ÇİN HALK CUMHURİYETİ’NDE TÜRKOLOJİ
2.1. YURT DIŞINDA DOĞU TÜRKİSTAN’LA İLGİLİ YAPILAN ÇALIŞMALAR VE BUNLARIN ÇİN TÜRKOLOJİ’SİNE ETKİSİ
Já na vigência do CPC/73 criticava-se a previsão do seu art. 20, § 4º232, que autorizava o juiz a fixar honorários por equidade nas condenações impostas à Fazenda Pública, afastando-se a regra geral do art. 20, § 3º, que estipulava um critério objetivo (entre 10% a 20% sobre o valor da condenação). O argumento de que os valores vultosos das condenações impostas ao Poder Público ocasionariam, se aplicada a regra geral, um enriquecimento sem causa do advogado da parte vencedora, não convenciam.233
A constitucionalidade do dispositivo é, todavia, defendida por parte da doutrina, sob o argumento de que a apreciação equitativa não equivaleria necessariamente a modicidade. Nessa perspectiva, o que estaria o legislador a autorizar com a redação do art. 20, § 4º, do CPC/73 era tão somente a não vinculação ao intervalo de 10% a 20% do valor da condenação.234
O CPC/15 previu ainda um regramento especial para os honorários de sucumbência a que condenada a Fazenda Pública. Contudo, diferentemente do CPC/73, que, como se viu, permitia ao juiz uma fixação por equidade, o CPC/15, no § 3º do art. 85235, optou
232 Art. 20, § 4º, CPC/73: “Art. 20. A sentença condenará o vencido a pagar ao vencedor as despesas que antecipou e os honorários advocatícios. Esta verba honorária será devida, também, nos casos em que o advogado funcionar em causa própria. (Redação dada pela Lei nº 6.355, de 1976). [...]; § 4º Nas causas de pequeno valor, nas de valor inestimável, naquelas em que não houver condenação ou for vencida a Fazenda Pública, e nas execuções, embargadas ou não, os honorários serão fixados consoante apreciação eqüitativa do juiz, atendidas as normas das alíneas a, b e c do parágrafo anterior. (Redação dada pela Lei nº 8.952, de 13.12.1994).” (BRASIL, 1973, online).
233 “Nem se argumente com o valor da condenação nas causas contra a Fazenda, frequentemente vultoso, porque a mesma circunstância pode acontecer quando litigam entre si particulares, sem que para tanto o código tenha atenuado o teto fixado pelo § 3º do art. 20”. (GRINOVER, Ada Pellegrini. Os princípios constitucionais e o Código de Processo Civil. São Paulo: José Bushatsky, 1975, p. 42).
234 VIANA, 2003, p. 30.
235 Art. 85, § 3º, CPC/15: “§ 3º Nas causas em que a Fazenda Pública for parte, a fixação dos honorários observará os critérios estabelecidos nos incisos I a IV do § 2o e os seguintes percentuais: I - mínimo de dez e máximo de vinte por cento sobre o valor da condenação ou do proveito econômico obtido até 200 (duzentos) salários-mínimos; II - mínimo de oito e máximo de dez por cento sobre o valor da condenação ou do proveito econômico obtido acima de 200 (duzentos) salários-mínimos até 2.000 (dois mil) salários-mínimos; III - mínimo de cinco e máximo de oito por cento sobre o valor da condenação ou do proveito econômico obtido acima de 2.000 (dois mil) salários-mínimos até 20.000 (vinte mil) salários-mínimos; IV - mínimo de três e máximo de cinco por cento sobre o valor da condenação ou do proveito econômico obtido acima de 20.000 (vinte mil) salários-mínimos até 100.000 (cem mil) salários-mínimos; V - mínimo de um e máximo de três por cento sobre o valor da condenação ou do proveito econômico obtido acima de 100.000 (cem mil) salários-mínimos.” (BRASIL, 2015a, online).
por percentuais de honorários sobre o valor da condenação ou do proveito econômico. Os percentuais, todavia, são inferiores aos aplicados os particulares em situação idêntica e decrescem à medida que aumenta o valor da condenação ou do proveito econômico.
Há um problema prático na previsão de percentuais distintos para “faixas” de condenação ou proveito econômico. É que, em boa parte das ações em que a Fazenda Pública é condenada, a sentença não prevê valor certo, tratando apenas de parâmetros para confecção futura da conta. Na execução, o credor é quem apresenta os cálculos para eventual impugnação pela Fazenda. Assim, somente na execução é que se calcula o montante da condenação, podendo ainda a Fazenda Pública impugnar a conta. Ora, sem valor certo no momento da prolação da sentença da fase de conhecimento, não é possível ao julgador orientar-se quanto à seleção do percentual de honorários a ser aplicado dentre os previstos no art. 85, § 3º, do CPC/15.
