2.2. İlgili Araştırmalar
2.2.5. Duygu Düzenleme ve Saldırganlıkla İlgili Yurtiçi ve Yurtdışında Yapılan
A auctoritas (autoridade: derivada da experiência, reputação e posição social), a
dignitas (dignidade concedida pelas magistraturas) e a gratia (influência social e
política), constituíam importantes componentes de caráter que os romanos esperavam ver naqueles que tomavam a palavra para discursar. Cícero, atento a essas expectativas, procura distribuir por todo o discurso demonstrações de posse de tais atributos, ora de forma direta, ora indireta. A imagem que Cícero procura transmitir de si é a do prestigioso advogado e eminente homem público, que não hesita em se sacrificar pelo bem da pátria e dos seus concidadãos380. A par disso, mostra-se como um amigo leal, um homem de caráter nobre, comprometido com o respeito às tradições, à religião e à lei. Contudo, não é essa a imagem que abre o discurso, nem a que o encerra. Isto porque cada parte do discurso tem demandas distintas, e o orador atento sabe o que convém a cada uma delas.
No exórdio, em que se estabelece o primeiro contato com o público e em que é necessário conquistar sua simpatia, o orador tem de ser muito cauteloso quanto à própria imagem. Nesse caso, usar de modéstia é sempre recomendado. No caso
379 De orat. 2, 89; 124; 198.
380 Nos discursos da década de 50, Cícero emprega com frequência a ideia de que está se sacrificando pessoalmente pela felicidade da pátria, cf. MAY, 1988: 97.
específico do Pro Milone, aproveitando-se das circunstâncias hostis em torno do fórum, Cícero emprega a tática da humildade, apresentando-se como um temeroso advogado constrangido por não poder corresponder à coragem do seu cliente (1). Por meio dessa estratégia, seu caráter é empregado como contraponto para realçar o de Milão381 e obter a benevolência dos ouvintes para ambos. Processo semelhante ocorre na peroração: com cores patéticas o orador pinta a imagem do emocionado advogado que pede compaixão aos juízes por seu impassível cliente (95).
A imagem central do orador, tal qual predomina no discurso, será resultado de uma construção gradual. A imagem da humildade e timidez mostrada nos primeiros parágrafos é logo suplantada pela do advogado seguro de si, que, apoiado na autoridade e no senso de justiça de Pompeu (2-3), exorta os juízes a não temerem as circunstâncias e a expressarem com coragem seu veredito (4). No parágrafo seguinte, Cícero identifica-se com a causa de Milão, ao se referir indiscriminadamente a boni e fortes viri (“pois se alguma vez tivestes o poder de julgar a respeito de homens bons e corajosos”) (4). Por meio desse expediente, logra transferir a Milão algo de sua bonitas e se beneficia, por outro lado, da fortitudo de seu cliente382.
A identificação com a causa resulta em igual sofrimento para advogado e cliente, pois ambos, “levados à vida pública pela esperança das mais honoráveis recompensas [...]” (qui spe amplissimorum praemiorum ad rem publicam adducti [...]), não podem deixar de temer o risco de serem punidos por aquele tribunal (5). Mesmo assim, para reforçar a autoapresentação, o orador mostra-se como um competente e metódico advogado383, declarando que não vai se servir do “tribunado de Tito Ânio” e “todos os seus feitos em prol da República” (6) como desculpa para o ato de seu cliente. Em vez disso, vai se ater aos recursos da arte para provar que Milão fora atacado por Clódio e, portanto, tinha o direito à legítima defesa (si cetera amisimus, hoc nobis
saltem ut relinquatur, vitam ab inimicorum audacia telisque ut impune liceat defendere;
“se tudo o mais perdemos, ao menos nos seja deixado o direito de defendermos impunemente nossa vida da audácia e das armas dos inimigos”) (6).
