2.2. İlgili Araştırmalar
2.2.2. Duygu İfade Etme İle İlgili Yurtiçi ve Yurtdışında Yapılan Çalışmalar
Como já vimos no estudo do status causae, o arranjo dado por Cícero no seu plano de defesa torna o Pro Milone radicado na questão do fato: “qual dos dois armou uma emboscada ao outro” (uter utri insidias fecerit) (31). Nessa questão, a audiência familiarizada com os procedimentos retóricos do tribunal364 , esperava ouvir da defesa
363 Cf. CLARK ((1895: 4, n. 4), o epíteto amplissimorum ordinum é propriamente empregado para referir aos senadores, cf. § 90 (templum amplitudinis) e § 5 (amplissimorum praemiorum).
364 Ainda que apenas pela exposição habitual à oratória política, no tribunal e nas contiones (RIGGSBY, 1999: 18).
ataques ao caráter de Clódio, caracterizando-o como o tipo de pessoa que cometeria tal crime365.
O elogio ou a crítica, embora requerido no contexto do tribunal, constitui o domínio de outro gênero oratório (genus causarum), o gênero demonstrativo ou epidítico. O ponto central do discurso de elogio é mostrar as quatro virtudes cardeais366, e o do vitupério, demonstrar o oposto367. No De inventione, 1, 34, Cícero oferece como argumentos de caráter (ex persona) um conjunto amplo de tópicos que o orador podia usar para vituperar um indivíduo. Tais tópicos eram empregados, no discurso judiciário, com a finalidade de fornecer evidência a respeito da capacidade do acusado para um comportamento criminoso.
A descrição do caráter de Clódio que Cícero realiza no Pro Milone tem o objetivo de reforçar os dois status em funcionamento no discurso: a questão do fato, na primeira parte da argumentação (32-71), e a questão qualificativa (comparatio), na segunda parte (72-91). Na argumentação da primeira parte, Cícero procura retratar Clódio como um inveterado assassino que arma uma emboscada para Milão. Na segunda parte, nos parágrafos denominados extra causam, o objetivo é caracterizar Clódio como um indivíduo de tal forma perigoso que sua morte representava um bem para a Cidade. Os argumentos da extra causam, embora desenvolvidos no campo das hipóteses, tinham força de prova e, portanto, deviam ser plausíveis.
Assim, dentre a extensa lista dos loci de invectiva oferecida pelos manuais retóricos, inclusive o seu, o De inventione (1, 34-36; 2, 28-31), Cícero seleciona os mais úteis para apoiar a sua argumentação. Segundo observa Craig, alguns tópicos ele não podia usar contra Clódio, como é o caso da origem familiar: Clódio era descendente de uma das famílias patrícias mais ilustres de Roma; covardia na guerra também não era um tema promissor, quando o próprio Cícero não tinha tido distinções militares antes de 51368. Desse modo, alguns loci Cícero simplesmente descarta, a outros, alude só de passagem; já um terceiro tipo recebe desenvolvimento mais longo, segundo a
365 CRAIG, 2004: 206.
366 Cf. Inv. 2, 159: prudentiam, iustitiam, fortitudinem, temperantiam. Cf. Rhet. Her. 3,3; 3,6; 3,10:
prudentia, iustitia, fortitudo, modestia. Na filosofia antiga, sobretudo entre os estoicos e os participantes da Nova Academia, desenvolveu-se a doutrina das quatro virtudes cardeais como partes integrantes da
virtus. Tais virtudes já eram encontradas na tradição anterior ao estoicismo (Platão, Menon, 87c-88e e Aristóteles, Retórica, 1362b12, 1366b1), sendo as três primeiras provavelmente procedentes de Isócrates. As mencionadas virtudes passaram a fazer parte da ideologia moral e social da aristocracia romana, principalmente por influência do estoicismo. Cf. NUÑEZ, 1997: 298, n. 139.
367 CRAIG, 2004: 188-189. 368 CRAIG, 2004: 200.
conveniência da causa. Tal procedimento está em conformidade com a discussão de Antônio no livro 2, 309 do De oratore, em que, referindo-se ao critério de escolha dos argumentos, afirma que não costuma “tanto contá-los quanto pesá-los” (non tam ea
numerare soleo quam expendere).
