Após o desenvolvimento do conjunto de atividades descrito no item anterior, aplicamos um questionário (Apêndice D) para verificar o ponto de vista dos alunos sobre as tarefas realizadas
Tabela 9 - Você gostou do desafio de escrever um formulário a ser enviado por e-mail para encontrar um Key Pal (amigo por correspondência)?
Categorias % N=33
Sim 54,5 18
Não 45,5 15
Total 100,0 33
No universo de 33 alunos, 54,5% afirmaram ter gostado de escrever um formulário para encontrar um key-pal ou amigo por correspondência eletrônica. Mas apesar do envolvimento com a atividade proposta, 45,5% dos alunos não gostavam de realizar esta atividade, conforme a tabela 9, talvez por verem frustradas suas expectativas de utilizar verdadeiramente a Internet para envio dos formulários ou, ainda, por não estarem diante de um gênero textual em seu suporte real.
O artigo “Gêneros, como usar” da edição de agosto de 2009 da Revista Nova Escola aponta para a necessidade de se trabalhar os textos em seu suporte real. Ao estudar as reportagens, por exemplo, os alunos deveriam manusear jornais e revistas e não apenas ter contato com o gênero que está publicado nas páginas do livro didático.
Kern (2000, p. 17) também pensa a prática de letramento numa língua estrangeira como um engajamento em eventos reais de letramento e não apenas como ensaio das habilidades de leitura e escrita. Para este autor, por meio de práticas de letramento, os alunos aprendem não apenas vocabulário e gramática, mas também sobre discurso e os processos pelos quais ele é criado e aprendem a lidar com incertezas e ambiguidades.
A conclusão da atividade analisada ficou, desse modo, apenas no nível do ensaio, o que pode desmotivar para a realização de atividades futuras e até mesmo não contribuir para a desenvolvimento do letramento que se pretende.
Outra possibilidade é a de que estes alunos, embora tenham se envolvido bastante com a atividade, tenham tido que enfrentar muitos obstáculos para concluí-la, como a falta de vocabulário e a falta de conhecimento de aspectos estruturais da língua. Há ainda uma outra possibilidade que consideramos. Talvez o fato de terem que produzir esse texto não tenha se constituído verdadeiramente num desafio, pois os alunos contavam com dois modelos a serem seguidos, dos quais puderam extrair muitas informações e, além disso, contavam com a ajuda da professora-pesquisadora.
Percebemos, entretanto, com a realização dessa atividade, que houve um aumento da motivação dos alunos, tão importante para o envolvimento com o ensino escolar e sucesso da aprendizagem.
Guimarães (2001) apresenta algumas características de tarefas que potencializam a motivação do aluno para sua execução. As tarefas, para serem motivadoras, segundo a autora, devem ser significativas, levar ao desenvolvimento de novas habilidades, relacionar-se a interesses pessoais, ter metas de curto prazo e ter objetivos claros.
Acreditamos que a atividade proposta estava de acordo com estas condições apresentadas pela autora, o que levou ao envolvimento até mesmo de alunos com grandes dificuldades de trabalhar com a língua inglesa.
A proposta do Caderno do Professor previa que os alunos utilizassem as atividades desenvolvidas durante o bimestre para auxiliar na elaboração do formulário (e-mail) para encontrar um amigo por correspondência (key pal). A tabela 10, a seguir, mostra a porcentagem de participantes da pesquisa que afirmam ter utilizado o insumo fornecido anteriormente para a elaboração do texto (formulário).
Tabela 10 - Você utilizou as atividades que você já havia realizado durante o bimestre, ou seja, o formulário, os exemplos de e-mails e as cartas, para ajudá-lo a escrever este e-mail?
Categorias % N=33
Sim 54,5 18
Não 45,5 15
Total 100,0 33
Mais da metade dos participantes (54,5%) afirma ter feito uso dessa estratégia para compor o texto. Entretanto, a porcentagem de alunos que não aproveitaram as atividades anteriores para ajudar na produção desse formulário para encontrar um amigo por meio da Internet é considerável: (45,5%).
A proposta previa a recuperação de insumo já fornecido para a elaboração do texto, mas muitos destes alunos não conseguem manter os registros das atividades pois, a todo momento, mudam de caderno ou o perdem ou deixam de acompanhar várias aulas porque faltam ou porque não copiam a matéria. Além desses fatores, muitos podem não ter realmente aprendido o conteúdo dado, pois não há garantias de que o professor ensina e o aluno aprende.
Podemos inferir também que esses alunos não percebem a produção textual como um processo que vai se desenvolvendo até culminar no texto final, revisado e reeditado.
