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Após a abordagem teórica da Nova Lei de Drogas e de aspectos teóricos básicos da mesma, passamos a uma visão teórica da repressão segundo o Direito Penal e agora, naturalmente, passamos a um viés mais concreto da própria aplicação da Lei antes da atuação do Judiciário. Mister se faz essa referência à realidade pré-processual por ser um dos mais questionados e controvertidos aspectos da questão das drogas no país.

Damásio Evangelista de Jesus (2003) identifica a ligação entre os mais diversos crimes e o consumo de drogas. As drogas impulsionam, liberam agressividade, diminuem a prudência e afrouxam as barreiras e os limites sociais, conforme depoimento de um psiquiatra citado por Damásio. Assim, crescente é o número de homicídios por cobrança de dívida relacionada a drogas ou disputa de áreas de comércio. Em São Paulo, 60% dos homicídios têm alguma relação com as drogas. De 1997 a 1999, a Delegacia de Narcóticos de São Paulo prendeu 3.430 pessoas envolvidas com a venda de drogas, mais de 2 mil estavam ligadas a assaltos (JESUS, 2003, p. 55-57).

Ester Kozovsky (2003, p. 170-171) vislumbra a existência de nexo de causalidade entre o tráfico e o aumento da criminalidade. Diz a nobre jurista:

Devemos considerar a relação do tráfico com o crime organizado e ramificações internacionais, gerando aumento da criminalidade, assim como os crimes cometidos em virtude do tráfico e do consumo e os crimes praticados sob o efeito de drogas lícitas e ilícitas.

Quanto aos crimes cometidos sob efeitos de drogas, em geral são violentos, sendo certo que o agente, para ficar alerta e criar coragem para cometê-los, toma estimulantes que afrouxam seus freio inibitórios.

A Constituição Federal do Brasil traz no Título V, denominado Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas, um capítulo reservado à segurança pública. No art. 144, declara-se como desígnio da segurança pública a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e dos patrimônios. Após o caput, o artigo elenca os órgãos responsáveis pela efetivação do que se propõe. Observa-se que todos os órgãos são policiais, no que se conclui que a segurança pública é, na prática, atribuição da polícia, restando mesmo como equipamento de suporte e de início dos procedimentos da Justiça.

O Acordo de Cooperação Mútua para Redução da Demanda, Prevenção do Uso e Combate à Produção e ao Tráfico Ilícitos de Entorpecentes, assinado em 1995, do qual o Brasil é signatário, traz a obrigação de aumentar o número de prisões preventivas efetuadas e condenações relacionadas a entorpecentes, as quais deverão ser comprovadas estatisticamente para que sejam enviadas verbas para a compra de equipamentos e o treinamento para a Polícia Federal (FORTE, 2007).

No Ceará conta-se com uma delegacia especializada, a Delegacia de Narcóticos (DENARC). A DENARC monitora as quadrilhas de traficantes através de uma equipe de análise, contando com um canil que mantém e treina cães para farejar substâncias entorpecentes (NASCIMENTO, 2010). Há constante vigilância em aeroportos e rodoviárias, locais onde frequentemente há apreensão de drogas. A Polícia Federal e a Polícia Civil têm liderado diversas ações que culminaram na prisão de traficantes responsáveis por comércio interestadual e internacional de drogas, além da apreensão de vultosa quantidade de substâncias entorpecentes. Em 2009, a Polícia Federal teria aumentado em 120% o número de policiais efetivos a patrulhar a fronteira do País (BRASIL, 2006, online).

Francisco Rodrigues do Nascimento (2010) cita como causas da crescente participação do Brasil no crime organizado o papel que o país desempenha como principal rota de escoamento da produção sul-americana de cocaína e as condições favoráveis à lavagem de dinheiro. O autor estabelece como óbice à repressão ao narcotráfico a grande extensão territorial

do País, sendo de difícil cumprimento a fiscalização aos 16 mil quilômetros de fronteiras. Segundo ele, o Brasil passou a grande consumidor de drogas devido à enorme quantidade de substâncias que passavam pelo País a fim de serem distribuídas a outros lugares. Em suas palavras Francisco Rodrigues do Nascimento (2010, p. 31)

[...] dificuldades com nossas enormes fronteiras, poucos policiais federais para fiscalizar, poder financeiro dos traficantes, que em muitos casos corrompem a polícia, e o crescimento das facções criminosas, que se aliaram e dominam o tráfico, são os principais problemas do Brasil no combate ao narcotráfico.

