A sociedade contemporânea é marcada por uma maior complexidade, é mais demandante e se caracteriza pela instabilidade e transitoriedade dos acontecimentos, além da ambiguidade permanente (GERGEN, 2000; BAUMAN, 2004). A vida parece estar fora de controle, pois não é possível fazer planos efetivos ou atender todas as obrigações com incessantes desejos e demandas que aparecem a todo o momento (GERGEN, 2000). O dinamismo é uma característica presente na vida cotidiana: o ritmo da mudança social é rápido, bem como a amplitude e a profundidade das mudanças são maiores (GIDDENS, 2002). O dinamismo é atribuído a alguns fatores, segundo Giddens (2002):
a) Separação de tempo e espaço: houve um esvaziamento do espaço pelo estabelecimento de um sistema de tempo universal e zonas de tempo globalmente padronizadas. O uso generalizado de instrumentos de marcação do tempo estabeleceu mudanças na vida cotidiana, com um caráter inevitavelmente universal.
b) Mecanismos de desencaixe: mecanismos que descolam as relações sociais de lugares específicos, recombinando-as por meio de grandes distâncias no tempo e
no espaço. Esses mecanismos são sistemas abstratos de dois tipos: as fichas simbólicas, que são meios de troca que têm um valor padrão e, assim, são intercambiáveis em diversos contextos. O dinheiro é o principal exemplo de ficha simbólica; e os sistemas especializados, que se referem ao conhecimento técnico que têm validade independente dos praticantes e dos clientes que os utilizam. Esses sistemas adentram praticamente em todos os aspectos da vida social. Por exemplo, a medicina, a engenharia, a psicologia etc.
c) Reflexividade: a transformação do tempo e espaço, em conjunto com os mecanismos de desencaixe, afastam a vida social da influência de práticas e preceitos preestabelecidos. Nesse contexto surge a reflexividade, que se refere à permanente revisão da maioria dos aspectos da atividade social, à luz de novo conhecimento ou informação. Esse processo dá-se institucionalmente, de forma que a sociedade permanentemente se revisa e se refaz pelo uso regularizado do conhecimento sobre as circunstâncias da vida social como elemento constitutivo de sua organização e transformação.
Esse contexto traz o que Gergen (2000) define como “saturação social”, o fato de que ao mesmo tempo em que o indivíduo tem mais possibilidades, mais informações, se relaciona com mais pessoas, depara-se também com mais responsabilidades, mais obrigações, mais expectativas. A tecnologia cumpre um papel central nessa saturação, pois o seu desenvolvimento – do carro, ao telefone, à televisão, ao computador e à internet – provocou mudanças sociais significativas, colocando o indivíduo imerso de maneira profunda no mundo social e exposto cada vez mais a opiniões, valores e estilos de vida alheios. No passado, as relações sociais davam-se dentro de um círculo restrito, por exemplo, à distância que se conseguia caminhar. Assim, o círculo social de uma pessoa girava em torno da família, dos vizinhos e de outros moradores da vila. Nos tempos atuais, essa noção de espaço se diluiu com o desenvolvimento da tecnologia e o campo social de um indivíduo é dificilmente delimitado. Essas mudanças carregam ambiguidades em si: as pessoas estão mais conectadas e também mais isoladas; ao mesmo tempo em que o desenvolvimento da tecnologia é levado ao extremo, existe um retorno ao naturalismo. O mundo parece estar seguindo em direções diferentes ao mesmo tempo, uma característica marcante da sociedade contemporânea (GERGEN, 2000).
