I. BÖLÜM
2. ŞİDDET
2.2. Şiddet Olgusu ve Nitelikleri
A história da execução das penas no Brasil tem pelo menos um marco considerável: a aprovação da LEP – Lei de Execuções Penais (Lei n. 7210, de 13 de julho de 1984).
É que antes da existência dessa legislação específica, o cumprimento das penas (até então eminentemente prisionais) era conduzido por autoridades administrativas, praticamente sem a participação do poder judiciário, ou seja, tratava-se de um
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procedimento meramente burocrático, que podia muito bem ser ilustrado pela figura do “diretor de penitenciária”, senhor da vida e morte do sentenciado e personagem freqüente de uma infinidade de filmes estadunidenses133 cujo mote principal é justamente a demonstração da tirania e insensibilidade normalmente características desse personagem tanto lá quanto aqui.
A vigência da lei de execução penal entre nós veio para transferir grande parte da responsabilidade pela condução da execução da pena privativa de liberdade para o poder judiciário, retirando da figura do diretor prisional a centralidade desta tarefa. Em princípio, pode-se afirmar que tal mudança trouxe avanços para um fenômeno quase desconhecido da sociedade e, até então, até mesmo das autoridades judiciais: o ambiente prisional e suas incontáveis vicissitudes. Ocorre, porém, que o universo particular que é o cárcere parece não interessar, verdadeiramente, à sociedade extra-muros nem tampouco à maioria dos juízes, autoridades a quem, juntamente com o ministério público, a LEP atribuiu, ainda em 1984, a tarefa de zelar pela boa condução do cumprimento das penas prisionais. O descaso sobre a matéria por parte da elite da burocracia estatal persiste desde sempre. É o que denuncia Michel Foucault:
O escândalo e a luz serão partilhados de outra forma: é a própria condenação que marcará o delinquente com sinal negativo e unívoco: publicidade, portanto, dos debates e da sentença; quanto à execução, ela é como uma vergonha suplementar que a justiça tem vergonha de impor ao condenado; ela guarda distância, tendendo sempre a confiá-la a outros e sob a marca do sigilo. É indecoroso ser passível de punição, mas pouco glorioso punir. Daí esse duplo sistema de proteção que a justiça estabeleceu entre ela e o castigo que ela impõe134.
O círculo vicioso da reiterada reincidência criminal tem seu ápice justamente no momento da execução da pena, tão negligenciado pelo poder público e pela sociedade em geral. A falácia das denominadas teorias “re” – ressocialização, reabilitação, reeducação – se materializa por completo com a desídia com que é tratada a questão. Esse é um dos vários problemas levantados pelos criminólogos críticos ao vaticinarem a falência do cárcere. Mas nem é o mais grave deles: segundo esse viés criminológico, a própria pena prisional deveria ser extinta, por sua absoluta imprestabilidade para propiciar qualquer
133 Desse gênero cinematográfico cite-se, dentre todos, o belíssimo filme Um sonho de liberdade (título original: The Shawshank Redemption), dirigido por Frank Darabont e com belas atuações de Morgan Freeman (Ellis Boyd "Red" Redding) e Tim Robbins (Andrew "Andy" Dufresne). No enredo, o personagem Warden Samuel Norton (uma brilhante interpretação do ator Bob Gunton), diretor da fictícia penitenciária de
Shawshank, apresenta todas as características acima destacadas: tirania, insensibilidade, desonestidade e corrupção.
benefício social e por ser comprovadamente deletéria, estigmatizante e causa primordial justamente daquilo que em tese deveria combater: a criminalidade.
Diante de tantas falhas no cumprimento dos seus objetivos, o cárcere sobrevive por ter um papel decisivo na manutenção da desigualdade característica do sistema capitalista. Em Vigiar e punir Michel Foucault135 descreve o seu percurso histórico com pormenores, assim como Dario Melossi e Massimo Pavarini em Cárcere e fábrica136, obra na qual também se enfatiza com tintas fortes a verdadeira relação de causa e efeito estabelecida entre a mudança do modo de produção feudal para o modo de produção capitalista e a virada paradigmática consistente na superação das penas corporais para darem lugar à disciplina prisional.
