BÖLÜM V BULGULAR
5.2. DENENCELERĠN TEST EDĠLMESĠ
Os vinte e seis ensaios que Manuel Rodrigues Lapa publicou no Suplemento Literário
do Minas Gerais giram em torno das pesquisas que realizava acerca dos poetas
inconfidentes e personagens afins. Textos como “Cinco sonetos de Alvarenga”, “A História, os ‘estoriadores’ e o caso de Bárbara Eliodora”, “Um perfil de Tiradentes”,
“Roteiro de pistas para uma pesquisa histórica em Minas Gerais”, “O poeta é o inconfidente” e outros fazem parte dessa antologia que se encontra no periódico.
Procuramos destacar nos textos aquilo que se relaciona diretamente com o diálogo Brasil/Portugal e com as visões que o pesquisador português expressa sobre o país. Chamamos atenção que o fato de Rodrigues Lapa voltar-se para o estudo da produção poética e cultural brasileira já se configura como um diálogo, mas é preciso que esse diálogo seja descrito em suas peculiaridades, pois expressam visões de um português em relação ao Brasil.
O texto “Um perfil de Tiradentes” é o discurso que Rodrigues Lapa preparara para a solenidade do recebimento da Medalha da Inconfidência. Não chegou a proferi-lo, segundo se informa na apresentação, por motivos protocolares, entretanto, publicou-o no Suplemento. Também na apresentação ao texto está escrito:
Terá algum interesse a sua publicação, pois nela como que transluz o pressentimento das ocorrências políticas que advieram do golpe militar de 25 de abril em Portugal, Tiradentes terá a sua estátua em Lisboa, assim como as terá provavelmente em Luanda e em Lourenço Marques. Bem as merece (1975, p. 1).
Dirigindo-se ao Governador, remete à conferência anterior que fizera havia dezesseis anos em Ouro Preto, em que destacava o heroísmo de Tiradentes. Declara seu afeto e admiração pelo “Proto-mártir brasileiro”, pois a pesquisa que realizou “com o afã de descobrir a verdade”, deu-lhe uma visão diferente daquele que, “por motivos inconfessáveis”, tomou conhecimento nos meios portugueses. Elogia a honestidade e a retidão de caráter e narra episódio da ligação de Tiradentes com o português, também de Anadia, Francisco Xavier Machado que lhe traduziu a Constituição da República da
América. E, num arroubo de pessoalidade expressa seu desagrado por não ter nascido no
mesmo dia em que morrera Tiradentes. Rodrigues Lapa nasceu em 22 de abril de 1897.25 Para reforçar seu apreço e identificação geográfica e histórica com o alferes, lembra que teve um avô chamado José que andara pelo Brasil. Justifica sua identificação, pois sempre se solidariza com os oprimidos, os ofendidos. Assim, chegou mesmo a visitar o Pombal, como são conhecidas as ruínas da Fazenda do Pombal, em
25
Veja também a esse respeito o texto “O livro que faltava” de Tarquínio José Barbosa de Oliveira (1975, p. 5.) que aborda sobre esse desejo de Rodrigues Lapa de nascer na mesma data da morte de Tiradentes.
São João del-Rei, lugar onde nasceu Tiradentes, e lá se inspirou para escrever um livro sobre a vida do alferes, livro esse que não pôde concluir. Ele observa, de forma a chamar atenção, que essa visita deveria ser feita por todos os brasileiros, que, entretanto não o fazem.
Escreve que há pontos obscuros na biografia de Tiradentes que precisam ser esclarecidos, como a sua ida a Portugal. Elogia o Alferes pela sua busca de liberdade e justiça. Observa que, se antes incompreendido pelos seus contemporâneos, o alferes é naquele momento tido por ele como um gênio. Cita trecho em que Frei Raimundo Penaforte, confessor de Tiradentes, qualifica-o como “um daqueles indivíduos da espécie humana que põem em espanto a mesma natureza. Entusiasta, (...) empreendedor, com o fogo de um D. Quixote, habilidoso” (PENAFORTE apud LAPA, 1975, p. 1).
Finaliza, agradecendo a medalha e reforçando a sua identificação com os ideais de justiça e liberdade, representados pelo alferes. Remete, conforme atenta o texto de apresentação, para a situação política de Portugal: “Assumo inteiramente essa responsabilidade, a que minha condição de português dá, neste momento que atravessa minha Pátria, particularíssimo relevo” (LAPA, 1975, p. 1). Cita, endossando, trecho de Tarquínio de Oliveira em que escreve sobre as relações de Tiradentes com Portugal por ocasião da Inconfidência Mineira: “A luta verdadeira não era romper com Portugal. Lá e cá se iniciava a luta pela liberdade. Hoje, que outros vínculos se estabelecem com o pequeno e grande país, certamente cá e lá Tiradentes há de ser pioneiro de novos horizontes da civilização” (OLIVEIRA apud LAPA, 1975, p. 1). E confirma que os ideais de Tiradentes permanecem vivos em Portugal, onde há discípulos que “desejam edificar novas Pátrias”. Certamente Rodrigues Lapa considera-se um discípulo do Alferes pelo que já expôs no texto dizendo de sua identificação.
