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I. BÖLÜM

2. ŞİDDET

2.3. Şiddetin Türleri

Articulada às demais formas de controle social, a religião tem um papel importante, em maior ou menor medida a depender das circunstâncias culturais, familiares e até escolares160 vividas por cada indivíduo.

Dentre as denominadas instituições totais, uma das mais destacadas delas é justamente o convento, tão bem esmiuçado por Erving Goffman161 em sua clássica obra da década de sessenta do século pretérito, que descreve a amplitude e profundidade do controle sobre os internos nessa instituição. A experiência religiosa, por lidar com o transcendental, caracteriza-se pela perspectiva da completude, de propiciar ao crédulo a sensação de pertencimento ao todo e de envolvimento absoluto com a(s) entidade(s) superior(es) cultuada por cada organização religiosa.

159 ANIYAR DE CASTRO, Lola. Criminologia da libertação, p. 166.

160 Várias pessoas são educadas em institucionais educacionais confessionais, muitas vezes desde a pré- escola até o curso superior. Há estabelecimentos escolares formal e pedagogicamente vinculados à variadas religiões, como as escolas adventistas ou presbiterianas e os bastante tradicionais colégios e universidades católicas, algumas tendo o título de Pontifícia, concedido, atendidos determinados requisitos do direito canônico, pelo Vaticano.

161 GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos, p. 17, 28, 30 e outras do primeiro (“As características das instituições totais”) dos quatro ensaios que compõem tal obra.

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Para atingir tais objetivos, as seitas religiosas não diferem muito do modus

operandi de uma das mais totalizantes estruturas de controle social formal na

contemporaneidade: a norma penal. E essa similitude tem consequências práticas que não podem ser desprezadas. É sobre este fato que chama a atenção Emperatriz Arreaza Camero:

Sintomático é observar como os delitos mais severamente castigados no Direito Penal são precisamente aqueles que atacam o corpo humano em si (ex.: homicídio, agressão, etc.). De igual forma, a maior repressão do autocontrole e do controle social religioso está dirigido ao corpo humano através da repressão sexual, parecendo como se castrando fisicamente o indivíduo se lograsse minimizar seu potencial de protesto e/ou rebelião162.

É justamente essa capacidade de envolver com tamanha plenitude o indivíduo – e até alguns governos – que atribui às diversas religiões um considerável poder e, com ele, a capacidade de exercer controle social; capacidade retroalimentada pela circunstância de, ao longo da história, as igrejas – notadamente a católica – alargarem sua influência e poderio econômico de forma quase constante, excetuados apenas alguns momentos de crise institucional como a que se verifica na contemporaneidade.

Nesse sentido, o importante artigo de Emperatríz Arreaza Camero é por demais esclarecedor e, em poucas palavras, descreve com propriedade a capacidade de instituições religiosas extravasarem, para além do indivíduo, a sua considerável influência sobre outras instâncias políticas e sociais:

A constante que tem caracterizado em seu devir sócio-histórico a igreja como instituição social é o ter se erigido como instrumento de dominação e/ou de justificação frente à dominação. Desde a idade média, a igreja descansou, para o eficaz reconhecimento de sua pretensão ao monopólio do poder espiritual, no poder coercitivo da autoridade política e militar.

O poder da igreja se manifestava, então, no poderio econômico, político e militar que lograsse alcançar, graças às empresas político-militares de seus braços seculares (Espanha e Portugal no caso da América Latina).

(...)

Paralelamente, frente ao processo de secularização da sociedade pós-industrial, por meio do qual o pensamento, práticas e instituições religiosas vão perdendo significação social, a igreja recorre ao movimento ecumênico, de convergência entre as distintas seitas e organizações religiosas com o fim de fazer frente ao inimigo comum: as constantes revoltas e lutas sociais que se estabelecem ao consolidar-se o sistema capitalista em boa parte do mundo ocidental. Frente ao

162 ARREAZA CAMERO, Emperatriz. Algunas aproximaciones al estúdio de la religion como control social.

In: Capitulo criminologico 11/12, p. 24.

(Traduzido livremente do original: Sintomático es observar como los delitos, más severamente castigados en

el Derecho Penal son precisamente aquellos que atacan al cuerpo humano em sí. (ej. homicidio, agresión, etc.). De igual manera la mayor represión del autocontrol y del control social religioso está dirigido al cuerpo humano a través de la represión sexual, pareciera como si castrando físicamente al individuo se lograra minimizar su potencial de protesta y/o rebelión).

socialismo ou comunismo, como inimigo comum do mercantilismo e do capitalismo, os movimentos eclesiásticos ecumênicos dão maior solidez e poder de convencimento à mensagem social e política da igreja, interessada agora no progresso e desenvolvimento dos povos, não só de uma perspectiva espiritual, senão também econômico-social e política163.