Essa saturação social, segundo Gergen (2000), vem produzindo profundas mudanças na forma como o indivíduo compreende o seu self, isto é, como compreende quem é. A visão romântica do self, estabelecida no século XIX, atribuía aos indivíduos
características como paixão, alma, criatividade e esse repertório moldava relações baseadas no compromisso e na dedicação. O amor estava à frente das ações humanas, no lugar do útil ou do funcional. No século XX, a visão modernista do self ameaçou esse repertório romântico, ancorando-se na razão: as pessoas são previsíveis, as escolhas são racionais, a vida é planejada e moldada para criar o futuro dos sonhos. No entanto, no final do século XX, a condição pós-modernista, como denomina Gergen (2000), coloca em risco as crenças sobre o self: o pós-modernismo não estabelece um novo repertório para o entendimento do ser humano, o que coloca em dúvida a própria essência do humano. O repertório disponível para tornar a personalidade de um indivíduo inteligível (repertório com termos relacionados a emoções, motivações, pensamentos, valores, opiniões) delimita as formas de ação desse indivíduo (GERGEN, 2000). Se esse repertório não existe ou se ele é plural, como aponta o pós-modernismo, o indivíduo está em um processo de contínua construção e reconstrução: ele não tem uma essência individual à qual se mantém fiel. Esse processo está relacionado ao fato de que o indivíduo fica exposto a múltiplas possibilidades de ser, gerando o que Gergen chama de “multiplicidade do self”. Esse conceito parece se alinhar à fragilidade da identidade explorada por Bauman (2004): diante de um mundo líquido, segundo sua denominação, onde os vínculos se afrouxam, as estruturas e as instituições sociais se liquefazem, o sentimento de pertencimento, antes ancorado na família, no trabalho e na comunidade não existe mais. O modo de ser da vida contemporânea passa a ter como essência a mudança obsessiva e compulsiva, de maneira que “a construção da identidade assumiu a forma de uma experimentação infindável.” (BAUMAN, 2004, p. 91).
Giddens (2002), por sua vez, indica que novos mecanismos de auto-identidade são constituídos na modernidade. A reflexividade, uma das características da sociedade contemporânea, citada anteriormente, também afeta o indivíduo – as pessoas estão continuamente se auto-avaliando, revendo sua história, olhando o passado e programando o futuro. No entanto, cabe aqui uma distinção acerca da reflexividade do indivíduo e da reflexividade institucional que afeta o indivíduo. O ser humano é um agente social, dotado de uma capacidade reflexiva, capacidade essa definida como um monitoramento reflexivo da ação intrínseco a toda atividade humana (GIDDENS, 1986). No dia a dia, essa reflexividade se traduz no que Giddens denomina a consciência prática e a consciência discursiva. A primeira consiste em tudo que esse agente sabe de forma tácita sobre aquilo que o rodeia na vida social, no “como estar nessa vida social”, mas que não necessariamente é expresso no discurso. O discurso é traduzido no que Giddens chama de consciência discursiva, e a diferença entre as duas está naquilo que é dito e o que é feito. Essa diferenciação é bastante
tênue na prática, mas permite compreender o indivíduo como agente capaz de entender o que faz enquanto faz, e ainda refletir posteriomente sobre o que foi feito, sendo assim dotado de capacidade reflexiva.
A reflexividade da sociedade contemporânea que afeta o indivíduo, por sua vez, estabelece um projeto reflexivo do eu: cada indivíduo não apenas tem uma biografia, mas vive uma biografia reflexivamente organizada em termos do fluxo de informações sociais e psicológicas sobre possíveis modos de vida. O eu é um projeto reflexivo pelo qual o indivíduo é responsável: “somos não o que somos, mas o que fazemos de nós mesmos.” (GIDDENS, 2002, p. 74). Nesse processo reflexivo, a auto-identidade pressupõe uma narrativa: estórias pela qual a auto-identidade é entendida reflexivamente, tanto pelo próprio indivíduo como pelos outros. No entanto, essa narrativa é bastante frágil, pois a auto-identidade é criada e recriada contra o pano de fundo das experiências da vida diária, que estão em permanente mudança (GIDDENS, 2002). Desta maneira, o indivíduo está em um processo de construção/reconstrução de um sentido próprio de identidade que seja coerente e satisfatório, ainda que continuamente revisado. Assim, a noção de “quem sou eu” adquire uma fragilidade e uma eterna condição provisória da identidade, como se fosse um processo, algo em permanente construção (BAUMAN, 2004). Pode-se escolher entre diferentes identidades e o problema, então, passa a ser essa escolha: qual identidade o indivíduo seleciona e então quanto tempo se apega a ela (BAUMAN, 2004).