Entretanto o final do discurso é surpreendente, pois apesar de ter Tiradentes até como um herói português, contando inclusive com discípulos, expressa uma visão arraigadamente portuguesa em relação ao Brasil. Ele escreve:
Nada mais exato. Efetivamente, a mensagem de Tiradentes está viva ainda no espaço português, onde os seus discípulos desejam edificar novas pátrias. O estilo que adotamos com o Brasil é esse mesmo: consentir de bom grado que os povos sacudam a tutela e se governem por si mesmos. E se para tanto se põe como condição que os filhos falem a mesma língua e sigam os costumes dos pais, então o povo da Guiné tem direito à sua autonomia (LAPA, 1975, p. 1, grifos acrescentados).
Em seguida, já no próximo parágrafo, após referir-se à merecida autonomia da Guiné, narra um fato que o professor suíço Jean Ziegler lá assistiu, fato esse também esclarecedor da posição de Lapa como herdeiro de um país colonizador:
... em plena selva, no internato de Campanha, os estudantes, em livros portugueses impressos na Suécia, seguiam cursos de cultura e literatura portuguesa e entoavam estrofes do imortal Camões.
Esta velha semente portuguesa, lançada à terra por bons pomareiros, ainda floresce e dá frutos de bom sabor. Criou o Brasil e há de criar outros Brasis por esse mundo afora. Para a glória de todos nós, da língua e da cultura que representamos e defendemos. E glória também a Tiradentes, que nos mostrou, com sacrifício da vida, que assim é que deve ser. (LAPA, 1975, p. 1)
Nos trechos destacados, deixa-se entrever a contradição portuguesa diante dos países colonizados. Por um lado, Rodrigues Lapa admira Tiradentes, tendo-o como um herói nacional português, a ponto de exportá-lo, prevendo homenagem a ele nos países de África como nas cidades de Luanda e Lourenço Marques, atual Maputo, ex-colônias portuguesas, já independentes em 1975, quando da publicação desse texto. Por outro, afirma a condição para que os países colonizados “sacudam a tutela e se governem por si mesmos”: falar a mesma língua e seguir hábitos e cultura da metrópole. Nesse sentido, Rodrigues Lapa apresenta como ilustração o fato de africanos da Guiné declamarem em plena selva, versos de Camões. Não há distanciamentos para Lapa entre a mitificação de Tiradentes como herói que lutou por seu país e o desejo de permanência de uma língua e cultura portuguesas nos países colonizados por Portugal. Há um desejo de imortalidade aliado a um reconhecimento do direito à autonomia desses países, ainda que essa autonomia seja uma concessão da metrópole para as colônias, seja algo consentido, permitido. Assim, Brasil e Guiné têm para o português o mesmo estatuto, são representações da língua e da cultura portuguesas num outro continente.
Sem dúvida é o texto “Para uma boa compreensão entre portugueses e brasileiros”, publicado primeiramente no Jornal do Brasil, em 13 de junho de 1957, que mais esclarece e explicita essas posições portuguesas em relação ao Brasil já independente, entretanto, ainda visto sob o ponto de vista do português que aqui esteve para colonizar. Rodrigues Lapa inicia seu texto remetendo a uma conferência que proferira havia três anos em Belo Horizonte em que um jornalista se retirara assustado por ter ouvido o conferencista “demolir um por um os vultos de Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa”. Segundo escreve, o jornalista temia que Tiradentes fosse também demolido por Rodrigues Lapa. Narra esse fato para dissertar acerca dos mitos e lendas que foram criados no Brasil em torno dos inconfidentes com a função de heroicizar fatos e personagens brasileiros que se opuseram a Portugal. Segundo Lapa (1975), a lenda tem funções, uma delas é reforçar “os alicerces duma nação emancipada”. Entretanto, é necessário que as lendas sejam desvendadas, pois a mentira e os desenganos não justificam “um nacionalismo obcecado”. E prossegue referindo-se a uma visão tradicionalista e passadista de alguns brasileiros que pensam que a dependência ainda perdura, visão essa que se apega à língua comum entre Brasil e Portugal e dela faz bandeira de defesa contra influências estranhas ao país, mas, em contrapartida desvalorizam a luta pela emancipação do Brasil.
Frente a esta posição dos que negam a História, em obediência a uma brasilidade mais ou menos jacobina, há também os que aceitam em globo a experiência histórica, trazendo dentro deles um complexo, uma espécie de nostalgia dos bons tempos passados, como se o Brasil fosse apenas o país que o português criou. Essa atitude parece-me tão falsa como a primeira, com a desvantagem de ser moralmente mais condenável por traduzir uma espécie de subserviência para com senhores que deixaram há muito de o ser (LAPA, 1975, p. 4).
