1.7. DENETİM TÜRLERİ
1.7.4. Denetçinin Statüsüne Göre Denetim Türler
Como é sabido, as leis brasileiras são silentes no que toca a desinternação progressiva. O Código Penal não faz qualquer menção a ela, tampouco o Código de Processo Penal. Nem a Lei de Execução Penal, que detalha melhor o cumprimento das sanções penais, instituiu-a. Em outras palavras, a desinternação progressiva não está prevista no ordenamento jurídico brasileiro9. A única regulamentação existente a respeito do tema não emana do Poder
5 Confirmando essa relação, Corocine (2006, p. 216).
6 Conquanto o hospital se destinasse à execução tradicional da medida de segurança, a chamada desinternação progressiva começa a se articular, na chamada Colônia de Desinternação Progressiva (CDP).
7 Através do Decreto estadual no 46046, de 23 de agosto de 2001.
8 Considerando que a desinternação progressiva não está prevista na legislação penal e processual pátria.
9 Justamente por isso o interesse que ela desperta, em se tratando de fenômeno já não tão recente e que se realiza a despeito da ausência de previsão legal.
Legislativo, e sim do Poder Judiciário, que reconheceu a importância e possibilidade de aplicação da desinternação progressiva através da Portaria no 9, de 09 de junho de 2003, da Vara das Execuções Criminais de São Paulo10. A referida portaria estatui:
Artigo 1º - Fica instituída, no âmbito dos Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico do Estado de São Paulo, a possibilidade de transferência de paciente, quer do sexo masculino quanto do sexo feminino, submetido a medida de segurança para a Colônia de Desinternação Progressiva.
Segundo seu artigo 3º, a transferência do interno para a desinternação progressiva pode ser efetuada a qualquer tempo, durante o cumprimento de medida de segurança. Dependerá, no entanto, de determinação judicial, concedida à luz de relatório circunstanciado oriundo do Hospital que abriga o interno, subscrito por um médico psiquiatra, um psicólogo, um assistente social e um diretor de segurança (art. 2º). Convém registrar que a portaria determina ainda que a sistemática a ser aplicada à desinternação progressiva é aquela detalhada no “regulamento interno estabelecido em projeto apresentado pelo H.C.T.P. de FRANCO DA ROCHA [...] que fica fazendo parte integrante da presente Portaria” (art. 4º)11. Ocorre que o regulamento é datado de 1999, período em que a desinternação progressiva desenvolvia-se no HCTP I, referindo-se a este Hospital portanto, e não ao HCTP II. Assim, não é de se estranhar que a sistemática experimentada atualmente pela desinternação progressiva no HCTP II não é mais idêntica ao que o regulamento em tela retrata, ressalvado obviamente seu próprio espírito12. Dessa feita, pode-se concluir que o regulamento a que se refere a portaria não tem mais ampla observância, gerando a necessidade de ser revisto.
De qualquer forma, ressalte-se que a Portaria 09/03 prevê ainda a chamada desinternação progressiva domiciliar ou licença terapêutica, destinada àqueles internos que ainda não reúnam condições de serem transferidos à Colônia de Desinternação Progressiva, e consistente na possibilidade de visitar seus familiares, até dois finais de semana ao mês13 (art. 5º e 6º). Importante se notar que a autoridade judicial considerou essencial não só a desinternação progressiva operada plenamente e em estabelecimento próprio, mas estabeleceu a possibilidade de um maior contato com o meio social e familiar também para aqueles internos que não podem ainda ser transferidos ao HCTP II, a evidenciar uma mudança de
10 A portaria é assinada pelo Dr. Miguel Marques e Silva, então Juiz Corregedor dos Presídios da Capital. Referida portaria encontra-se anexada ao presente trabalho.
11 Não se juntou à portaria anexa o regulamento interno, por nele constarem a identidade de alguns profissionais, a que a presente pesquisa obrigou-se a não revelar.
12 Até mesmo porque é natural a mudança de características e critérios no seio da desinternação progressiva. 13 A verificação da realização desse instituto foge aos limites deste trabalho.
concepção significativa. Afinal, passa a ser cada vez mais corrente, ao que parece, as noções de que a desospitalização deve ser concretizada e de que o contato com o meio externo tem uma função terapêutica e social14.
Cite-se também o Decreto estadual no 46046, de 23 de agosto de 2001, que cria e organiza o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico II de Franco da Rocha. Muito embora o Hospital, desde sua fundação, dedique-se à execução da desinternação progressiva, e pelo que pôde ser averiguado, esta ter sido a razão mesma de sua instituição, em nenhum momento o Decreto citado deixa clara essa intenção. É dizer: o Decreto não explicita em que o HCTP II diferencia-se dos demais, até mesmo ao discorrer sobre sua destinação:
Artigo 2º - O Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico II de Franco da Rocha é um estabelecimento penal destinado ao cumprimento do tratamento de internos/pacientes inimputáveis dos sexos masculino e feminino portadores de patologias clínicas associadas à doença mental.
