A proibição e a repressão às drogas em território brasileiro é recente, porém, algumas leis já instituíam pena a quem fosse encontrado consumindo ou comercializando determinadas substâncias.
No século XVIII, a Coroa Portuguesa chegou a incentivar o plantio da maconha (CARLINI, 2005, online). No entanto, em 1830, instituiu-se uma lei proibicionista na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Dispunha-se que os negros vadios encontrados com maconha prestariam penalidade pecuniária e seriam detidos. Em 1890, o Código Penal proibia substâncias venenosas (FORTE, 2010).
Em 1914, 1915 e 1921 foram editados, respectivamente, os decretos 2.861, 11.481 e 4.294. Motivados principalmente pela Conferência Internacional do Ópio, remete-se a discussão a respeito das substâncias entorpecentes à Conferência Internacional realizada em 1909 em Xangai. Esses decretos são decorrentes do que se passava em nível internacional. O comércio de ópio entregava enorme soma de lucros aos cofres chineses, o que desagradava aos negócios do Reino Unido. A motivação inicial da Conferência de Xangai foi econômica, concluindo-se pela proibição de comercialização das drogas narcóticas.
Fernanda Mena e Dick Hobbs (2010, online) criticam a forma como se deu início ao que chamam “demonização” das drogas. Em artigo publicado no ano passado, discorrem:
Em 1909, o primeiro esforço internacional de proibição das drogas aconteceu, em Xangai, com a criação de um sistema de controle de drogas baseado em proibição, e estabelecendo em todo o mundo um princípio, incorporado às leis internacionais, de proibir a produção, comércio e consumo de drogas. Ainda que a aspiração de eliminar tanto a oferta quanto a procura de drogas seja contenciosa, foi reiterada nas revisões periódicas da política internacional quanto às drogas conduzidas pelas Nações Unidas, a despeito dos resultados negativos destacados tanto por estudiosos acadêmicos (Friedman 1989; Nadelmann 1990; Levine 2003; Miron 2004; Bancroft 2009; Barrett e Nowak 2009) quanto pela sociedade civil (Transnational Institute 2008; Comissão Latino-Americana Sobre Drogas e Democracia 2009).
O bispo Brent presidiu a primeira reunião internacional que tinha por objetivo regulamentar o comércio de ópio, a Comissão do Ópio de Xangai, em 1909, realizada apenas algumas décadas depois da última das Guerras do Ópio (1856- 1860) travadas entre Reino Unido e China, cujo propósito era garantir a importação de ópio à China (Hanes e Sanello 2003). Uma das recomendações da Comissão de Xangai era que o ópio não pudesse ser exportado a países cujas leis nacionais proibissem seu consumo. Depois da reunião de Xangai, no entanto, continuava a entrar ópio na China, principalmente por intermédio de comerciantes portugueses, e os Estados Unidos apresentaram uma visão quanto ao controle internacional das drogas que tinha por base o suprimento, por meio de medidas como limitações ao cultivo, controle da fabricação e distribuição, equalização de controles nacionais e instituição de direitos recíprocos de busca de embarcações suspeitas (Taylor 1969: 83-4).
Ainda maior significância possuiu a Conferência Internacional do Ópio que ocorreu entre 1912 e 1914 e teve sede em Haia. Os trabalhos realizados na referida Conferência deram origem ao primeiro tratado internacional de controle de drogas (WILLOUGHBY apud MENA; HOBBS, 2010, online). A Convenção, assinada por 40
países, dentre eles o Brasil, comprometeu-se a erradicar a produção de substâncias narcóticas (FORTE, 2007).
Com o fim da Primeira Guerra Mundial e a inauguração da Liga das Nações, incluiu-se, na legislação básica desta organização, o objetivo de controlar as chamadas “drogas perigosas” e incluiu-se a Convenção de Haia dentre os acordos de paz do Tratado de Versalhes (LEVINE apud MENA; HOBBS, 2010, online). No entanto, Rodrigues (apud FORTE, 2007), afirma que, no Brasil, permaneceu a tolerância da utilização de drogas pelas classes mais abastadas até o advendo de lei proibicionista de 1921.
A década de 1930 e parte da de 1940 não trouxeram grandes inovações em âmbito nacional, entretanto, em nível internacional é de se citar a participação do Brasil na II Conferência Internacional do Ópio, no ano de 1924 em Genebra.
Elisaldo Araújo Carlini (2005, online) colaciona que:
Foi também na década de 1930 que a repressão ao uso da maconha ganhou força no Brasil. Possivelmente essa intensificação das medidas policiais surgiu, pelo menos em parte, devido à postura do delegado brasileiro na II Conferência Internacional do Ópio, realizada em 1924, em Genebra, pela antiga Liga das Nações. Constava da agenda dessa conferência discussão apenas sobre o ópio e a coca. E, obviamente, os delegados dos mais de 40 países participantes não estavam preparados para discutir a maconha. No entanto o nosso representante esforçou-se, junto com o delegado egípcio, para incluí-la também.