Cita ironicamente exemplo de “passadistas” que vão à Europa, encantam-se com Portugal e quando voltam ao Brasil estão cheios de elogios a este “grande pequeno país, que deu mundos ao mundo, deslembrados das pequeninas misérias da História, dos sacrifícios da Colônia, do despotismo dos Governadores, do martírio de Tiradentes” (LAPA, 1975, p. 4) Chama atenção para o fato de tal atitude acabar por “alentar certas tendências de antibrasileirismo que se notam em alguns ambientes portugueses” (p.4). E conclui que o Brasil só poderá ser compreendido em suas diferenças, e mesmo em sua superioridade, por certa camada culta de portugueses, pois o conceito de brasileiro como boçal, que imperou no século XIX e que, na verdade, era um adjetivo usado para o
português migrante que retornava e fazia triste figura em seu país, acabou por deixar em Portugal um conceito depreciativo do brasileiro, provocando confusões, desentendimentos e ignorância, prejudicando, pois as relações entre os dois países:
Por muito tempo vigorou em Portugal um conceito depreciativo do brasileiro, que nos era fornecido pelo português enriquecido e boçal, que voltava à pátria, dando uma imagem grotesca de gentes di lá, nos costumes, no traço, na linguagem. O conhecimento do Brasil foi-nos dado através dessa imagem grosseiramente deformada. O português sentiu nessa caricatura uma espécie de violação; e tendo da sua própria cultura uma idéia inteiriça e certamente errônea, não perdoou esse desvio de um padrão, que se habituara a considerar inatingível. Daqui partiu toda uma série de incompreensões e confusões, que têm sido altamente nefastas para um e outro povo. O problema mais sério é o da língua.
Ao português custa ainda acreditar que se esteja a processar no Brasil a formação de uma língua diferente (LAPA, 1975, p. 4, grifo do autor).
Entretanto, apesar dessa dissertação sobre a diferença de costumes, de língua do Brasil em relação à antiga colônia, Lapa afirma que custa ao português admitir a diferença lingüística e, aqui no Brasil, a situação não se mostra distinta, pois o distanciamento da linguagem falada em relação à linguagem escrita também causa espanto. Nesse aspecto, Rodrigues Lapa faz uma interpretação inadequada em relação ao aspecto lingüístico do Brasil, pois quando afirma que “Foi contra isso que protestou Mário de Andrade, que teve a simpática audácia de pôr os personagens dos seus livros a falar a linguagem impura de Macunaíma” (LAPA, 1975, p. 4, grifo acrescentado) não consegue compreender que a intenção de Mário de Andrade, nacionalista, era demarcar uma posição diferenciada para o brasileiro, o herói sem nenhum caráter que engloba todos os caracteres é para o modernista a definição do brasileiro, multifacetado, múltiplo, resultado das três raças ou mais que fizeram esse país.
Rodrigues Lapa disserta em alguns parágrafos finais acerca da linguagem brasileira, diferente da portuguesa, e ainda, da diferença que impera no Brasil entre a língua falada e a escrita, a que denomina “bilingüismo forçado”. Discorda de uma proposta de convênio ortográfico defendida em 1945, exemplifica com o uso do “c” etimológico em palavras como “director”, uma vez que mesmo em Portugal essa letra não é pronunciada. Assim, sugere que a supressão deva partir de seu país. Essa argumentação parece ir ao encontro de um olhar apaziguador das diferenças entre Brasil e Portugal, reconhecendo o direito de 62 milhões de escreverem sem a letra “c” que não se
pronuncia, ao final, podemos observar, no entanto, e a consciência de que ainda existe um olhar da metrópole sobre a colônia:
Sendo assim, por que não tomarmos nós a iniciativa de suprimir esse parasita dispensável obrigando um povo de 62 milhões a fazê-lo em benefício dum povo de 8 milhões? É que existe em nós a consciência de que somos a velha matriz, donde se gerou a florente civilização brasileira: e deste preconceito tutelar nascem os grandes males (LAPA, 1975, p. 4).
Nessa passagem, Rodrigues Lapa reconhece a consciência de seu lugar, como português, juntamente com outros portugueses, uma vez que se coloca dentro de um “nós” português, em relação à língua portuguesa, ainda que critique esse lugar, afirmando-o como um “preconceito” e encerre o seu texto desejando que “verdade, justiça, sinceridade e bom senso” prevaleçam sobre esse “velho preconceito”.
Além disso, a identificação que tem com Tiradentes em muito diz do momento político que vivia Portugal. Tendo vindo para o Brasil em razão de sua oposição à ditadura salazarista, Rodrigues Lapa toma o Alferes como modelo de liberdade e luta contra a tirania do poder. Entretanto, quando se expressa sobre o Brasil, sua posição é de colonizador, de português na colônia. Nesse sentido, é interessante ressaltar sua referência a Tiradentes, não como alguém que luta contra a Coroa Portuguesa, mas como um herói da liberdade que, inclusive, fez discípulos em Portugal: “Senhor Governador do Estado de Minas Gerais, a medalha que recebi de V. Exa., e com a qual me sinto honrado, significa para mim, como é natural, uma identificação plena com os ideais de justiça e liberdade que foram os de Tiradentes” (LAPA, 1975, p. 1).