O tópico de família é empregado de modo a mostrar que Clódio era indigno da sua, tendo conspurcado o monumento dos Ápios (a Via Ápia) com seus crimes. Essa ideia aparece na referência ao assassinato de Marco Papírio na Via Ápia, pelas mãos de Clódio (18), fato que tem ainda o efeito de enfatizar a sua crueldade (crudelitas).
O tópico da conduta sexual reprovável é tratado com dois enfoques principais: um, o do incesto de Clódio com a irmã (73), o outro, o do escândalo do caso Bona Dea. O tema do incesto não recebe maior desenvolvimento, tendo Cícero preferido reiterar a gravidade do caso Bona Dea. Este tema serve para mostrar o desprezo de Clódio aos valores religiosos da sociedade, sendo mais apropriado para evidenciar a ameaça que ele representava à República. Assim, o caso Bona Dea recebe duas referências na extra
causam: no parágrafo 72, cuius nefandum adulterium in pulvinaribus sanctissimis
nobilissimae feminae comprehenderunt (“cujo abominável adultério em leitos sagrados
foi surpreendido por senhoras da mais alta nobreza”) e no parágrafo 87, polluerat stupro
sanctissimas religiones (“manchara pelo adultério os mais sagrados cultos”).
Há ainda outras alusões mais breves ao comportamento sexual de Clódio, como em 13 e 76. Neste último, Cícero menciona a ameaça que representava tal comportamento pervertido: “não teria refreado seus instintos libidinosos – valha-me Fídio! contra vossos filhos, contra vossas esposas!” (a liberis, me dius fidius, et a
coniugibus vestris nunquam ille effrenatas suas libidines cohibuisset, 76). Ainda em
relação ao tema da conduta sexual, no parágrafo 55, Cícero faz notar que, no exato dia em que Clódio fora morto, não estava acompanhado de “cortesãs, devassos, meretrizes” (secum scorta, semper exoletos, semper lupas, 55), como era seu costume, mas de homens armados. Além de mostrar que Clódio estava pronto para o crime, enfatiza sua conduta habitualmente imoral.
Ao se referir às inclinações sexuais de Clódio e seus ultrajes à religião, Cícero usa tais mecanismos de polêmica para caracterizar os atos da vítima como crimes contra a lei e a natureza369, mostrando-o como um indivíduo incapaz de conviver com as regras
da sociedade: “não apreciava nada que fosse permitido pela natureza ou consentido pelas leis” (ut eum nihil delectare quod aut per naturam fas esset aut per leges liceret) (43) (também 73, 74).
O tópico da hostilidade à própria família aparece conectado à avareza, ocasião em que Clódio é retratado como invasor da propriedade alheia (75-76), não poupando sequer os irmãos:
qui Appium fratrem [...] absentem de possessione fundi deiecit; qui parietem sic per vestibulum
sororis instituit ducere, sic agere fundamenta ut sororem non modo vestibulo privaret sed omni aditu et limine.
Aquele que, a seu irmão Ápio, [...] estando ele ausente, o destituiu da posse sua propriedade; aquele que resolveu erguer uma parede no pátio da irmã e fundou alicerces de tal modo que ela não só foi privada do uso do pátio, como de qualquer acesso e entrada.
O tópico mais utilizado e que se encontra disseminado por todo o discurso é o da
crudelitas. Aliado aos tópicos de motivo e aos de circunstância, é utilizado para provar a
acusação de emboscada, como se pode constatar neste parágrafo:
Quonam igitur pacto probari potest insidias Miloni fecisse Clodium? Satis est in illa quidem tam audaci, tam nefaria belua docere, magnam ei causam, magnam spem in Milonis morte propositam, magnas utilitates fuisse (32) ( grifo nosso).
De que modo, então, se pode provar que Clódio armou uma emboscada a Milão? Tratando-se de um monstro tão atrevido e tão abominável, basta mostrar, na verdade, que tinha um forte motivo e grande expectativa na morte de Milão, a qual lhe traria significativas vantagens (grifo nosso). A crudelitas também aparece associada ao tópico da tirania, tema central para a estratégia de Cícero de demonstrar que a morte de Clódio consistia na eliminação de um tirano. Clódio não é caracterizado como ser humano, mas como belua; seu comportamento não é o de um homem civilizado. Tal caracterização fica clara na passagem em que Cícero menciona as diversas oportunidades que Milão teria tido para matar Clódio, se quisesse, com o apoio da opinião pública:
Nuper vero cum M. Antonius summam spem salutis bonis omnibus attulisset gravissimamque adulescens nobilissimus rei publicae partem fortissime suscepisset, atque illam beluam, iudici laqueos declinantem, iam inretitam teneret, qui locus, quod tempus illud, di immortales, fuit!