Apesar de se interceptar inúmeras remessas de drogas, desmontar quadrilhas e prender muitos traficantes de pequeno e médio porte, o combate ao tráfico e à difusão das drogas não tem apresentado resultados significativos na efetiva diminuição da comercialização de substâncias ilícitas. Assim, o comércio de drogas é um negócio rentável e os chamados “soldados do tráfico” se sucedem, apesar dos grandes riscos de serem mortos ou presos.

O sistema repressivo tem o apoio da Organização das Nações Unidas e séculos de experiência, mas os resultados não se apresentam justificadores do número de mortes que traz com a chamada “guerra às drogas”. A enérgica perseguição policial aos usuários de maconha remonta à década de 1930 (CARLINI, 2005, online). Desvirtuada está, pois, a política de repressão às drogas, afrontando a própria Constituição Federal e os princípios básicos de Direito Penal.

Seguindo esse entendimento, Ester Kozovsky (2003, p. 175), explica o motivo da ineficácia das medidas repressivas:

Para extinguir-se tais „anomalias‟ faz-se o apelo a um „melhor‟ aparelhamento do corpo policial e se propõe a reforma do Código Penal, de modo a permitir uma justiça criminal mais eficiente; a redução da menoridade criminal para 16 anos (atualmente a menoridade está no patamar de 18 anos); a pena de morte para os criminosos „irrecuperáveis‟ e „inescrupulosos‟, um sistema carcerário mais rigoroso; o controle da natalidade; a extinção das favelas; e assim por diante. Soluções paliativas que não atacam a causa, mas apenas o efeito.

E conclui, posteriormente, no que se refere especificamente às drogas:

Retornando à questão das drogas, já em junho de 1992 foi aprovada pelo Congresso Federal de Entorpecentes (CONFEN), órgão interministerial, já extinto, uma proposta para uma política nacional de drogas, que já vinha sendo solicitada por órgãos internacionais e nacionais, conselhos estaduais e municipais, na busca de

caminhos mais adequados para enfrentar o crescente problemas das drogas na atualidade. Todos concordam que a repressão existe e é aplicada, mas não é suficiente para combater a drogas e diminuir a demanda; para que isso ocorra, é preciso fazer uma abordagem diferente, envolver todos os segmentos da comunidade, unir autoridades e sociedade civil, dando prioridade à prevenção em seus múltiplos aspectos, encarando de frente a questão sem subterfúgios e dubiedades.

Para Orlando Soares (2003, p. 160), os usuários de drogas regem-se, em parte, em desafio às normas de conduta social e criminal, buscando um confronto direto com a repressão policial. Usuário este a que Francisco Alexandre de Paiva Forte (2007) já atribuíra a disseminação das drogas mais que aos traficantes propriamente ditos.

Há que se enfrentar os méritos das questões da criminalidade, levantando-se a desigualdade social a que se submete grande parte da população brasileira. A falta de oportunidades oferecidas pelo Estado é suprida pelo comércio de drogas como promessa de obter dinheiro de maneira fácil.

Eduardo Reale Ferrari e Janaína C. Paschoal (2003, p. 149) expõem o que, para eles, seriam as verdadeiras causas a serem dirimidas:

Os problemas afetos à criminalidade nas zonas periféricas são principiados em face da absoluta perda de valores decorrentes da falta de moradia digna, espaços de lazer e desemprego dos cidadãos, conduzindo a que muitos jovens sejam cooptados pela marginalidade da droga, caminho de difícil recuperação.

Coadunando com esse entendimento, César Barros Leal (2003, p. 31) compara o Brasil ao México:

Em ambos os países, a urbanização desenfreada, a deterioração progressiva das condições de vida, a miséria ominosa, o desemprego crônico, o baixo nível educacional, a desintegração da família, o consumo e o tráfico de drogas, os conflitos entre narcotraficantes, o contrabando de armas, a morosidade da justiça, a precariedade do sistema penitenciário e a impunidade (representada, verbigrácia, por milhares de mandados de prisão pendentes, por cumprir) contribuem para o incremento da delinquência violenta.

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