Os fenômenos de acidentes de trabalho apresentam uma série de dificuldades de estudo e pesquisa inerentes aos métodos empregados, à natureza dos dados e à própria multiplicidade dos fatores envolvidos nesses eventos.
Um dos problemas mais importantes a serem resolvidos refere-se à definição precisa do que se considera acidente de trabalho.
Um acidente é um evento inesperado e indesejável que surge diretamente da situação de trabalho, isto é, de um equipamento defeituoso ou de um desempenho inadequado de uma pessoa. Isto pode ou não causar danos pessoais e danificar o equipamento ou propriedade. Acidentes, entretanto, sempre interrompem a rotina normal de trabalho e estão associados com um aumento no atraso de tempo ou erro (Chapanis, 1962, citado por Dela Coleta, 1991, p.21).
Este é um conceito de acidentes mais voltado para os aspectos preventivos e de aplicações em pesquisas ergonômicas.
A Lei no 8.213, de 24 de julho de 1991, que instituiu o Plano de Benefícios de Previdência Social, conceitua o acidente de trabalho da seguinte maneira:
Art. 19. Acidente de trabalho é o que ocorre pelo exercício de trabalho a serviço da empresa, ou ainda pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII (produtor, parceiro, meeiro e arrendatário rural, pescador artesanal e
assemelhados) do artigo 11 desta Lei, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.
§ 1º. A empresa é responsável pela adoção e uso de medidas coletivas e individuais de proteção e segurança da saúde do trabalhador.
§ 2º. Constitui contravenção penal, punível com multa, deixar a empresa de cumprir as normas de segurança e higiene do trabalho.
§ 3º. É dever da empresa prestar informações pormenorizadas sobre os riscos da operação a executar e do produto a manipular.
§ 4º. O Ministério do Trabalho e da Previdência Social fiscalizará e os sindicatos e entidades representativas de classes acompanharão o fiel cumprimento do disposto nos parágrafos anteriores, conforme dispuser o Regulamento.
O conceito prevencionista de acidente de trabalho, citado anteriormente, é, de acordo com Gonçalves (2002), mais abrangente do que o conceito legal, principalmente porque este último se restringe às hipóteses de ocorrência de lesões e/ou perturbações de ordem funcional dos trabalhadores, ao passo que o primeiro contempla não só a hipótese legal, como também as situações em que ocorreram, de forma isolada ou simultânea, perda de tempo útil e/ou danos materiais para a empresa. Para os profissionais da área de Segurança e Saúde no Trabalho, o conceito prevencionista é mais significativo do que o conceito legal, já que se numa primeira ocorrência o acidente não provocou lesões em trabalhadores, ainda assim, deve ser analisado e investigado, procurando evitar que a sua repetição possa provocar danos à saúde ou à integridade física dos empregados.
Convém lembrar que há diferenças bastante acentuadas entre empresas, na definição do que seja um acidente de trabalho. Algumas empresas consideram como acidentes todas as ocorrências imprevistas que causam alguma interrupção do
funcionamento normal do sistema de trabalho. Outras consideram somente os casos em que ocorra algum tipo de lesão, e outras consideram como acidentes somente os casos em que a lesão comporte alguma gravidade e o trabalhador seja obrigado a se afastar temporariamente do serviço.
Existe uma classificação para os diversos tipos de acidentes de trabalho. De acordo com o Manual de Higiene e Segurança no Trabalho, da “Calçados do Brasil S.A.”, são eles:
- Acidentes com afastamento (com lesão ou perda de tempo): são as ocorrências nas quais há a lesão pessoal, como conseqüência de acidente de trabalho, que impede o acidentado de voltar ao trabalho no dia imediato ao do acidente ou que resulta em incapacidade permanente;
- Acidentes sem afastamento (com lesão leve ou sem perda de tempo): são as ocorrências nas quais há a lesão pessoal, como conseqüência de acidente de trabalho, que não impede o acidentado de voltar no dia imediato ao do acidente, desde que não haja incapacidade permanente;
- Acidentes de trajeto: são os acidentes sofridos pelos empregados no percurso da residência para o local de trabalho ou deste para aquela, qualquer que seja o meio de locomoção, inclusive veículo de propriedade do empregado;
Convém lembrar que existem acidentes de trabalho e doenças causadas pelo trabalho, que muitas vezes são confundidas com os acidentes. Existe a doença profissional – assim entendida a doença produzida ou desencadeada pelo exercício de trabalho peculiar a determinada atividade –, e a doença do trabalho – assim entendida a doença adquirida ou desencadeada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relaciona diretamente. Basicamente, a diferença entre os acidentes e as doenças é que aqueles têm caráter súbito, inesperado e indesejável;
enquanto estas também indesejáveis, vão sendo adquiridas ao longo do tempo, não aparecendo de “um dia para a noite”.
Não raro os serviços de segurança incluem nos registros ocorrências no local de trabalho e no trajeto, aqueles ocorridos no desempenho do trabalho ou nas dependências da empresa, mas fora da situação de trabalho particular do sujeito. Segundo Dela Coleta (1991), algumas situações confusas são observadas e poderão comprometer a precisão de estudos – mesmo que perfeitamente compreendidas nas exigências legais de consideração de acidente – como, por exemplo, reunir numa mesma classificação de acidentes uma ocorrência que envolva um soldador que sofreu queimadura no rosto atingido por um resíduo de solda e um auxiliar de escritório que fraturou um braço decorrente de uma colisão de ônibus em que viajava de volta para casa.
A “Calçados do Brasil S.A.” registra todo e qualquer tipo de acidente de trabalho, seja com ou sem lesão, grave ou não, com ou sem afastamento, para garantir, assim, que os funcionários recebam suas indenizações ou benefícios a que tenham direito.