Em 1932, 1934 e 1938, outros decretos foram editados, mas todos seguindo o modelo sanitarista de controle. O Decreto-Lei 891 de 1938 proibiu terminantemente que fosse feita, por particulares, o plantio, a cultura, a colheita, e a exploração da maconha (FONSECA apud CARLINI, 2005, online). Mesmo o Código Penal Brasileiro de 1940 ainda não inaugurou mandamento criminalizante do consumo de drogas.
Em 1945, surge a Organização das Nações Unidas (ONU), a qual estabeleceu como uma de suas metas o controle das drogas e sustentou a Convenção Unificada sobre as Drogas Narcóticas, que aconteceria em 1961 (MENA; HOBBS, 2010, online). A Convenção tornou ilícitas a maconha, a cocaína e outras drogas. Somente em 1964 o Decreto n. 54.216 incorporou dita Convenção à legislação brasileira.
Novamente, cabem as considerações de Fernanda Mena e Dick Hobbs (2010, online):
A convenção de 1961 tinha por foco drogas baseadas em plantas, tais como ópio, heroína, coca, cocaína e cannabis, limitando sua produção, comércio e uso exclusivamente a propósitos médicos e científicos. Também criou o Conselho Internacional de Controle de Narcóticos (INCB), que fiscaliza a implementação das
convenções da ONU sobre as drogas, „operando como uma Organização Mundial de Comércio em negativo‟, para garantir que os signatários não permitam que drogas narcóticas sejam produzidas, comerciadas ou vendidas (Bancroft 2009: 117). A Constituição de 1967 foi a primeira a fazer referência à repressão às drogas, uma vez que a descreve dentre as funções da Polícia Federal.
Em 1968, o Decreto-Lei 385 cominava penas iguais ao traficante e ao usuário de drogas, sendo tal reafirmado na Lei 5.726/71. Três anos depois, em 1971, firmou-se a Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas, a qual refletia a preocupação das autoridades políticas com a difusão de drogas sintéticas.
Em 1976, a Câmara dos Deputados instalou uma CPI para discutir a situação das drogas no País. Em decorrência dos debates, confeccionou-se a Lei 6.368. Para Francisco Alexandre de Paiva Forte (2010), a tal legislação inaugurou a fantasiosa distinção do narcotraficante como delinquente e o consumidor como doente.
A Constituição de 1988 traz no art. 5o, inciso XLVIII, mandamento que formaliza a repressão ao comércio de drogas. Esse dispositivo teria sido inserido por influência da Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de Drogas Narcóticas e Substâncias Psicotrópicas, que ocorreu no mesmo ano em que a nova Carta Magna brasileira entrou em vigor. A Convenção instituiu como requisito que cada signatário tornasse a posse pessoal de drogas um crime na legislação de seu Estado (BEWLEY-TAYLOR apud MENA; HOBBS, 2010, online).
Fernanda Mena e Dick Hobbs (2010, online) explicam:
Em 1987, a ONU anunciou um novo tratado internacional contra o tráfico de drogas, e em 1988 uma força-tarefa do Grupo dos 7 (G7) priorizou a ação internacional contra a lavagem de dinheiro a fim de confiscar os lucros auferidos com as drogas. Em dezembro do mesmo ano, os países do G7 incorporaram essas propostas à Convenção da ONU contra o Tráfico Ilícito de Drogas Narcóticas e Substâncias Psicotrópicas (Friman 1991: 880-2; Woodiwiss e Bewley-Taylor 2005: 17-21). Por volta de 2005, 173 países haviam assinado a convenção (Bewley-Taylor 1999: 171-4). Em 1991, o Brasil promulgou a Convenção através do Decreto Legislativo n. 162. Destacamos os principais pontos do artigo 3, referente aos delitos e sanções:
ARTIGO 3 Delitos e Sanções
1. Cada uma das Partes adotará as medidas necessárias para caracterizar como delitos penais em seu direito interno, quando cometidos internacionalmente:
a) I - a produção, a fabricação, a extração, a preparação, a oferta, a oferta para venda, a distribuição, a venda, a entrega em quaisquer condições, a corretagem, o envio, o envio em trânsito, o transporte, a importação ou a exportação de qualquer entorpecente ou substância psicotrópica, contra o disposto na Convenção de 1961, em sua forma emendada, ou na Convenção de 1971;
II - o cultivo de sementes de ópio, do arbusto da coca ou da planta de cannabis, com o objetivo de produzir entorpecentes, contra o disposto na Convenção de 1961 em sua forma emendada;
III - a posse ou aquisição de qualquer entorpecente ou substância psicotrópica com o objetivo de realizar qualquer uma das atividades enumeradas no item I - acima; IV - a fabricação, o transporte ou a distribuição de equipamento, material ou das substâncias enumeradas no Quadro I e no Quadro II, sabendo que serão utilizados para o cultivo, a produção ou a fabricação ilícita de entorpecentes ou substâncias psicotrópicas;
