Como citamos anteriormente, a perspectiva epistemológica do construcionismo social pressupõe o tempo histórico como contexto fundamental para a compreensão do fenômeno estudado, como discutimos no primeiro capítulo. Assim, para entender a questão da mulher nas organizações nos dias atuais, faremos agora um resgate histórico sobre a mulher e o trabalho.
Na era agrária, mulheres e homens participavam de diferentes atividades para a economia da família, com tarefas consideradas tipicamente femininas e outras masculinas (ALVESSON; BILLING, 1997). É difícil dizer se tais atividades tinham a mesma importância como apontam alguns autores (POWELL, 1993) ou se as atividades femininas eram consideradas menos importantes que as desenvolvidas pelos homens (ALVESSON; BILLING, 1997). O que nos parece relevante, no entanto, é que a divisão sexual do trabalho sempre existiu, e a mudança da atividade agrária para a atividade industrial exacerbou e explicitou as diferenças entre os sexos. Como apresenta Hollway (1996), no início do processo de industrialização na Europa, as fábricas eram pequenas e pertenciam à família; assim, as relações de trabalho eram as relações de família na qual vigorava a relação mestre- aprendiz. O trabalho sempre fora realizado por mulheres, homens e crianças, até o surgimento de legislações que proibiram o trabalho infantil, bem como a atuação das mulheres em algumas atividades, como a mineração (HOLLWAY, 1996). Com a extensiva participação da mão de obra feminina naquele momento de industrialização, também se estabeleceram leis que regulamentavam o trabalho quanto à extensão da jornada de trabalho e à licença maternidade, elementos que permitiam à mulher conciliar o trabalho com as demandas da família, reforçando o discurso de que à mulher cabia a responsabilidade com a casa e com os filhos (ALVESSON; BILLING, 1997).
Ao final do século XIX, com o crescimento das indústrias, a produção doméstica migrou para a produção industrial redefinindo a relação entre público e privado e também a relação dos homens e das mulheres com o trabalho e a vida doméstica. Atividades antes desenvolvidas dentro de casa, como a costura e a panificação, por exemplo, migraram para o formato comercial na indústria e, assim, a família deixou de ser uma unidade de produção e passou ser consumidora. Isso se traduziu na necessidade de se ganhar o suficiente para o sustento da família, papel esse que foi assumido pelo homem como provedor (ALVESSON; BILLING, 1997). O trabalho, então, passa a ser entendido como a produção de bens
econômicos ou a prestação de serviços mediante a retribuição de um salário e, por consequência, ocorre uma desvalorização do trabalho da mulher feito em casa, o que parece ser uma contradição: se uma mulher cuida de crianças alheias isso é trabalho, mas se ela cuida das suas, não; se a mulher é uma cozinheira em um restaurante, isso é trabalho, mas se cozinha em sua casa, não (MARIÁS, 1981). Desta maneira, o conceito de trabalho passou a estar vinculado ao gênero, em uma relação desigual: a esfera do trabalho passou a ser a esfera masculina com um status superior ao trabalho da mulher, que estava vinculado à esfera doméstica (HOLLWAY, 1996). Não só estas esferas passaram a estar claramente definidas, como o tipo de trabalho também passou a ter conotações masculinas ou femininas: às mulheres eram conferidas atividades na área têxtil ou de vestuário, enquanto aos homens cabiam trabalhos na indústria manufatureira e na engenharia (ALVESSON; BILLING, 1997).
A separação entre a esfera pública e a privada, além de um rearranjo social, estabeleceu novos significados às relações familiares com base nos ideais do amor romântico, nos quais o casamento deixava de ter um valor econômico e ganhava um caráter especial (GIDDENS, 1993). O lar passou a ser o local onde se encontrava apoio emocional, distinto do caráter instrumental do trabalho. Por consequência, o domínio do homem sobre a família ficou enfraquecido, e o controle das mulheres sobre a criação dos filhos aumentou. O centro da família, então, deslocou-se da autoridade patriarcal para a afeição maternal, o que estabeleceu a idealização da mãe e da maternidade. A imagem da “esposa e mãe” passou a associar maternidade com feminilidade, criando uma clara distinção de papéis: a mulher subordinada ao lar e isolada do mundo externo. Dessa maneira, a delimitação entre a esfera pública e privada ganhou contornos mais rígidos, sendo a primeira definida como essencialmente masculina, e a última como o lugar da esposa/mãe/dona de casa e seus filhos (GIDDENS, 1993).