A partir da refutação preliminar que segue o exórdio, Cícero passa a distribuir na argumentação menções a seus atributos prévios. Procura trazer à lembrança da
381 DYCK, 1998: 240 382 ALBRECHT, 2003: 183. 383 ALBRECHT, 2003: 184.
audiência sua autoridade, sua influência e seu prestígio como homem público e como advogado. O modo pelo qual o faz ocorre tanto por menção direta como indireta, dependendo do atributo a ser enunciado. Por exemplo, para destacar sua autoridade como homem público, faz referências diretas ao seu consulado, ocasião em que atuara efetivamente para eliminar a ameaça de revolução representada por Catilina e seus sequazes (aut me consule, 8; tantum in consulatum meo pro vobis, 82; officiosos labores meos, 12). Já para aludir a sua influência política e a seu prestígio social, escolhe um modo indireto, evitando parecer arrogante. No trecho que citamos a seguir, tais atributos aparecem em uma resposta que oferece a críticas que recebera do tribuno da plebe Tito Munácio Planco Bursa. Desse modo, a menção das qualidades não parece gratuita, mas sim provocada384:
Declarant huius ambusti tribuni plebis illae intermortuae contiones quibus cotidie meam potentiam invidiose criminabatur, cum diceret senatum non quod sentiret sed quod ego vellem decernere. Quae quidem si potentia est appellanda potius quam propter magna in rem publicam merita mediocris in bonis causis auctoritas aut propter hos officiosos labores meos non nulla apud bonos gratia, appelletur ita sane, dum modo ea nos utamur pro salute bonorum contra amentiam perditorum (12).
Provam-no aquelas quase extintas assembleias desse chamuscado tribuno da plebe, nas quais todo dia criticava invejosamente meu poder, dizendo que o senado não decidia segundo suas convicções, mas de acordo com a minha vontade. Se, na verdade, se deve chamar poder ou, antes, uma módica influência nas causas legítimas, resultante dos grandes serviços prestados à República, ou de alguma estima junto às pessoas de bem, devido aos meus dedicados esforços, que assim se chame, conquanto nos sirvamos de tal poder em prol da salvação dos bons contra a insânia dos maus.
Na passagem acima, Cícero deixa transparecer o poder de sua influência junto ao senado, mas procura justificá-lo como resultado de serviços prestados à República e à comunidade. Além de usar a estratégia da menção indireta, apropriada para não ferir os ouvidos da audiência, toma o cuidado de afirmar que, se tem algum poder, usa-o para proteger os interesses dos cidadãos. Isto porque, segundo Antônio, “são vistos com maus olhos os interesses próprios, mas se favorece o desejo de prestar serviços aos
384 Cf. De orat. 2, 230: “De modo geral, é mais provável o que dizemos quando provocados do que quando tomamos a iniciativa.” (Omnino probabiliora sunt, quae lacessiti dicimus, quam priores).
demais”385 (invidetur enim commodis hominum ipsorum, studiis autem eorum ceteris
commodandi favetur).
Mais adiante, Cícero faz menção a seu prestígio social, também em resposta a alegações de adversários: (“pois a consideração de que desfruto não se limita ao círculo dos meus amigos íntimos [...]”) (non enim mea gratia familiaritatibus continetur) (21). Ao mencionar novamente sua influência, tem o cuidado de atenuar sua afirmação pelo uso da construção condicional, como já o fizera na citação acima, e torna a usar o procedimento de conectar tal atributo a sua atividade política junto aos bons cidadãos (“mas, se tenho alguma influência, atribuo-a a minha atividade política que me uniu aos bons”) (si quid possumus, ex eo possumus quod res publica nos coniunxit cum bonis) (21).
Evidenciando suas atividades como homem público, Cícero enfatiza sua imagem de protetor da pátria, epíteto que lhe fora atribuído desde a época do seu consulado. Seu exílio é mencionado para lembrar a injustiça que sofrera: “que justa causa teria havido para me restituir a Roma se não tivesse sido injusta a de me expulsar dela?” (Quae fuisset igitur iusta causa restituendi mei, nisi fuisset iniusta eiciendi?) (36). No parágrafo 73, lembrando as circunstâncias de seu exílio, aproveita para promover sua imagem afirmando que a violência de Clódio “desterrou o cidadão que o senado, o povo romano e todas as nações haviam considerado salvador da Cidade e da vida dos seus concidadãos” (Civem quem senatus, quem populus romanus, quem omnes gentes urbis
ac vitae civium conservatorem iudicarant servorum armis exterminavit). Desse modo,
faz notar que o alcance do reconhecimento pelos seus serviços como protetor da pátria ultrapassa o âmbito interno e se estende por todos os povos.
