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BÖLÜM 3: BULGULAR ve TARTIŞMA

3.11. Değerlendirme ve Tartışma

Alguns teóricos apontam o hipertexto como uma textualidade paradigmática e revolucionária devido a conciliação de elementos distintos (texto, som, imagens etc) que resulta no uso variado e adaptado às necessidades dos usuários, outros o vêem como uma resposta para as limitações do texto impresso e existem ainda aqueles que como Vannevar Bush acreditam que a hipertextualidade aproxima-se da maneira de como a mente humana funciona, ou seja, um modo de conceber como o conhecimento é produzido e organizado. Mas em meio a tantas opiniões, será que o hipertexto pode ser considerado um novo paradigma de textualidade surgido graças ao desenvolvimento dos sistemas de informática?

Marcushi100, por exemplo, é categórico ao afirmar que o hipertexto não é propriamente uma novidade radical como muitos apontam. Segundo ele, o hipertexto não é novo na concepção pois a idéia sempre existiu na tradição ocidental e sim na tecnologia que permite esta nova textualidade. Desta forma, ele consegue integrar elementos já existentes na cultura impressa como notas, citações, bibliografias, fotos, imagens só que com o diferencial do movimento que faz com que não tenhamos a sensação de que sejam notas, citações. Deste modo, o hipertexto não cria mas redefine as funções constituintes dos próprios textos clássicos já que o próprio ato de ler o texto eletrônico acontece graças a estratégias de leitura desenvolvidas a partir da invenção da imprensa.

A leitura de uma enciclopédia, por exemplo, também não ocorre de modo seqüencial. Existem os índices remissivos, figuras, notas e bibliografia que tornam a leitura um verdadeiro vai e vem sem início, meio e fim determinados. Procurar um endereço, o nome de uma pessoa ou um estabelecimento comercial em uma lista telefônica é outro exemplo de leitura que não tem nada de linearidade. Existem ainda aqueles livros voltados para o público infantil onde o leitor escolhe o fim da aventura ou mesmo todo o percurso da história. No final de cada página lida há uma opção em que a pessoa escolhe um determinado caminho ou outro, pulando assim da página 10 para a 90, depois da 30 para a 8.

Deste modo, fica evidente que o hipertexto não inaugurou um novo modo de leitura já que o texto impresso carrega possibilidades de leitura não-linear mas sim propiciou que a leitura tornasse mais dinâmica, com o acesso mais rápido a diferentes informações.

Chartier também não analisa como revolucionária a transição do texto impresso para o hipertexto, citando o próprio caso da invenção da imprensa que, segundo ele, não resultou em uma transformação absoluta do livro já que o manuscrito e um livro impresso baseiam-se nas mesmas estruturas fundamentais que são a do códex, ou seja, compostos de folhas dobradas um certo número de vezes que determinam o formato do mesmo e a sucessão dos cadernos. Segundo o historiador, a paginação, o índice, as numerações já eram usadas desde a época dos manuscritos e tudo isso foi incorporado à invenção de Gutemberg, havendo mais continuidade do que propriamente rupturas entre uma fase e outra.

Segundo ele, a revolução tão aclamada do texto eletrônico encontra-se na estrutura do mesmo, ou seja, no suporte material do escrito e nas maneiras de ler. O livro faz parte do mundo real, concreto, e o hipertexto realiza-se no virtual, na tela do computador. A tela é o objeto onde está depositado o texto que não é mais manuseado pelo leitor como outrora e a leitura do mesmo acontece de modo descontínuo e sem fronteiras visíveis como no caso do livro que encerra em si uma determinada história. Ele compara o leitor do hipertexto com o leitor da Antigüidade que tinha que desdobrar um livro em rolo já que o texto no computador também corre verticalmente, porém o leitor atual é mais livre porque existe uma maior distância material em relação ao escrito que fica representado na tela.

Mas esta distância pode ser, por outro lado, uma desvantagem pelo fato do hipertexto existir enquanto elemento virtual depositado em uma tela e cuja leitura só pode ser feita em uma determinada posição, o que pode ser desconfortável para muitos além do fato da visão cansar-se mais rapidamente neste ambiente. Com o livro, podemos carregá-lo para onde quisermos, sem a necessidade de ter um equipamento como o computador para tornar possível a leitura que pode ser feita na posição que seja mais confortável para o leitor, seja reclinada, em pé, sentada ou até mesmo deitada. No entanto, o hipertexto oferece certas compensações como a possibilidade de mudar o modelo e o tamanho da fonte de modo a tornar a leitura mais fácil, embora estas mudanças não sejam permanentes no texto, limitando-se ao ato da leitura.