A prioridade da função doméstica sobre a profissional era o discurso predominante em todo o Ocidente, o que fazia com o que trabalho feminino fosse menos qualificado que o masculino e, portanto, com remuneração inferior a esse (ALVESSON; BILLING, 1997). No início do século XX, nos EUA e na Europa, a força de trabalho era claramente diferenciada de acordo com o sexo, tendo os homens como mão de obra predominante (POWELL, 1993; ALVESSON; BILLING, 1997), cabendo às mulheres atividades relacionadas ao setor de serviços como lojas e escritórios. Outros contornos sociais também se estabeleciam: na sociedade americana, por exemplo, ter a mulher em casa passou a ser um símbolo de status social para os homens (POWELL, 1993).
No entanto, as duas Grandes Guerras levaram a mulher ao mercado de trabalho para suprir a ausência dos homens que estavam em luta (ALVESSON; BILLING, 1997) e elas tiveram a oportunidade de provar que eram competentes em realizar funções consideradas tipicamente masculinas, como dirigir ônibus, gerenciar escritórios ou ainda fazer a manutenção de estradas de ferro (BRADLEY, 1989). Esse movimento, que poderia se traduzir em um significativo ganho de espaço para as mulheres no mercado de trabalho, com condições mais igualitárias, não se revelou como tal: o final da Primeira Guerra, diante de um cenário de depressão econômica, colocou a mulher de volta à esfera doméstica e, ao final da Segunda Guerra, as mulheres conseguiram se manter no mercado de trabalho, mas com funções ditas tipicamente femininas, relacionadas principalmente ao setor de serviços, como lojas e escritórios (BRADLEY, 1989). Assim, a segregação por gênero se manteve.
É importante, no entanto, ressaltar que uma grande mudança que se estabeleceu nas sociedades em geral, neste momento histórico, foi o aumento significativo da participação feminina no mercado de trabalho, considerando mulheres brancas, de classe média (POWELL, 1993; HOBSBAWN, 1995). Nos Estados Unidos na década de 1940, as mulheres casadas que viviam com os maridos e trabalham representavam menos de 14% do total da população feminina, percentual esse que chegou a mais de 50% em 1980 (POWELL, 1993; HOBSBAWN, 1995). O trabalho de Sulerot (1970) explorou o significado do trabalho para essas mulheres, identificando diferenças quanto ao estrato social: para as mulheres de baixa renda, operárias, camponesas, o trabalho era uma necessidade e elas vivenciavam um conflito entre a atividade que lhes garantia sobrevivência e a imagem estereotipada da mulher como dona de casa; o segundo grupo compreendia mulheres de classe média, para as quais o trabalho representava uma possibilidade de incremento do bem-estar. Tinham, assim, pouca ambição e mostravam-se satisfeitas com o simples fato de trabalhar; o terceiro e último grupo referia-se a mulheres que exerciam profissões que lhes agradavam, tendo o trabalho como fonte de realização. Esse grupo parecia não se identificar o a figura da mulher dona de casa e, tendo apoio do marido para suas atividades profissionais, não se imaginavam sem trabalhar.
Podemos acrescentar a essa expansão da mulher no mercado de trabalho a sua crescente participação na educação superior, que em 1980 também já representavam metade dos estudantes em países com os Estados Unidos e Canadá. Na Europa, até a década de 1970, a participação feminina no mundo do trabalho girava em torno de 30% quando comparada a dos homens. A participação das mulheres na indústria variava entre 20% e 40% da mão de obra, dependendo do país, principalmente no setor têxtil e nas indústrias do vestuário; nesta época houve também um crescimento da participação de mulheres no setor terciário,
particularmente, nos trabalhos de escritório (SULEROT, 1970), à semelhança do que acontecia nos Estados Unidos.
É interessante notar, como descreve Powell (1993), como se deu a inserção da mulher no mercado de trabalho nos Estados Unidos de acordo com sua idade e estado civil. No princípio do século XX, quem participava do mercado de trabalho eram as mulheres solteiras. Entre 1940 e 1960, o percentual de mulheres empregadas na faixa etária dos 45 aos 64 anos pulou de 10% para 42%. Ou seja, ampliou-se a participação de mulheres que já tinham gerado e criados seus filhos. O último grupo a adentrar no mercado de trabalho foi o de mulheres jovens casadas que tinham filhos pequenos: em 1990 nos Estados Unidos, participavam do mercado de 75% das mulheres com filhos entre 6 e 17 anos, 60% das com filhos entre 2 e 5 anos e 50% das com filhos com menos de 2 anos. Segundo Powell, parece que a concepção do lar como local da mulher e seu papel de mãe e esposa com sua atividade principal foi gradualmente perdendo força.