Cícero recorre ao efeito da polarização para pôr em relevo sua identificação com os interesses da pátria e da sociedade: posiciona-se ao lado da República, juntamente com Pompeu, Milão e os bons cidadãos entre os quais, obviamente, estão os juízes , em oposição aos clodianos e seu líder, que constituem uma ameaça à ordem pública (3). Na verdade, Cícero não só se apresenta como protetor da pátria, ele e a pátria chegam a ser uma só entidade: atacá-lo significa atacar a própria República. Defendê-lo é o mesmo que defender a República. Assim, quando menciona o ataque que sofrera pelas armas de Clódio, que quase lhe tiraram a vida, declara: “Se delas não me tivesse
protegido minha fortuna ou a da República [...]” (ex quibus si me non vel mea vel rei publicae fortuna servasset [...]) (20).
A religiosidade que expressa aparece quase sempre intimamente ligada ao sentimento patriótico. Nos parágrafos 83-84, discorre sobre o poder divino e conecta a grandeza de Roma ao poder dos deuses imortais, “poder que muitas vezes trouxe a esta cidade ventura e abundância inacreditáveis [...]” (ea vis igitur ipsa quae saepe
incredibilis huic urbi felicitates atque opes attulit [...]) ( 84). Seu apreço pela tradição
fica explicitamente manifesto no parágrafo 83, ocasião em que enaltece “a sabedoria dos [...] antepassados, que cultivaram eles próprios, religiosamente, os ritos sagrados, as cerimônias e os auspícios, e os transmitiram a nós, seus descendentes”.
Evidenciando seu lado pessoal, Cícero mostra-se como um amigo sincero, leal e grato. Enaltece a amizade de Milão (segundo pai para seus filhos) (102), e lembra os benefícios que o amigo lhe prestara ao se empenhar em trazê-lo de volta do exílio (102). Ao mesmo tempo em que expressa sua gratidão por esse fato, declara o medo de não poder retribuir tamanho benefício. Em face dessa situação, conclama os juízes a evitarem que tamanha desgraça seja consumada (“terei vivido gloriosamente se morrer antes de presenciar tamanha desgraça”; praeclare enim vixero, si quid mihi acciderit
prius quam hoc tantum mali videro) (99). E continua o apelo aos juízes: “conservareis a
lembrança de Milão e a ele próprio banireis?” (memoriam Milonis retinebitis, ipsum eicietis?) (101).
Por outro lado, lembra que só uma coisa o consola: ter oferecido ao amigo tudo que podia em termos de amor, studium e pietas (“neste momento, Tito Ânio, um único consolo me sustenta: o de nunca ter deixado de cumprir com os deveres da amizade, da consideração, da gratidão para contigo”; nunc me una consolatio sustentat, quod tibi, T. Anni, nullum a me amoris, nullum studi, nullum pietatis officium defuit) (100). E enumera, em seguida, vários exemplos de apoio que concedera a Milão (100). Finalmente, Cícero se considera responsável pelo destino de seu cliente, uma vez que o fato de ter descoberto e desbaratado a conspiração de Catilina durante seu consulado seria a causa de todos os sofrimentos por que passam ambos desde então (103). Por esse motivo, identifica sua sorte à do amigo: “o que posso fazer em agradecimento a teus favores, senão considerar minha a tua sorte, qualquer que ela venha a ser?” (quid habeo quod faciam pro tuis in me meritis nisi ut eam fortunam quaecumque erit tua ducam meam?) (100). Assim, por meio de sua manifestação de amizade, Cícero não só
evidencia sua lealdade, mas também justifica sua atitude ao ter aceitado fazer aquela defesa, decisão que havia sido recriminada por muitos386.
Ainda como parte das táticas para promover sua imagem, Cícero procura enfatizar em diversos momentos do discurso sua íntima amizade com Pompeu, com quem se identifica quanto aos ideais patrióticos. Enumera as qualidades de Pompeu (“varão extremamente sábio e justo”, sapientissimi et iustissimi viri) (2), “dotado de uma mente sublime e quase divina”, alta et divina quadam mente praeditus) (21), apresentando-o à audiência como merecedor da admiração de todos. Ao fazê-lo, tenta cativar os ouvintes, que, sem dúvida, receberiam com agrado tais elogios, ao mesmo tempo em que, ao mostrar sua proximidade com aquele líder político, beneficia-se de sua autoridade e de seu prestígio. Ou seja, nenhuma oportunidade é perdida quando se trata de colocar em evidência a própria persona, elemento da maior importância ad
vincendum (De orat. 2, 182).