Cum se ille fugiens in scalarum tenebras abdidisset, magnum Miloni fuit conficere illam pestem nulla sua invidia, M. vero Antoni maxima gloria? (40) (grifo nosso).
Recentemente, quando Marco Antônio fez surgir grande esperança de salvação em todos os bons cidadãos, quando esse jovem de alta nobreza corajosamente assumiu o encargo de uma parte importantíssima da República e já tinha enredado aquela fera que se esquivava das malhas da justiça, que lugar, que oportunidade, deuses imortais, havia então! Quando Clódio, fugindo, se escondeu na escuridão das escadas, que grande oportunidade Milão teria tido de dar cabo daquela peste sem sofrer ódio algum e, por certo, para a máxima glória de Marco Antônio! (grifo nosso).
A linguagem empregada por Cícero, no trecho acima, é um apelo à imaginação da audiência, exatamente como se afirma que a ekphrasis faz, tendo como resultado produzir na mente do ouvinte a imagem de Clódio sendo caçado como um animal (“enredado”) e se escondendo na “escuridão das escadas” (scalarum tenebras), imagem, sem dúvida, impactante.
Ruebel e Clark, no artigo “Philosophy and Rhetoric in Cicero’s Pro Milone”, ao analisar do ponto de vista filosófico as estratégias de caracterização da persona de Clódio, apontam que o tirano é considerado pela ética estoica como “menos que humano; ele não pertence à sociedade civilizada, por isso, matá-lo não envolve um conflito ético maior do que matar qualquer outro animal”370. Cícero, em sua argumentação no Pro Milone, demonstra que compartilha ali de tal pensamento, o que fica sobretudo explícito se observarmos sua descrição do tyrannus no De Republica, 2, 48, em que afirma que “não se pode conceber um animal mais repugnante, nem mais terrível, nem mais odioso aos deuses e aos homens [do que o tirano]; este, embora tenha aspecto humano, supera pela selvageria de seus modos os monstros mais ferozes” ([..] neque taetrius neque foedius nec dis hominibusque invisius animal ullum cogitari potest; qui quamquam figura est hominis, morum tamen inmanitate vastissimas vincit beluas).
Para culminar na destruição moral de Clódio e não deixar dúvida na audiência quanto à utilidade de sua morte, uma lista de seus crimes é acrescentada atestando sua
crudelitas (75), juntamente com uma ampla enumeração dos perigos que ele
representaria à República no futuro (76).
Quintiliano, na Institutio oratoria 9, 2, 41, ao tratar da técnica de “pôr diante dos olhos” coisas que poderiam ocorrer no futuro, menciona que “Cícero fornece um admirável exemplo disso em seu discurso em defesa de Milão, em que descreve o que Clódio teria feito se tivesse alcançado a pretura” (Mire tractat hoc Cicero pro Milone, quae facturus fuerit Clodius si praeturam invasisset)371.
Há ainda outro exemplo da técnica da evidentia, empregado com o mesmo fim de suscitar o medo nos juízes pela imaginação do que poderia ocorrer se Clódio continuasse vivo. Trata-se da seguinte passagem:
Fingite animis liberae sunt enim nostrae cogitationes et quae volunt sic intuentur ut ea
cernimus quae videmus fingite igitur cogitatione imaginem huius condicionis meae, si possimus efficere Milonem ut absolvatis, sed ita si P. Clodius revixerit ...(79).
Imaginai , pois nossos pensamentos são livres e visualizam o que querem, do mesmo modo que distinguimos o que vemos , imaginai, portanto, em vossa mente, esta imagem que proponho: se eu pudesse fazer com que Milão fosse absolvido, contanto que Clódio voltasse à vida...
Ao empregar a técnica da evidentia acima mencionada, Cícero manipula as emoções dos juízes e deixa patente que nenhum deles, se pudesse, restituiria Clódio à vida (79).
Assim, a caracterização levada a efeito por Cícero não só mostra aos juízes que o caráter criminoso de Clódio tornava plausível que ele tivesse planejado a morte de Milão, como demonstra ainda que Milão, mesmo não tendo tido a intenção de matá-lo, realizou um ato benéfico à sociedade e merecia receber as honras que, na Grécia, eram oferecidas àqueles que eliminavam um tirano (80).