Aparentemente a solução estaria no inciso II do § 4º do art. 85, que estabelece que “não sendo líquida a sentença, a definição do percentual, nos termos previstos nos incisos I a V, somente ocorrerá quando liquidado o julgado”236. Todavia, atualmente não há mais a
liquidação por cálculo do contador, mas apenas a liquidação por artigos ou por arbitramento. Assim, as sentenças proferidas contra o ente público e nas quais não há necessidade de prova de fatos ou de perícia para fixação do valor (maioria das sentenças, diga-se) estariam excluídas de tal previsão legal. Como já dito, são sentenças que preveem os parâmetros para a elaboração dos cálculos. Tais sentenças são consideradas líquidas, e, por tal motivo, o cumprimento de sentença inicia-se já com a apresentação de cálculos pelo exequente, não havendo uma fase prévia de liquidação.
Não se mostra plausível o entendimento de que, em se tratando de Fazenda Pública, o legislador teria feito opção pelo retorno da liquidação por cálculo do contador. É que esta há muito não existe mais no sistema processual brasileiro. Ademais, tal medida retardaria o início das execuções contra o Poder Público, que já padecem de morosidade em virtude não apenas da ineficiência da máquina judiciária, mas de peculiaridades do procedimento para cumprimento da obrigação de pagar pelo ente público.
A solução de fixação do percentual dos honorários devidos na fase de conhecimento já no curso da execução não convence. Ora, é na instância recursal, após a prolação da sentença da fase de conhecimento, que as partes podem questionar o percentual de honorários fixado. Subtrair-lhes essa possibilidade, fixando em execução os honorários,
não se mostra a melhor solução, pois não fizeram parte do teor da coisa julgada. Não há título executivo para execução de honorários não fixados na sentença da fase de conhecimento.
A elaboração de uma tabela prospectiva seria uma solução viável. Nela, o julgador colocaria o percentual que fixaria para cada faixa de valor. O valor da condenação então seria apurado somente quando da execução, mas os honorários já estariam previstos na sentença da fase de conhecimento, podendo inclusive ser objeto de impugnação. Na execução, o credor, ao elaborar a planilha dos cálculos, faria uma consulta à tabela a fim de aferir o percentual de honorários a ser utilizado.
Não seria óbice à tabela a vedação à prolação de sentença condicional (art. 492, parágrafo único, do CPC/15237), pois a relação jurídica (res in judicium deducta) teria sido resolvida. Não é condicional a sentença que julga a relação jurídica e deixa definidos percentuais de honorários para cada faixa de condenação, a fim de que, quando da elaboração dos cálculos pelo credor, se faça a conferência do percentual aplicável.
Outra solução possível seria a prolação de sentenças contra o ente público com valor certo de condenação. Todavia, são raras tais sentenças, pois exigem que ainda durante a fase de conhecimento se confeccionem e se debatam cálculos para eventual futura condenação, que sequer se sabe se será mantida após extensa via recursal. Do ponto de vista prático, é mais racional que continuem as sentenças a ser proferidas apenas com os parâmetros da condenação (ou seja, sem valor certo). É que assim evita-se um uso eventualmente desnecessário do aparato judiciário. Como a fase de cumprimento de sentença reclama a elaboração de cálculos atualizados pelo exequente, e, nesse momento, abre-se a possibilidade de impugnação pela Fazenda Pública, a discussão será reaberta. Por fim, caso a condenação do ente público contida em sentença de valor certo seja afastada na seara recursal, toda a dilação procedimental para liquidação de valores na fase cognitiva terá sido desnecessária.
Tendo em vista as faixas de valor da condenação para fins de definição do intervalo do percentual de honorários (art. 85, § 3º, CPC/15), nada obsta a que o magistrado faça uma projeção da quantia da condenação e fixe honorários com base nela. Contudo, caso os cálculos feitos pelo credor ultrapassem ou fiquem abaixo da faixa imaginada pelo magistrado, ter-se-ia um problema a resolver, motivo pelo qual a tabela prospectiva continuaria a ser a melhor entre as possíveis soluções.
237 Art. 492, parágrafo único, CPC/15: “A decisão deve ser certa, ainda que resolva relação jurídica condicional.” (BRASIL, 2015a, online).