No Brasil, em meados do século XIX com o desenvolvimento da indústria, metade da mão de obra empregada era composta por mulheres e crianças, em geral na indústria têxtil, que ainda era pouco mecanizada e que necessitava de mão de obra com características consideradas inatas ao sexo feminino: paciência, sensibilidade, destreza manual (FREIRE, 2009; RAGO, 2009). Aos homens cabia o trabalho nos setores de metalurgia, calçados e mobiliário (RAGO, 2009). Dentro das fábricas, na divisão do trabalho, as mulheres ficavam com as tarefas menos especializadas e mal remuneradas, enquanto aos homens cabiam os cargos de direção e de concepção como os de mestre, contramestre e assistente. Não havia uma legislação trabalhista que protegesse o trabalho feminino e, assim, as reclamações das operárias contra as péssimas condições de trabalho e higiene, contra as longas jornadas e contra o assédio sexual tinha espaço na imprensa operária já no início do século XX (RAGO, 2009). Nas primeiras décadas do século XX, grande parte dos trabalhadores fabris ainda eram mulheres e crianças. Essa participação, no entanto, não resultou em uma conquista progressiva das mulheres no mercado de trabalho fabril. Ao contrário, as mulheres operárias foram excluídas das fábricas à medida que a industrialização avançou e com ela novos arranjos sociais se estabeleceram: enquanto em 1872 as mulheres constituíam 76% da força de trabalho nas fábricas, em 1950 passaram a representar somente 23% (RAGO, 2009). Inúmeras barreiras para participar do mundo dos negócios se estabeleciam às mulheres, independente da classe social a que pertencessem: da variação salarial à intimidação física, da desqualificação intelectual ao assédio sexual, as mulheres tiveram que lutar para participar em um campo definido, pelos homens, como masculino.
O princípio do século XX no Brasil foi marcado pelo estabelecimento de novas formas de interação social, que envolviam a relação entre homens e mulheres, especificamente redefinindo o lugar das mulheres na sociedade. Essa nova ordem estava baseada em modelos europeus, particularmente franceses e ingleses, que inspiravam o governo da época a tornar os centros urbanos, como o Rio de Janeiro, mais civilizados: existia um movimento de europeizar a capital (D´INCAO, 2009). Isso significou estabelecer uma clara distinção entre a rua e a casa, portanto, entre o lugar público e a esfera privada. De acordo com Rago (2009), o afastamento da mulher do espaço do trabalho estava ancorado no direcionamento da mulher à esfera privada com um componente de moralidade social. A esfera pública do trabalho e dos centros urbanos em expansão com seus problemas particulares – violência, roubos, epidemias, entre outros – era vista como um local inadequado para as mulheres, ameaçando sua moralidade. O mundo do trabalho era representado pela metáfora do cabaré, enquanto o lar era o ninho sagrado que abrigava a “rainha do lar” (RAGO, 2009). Dizia-se que o trabalho da mulher fora de casa destruiria a família, tornaria os laços familiares mais frouxos, atrapalharia a educação dos filhos, pois a mulher não conseguiria cuidar do marido, dos filhos e da casa e ainda trabalhar fora. Esse moralismo não só atingia as mulheres da elite e da classe média - jovens que iniciavam suas carreiras como médicas, advogadas, biólogas, pintoras - mas também mulheres pobres que atuavam como operárias, lavadeiras, empregadas domésticas, doceiras; as profissões femininas eram estigmatizadas e associadas a imagens de perdição moral, degradação e prostituição (RAGO, 2009).