Teria Cícero caracterizado com êxito sua própria imagem no Pro Milone? Para se avaliar a efetividade do orador nesse quesito, o melhor critério será verificar até que ponto ele cumpriu os preceitos da doutrina do conciliare. A esse respeito, remetemo-nos a Guérin387, que, tomando por base a passagem do De oratore 2, 232388, afirma que a função dos preceitos nessa obra é a de fornecer um quadro de referência que possibilita ao orador comparar sua prática e avaliá-la. Como já vimos, a função do conciliare compreende duas partes: a positiva, que consiste em colocar o caráter do orador e do cliente sob uma luz favorável; e a negativa, que consiste em destruir a persona do adversário. O preceito enunciado no De oratore em relação aos clientes é de que o orador deve apresentá-los como “homens justos, íntegros, religiosos, timoratos, toleradores de injustiças” (2, 184). Observando o conjunto de estratégias que Cícero emprega para apresentar seu cliente sob uma luz favorável, podemos destacar:
386 Cf. ASC. 33.
387 GUÉRIN, 2010: 125.
388 “Eu, porém, creio que esses preceitos têm o poder e a utilidade, não de sermos levados pela arte a descobrir o que dizer, mas de confiarmos na correção do que atingimos pela natureza, pelo estudo, pelo exercício, ou percebermos seu erro, depois de aprendermos a que deve ser relacionado” (Sed ego in his
praeceptis hanc vim et hanc utilitatem esse arbitror, non ut ad reperiendum quod dicamus, arte ducamur sed ut ea, quae natura, quae studio, quae exercitatione consequimur, aut recta esse confidamus aut prava intellegamus, cum quo referenda sint didicerimus. De orat. 2, 232).
1) Milão é representado como um homem corajoso, magnânimo e dedicado à pátria.
2) Cliente e patrono compartilham os mesmos ideais de oferecer proteção à pátria com risco da própria vida.
3) Afirmando que Milão não matou Clódio (os escravos de Milão é que o fizeram, sem seu conhecimento) Cícero procura conferir certa honorabilidade à causa: mesmo que Milão tivesse matado, merecia antes a gratidão da sociedade, por livrá-la de um tirano.
4) Mesmo que não receba a gratidão das pessoas, Milão se contenta com ter praticado uma ação benéfica ao povo.
Desse modo, táticas variadas são empregadas para criar um sentimento de aprovação no público em relação a Milão. Os esforços do orador, nesse sentido, resultam numa caracterização consistente do caráter do seu constituinte, em harmonia com as ações e as ideias que lhe são atribuídas.
O lado negativo do conciliare consiste na caracterização de Clódio. Nesse quesito, Cícero não deixa a menor dúvida quanto ao poder destrutivo de seu ataque ad
hominem. Clódio é retratado como um animal selvagem, um monstro, uma praga,
caracterização que serve para mostrá-lo como um tirano, como um indivíduo, portanto, danoso à República e à sociedade. Nesse cenário, fica mais fácil caracterizar o ato de Milão como justificado.
Segundo a doutrina do conciliare, além de retratar discursivamente o próprio caráter, o orador tem a possibilidade de derivar sua persona da competência retórica que demonstra ao representar os demais caracteres. Antônio afirma que “exibir sinais de afabilidade, generosidade, brandura, devoção e de um ânimo grato, não ambicioso, não avaro, é extremamente útil [...]” (2, 182) ao orador. Tendo esse quadro de referência, podemos observar que Cícero procura demonstrar cortesia, atenção e respeito em relação à audiência em geral, o que se nota na sua atitude elogiosa em relação aos juízes, a Pompeu e ao público. A caracterização dos personagens intervenientes no caso é realizada de acordo com os princípios fundamentais estabelecidos na doutrina, a partir dos quais Cícero deriva táticas particulares que primam pela inventividade e pela
que se enquadra tecnicamente nos princípios exarados pela sua própria teoria desenvolvida no De oratore.