Na verdade, o artigo 2º do Decreto no 46046 poderia ter uma redação bem mais sofisticada, do ponto de vista técnico, asseverando tão-somente que o Hospital em tela se destina à execução de medida de segurança15. Apesar da obviedade dessa afirmação, já que se trata de um Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, uma tal redação pelo menos não faltaria com a verdade. Ademais, se a criação do Hospital realmente tiver por objetivo abrigar exclusivamente o cumprimento da medida de segurança na forma da desinternação progressiva, seria aconselhável que isso fosse aclarado no artigo 2º do Decreto16. Por não ter explicitado essa questão, o Decreto também é silente com relação a uma de suas decorrências: a enumeração das condições e dos pressupostos de aplicação da desinternação progressiva. Ainda que isso seja matéria mais afeita à legislação federal, a ausência dessa previsão no Decreto que institui o Hospital revela que não há qualquer clareza com relação a esses requisitos.
Uma outra incoerência pode ser ainda apontada, a saber: a questão do gênero a que se destina o Hospital. Apesar de asseverar que o estabelecimento destina-se a homens e a mulheres, tal não corresponde à realidade dos fatos. Resta saber se o Decreto deveria ser corrigido nesse ponto, ou se o Hospital tem pretensões de abrigar também mulheres17. De
14 Em última instância, só se pode pretender realmente inserir alguém na sociedade estimulando esse contato. 15 Com isso se evitariam muitas imperfeições, como a de ter deixado de lado a aplicação de medida de segurança
a semi-imputáveis.
16 Algo como: “O Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico II de Franco da Rocha é um estabelecimento penal destinado à desinternação progressiva dos indivíduos submetidos à medida de segurança”.
qualquer forma, algo muito positivo foi identificado no decreto: a concepção de que o tratamento dos internos não se resume apenas a aspectos psiquiátricos e farmacológicos18.
Muitas outras questões poderiam ainda ser levantadas com relação à redação do Decreto, mas isso se aparta dos objetivos deste trabalho. Essencial, no entanto, registrar a opinião dos funcionários que participaram da pesquisa: entre aqueles que se manifestaram expressamente sobre o Decreto, a maioria se manifestou insatisfeita, seja por que ele não refletiria a realidade do Hospital, seja porque não teria tratado de todas as suas necessidades. Em outras palavras, não teria corretamente estabelecido, na visão desses indivíduos, no que consiste o Hospital, nem no que ele deveria tornar-se, devendo por isso haver uma reestruturação do Decreto. De nossa parte, frise-se que muitas determinações19 do Decreto não foram ainda cumpridas20, apesar de já terem decorridos sete anos desde sua feitura, tudo a tornar evidente que muitas arestas devem ser aparadas, em se tratando da correlação entre o conteúdo do Decreto e a sistemática concreta do HCTP II.
De qualquer forma, retomemos a discussão a respeito da ausência de lei federal que discipline a desinternação progressiva21. Muito embora não haja previsão expressa da medida em nosso ordenamento, é forçoso reconhecer que ela se alinha aos ditames constitucionais, principalmente na medida em que procura respeitar a dignidade da pessoa humana, fundamento de nosso Estado Democrático e Social de Direito Material22. Teoricamente, portanto, não há entrave algum para a legitimidade da desinternação progressiva em nosso sistema jurídico. Tudo para dizer que não se trata de estratégia ilegal, mas que se coaduna com nosso modelo de Estado e seu ordenamento jurídico.
18 Pelo menos é o que se pode deduzir do artigo 15, inciso VI que, ao tratar das atribuições do diretor do HCTP II, elenca a promoção de “parcerias com a Sociedade Civil Organizada, com o intuito de melhorar as condições de tratamento bio-psicossocial e cultural dos pacientes/presos”.
19 Como, por exemplo, a instituição da chamada Equipe de Nutrição e Dietética (art. 3º, V, a; art. 4º, III, a e art. 7º, XXVIII) e a previsão de terapia ocupacional (art. 8º, XXIII). Cite-se também a criação das Comissões de Ética Médica, de Controle de Infecção Hospitalar e de Revisão de Prontuários (art. 3º, I a III), cuja composição e atribuição devem ser definidas pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, conforme o artigo 14 do Decreto.
20 Segundo seu artigo 28: “A implantação da estrutura constante deste decreto será feita gradativamente, mediante resoluções do Secretário da Administração Penitenciária, de acordo com as disponibilidades orçamentárias e financeiras”.