A escolha é um componente fundamental da vida cotidiana contemporânea (GIDDENS, 2002). O indivíduo confronta-se com uma variedade de escolhas ao mesmo tempo em que tem pouca ajuda sobre as opções que devem ser selecionadas; em sociedades tradicionais, a escolha também existia, mas estava condicionada a tradições e hábitos relativamente fixos. Essa pluralidade de escolhas está relacionada à pluralização dos mundos de vida. Em sociedades pré-modernas as pessoas viviam em ambiente sociais que eram muito ligados entre si; na sociedade contemporânea, os ambientes da vida social – trabalho, lazer, família – são muito diversos e segmentados; essa segmentação envolve, particularmente, a separação entre domínio público e privado. A pluralidade de escolhas gera uma situação de dúvida permanente, característica da sociedade contemporânea e seu caráter reflexivo.
Segundo Giddens (2002), as escolhas afetam os indivíduos em diferentes dimensões. A primeira refere-se ao estilo de vida, termo utilizado para definir um conjunto de práticas que o indivíduo assume por preencherem suas necessidades utilitárias e também porque formam material para a narrativa da sua identidade. Estilos de vida são práticas de rotina, incorporadas no modo de vestir, comer, agir, locais frequentados etc. e estão sujeitos a
mudanças, de forma reflexiva, seguindo a natureza móvel da auto-identidade. Escolher entre diferentes estilos de vida faz parte das ações da vida contemporânea. Acrescenta-se a isso outra dimensão que se refere ao planejamento estratégico de vida: em um mundo de opções alternativas de estilos de vida, fazer o planejamento da vida torna-se importante como uma forma de preparar ações futuras em torno da biografia do eu.
Diante da multiplicidade do self (GERGEN, 2000), da fragilidade da identidade (BAUMAN, 2004), do projeto reflexivo do eu (GIDDENS, 2002), questões que marcam a sociedade contemporânea, parece surgir outra forma de concepção do self, não mais ancorada da essência individual, mas assumindo um caráter relacional (GERGEN, 2000). A visão romântica e modernista enfatiza o indivíduo como agente autônomo, aspecto questionado no pós-modernismo, que compreende que o indivíduo só existe como participante de um processo social. Assim, as relações criam o sentido do eu e o self passa a se moldar em torno de manifestações de relações: não existe líder, se não houver liderados; não existe uma pessoa amável se os outros não a consideram assim, entre outros. Esse caráter relacional do self desloca a noção de que o indivíduo é sua essência pessoal (sentimentos, crenças etc.) para a percepção do indivíduo que se constrói em diferentes grupos sociais.
O que parece importante para o nosso trabalho é compreender que o mundo contemporâneo apresenta-se de forma diferente que há algumas décadas, e isso tem um impacto sobre os indivíduos. A questão da identidade como algo não mais estático ou estável, mas um processo permanente de construção e desconstrução parece ser uma característica marcante dos tempos atuais que traz consequências para os indivíduos em suas vidas: com um sentimento permanente de dúvida, de conflito, da necessidade de escolha, em um processo reflexivo em um mundo incansavelmente demandante. Nesse contexto, a identidade se dilui em meio a múltiplas possibilidades e a essência do self de dissolve: o self somente se define em relação ao outro. O indivíduo é mais do que nunca um ser social. Particularmente, esse cenário nos parece importante para entender a mulher no contexto de trabalho da gerência intermediária que, como abordaremos adiante, tem um cotidiano demandante nas organizações que se entrelaça com as atividades que a mulher desempenha junto à casa e à família.