Ao analisar esse percurso histórico, Alessandro Baratta reitera que a prisão ainda tem lugar na contemporaneidade. Como já mencionado, o seu papel na perpetuação da desigualdade intrínseca às economias capitalistas ainda é determinante. É esta a precisa análise do autor acerca da complexa engrenagem em que se insere a pena de privação da liberdade na atualidade:
Contudo, ainda mais essencial parece a função realizada pelo cárcere, ao produzir, não só a relação de desigualdade, mas os próprios sujeitos passivos desta relação. Isto parece claro se se considera a relação capitalista de desigualdade, também e sobretudo como relação de subordinação, ligada estruturalmente à separação entre propriedade da força de trabalho e dos meios de produção e, por outro lado, à disciplina, ao controle total do indivíduo, requerido pelo regime de trabalho na fábrica e, mais em geral, pela estrutura de poder em uma sociedade que assumiu o modelo da fábrica. O nexo histórico entre cárcere e fábrica, entre introdução do sistema carcerário e transformação de uma massa indisciplinada de camponeses expulsos do campo, e separados dos próprios meios de produção, em indivíduos adaptados à disciplina da fábrica moderna, é um elemento essencial para compreender a função da instituição carcerária, que nasce em conjunto com a sociedade capitalista e acompanha a sua história. Em uma fase mais avançada, este elemento não é mais suficiente
para ilustrar a relação atual entre cárcere e sociedade, mas permanece, em todo caso, a matriz histórica desta e, de tal modo, continua a condicionar sua existência.
Por isto, a função do cárcere na produção de indivíduos desiguais é, hoje, não menos importante. Atualmente o cárcere produz, recrutando-o principalmente das zonas mais depauperadas da sociedade, um setor de marginalizados sociais particularmente qualificado para a intervenção do sistema punitivo do Estado e para a realização daqueles processos que, ao nível da interação social e da
135 Vigiar e punir é leitura fundamental para entender os meandros da história da punição. Como esse não é o objetivo dessa tese, faz-se aqui apenas a indicação dos capítulos intitulados “a mitigação das penas”, “o panoptismo” e “o carcerário”.
136 MELOSSI, Dario e PAVARINI, Massimo. Cárcere e fábrica. As origens do sistema penitenciário (séculos XVI – XIX). Trad.: Sérgio Lamarrão. Rio de Janeiro: Revan: ICC, 2006 (Coleção Pensamento criminológico, vol. 11).
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opinião pública, são ativados pela pena, e contribuem para realizar o seu efeito marginalizador e atomizante. Este setor qualificado do “exército industrial de reserva” cumpre não só funções específicas dentro da dinâmica do mercado de trabalho (pense-se na superexploração dos ex-condenados e no correspondente efeito de concorrência em relação aos outros trabalhadores), mas também fora daquela dinâmica: pense-se no emprego da população criminal nos mecanismos de circulação ilegal do capital, como peão na indústria do crime, no ciclo da droga etc.. Pense-se, além disso, no recrutamento de esquadrões fascistas entre a população criminosa.
O cárcere representa, em suma, a ponta do iceberg que é o sistema penal burguês, o momento culminante de um processo de seleção que começa ainda antes da intervenção do sistema penal, (...). O cárcere representa, geralmente, a consolidação definitiva de uma carreira criminosa.137 (grifos nossos).
No que tange ao MST, movimento social estudado nesta pesquisa, a persecução criminal de vários dos seus militantes, muitas vezes culminando na privação da liberdade, tem o claro propósito de, em primeiro lugar, inviabilizar a continuidade do protesto e das ações do movimento, ao afastar do cotidiano da luta os seus líderes; em segundo lugar, dissuadir os demais militantes, provocando neles o temor de que deverá suportar igual destino caso leve adiante a sua indignação e, por último, tentar minar a própria existência do movimento dos trabalhadores rurais sem terra.
Percebe-se, portanto, a permanência do poder simbólico do cárcere. A atualidade do pensamento de Baratta se revela de forma irrespondível quando se avalia o processo de criminalização que vem sofrendo o MST, o que será melhor esmiuçado nos capítulos quatro, cinco e seis, referentes à observação de campo e a um estudo de caso, concernente a um processo criminal que ainda tramita contra vários militantes deste movimento social.