Também seria possível a fixação pelo juiz do “percentual mínimo” ou do “percentual máximo”. No caso, independentemente do valor da condenação, que seria apurado na fase de cumprimento de sentença, já estaria certo o percentual de honorários. Tratar-se-ia da solução mais simples, desde que o magistrado, para fixar no mínimo ou no máximo (ou no meio termo), fundamentasse sua decisão nos fatores descritos no § 2º do art. 85 do CPC/15.
Em razão do princípio da causalidade e da necessidade de proteger-se a justa expectativa da Fazenda Pública de ser-lhe aplicado o sistema vigente quando do início da relação jurídica processual, os novos parâmetros de honorários para as condenações do ente público (art. 85, § 3º, do CPC/15) não são imediatamente aplicáveis a todos os processos em curso, mas somente àqueles iniciados após a vigência do novo diploma processual.
Na prática forense, o atual sistema (com percentuais distintos para faixas de condenação) é mais gravoso para os interesses do ente público que o sistema anterior (fixação dos honorários por equidade – art. 20, § 4º, do CPC/73), embora abstratamente (só pela leitura dos dispositivos) não se possa afirmar o mesmo. É que os honorários que eram fixados por equidade, na prática (repita-se) eram inferiores aos que são fixados na nova sistemática. Não raro, fixavam-se honorários por equidade em valores irrisórios. Aliás, foi certamente a grita dos advogados que militam contra o Poder Público que impulsionou a alteração legislativa nesse aspecto.
Ocorre que o mero fato de o sistema anterior ser na prática mais benéfico para o ente público não é suficiente para uma defesa da aplicação de regras mais benéficas nos processos iniciados antes da vigência do CPC/15. O motivo pelo qual nestes aplica-se a regra anterior (art. 20, § 4º, do CPC/73) é a natureza de direito material das regras relativas aos honorários de sucumbência, pois compõem o valor total da condenação. Assim, deve ser aplicada a regra vigente à data da propositura da ação, ato que deu origem ao direito aos honorários sucumbenciais.
Para a demonstração de que a propositura da ação é o ato que dá causa aos honorários, dá-se um exemplo. Caso o réu de determinada demanda tenha realmente causado o dano narrado na petição inicial, tal fato deu-se antes de o autor propor a ação. O que fez surgir o direito aos honorários não foi a lesão ao direito material do autor. As partes, inclusive, poderiam ter resolvido tudo extrajudicialmente, hipótese em que não haveria honorários sucumbenciais. Foi a judicialização, ou seja, a propositura da ação, que ocasionou o direito aos honorários sucumbenciais, embora não se saiba, até o deslinde da questão, quem é o credor da verba. Ademais, proposta a ação, há uma justa expectativa de ambas as partes
acerca das regras sobre fixação do valor da condenação, incluindo-se as regras sobre os honorários de sucumbência. A expectativa de que sejam as regras vigentes à época da prática do ato que deu azo à verba merece proteção (princípio da proteção da confiança). Quem se torna autor ou réu projeta riscos advindo da situação e com base neles traça suas estratégias de atuação.
Ademais, normas sobre honorários sucumbenciais são normas sobre direito subjetivo de natureza alimentar dos advogados, ou seja, direito material. Portanto, não têm aplicação imediata. Somando-se ao valor da condenação, integram-na. Ultrapassam a relação processual entre as partes, sendo parcela do mérito da causa. Trata-se do próprio objeto da relação (de direito material) entre advogado de uma parte e a parte adversa. O advogado é seu sujeito ativo, enquanto o passivo seria a parte sucumbente.
O mesmo raciocínio é aplicável aos honorários recursais (art. 85, § 11, do CPC/15). Pelo princípio da causalidade, além do direito daquele que pratica o ato a uma projeção dos danos que dele podem advir-lhe, não se lhe deve aplicar a majoração dos honorários na via recursal, caso tenha interposto o recurso antes da vigência da regra nova, ainda que o julgamento dê-se posteriormente. Endossa esse raciocínio o fundamento da previsão de majoração de honorários em sede recursal: o desestímulo ao recurso. Ora, numa interpretação teleológica da norma, somente haveria desestímulo no caso de recursos interpostos na vigência da regra nova.
Anote-se, por fim, que nenhuma responsabilidade tem o recorrente pela mora judiciária na apreciação do recurso interposto na sistemática anterior, em que não era possível a majoração. Ora, se somente quando da vigência da nova sistemática o recurso veio a ser julgado, as regras aplicáveis são as revogadas, pois vigentes à época do ato que deu causa à atuação estatal.