I. BÖLÜM
2. ŞİDDET
2.4. Aile İçi Eşler Arası Şiddet
A convivência humana nos mais diversos ambientes enseja alguma forma de controle social. No caso das instâncias informais, o comportamento do indivíduo é forjado de forma mais ou menos espontânea, ou seja, há situações em que a operacionalização do controle aparenta ser mais natural, quase automática, apesar de que, como vimos aqui, esta é apenas uma sensação, pois o enquadramento, a uniformização dos comportamentos
comunidades de Maracaibo que tinham forte presença de alguma religião no seu cotidiano. A perspectiva do estudo da violência cultural que seria impingida por estas seitas religiosas a essas populações é muito interessante para uma crítica criminológica ao controle exercido por tais cultos. Para a referência completa do artigo, vide, ao final da tese, as referências citadas.
166 Durante a pesquisa de campo e mesmo antes, quando foi professora da Turma Evandro Lins e Silva, do bacharelado em Direito da Universidade Federal de Goiás (UFG), formada exclusivamente por assentados e agricultores familiares tradicionais, esta pesquisadora presenciou e/ou participou de várias reuniões, aulas, congressos, assembleias e mesmo festividades que foram precedidas pelas denominadas “místicas”. Em várias publicações do MST há a recomendação de que em qualquer evento importante do movimento ocorram rituais que encenem e reforcem o contexto e as vicissitudes da luta pela terra, relembrando os mártires, as manifestações artísticas (poesias, fotografias, canções) que homenageiam o movimento, bem como a relação do homem do campo com a natureza, ao produzir e colher os frutos da terra. A preparação e o cuidado com a mística é muito relevante no cotidiano dos militantes do movimento sem terra e, sem dúvida, um aspecto importante do controle social que perpassa todas as instâncias do movimento.
167 Sobre a importância e características da mística especificamente dos projetos de assentamento há uma tese interessante intitulada “A territorialidade da mística nos assentamentos do movimento dos trabalhadores rurais no estado de Sergipe: novas parcerias, contradições e obras”, defendida em 2010 na Universidade Federal de Sergipe por Maria Edilúzia Leopoldino Santos. Aqui, o capítulo referente a este locus (capítulo 4, adiante), voltará a mencionar esse trabalho.
humanos é sempre artificial e produto de uma adequação e, muitas vezes, até de dolorosas contenções e renúncias.
Do que foi visto até aqui, é possível afirmar que a justificativa última de toda forma de controle – mesmo o informal – é alguma forma de autoridade, que tanto pode ser fundamentada em aspectos morais, educacionais, religiosos ou simplesmente temor reverencial. Mas há outros mecanismos poderosos que influenciam sobremaneira o papel social desempenhado pela pessoa; numa sociedade capitalista o mais efetivo deles certamente é a pressão econômica que, no ambiente laboral é exercida pelo patrão, o chefe, o dono dos meios de produção e mesmo pelos colegas de trabalho e clientes, estes últimos certamente em menor intensidade. Na era do consumo, estar empregado e auferir renda podem ser tão determinantes para uma “vida social, afetiva e familiar” quanto o ar que se respira.
Partilhando tal entendimento, é o que afirma Mariana Barros Barreiras:
Pode-se lembrar, ademais, que não apenas a autoridade do chefe impondo disciplina constitui um freio para condutas anti-sociais no seio laboral. Igualmente configuram meios de controle social, apenas para citar alguns exemplos, a presença de colegas de profissão no mesmo ambiente; a eventual necessidade de lidar com clientes, termo que aqui deve ser entendido no seu sentido mais amplo, e de, portanto, passar uma imagem de confiança e credibilidade; os processos seletivos e concursos públicos que requerem uma vida pregressa regrada e exemplar. Todos esses mecanismos atuam nos jovens e adultos com muita força, fazendo com que pautem muitos aspectos de suas vidas pessoais pensando na repercussão profissional de seus atos168.
Necessário se faz mencionar, também, outra forma de controle social, também informal, mas com uma enorme carga de violência: é a atividade, infelizmente ainda muito comum, de grupos de extermínio no ambiente urbano e de “jaguncismo” e pistolagem no meio rural. Portadores de enorme temor e, por isto mesmo, de alta carga de controle, esses dois fenômenos são, literalmente, “o ponto fora da curva” da lógica específica e característica das modalidades de controle social informal: serem menos violentas, mais econômicas e, ainda que passíveis de crítica – como fartamente apresentado aqui – bem mais eficazes socialmente do que os instrumentos de controle social formal.
Assim, o simples fato de existirem já é uma excrescência, a demandar enorme esforço social na superação dessa chaga, que atenta contra a manutenção de um
168 BARREIRAS, Mariana Barros. Controle social informal X Controle social formal. In: SÁ, Alvino Augusto de e SHECAIRA, Sérgio Salomão (orgs.). Criminologia e os problemas da atualidade, p. 306.
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mínimo de paz social, já tão turbada cotidianamente por conta da falta de equilíbrio de forças, dos vários vícios e fragilidade de uma democracia jovem, como é o caso do Brasil, e, principalmente por conta do alto grau de violência intrínseca à própria circunstância de sermos um dos países mais desiguais do mundo.
O grave problema mencionado acima, dada a sua complexidade e renitente perpetuação, investigações mais aprofundadas do que comporta este trabalho. O objetivo aqui foi apenas mencionar a sua existência e denunciá-la. O próximo passo é abordar as teorias e campos do saber que vêm cumprindo a tarefa de explicitar as mazelas das estratégias de controle social empreendidas em países ditos “civilizados” nos últimos trinta anos e de engendrar a crítica às mesmas. Tal empreitada tem sido levada a cabo pelos estudiosos da denominada criminologia radical (ou crítica), a qual tem sido identificada como uma nova linha teórica (ou teoria, escola) da criminologia. Analisemo-na brevemente.