mais do que humaniza o autor [...].21
Mesmo em Castro Alves, o “poeta abolicionista”, é possível verificar o encobrimento da voz do negro. David Brookshaw e Domício Proença Filho destacaram o fato de que os textos do poeta baiano não ficaram imunes aos preconceitos contra os negros da época. 22
Alfredo Bosi, apesar de reconhecer a importância de Castro Alves para o “arranque da primeira campanha abolicionista”, por intermédio de poemas como “Vozes d’África” e “Navio negreiro”, observa que a escravidão é definida no poema “Vozes d’África” como uma determinação divina, um castigo de Deus que estaria justificado no livro Gênesis, da Bíblia. “O destino do povo africano, cumprido através dos milênios, depende de um evento único, remoto, mas irreversível: a maldição de Cam, de seu filho Canaã e de todos os seus descendentes. O povo africano será negro e será escravo: eis tudo.”23
Os estereótipos em torno da figura do negro ainda podem ser apontados em outros momentos, em textos posteriores à obra de Castro Alves.
Por certo, na obra de escritores da Escola Naturalista como Aluísio Azevedo, seria o estereótipo da mulata sombriamente sensual que prevaleceria, por exemplo Rita Bahiana em O cortiço. No século XX, as heroínas “mulatas” de Jorge Amado, tais como Rosenda,
19 BROOKSHAW. Raça & cor na literatura brasileira, p. 28. 20 Ibidem, p. 30.
21 Ibidem, p. 28.
22A ocultação do negro na obra de Castro Alves é abordada nos seguintes textos: ROOKSHAW. Raça & cor na
literatura brasileira, p. 37; PROENÇA FILHO. O negro e a literatura brasileira. In: Boletim Bibliográfico da Biblioteca
Mário de Andrade, p. 83.
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Gabriela e Ana Mercedes, ou a Isaura de Lins do Rego deveriam desenvolver-se segundo as linhas de Rosa e não da nobre mulher escrava de Guimarães.24
Assim, são diversos os estereótipos que contribuíram para a ocultação da voz do negro na literatura brasileira. A partir dos estudos de pesquisadores que se dedicaram a esse tema, poderiam ainda ser listados inúmeros desses estereótipos em diferentes momentos da história da literatura brasileira: o negro infantilizado serviçal e subalterno, nas peças O cego (1845), de Joaquim Manuel de Macedo, e O demônio familiar (1857), de José de Alencar; o escravo como fera, em As vítimas algozes (1869), de Joaquim Manuel de Macedo; o negro como elemento que provoca o mal, em O tronco do ipê (1871), de José de Alencar; o escravo nobre, em A escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães, e em O mulato (1881), de Aluísio Azevedo; o negro erotizado, em O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, e em Bom crioulo (1895), de Adolfo Caminha; a bestialidade do negro, em Rei negro (1914), de Coelho Neto; o negro exilado da cultura brasileira, ligado à imagem de uma África nostálgica, em Urucungo (1931), de Raul Bopp; o negro fiel, em Corpo vivo (1962), de Adonias Filho.25
Pesquisa realizada por Regina Dalcastagnè, professora do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília, mostra que a situação não se alterou no romance contemporâneo. A pesquisa foi realizada entre 1990 e 2004, e teve como corpus 258 romances, de 165 diferentes escritores, correspondentes à totalidade das primeiras edições de romances de autores brasileiros publicados por três editoras – Companhia das Letras, Record e Rocco –, consideradas as “mais prestigiosas do País, de acordo com levantamento realizado junto a acadêmicos, críticos e ficcionistas.”26
A pesquisa revelou uma ausência do negro na literatura contemporânea por intermédio da própria cor dos autores. A pesquisa de Regina Dalcastagnè mostrou que 93,9% dos autores são brancos, enquanto 3,6% não tiveram a cor identificada. Os autores “não brancos” ficaram com apenas 2,4% das obras publicadas.27
Quanto à representação dos negros nas obras, a pesquisa indicou que a personagem do romance contemporâneo é, predominantemente, branca, prevalecendo o silenciamento do negro identificado em períodos anteriores da literatura brasileira.
A personagem do romance brasileiro contemporâneo é branca. Os brancos somam quase quatro quintos das personagens, com uma frequência mais de dez vezes maior do que a categoria seguinte (negros). Em 56,6% dos romances, não há nenhuma
24 BROOKSHAW. Raça & cor na literatura brasileira, p. 31.
25 Essas representações do negro na literatura brasileira foram apontadas e analisadas em textos de diferentes pesquisadores: Imagens do negro na literatura brasileira, de Jean Marcel Carvalho França; “O negro e a literatura brasileira”, de Domício Proença Filho; Raça & cor na literatura brasileira, de David Brookshaw; O negro e o romantismo
brasileiro, de Heloísa Teller Gomes; “Estereótipos de negros através da literatura brasileira”, de Roger Bastide. 26 DALCASTAGNÈ. Entre silêncios e estereótipos: relações raciais na literatura brasileira contemporânea, p. 89. 27 Ibidem, p. 89.
personagem não-branca. Em apenas 1,6%, não há nenhuma personagem branca. E dois livros, sozinhos, respondem por mais de 20% das personagens negras.
[...]
Os negros são 7,9% das personagens, mas apenas 5,8% dos protagonistas e 2,7% dos narradores; embora em proporção menos drástica, uma redução similar ocorre no caso dos mestiços. Juntando os dados anteriores, é possível observar a ampla predominância de homens brancos nas posições de protagonista ou de narrador, enquanto as mulheres negras mal aparecem [...].28
Desse modo, são poucos os momentos em que é possível identificar vozes afrobrasileiras na literatura produzida no País, voz que se expressa, conforme observaram Alfredo Bosi, Domício Proença Filho, Jean Carvalho França, Zilá Bernd, Eduardo de Assis Duarte, David Brookshaw, em textos de autores como Lima Barreto, Luís Gama ou Cruz e Sousa.
Diante da ocultação do negro e da criação de estereótipos em torno de sua figura na literatura escrita, cabe observar de que modo o negro é representado nas expressões da tradição oral. Ao se tomar o negro como personagem, seria possível ouvir uma voz africana ou afrobrasileira nas narrativas de tradição oral?
Para David Brookshaw, as narrativas de tradição oral são permeadas por inúmeros preconceitos em torno da figura do negro.
Em nenhuma outra parte dos domínios da cultura brasileira a fusão do simbolismo da cor e do preconceito racial torna-se mais evidente do que nas histórias populares,