A tabela 11 apresenta o resultado sobre os sentimentos despertados pela atividade realizada.
Tabela 11 – Como se sentiu durante a realização da atividade?
Categorias* % N=33 Desanimado 32,4 12 Alegre 32,4 12 Outros 18,9 7 Nervoso 16,3 6 Total 100,0 37
*O aluno poderia escolher mais de uma categoria.
Contrariando o que observamos durante a execução da tarefa, merece destaque o desânimo (32,4%). Durante o período de observação, mesmo os alunos costumeiramente mais apáticos pareciam, de acordo com nossas anotações no diário de campo, ter se engajado bastante na elaboração desse texto proposto.
Temos, em contrapartida, a alegria (32,4%) como sentimento que também predominou durante a realização da atividade e que pudemos testemunhar. Apenas 16% afirmaram ter ficado nervosos com a realização da atividade, talvez pelo medo de errar.
Quando indagados sobre os motivos que os levaram a realizar a atividade, foram obtidos os seguintes resultados:
Tabela 12 - Por que decidiu escrever o e-mail?
Categorias* % N=33
Por interesse em aprender a escrever bem em inglês 48,9 23
Porque o (a) professor(a) o incentivou 21,3 10
Por que queria realmente encontrar um amigo por
correspondência 17,0 8
Por obrigação 8,5 4
Outro motivo 2,2 1
Porque os colegas o incentivaram 2,1 1
Total 100,0 46
*O aluno poderia escolher mais de uma categoria.
48,9% dos participantes foram levados, segundo suas respostas, a elaborarem o formulário a ser enviado por e-mail pelo interesse em aprender a escrever bem em inglês.
O incentivo da professora-pesquisadora também aparece como um fator importante na decisão de 21,3% dos alunos participantes de empenharem-se na execução da tarefa. Essa decisão nos parece estar relacionada à motivação extrínseca, pois os alunos são levados a realizar a atividade para atender a um pedido da professora, muito mais do que para atender a uma necessidade deles mesmos.
17% realmente queriam encontram um amigo por correspondência, o que foi frustrado na conclusão da atividade, pois a tarefa teve fim com a correção dos textos que não foram, de fato, enviados a nenhum destinatário.
A tabela 13 demonstra a percepção dos participantes quanto ao ambiente social em que podem ser encontrados alguns gêneros textuais.
Tabela 13 - Textos informativos sobre datas comemorativas (Ex: Comemoração do Ano Novo e Halloween), o pôster sobre o Oktoberfest (Festival famoso), os formulários da Internet, e-mails, as cartas e os gráficos de barra são, na sua opinião, textos que podem ser encontrados fora da escola?
Categorias % N=33
Sim 90,9 30
Não 9,1 3
Total 100,0 33
Dos participantes, 90,9 % demonstraram terem percebido os textos apresentados pelos Cadernos do Professor, até aquele período do ano letivo, como parte de outros contextos
sociais que não apenas o escolar. Consideramos que é importante que o aluno perceba que o trabalho que se realiza em sala de aula com os textos tem relação com as práticas sociais exteriores aos muros escolares.
Com a preocupação de saber até que ponto os alunos tinham consciência das diferenças formais dos textos e dos objetivos dos mesmos, obtivemos os seguintes resultados apresentados na tabela 14, a seguir:
Tabela 14 - Você acha que os textos citados na tabela 13 são diferentes no formato (estrutura) e na função, ou seja, servem para objetivos diferentes?
Categorias % N=33*
Acho que eles têm diferentes formatos e servem
para coisas (objetivos) diferentes 37,1 13
Não sei responder 34,3 12
Acho que eles têm formatos iguais e servem
para coisas (objetivos) diferentes 20,0 7
Acho que são iguais no formato e servem para a
mesma coisa ( têm o mesmo objetivo) 8,6 3
Acho que eles têm formatos diferentes, mas
servem para a mesma coisa (mesmo objetivo) 0,0 0
Total 100,0 35
* Dois alunos marcaram duas categorias.
Menos da metade dos alunos participantes percebeu que fazemos coisas diferentes por meio de diferentes gêneros (37,1%). Mas a porcentagem de alunos que não têm esta mesma percepção é significativa (34,3%). 20% dos participantes não conseguem perceber que os textos diferem quanto ao aspecto visual, ou seja, quanto ao formato. Dificuldades relacionadas à escolha de gêneros textuais para atingir fins específicos não estão relacionadas apenas com textos em inglês. Em conversa com professores de língua portuguesa, aferimos que estes alunos provavelmente não possuem essa capacidade geral de reconhecimento de gêneros e de suas funções em língua materna também.