1.2. DİNDARLIK TANIMLAMASI, BOYUTLAR VE TİPOLOJİLERİ
1.2.3. Dindarlık Tipolojileri
O processo de institucionalização de um novo campo de estudos, como a Bioética, chama a atenção para questões como a sua formalização por meio de uma disciplina no currículo de um curso de ensino superior em meio aos embates entre os diversos territórios acadêmicos já consolidados. Potter (1971 p. 04) concebeu a Bioética como disciplina de conteúdo interdisciplinar, que incluísse tanto as hard sciences quanto as human sciences. Assim, como uma disciplina que se propõe interdisciplinar, vem o risco de tornar-se território de todos ou de ninguém. Há décadas as instituições brasileiras de ensino superior, por exemplo, organizam-se em departamentos e têm em seus quadros professores e pesquisadores formados e recrutados numa época em que a alta especialização era a marca principal. É um problema que revela a tensão entre o sistema antigo e o novo, entre a realidade de instituições avessas a mudanças e um mundo em constante mutação.
O problema da interdisciplinaridade não se limita a disciplinas, mas diz respeito às diferentes culturas acadêmicas, à academia como campo de disputas de poder, em que por trás do currículo oficial há todo um currículo oculto onde a hierarquia joga como fator fundamental e qualquer tentativa de alteração na composição de forças encontra resistência.
C.P. Snow, cientista, analisou esse cenário tendo como elemento disparador a sua própria experiência de convívio entre outros cientistas e literatos, o que ele chamou de duas culturas (não somente em sentido intelectual, mas também em sentido antropológico), relativas a uma divisão do campo científico em dois polos: hard sciences e human sciences. Como ele mesmo relata, sentiu como se transitasse “entre dois grupos: comparáveis em inteligência, racialmente idênticos, sem grandes diferenças de origem social, ganhando aproximadamente os mesmos salários, que tinham quase cessado de todo de se comunicar, que tinham tão pouco em comum que ... alguém parecia ter cruzado um oceano” (SNOW, 1959, p. 02). Ele identifica entre os dois polos, incompreensão, até mesmo alguma hostilidade e falta de apreço de um pelo outro, mas, sobretudo falta de entendimento por conta da diferença de suas atitudes. Ele nota que há, por parte de cada uma das culturas, uma quase completa ignorância em relação à outra: físicos, químicos e outros representantes das hard sciences desconhecendo o mais básico de obras fundamentais de literatura e humanidades, assim como intelectuais de human sciences tendo conhecimento praticamente nulo das mais elementares leis da física. Em ambos os polos, uma mesma sensação de que os conhecimentos da cultura oposta são esotéricos, incompreensíveis e desnecessários. Snow (1959) encontra marcas das duas culturas em todo o mundo acadêmico ocidental. Potter, conhecedor da divisão e seus impactos, concebeu a Bioética como uma ponte entre esses dois polos, e vê no profundo abismo entre humanidades e ciências um risco à própria existência da humanidade por restringir a um campo as informações que podem alimentar a ação ética e a outro campo as ações técnicas.
Se há “duas culturas” que parecem inábeis para falar uma com a outra – ciências e humanidades – e se isso é parte da razão para que o futuro seja visto com dúvidas, então possivelmente devemos construir uma “ponte para o futuro”, construindo a disciplina da Bioética como uma ponte entre as duas culturas (POTTER, 1971, p. Vii58)
Em estudo mais recente, Becher e Trowler analisam o campo acadêmico como um conglomerado de territórios em disputa na obra Academic Tribes and Territories: Intellectual enquiry and the culture of disciplines. Os autores partem da leitura de Snow da obra do antropólogo Clifford Geertz. Na primeira edição do livro, publicada apenas por Becher, o autor identificou fronteiras muito mais abundantes que as duas mencionadas por Snow (assim como
58 Tradução livre. Original: If there are “two cultures” that seem unable to speak to each other – sicence and humanities – and if this is part of the reason that the future seems in doubt, then possibly, we might build a “bridge to the future” by building the discipline of Bioethics as a bridge between the two cultures. (POTTER, 1971, p. Vii )
pontes), e se propôs a mapear e explorar o vasto território acadêmico e as características de seus habitantes e cultores. O livro distingue e analisa a cultura acadêmica (tribos) e o conhecimento disciplinar (territórios), embora reconheça que há outros fatores a influenciar o ensino superior, concluindo que o aumento da produção científica envolve transdicisplinaridade e conhecimento orientado a problemas.
A interdisciplinaridade também exige que o professor transite por outras áreas de conhecimento, se relacione com seus pares e com as diferentes culturas acadêmicas e tenha mobilidade, por isso a dificuldade tida por aqueles que foram formados pelo modelo anterior em aceitar o novo formato, em lecionar nesse novo cenário e mesmo em aceitar a constituição de novos campos não tradicionais. Por seu tempo de constituição, campos como Medicina, Direito e Engenharia são territórios mais consolidados, tradicionais e resistentes a essas mudanças. Ao colocar-se como um campo que abrange precisamente áreas desses três territórios, naturalmente a Bioética enfrenta resistências para consolidar-se. Ao mesmo tempo, pode oferecer precisamente o que o cenário atual exige: uma formação que vai além da técnica, que visa à reflexão. Portanto, não é surpresa que em meio a essas disputas, os anos 2000 tenham visto uma institucionalização e consolidação da Bioética, com uma penetração bastante considerável no campo da Medicina e das Ciências Biológicas. Ao mesmo tempo, houve também um movimento de biologização da Bioética, de apropriação cada vez maior por essas áreas – a ponto de se confundir, hoje, Bioética e Ética Médica. Dessa forma temas ligados à vida humana e não humana e sua preservação, ao grau de aceitação de riscos e à maximização de benefícios relativos a um determinado projeto que não da área biomédica foram relegados a segundo plano, com prejuízos à formação superior de profissionais de Engenharia e Tecnologias, por exemplo. Urge retomar esses temas para enriquecimento da própria área de engenharia e tecnologias, com consequente aumento dos níveis de qualidade e segurança, conforme defende o professor Babur M. Pulat, da University of Oklahoma, para quem a ausência de formação ética na juventude forma engenheiros cujas decisões são pobres em questões de segurança e qualidade. (Burge, 2010)