V - a organização, a gestão ou o financiamento de um dos delitos enumerados nos itens I - II -, III - ou IV;
b) I - a conversão ou a transferência de bens, com conhecimento de que tais bens são procedentes de alguns dos delitos estabelecidos no inciso a) deste parágrafo, ou da prática do delito ou delitos em questão, com o objetivo de ocultar ou encobrir a origem ilícita dos bens, ou de ajudar a qualquer pessoa que participe na prática do delito ou delitos em questão, para fugir das conseqüências jurídicas de seus atos; II - a ocultação ou o encobrimento, da natureza, origem, localização, destino, movimentação ou propriedade verdadeira dos bens, sabendo que procedem de algum ou alguns dos delitos mencionados no inciso a) deste parágrafo ou de participação no delito ou delitos em questão;
c) de acordo com seus princípios constitucionais e com os conceitos fundamentais de seu ordenamento jurídico;
I - a aquisição, posse ou utilização de bens, tendo conhecimento, no momento em que os recebe, de tais bens procedem de algum ou alguns delitos mencionados no inciso a) deste parágrafo ou de ato de participação no delito ou delitos em questão; II - a posse de equipamentos ou materiais ou substâncias, enumeradas no Quadro I e no Quadro II. tendo conhecimento prévio de que são utilizados, ou serão utilizados, no cultivo, produção ou fabricação ilícitos de entorpecentes ou de substâncias psicotrópicas;
III - instigar ou induzir publicamente outrem, por qualquer meio, a cometer alguns dos delitos mencionados neste artigo ou a utilizar ilicitamente entorpecentes ou substâncias psicotrópicas;
IV - a participação em qualquer dos delitos mencionados neste artigo, a associação e a confabulação para cometê-los, a tentativa de cometê-los e a assistência, a incitação, a facilitação ou o assessoramento para a prática do delito.
2. Reservados os princípios constitucionais e os conceitos fundamentais do seu ordenamento jurídico, cada Parte adotará as medidas necessárias para caracterizar como delito penal, de acordo com o direito interno, quando configurar a posse, a aquisição ou o cultivo intencionais de entorpecentes ou de substâncias psicotrópicas para consumo pessoal, contra o disposto na Convenção de 1961, na Convenção de 1961, em sua forma emendada, ou na Convenção de 1971.
[...]
6. As Partes se esforçarão para assegurar que qualquer poder legal discricionário, com base em seu direito interno, no que se refere ao julgamento de pessoas pelos delitos mencionados neste artigo, seja exercido para dotar de eficiência máxima as medidas de detecção e repressão desses delitos, levando devidamente em conta a necessidade de se exercer um efeito dissuasivo à prática desses delitos.
[...]
11. Nenhuma disposição do presente artigo afetará o princípio de que a caracterização dos delitos a que se refere ou as exceções alegáveis com relação a estes fica reservada ao direito interno das Partes e que esses delitos deverão ser julgados e punidos de conformidade com esse direito.
No ano de 2004, o Brasil acordou com o Escritório das Nações Unidas sobre Entorpecentes e Crimes (UNODC) da ONU para que elaborassem uma estratégia a fim de reduzir a insegurança urbana, cooperando para o combate de drogas e da criminalidade no Brasil. O UNODC compromete-se, no memorando, a promover um intercâmbio de
experiências entre o Brasil e outros países, e estabelecer cooperação técnica para abordar o conjunto de questões relacionadas ao abuso de drogas ilícitas (Memorando de Entendimento entre o Governo da República do Brasil e o Escritório das Nações Unidas sobre Entorpecentes e Crimes, 2004).
Em 2006, a Nova Lei de Drogas entrou em vigor no Brasil, trazendo importantes mudanças no tratamento dado ao usuário de drogas. No ano de 2009, o Brasil participou da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia. Através do Decreto n. 7.179, de 20 de maio de 2010, instituiu-se o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas com vistas à prevenção do uso, ao tratamento e à reinserção social de usuários e ao enfrentamento do tráfico de crack e outras drogas ilícitas. Vislumbra-se, nesse último dispositivo, uma mudança de postura: a repressão não mais é vista como solução primordial no combate às drogas; em seu lugar, a prevenção toma a frente após mais de dois séculos de políticas repressivas infrutíferas.