Chartier menciona outra desvantagem ainda mais grave com relação ao hipertexto com conseqüências para o próprio comportamento do leitor. Segundo ele, a leitura feita na tela do

computador é mais fria, podendo impor limites ao processo de socialização já que o leitor fica isolado dentro de sua própria casa ou escritório, enquanto que se fosse a uma biblioteca, ele fatalmente se relacionaria com outras pessoas, seja através de um encontro com um amigo ou conhecido ou pedindo informações ao próprio bibliotecário.

O historiador vê ainda o problema do leitor lidar com fragmentos de textos sem ter a idéia do conjunto onde está incluído, colocando em questão a promessa da Internet de realizar um sonho antigo do Iluminismo como a universalidade (como espaço para a troca crítica de idéias e opiniões) e a interatividade (onde as pessoas poderiam emitir juízos). “...o futuro da revolução do

texto eletrônico poderia ser - poderá ser, eu espero – a encarnação do projeto das Luzes, ou então um futuro de isolamentos e de solipsismos.”101

E não é só a relação entre leitor e hipertexto que é conflituosa. Este processo também abrange as figuras do autor e sua relação com a obra que deixa de ser corporal e homogeniza-se através da mediação do teclado, correndo o risco ainda das noções de autor, editor e distribuidor serem pulverizadas já que uma pessoa só pode desempenhar todas estas funções.

“Um produtor de texto pode ser imediatamente o editor, no duplo sentido daquele que dá forma definitiva ao texto e daquele que o difunde diante de um público de leitores: graças à rede eletrônica, esta difusão é imediata. Daí, o abalo na separação entre tarefas e profissões que, no século XIX, depois da revolução industrial da imprensa, a cultura escrita provocou: os papéis do autor, do editor, do tipógrafo, do distribuidor, do livreiro, estavam então claramente separados.”102

Além desta pulverização de funções antes clássicas na produção e distribuição dos livros surge ainda outra novidade com o advento do hipertexto: a possibilidade do leitor intervir na obra, confundindo também as noções de autor e leitor. O escritor Mário Prata, por exemplo, produziu o livro “Os anjos do Badaró” em 2000 com o acompanhamento em tempo real de leitores-internautas que davam sugestões no decorrer da produção literária. Mas a intervenção do leitor vai além da oportunidade de influenciar na produção de uma obra, ela acontece no próprio ato de ler quando ele passa a construir o seu próprio trajeto que resulta em uma leitura única e independente das coordenadas do autor. No hipertexto, o limite entre leitor e autor é obscurecido

101 CHARTIER, Roger. A aventura do livro – do leitor ao navegador. Tradução de Reginaldo de Moraes. São Paulo: Editora UNESP/ Imprensa Oficial do Estado, 1999.p. 146.

“já que ele é construído parcialmente pelos escritores que criam as ligações, e parcialmente

pelos leitores que decidem os caminhos a seguir”.103

Desta forma é praticamente impossível a existência de dois hipertextos iguais pois a versão final do conteúdo quem fornece é o leitor e cada um deles faz um caminho diferente nesse labirinto hipertextual desprovido de um foco de leitura que oriente um determinado sentido. O leitor não fica restrito a uma espécie particular de organização e estrutura devido a própria característica de descentramento do mesmo em que o discurso pode ser constantemente deslocado não tendo espaço pré-determinado.

De acordo com Landow104, o hipertexto consiste em um sistema infinitamente re- centralizado em que o foco ou a direção são dados pelo leitor que tem uma presença muito mais ativa do que nas possibilidades de leitura de até então. Ele sustenta que embora a ausência de centro possa criar problemas para o leitor e o escritor, o descentramento permite que qualquer pessoa use o hipertexto de acordo com seus próprios interesses.

A não-linearidade é considerada uma das características mais importantes do hipertexto, contudo, como já podemos comprovar, o impresso também oferece possibilidades de leitura não seqüencial como notas de rodapé, sumários, divisão em capítulos, índices, que possibilitam traçar caminhos diferentes, porém, é apenas uma forma de apresentação do mesmo e não o objetivo de sua construção ao contrário do hipertexto que tem a não-linearidade como seu alicerce. Portanto, considerar o texto escrito como provido de “uma linearidade estrita, de produção monolítica e

unívoca de significações105” é um erro.

Mas o que parece ser uma vantagem por outro lado esconde um risco: o do leitor perder- se ao manusear uma grande massa de informação em uma superfície que não pode ser desdobrada, com pouquíssima área que pode ser diretamente acessível no mesmo instante.