Se, por um lado, a industrialização acabou por desvalorizar os serviços relacionados ao lar na medida em que os incorporou (por exemplo, a fabricação de pães, doces, tecidos etc.), por outro, o discurso masculino revigorou a ideologia da maternidade: ser mãe, mais do que nunca, tornou-se a principal missão da mulher. No Brasil, o ideal da maternidade dedicada começou a aparecer em publicações para mulheres, romances e obras de arte no final do século XIX e primeiras décadas do século XX (D´INCAO, 2009). No entanto, a maternidade como sonho principal da mulher foi algo que se consolidou somente nos anos seguintes. Na década de 1950, à mulher cabia o papel das ocupações domésticas, cuidados com os filhos e com o marido, papel esse considerado como um destino natural: ter filhos fazia parte dos planos da família, sem grandes questionamentos (BASSANEZI, 2009). Ser mãe era mais que um direito ou uma alegria, mas também uma obrigação social, a sagrada missão feminina, da qual dependia a continuidade da família e da nação (BASSANEZI, 2009). Assim, o discurso da maternidade também tinha um caráter cívico: “a ´mãe cívica`
passa a ser exaltada como exemplo daquela que preparava física, intelectual e moralmente o futuro cidadão da pátria, contribuindo decisivamente para o engrandecimento da nação.” (RAGO, 2009, p. 592).
Os anos 1950 no Brasil foram marcados pela ascensão da classe média, o crescimento urbano e a industrialização sem precedentes (PEREIRA, 1962). De forma geral, ampliaram-se aos brasileiros o acesso à informação, ao lazer, ao consumo e as possibilidades educacionais e profissionais para homens e mulheres (BASSANEZI, 2009). O Brasil acompanhou as tendências internacionais de emancipação feminina, impulsionadas pela participação das mulheres no esforço da guerra e reforçadas pelo desenvolvimento econômico; apesar da emancipação, o fim da Segunda Guerra no Brasil foi marcado pelo discurso do retorno da mulher ao lar e aos valores tradicionais. A diferenciação entre as esferas da mulher e do homem continuavam nítidas e o trabalho feminino era cercado de preconceitos e subordinado ao trabalho do homem. A família padrão desta época era aquela na qual os homens tinham autoridade sobre as mulheres e eram responsáveis pelo sustento da esposa e dos filhos. A feminilidade era marcada pela maternidade, pela vida doméstica, enquanto a participação no mercado de trabalho, a força e a iniciativa eram características atribuídas ao masculino. A componente moral continuava exercendo grande influência nos comportamentos sociais, distinguindo as “moças de família” das “moças levianas”. A primeira era aquela educada para se casar, ser boa mãe e dona de casa, em um casamento por amor e com aprovação da família; já não se falava mais nesta época em casamentos arranjados. Essas moças não deviam usar roupas muito ousadas e sensuais, deveriam saber “se dar ao respeito”. Já as “moças levianas” eram aquelas com quem os rapazes namoravam, mas não casavam. No estado de São Paulo nos anos 1950, as mulheres se casavam, em média, aos 23 anos de idade (BASSANEZI, 2009).
Nessa época, “não casar” representava uma fracasso social para a mulher e, assim, uma vez casada, difundia-se um modelo de mulher ideal: aquela que se dedicava às chamadas prendas domésticas, que zelava por sua reputação de boa esposa, ou seja, “[...] aquela capaz de fazer a felicidade de um homem.” (BASSANEZI, 2009, p. 628), e que também cuidava de sua aparência: “Embelezar-se para o marido era uma obrigação de boa esposa e fazia parte da receita para manter o casamento.” (BASSANEZI, 2009, p. 628). A preocupação estética era uma condição indispensável da feminilidade, para um status de “verdadeira mulher”, como maneira de garantir sucesso na vida social e na vida conjugal (FREIRE, 2009). A mulher exigente e dominadora era o oposto da boa esposa, que colocava o marido em primeiro lugar, essa sim considerada uma mulher essencialmente feminina. A mulher era, então, a boa
companheira, a boa esposa, responsável pela paz doméstica e harmonia conjugal que “[...] seria capaz de adivinhar os pensamentos do marido, amar sem medir sacrifícios, visando única e exclusivamente a felicidade do amado [...].” (BASSANEZI, 2009, p. 628, grifo do autor). Esse discurso da mulher ideal e do ideal de família, no entanto, já existia desde as primeiras décadas do século XX, alinhado ao contexto de remeter às mulheres à esfera da casa, para que o trabalho não ameaçasse a nobre missão da mulher que era a maternidade (FREIRE, 2009). Na década de 1950, este discurso se ampliou e foi reforçado pela ascensão da classe média.