Historicamente, portanto, as igrejas sempre buscaram ampliar seus domínios, avançando sua influência original sobre o íntimo do indivíduo para fronteiras bem mais amplas, como a política, os meios de comunicação de massa, a economia, enfim, diversos e importantes sub-sistemas que compõem o todo social164.

Por conta dessa pretensão totalizante e dos objetivos muitas vezes indefensáveis dessas instituições, o que as habilita a alterar os cursos normais da vida tanto de um indivíduo, impondo-lhe graves sacrifícios pessoais ou familiares, quanto de nações inteiras, é que os criminólogos das vertentes críticas se debruçam na apuração das consequências sociais da presença das religiões no cotidiano das comunidades165.

163 ARREAZA CAMERO, Emperatriz. Algunas aproximaciones al estúdio de la religion como control social.

In: Capitulo criminologico 11/12, p. 10-11.

(Traduzido livremente do original: La constante que há caracterizado em su devenir sócio-histórico a La

Iglesia como institución social es el haberse erigido como instrumento de dominación y/o de justificación frente a la dominación. Desde la Edad Media, la Iglesia descanso, para el eficaz reconocimiento de su pretensión al monopólio del poder espiritual, en el poder coercitivo de la autoridad política y militar. El poder de la Iglesia se manifestaba, entonces, en el poderio económico,político y militar que lograse alcanzar, gracias a las empresas político-militares de sus brazos seculares (España y Portugal en el caso de Latino américa).

(...)

Paralelamente, frente al proceso de secularización de la sociedad post-industrial, por médio del cual el pensamiento, prácticas e instituciones religiosas van perdiendo significación social, la Iglesia recurre al movimiento ecumênico, de convergencia entre las distintas sectas y organizaciones religiosas com el fin de hacerle frente al enemigo común: las constantes revueltas y luchas sociales que se establecen al consolidar- se el sistema capitalista en buena parte del mundo occidental. Frente al socialismo o comunismo, como enemigo común del mercantilismo y del capitalismo, los movimientos eclesiásticos ecuménicos dan mayor solidez y poder de convencimiento al mensaje social y político de la Iglesia, interesada ahora en el progreso y desarrollo de los pueblos, no sólo desde uma perspectiva espiritual, sino también econômico-social y política.

164 Não seria prudente, aqui, fazer qualquer afirmação mais aprofundada sobre o papel determinante que as diversas religiões exercem na estrutura social. Há muitas especificidades e complexidades nesse fenômeno, para o qual somente estudos profundos e específicos poderiam dar respostas cientificamente válidas, tarefa que tem sido cumprida de forma consistente pela Sociologia das religiões. A intenção desse tópico, bem mais modesta, é apenas apresentar as religiões como importante mecanismo de controle social informal, tanto por conta da sua influência sobre os indivíduos que professam alguma fé quanto por conta da atitude, tomada por algumas seitas, de se imiscuir em outros setores da sociedade, como a política, a imprensa, etc. Bastante ilustrativo dessa interferência é o case da igreja evangélica chamada “Igreja Universal do Reino de Deus”, que é proprietária de uma das maiores emissoras de televisão do país – a Rede Record de televisão – várias emissoras de rádio, publica e distribui um jornal chamado “Folha Universal” e tem bispos eleitos para importantes posições nos parlamentos, tanto federal quanto estaduais.

165 Mais uma vez menciona-se aqui o artigo citado acima de Emperatriz Arreaza Camero, que na década de 80 do século XX conduziu importante investigação criminológica desenvolvida junto à Faculdade de Direito da Universidade de Zulia (Maracaíbo, Venezuela). No referido texto, a autora descreve de forma bastante esclarecedora a investigação empírica levada á cabo pelos seus alunos, ainda bacharelandos, junto a

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No âmbito de vários movimentos sociais, muitos deles gestados nas próprias igrejas, como é o caso do movimento dos trabalhadores rurais sem terra, surgido das entranhas das comissões eclesiais de base e da comissão pastoral da terra (CPT), há forte presença, no âmbito da organização e no seu dia a dia, das denominadas místicas166. Esse dado da realidade do MST pode ser interpretado como uma prática tributária às estratégias de várias seitas religiosas, no caso desse movimento, mais especificamente, aos hábitos e rituais próprios da teologia da libertação, dissidência da igreja católica.

O papel das místicas no que concerne ao controle social informal exercido pelo movimento dos trabalhadores rurais sem terra será melhor esmiuçado nos capítulos referentes à pesquisa de campo. Nesse momento, pretendeu-se apenas consignar a existência dessa prática e o fato de que ela também é um ingrediente importante no contexto das engrenagens do MST167.