Lévy analisa o hipertexto como um fundo falso onde um parágrafo pode aparecer ou desaparecer sob uma palavra, três capítulos sob uma palavra do parágrafo, um ensaio sob uma das palavras destes capítulos e assim sucessivamente, em um movimento constante que o torna mais dinâmico que o livro.

103 MARCUSHI, Luiz Antônio. Linearização, cognição e referência: o desafio do hipertexto. Op. Cit. p.03. 104 LANDOW, George. “Hypertext and De-Centering”. In Hypertext – the convergence of the contemporany critical theory & technology. Disponível em <http://www.cyberartsweb.org/cpace/ht/jhup/decenter.html>. Acesso em 08 mar. 2004.

105 SANTOS, Alckmar Luiz. Acerca de uma textualidade informatizada. Artigo publicado nos Anais do IV Congresso Internacional de História e Computação. Disponível em

“Com um ou dois cliques, obedecendo por assim dizer ao dedo e ao olho, ele mostra ao leitor uma de suas faces, depois outra, um certo detalhe ampliado, uma estrutura complexa esquematizada. Ele se redobra e desdobra à vontade, muda de forma, se multiplica, se corta e se cola outra vez de outra forma. Não é apenas uma rede de microtextos, mas sim um grande metatexto de geometria variável, com gavetas, com dobras.”106

Ele chega a ver no hipertexto uma semelhança com as culturas anteriores à tradição escrita que para melhorar o processo comunicativo interagiam no contexto, conforme às circunstâncias, adaptando ou traduzindo as mensagens vindas de outro tempo ou lugar.

Segundo Lévy, o ciberespaço fez retornar esta fase por possibilitar que as mensagens fossem enviadas em tempo real e compartilhadas por várias pessoas em um mesmo contexto e de forma interativa com a expressão de opiniões, respostas, oposições, construindo assim uma espécie de hipertexto vivo.

Deste modo, a atualização das informações no hipertexto é imediata e sem os altos custos que acarretariam nas modificações dos livros. O armazenamento é outro fator que causa entusiasmo devido ao baixo custo e as vantagens de manutenção e disseminação das informações em ambiente virtual. Os livros em uma biblioteca sofrem danos devido à ação do tempo e dos usuários, como folhas amareladas, rasgadas ou rabiscadas enquanto que as informações confinadas em chips, discos ópticos ou magnéticos, permanecem intactas. Neste ponto, parece ser vantajosa a passagem do concreto ao virtual, dos átomos aos bits, principalmente se levarmos em conta o custo desta estocagem. O preço vem caindo brutalmente como podemos verificar no custo para o armazenamento de um megabyte107 durante um mês:

Ano Custo (US$)

1975 125,00 1980 75,00 1985 8,00 1990 0,25 1995 0,01

106 LÉVY, Pierre. As tecnologias da Inteligência. Op. Cit., p. 41.

107 Megabyte corresponde a 1.048.576 bytes. O byte é um conjunto de oito bits e um bit (dígito binário) é a menor unidade de informação. Fonte: ZAMBALDE, André Luiz. Introdução à informática Educativa.

2002 0,001

(Fonte: www.estadao.com.br/tecnologia/coluna/ethevaldo/2002/mar/19/4.htm. Acesso em 09 nov. 2003)

Com base nestes dados, fica evidente que a digitalização das informações deve crescer ainda mais representando uma maior expansão de bibliotecas, jornais e revistas virtuais. Mas será que o virtual vai passar a suceder o real, ou seja, o futuro do livro pode estar comprometido com o avanço do hipertexto?

Primeiramente, temos que ter em mente que uma imensa massa populacional ainda encontra-se excluída do acesso a Internet e de outras tecnologias de comunicação e informação, permanecendo a figura do livro como uma das poucas possibilidades de informação, cultura e de formação intelectual. Fora isto, para a aquisição de um computador é necessária uma certa soma em dinheiro e o acesso a Internet predispõe de toda uma infra-estrutura, como a presença de uma linha telefônica. Pensando assim, quem tem acesso a Internet e ao hipertexto faz parte de uma classe mais privilegiada além de que o livro, por não depender de energia elétrica ou linha telefônica, tem o seu manuseio mais livre e eficiente em situações de precariedade.

Chartier diz que o texto impresso vive uma pluralidade de existências sendo o hipertexto apenas uma delas e mais do que a preservação do próprio suporte material deve existir a preservação do texto que deve ser indestrutível.

“....para todos os textos cuja existência não começou com a tela, é preciso preservar as próprias condições de sua inteligibilidade, conservando os objetos que os transmitiram. A biblioteca eletrônica sem muros é uma promessa do futuro, mas a biblioteca material, na sua função de preservação das formas sucessivas da cultura escrita, tem, ela também, um futuro necessário.”108