“Arte não é o que você vê, mas o que você faz os outros verem”.
Edgar Degas
A visibilidade corresponde à função primária da iluminação, no entanto, a partir do entendimento da percepção visual, sabemos que a luz é também um elemento de projeto que tem funções espaciais ao alterar a percepção das formas, materiais, cores, e proporções na arquitetura. Isto pode ser obtido a partir das diferenças de intensidades, tonalidades da luz e sua distribuição ou desenho dentro do espaço.
As funções espaciais da luz, tais como: delimitação de espaço, orientação, definição de hierarquias são expressas a partir de como se percebem as diversas áreas do espaço e seus componentes. Segurança e orientação: se sabemos onde estamos e como nos movimentar neste espaço nos sentimos seguros, pois nos oferecem a sensação de bem estar e segurança a partir do domínio visual.
Nós vivemos numa era visual em que a imagem da arquitetura é parte de sua função. A luz tem um papel na criação da imagem, revelando qualidades visuais; durante a noite, a luz artificial cria uma diferente interpretação, diferente da luz diurna. A imagem diurna e noturna de um edifício não precisa ser necessariamente igual uma à de outra. Ela pode criar uma imagem positiva em associações com vida, saúde e bondade, ou por outro lado, distorcer e ofuscar. Assim como simbolismo de vida na terra, ela também pode representar uma forma de poluição e desperdício dos recursos naturais esgotáveis.
A iluminação promove atenção, orientação e estabelece limites, criando focos de atenção. Luz e movimento são os dois aspectos que mais chamam nossa atenção, daí o poder atrativo da imagem em movimento das telas da televisão e do cinema.
Quando todos os caminhos de expressar luz e espaço são utilizados definindo limites, áreas, destaques e direcionando o movimento, a experiência espacial e sensorial é enriquecida. Quando a luz é usada intencionalmente para revelar uma qualidade espacial pretendida pelo arquiteto, forma, espaço e luz atuam juntos para fazer a poesia na arquitetura. Louis Khan, arquiteto sensível ao uso da luz, afirmava que arquitetura era construção com poesia, obtida por meio do uso da luz na arquitetura. Ele se referia à luz natural, embora iluminação artificial também tenha o seu papel, e durante a noite, deixe de ter uma ação coadjuvante para fazer parte do espetáculo arquitetural. Ambas são luzes que qualificam o espaço e interagem com nossa percepção e emoção. A seguir listamos funções espaciais da luz:
2.4.1 Destacar
Os seres humanos são seres fototrópicos, ou seja, somos atraídos pela luz. O brilho de um foco de luz numa cena, geralmente atrai nossa atenção em primeiro lugar.
A luz tem um significado prático e poético de promover orientação. Ela pode definir um foco, reforçar uma organização de hierarquias no espaço ou estimular uma circulação ao longo de um caminho, através de um espaço.
As pessoas reagem aos contrastes, ou ao que se chama uma interrupção no padrão visual que é observado. Assim, uma área com maior intensidade de luz dentro de um espaço de luz uniforme e mais suave, com certeza atrairá nosso olhar. Este é um recurso precioso para o projeto de iluminação, e conforme os objetivos e usos dos espaços, estes destaques poderão ser menos perceptíveis ou mesmo mais evidentes e dramáticos, quando os contrastes de iluminâncias
praticamente isolam de forma visual algumas áreas. Figura 44: Destaque do altar no Mosteiro de La Tourette, de Le
Corbusier.
Fonte: FUTAGAWA, Yukio. Light and space-modern architecture-vol. 2 Japan, AD.A. edita Tokyo co. ltda, 1994.
2.4.2 Separar
A luz pode estabelecer diferentes características para cada espaço, individualizando- os, pois o sistema de percepção humana facilmente reconhece estas mudanças e diferentes naturezas, criando lugares dentro de uma grande área. Isto acontece pelas qualidades distintas da iluminação e sua linguagem que comunicam as variações. Os espaços podem fluir de um para outro e ainda assim se diferenciarem pela luz.
No projeto desta escola de Álvaro Siza, diferentes iluminâncias diferenciam espaços de circulação e permanência com distintas atividades. Os materiais de piso com refletâncias e luminâncias distintas reforçam a separação dos espaços.
2.4.3 Conectar
A luz interliga espaços através da similaridade de tratamento da iluminação ou ainda por definir elementos de transição de um local para o outro, de forma que, apesar de separados fisicamente, possuam linguagens similares.
No projeto do Museu Gugenheim, espaços de circulação e exposição são integrados, parte do mesmo espaço com dupla função, pois o visitante percorre as áreas de exposição em rampas. Observa-se que as paredes de fundo, para exposições de quadros, recebem iluminação natural indireta, proveniente da envoltória em espiral, estabelecendo harmonia no contraste de luminâncias do espaço.
Figuras 44 e 45: Diferentes iluminâncias reforçam e diferenciam espaços Fonte: Santos, José Paulo. Álvaro Siza. Obras e Projetos. Barcelona, Ed. Gustavo gilli, 1993
2.4.4 Definir hierarquias
A luz ajuda na orientação e pode nos ajudar a reconhecer uma hierarquia espacial estabelecida. Os ambientes podem ser separados em suas hierarquias como espaços servidos e servidores, conforme sua finalidade e importância onde a qualidade da distribuição de luz pode enfatizar estes aspectos.
No projeto da Igreja abaixo, a iluminação é uniforme e difusa, entretanto o plano vertical do altar é interceptado e se destaca como ponto de atração visual. As luminâncias dos diferentes materiais fazem com que a área do público tenha pouco brilho percebido, pois de cor mais escura, absorve mais luz. Tão importante quanto a quantidade de luz que incide num espaço são as refletâncias dos materiais empregados.
2.4.5 Orientação visual
A distribuição da luz nos ambientes pode reforçar a organização espacial e delinear áreas especiais, indicando a transição, evidenciando acessos e circulações. Na medida em que os contrastes de luz são percebidos, somos atraídos visualmente para determinadas áreas e percursos dentro de um espaço, e isto ajuda nosso sentido de orientação. Funciona como uma espécie de comunicação visual não figurativa, mas que trabalhada junto com a arquitetura, nos oferece segurança pela sensação de lugar e referências espaciais
Figura 47: Igreja, de Santiago Calatrava Fonte: FUTAGAWA, Yukio. Light and space-modern architecture-vol. 1 Japan, AD.A. edita Tokyo co. ltda, 1994.
Figura 46: Cúpula acima do vazio central do Museu Gugemheim, NY, de Frank Lloyd Wright Fonte: FUTAGAWA, Yukio. Light and space- modern architecture-vol. 1 Japan, AD.A. edita Tokyo co. ltda, 1994.