21 Essa ausência de regulamentação adequada, através de lei federal, não é percebida uniformemente por todos os funcionários. Com exceção de uma minoria, grande parte dos funcionários supõe que a desinternação progressiva tem previsão e regulamentação legal. Isso provavelmente ocorre porque, no imaginário do corpo funcional, basta para tanto a existência da Portaria e do Decreto instituidor do Hospital. Não estamos com isso querendo dizer que a desinternação progressiva não se reveste de legalidade por ausência de previsão expressa no ordenamento, mas apenas registrando a compreensão dos funcionários no que toca a essa questão. 22 Essas relações foram analisadas no segundo capítulo, para o qual remetemos o leitor. Não é demais, no
entanto, destacar o alinhamento da desinternação progressiva com relação à intervenção mínima, ao princípio da individualização das sanções penais e ao princípio da proporcionalidade, além da já citada dignidade humana.
Essa constatação, no entanto, não faz mais do que reconhecer legitimidade à experiência em curso no Estado de São Paulo, assim como àquelas que lhe são assemelhadas. Não institui, no âmbito das medidas de segurança, a obrigação do Estado em fornecer essa estratégia político-criminal àqueles internos para os quais for adequada, em âmbito nacional. Claro que sua efetivação – desde que bem aplicada – em todos os Estados brasileiros seria altamente recomendável, por todos os motivos já expostos neste trabalho23. No entanto, essa ainda não é uma obrigação exigível do Estado, justamente por falta de legislação a respeito. É nesse contexto que seria importante uma reforma legislativa que estabelecesse a desinternação progressiva como uma etapa possível a todo indivíduo submetido à medida de segurança no Brasil. Possível porque o juiz pode entender mais conveniente a aplicação direta do tratamento ambulatorial, sem submeter o indivíduo ao instituto da desinternação progressiva. Esta passaria a ser portanto uma alternativa, de existência obrigatória, dentro do sistema das medidas de segurança, mas que não necessariamente abrigaria todos os internos.
Com efeito, o Projeto de Lei no 3473, apresentado em 18 de agosto de 2000 e ainda não apreciado, tem esse intuito24. Se aprovado, o parágrafo 3º do artigo 97 do Código Penal passaria a ter a seguinte redação:
O juiz, após perícia médica, poderá conceder ao paciente que apresentar melhora em seu tratamento, a desinternação progressiva, facultando-lhe saída temporária para visita à família ou participação em atividades que concorram para o seu retorno ao convívio social, com a indispensável supervisão da instituição em que estiver internado.
Como se vê, o Projeto sob análise consagra o termo desinternação progressiva, e tem sobre ela uma concepção um pouco restrita, pelo menos tendo em vista a experiência paulista. Como se verá mais adiante, as saídas dos internos não têm por único objetivo visitar os familiares, mas também satisfazer necessidades básicas dos internos, tais como a aquisição de víveres ou vestimentas. De qualquer forma, é inevitável a constatação de que, caso aprovado o citado parágrafo, a sistemática da desinternação progressiva não seria absolutamente idêntica em todos os Hospitais de Custódia que passariam a aplicá-la. Ademais, o referido parágrafo apresenta uma outra imprecisão, ao estabelecer como pressuposto da aplicação da desinternação progressiva apenas questões terapêuticas. Como se verá mais adiante, embora isso deva ser levado em conta, o juiz deve considerar a evolução comportamental do interno,
23 Como a positiva tendência de desospitalização do tratamento do doente mental.
24 O Projeto de Lei em tela pretende muitas outras alterações da parte geral do Código Penal, que não serão aqui analisadas, por não terem relação com o objeto da pesquisa.
apta a tornar possível sua efetiva ressocialização e a diminuir os riscos de lesão a bens jurídicos essenciais.
Outro dispositivo do Projeto também trata da medida em tela, aspirando a seguinte redação ao parágrafo 4º do artigo 97: “observados os resultados positivos da desinternação progressiva e realizada a perícia, com a melhora do quadro clínico do internado, poderá o juiz autorizar a transferência para o tratamento ambulatorial, ouvido o Ministério Público”. Comente-se a esse respeito que tal proposta, acertadamente, concebe a desinternação progressiva como uma etapa anterior ao tratamento ambulatorial. Ademais, note-se a concepção insuficiente de que a progressão do interno no seio da execução da medida de segurança depende apenas da evolução de seu tratamento, tendente à cessação da periculosidade25, pois não foram contempladas as indicações relativas às mudanças comportamentais do interno.
Referido projeto intenta ainda algumas outras alterações na regulamentação das medidas de segurança, como a obrigatória semestralidade na realização das perícias médicas, que se apartam dos objetivos específicos da presente pesquisa26. Esta se debruça sobre a própria instituição da desinternação progressiva e o fornecimento de subsídios quiçá hábeis a contribuírem, ainda que timidamente, com a elaboração legislativa, como a caracterização do instituto paulista e a avaliação de sua eficácia na consecução das finalidades das medidas de segurança.