Ao mesmo tempo em que se mantinha forte a distinção entre as esferas pública e privada – espaço do homem e da mulher, respectivamente – cresceu, na década de 50 a participação da mulher no mercado de trabalho, especialmente no setor de serviços, em profissões como enfermeira, professora, funcionária pública, médica, vendedora etc. Esse quadro exigiu das mulheres certa qualificação e, em contrapartida, tornou-as profissionais remuneradas (BASSANEZI, 2009), ainda que recebessem remuneração inferior às profissões destinadas aos homens, já que assumir essas profissões femininas não requeria tantas habilidades que não as habilidades inatas à mulher (FREIRE, 2009). A concepção essencialista do trabalho feminino – apoiada nas características biológicas das mulheres – que já havia se estabelecido desde o início do processo de industrialização, mantinha o trabalho identificado com características da maternidade (FAGUNDES 2002; FREIRE, 2009) e, portanto, reforçava os preconceitos acerca do trabalho feminino, com a ideia de que a mulher não conseguiria conciliar a vida do trabalho com a vida do lar. Outro ponto que se abordava era o risco da perda de feminilidade e dos privilégios do sexo feminino – respeito, proteção e sustento garantidos pelo homem. Era comum que as mulheres parassem de trabalhar após o casamento ou a chegada do primeiro filho e, por outro lado, era difícil encontrar mulheres de classe média trabalhando fora de casa, a não ser por necessidades econômicas, situação que poderia envergonhar o marido por não estar cumprindo seu papel de provedor (BASSANEZI, 2009). Assim, conviviam essas duas realidades de forma conflitante: por um lado, o papel tradicional da mulher, e por outro, a participação no mercado de trabalho atraída pela possibilidade de maior independência e possibilidade de satisfazer necessidades de consumo pessoal e familiar.
Apesar das desigualdades, preconceitos e dificuldades vivenciados ao longo da segunda metade do século XX, dados históricos nos mostram a crescente participação da mulher no mercado de trabalho no Brasil e no mundo. Segundo relatório publicado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 2010, a taxa de participação das mulheres
na força de trabalho vem apresentando um sensível crescimento nos últimos 30 anos e as mulheres representam 40% de toda a mão de obra empregada no mundo. Nos EUA em meados dos anos 1970, uma entre cinco mulheres tinham um trabalho em cargo gerencial; nos anos 1990, esse número passou para uma em quatro mulheres e hoje as mulheres representam metade dos profissionais empregados em organizações (HOOBLER; WAYNE; LEMMON, 2009). No Brasil, na década de 1970 as mulheres representavam 29% da população economicamente ativa (PEA), número que chegou a 46% trinta anos depois, conforme mostra a Tabela 1.
Tabela 1 – Participação % de Homens e Mulheres na População Economicamente Ativa (PEA)
Ano Homens (%) Mulheres (%)
1976 71 29 1985 67 34 1995 60 40 1998 59 41 2002 58 43 2003 55 45 2004 55 45 2007 54 46 2008 54 46 2009 54 46 2010 54 46 2011 54 46 Fonte: IBGE, 2012.
Nota: Dados trabalhados pela autora.
O tema da desigualdade sexual tem sido objeto de imensa discussão no Brasil (FLEURY, 2000). Em 1996, foi criado o Programa Nacional de Direitos Humanos, que tinha por objetivo a implementação de atos e declarações internacionais relacionados aos direitos humanos e contando com a adesão brasileira. Um delas foi a Convenção 111 da OIT, que tratava da discriminação nas relações de emprego que, apesar de ter sido ratificada em 1965, somente ganhou foco do governo em 1995 para a formulação e implementação efetiva de políticas para promover a igualdade nas oportunidades de emprego e no tratamento (FLEURY, 2000). A autora observa, então, que as medidas governamentais para combater a discriminação no emprego, não só se tratando de sexo, mas também de raça, são relativamente recentes no Brasil.
Nas últimas décadas do século XX, nosso país passou por importantes transformações demográficas, culturais e sociais que contribuíram para o aumento do trabalho feminino (BRUSCHINI; RICOLDI; MERCADO, 2008). Quanto às mudanças demográficas
observadas pelos autores no período de 1995 a 2005, período estudado pelos autores, destacam-se: a queda da taxa de fecundidade, principalmente nas regiões mais desenvolvidas; a redução no tamanho dos arranjos familiares; o envelhecimento da população com maior expectativa de vida para as mulheres; o crescimento acentuado de arranjos familiares chefiados por mulheres, que em 2005 chegaram a 30,6% do total de famílias brasileiras residentes em domicílios particulares. As transformações culturais e sociais, por sua vez, envolveram mudanças no papel social da mulher que cada vez mais está voltado para o