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2. AMAÇLARA İLİŞKİN ELDE EDİLEN BULGULAR VE YORUMLAR

2.4. Dördüncü Alt Amaca İlişkin Bulgu ve Yorumlar

Em coerência com os pressupostos firmados pela tradição romântica, a produção

cultural sempre foi concebida como esfera “espiritual” da sociedade, comumente

contraposta à produção material de bens como alimentos, ferramentas e outros utensílios. Entretanto, como bem explica WILLIAMS (2000, p. 87), mesmo nos marcos dessa

separação entre o “material” e o “espiritual”, não é preciso pensar muito para dar-se conta de que, “sejam quais forem os objetivos a que vise a prática cultural, seus meios de produção são indiscutivelmente materiais”.

Desde suas formas mais simples, compostas pelas diversas linguagens orais e visuais, até as formas tecnologicamente mais avançadas, da escrita aos modernos dispositivos técnicos, os meios de comunicação sempre foram social e materialmente produzidos. Estão presentes em praticamente todas as formas de trabalho e organização social, devendo ser vistos, portanto, como parte importante das forças produtivas e das relações de produção.

Determinados histórica e socialmente, os meios de comunicação possuem uma trajetória que é sempre ligada às diversas fases da capacidade técnico-produtiva humana. Eles também são determinados por suas relações históricas variáveis com os modos de produção, isto é, com o complexo geral das forças produtivas que se desenvolvem dentro de relações de produção determinadas. As relações históricas entre os meios de comunicação e os diversos modos de produção podem ser tanto de identidade quanto de contradição.

A concepção acima esboçada, através da qual se busca firmar o entendimento teórico dos meios de comunicação como meios materiais de produção, dentro de uma perspectiva materialista histórica, tem sido obnubilada por vários motivos, e mesmo o campo marxista não se encontra alheio a essa tendência.

Segundo WILLIAMS (2011, pp. 70-71), algumas posições ideológicas que fizeram fama e adeptos na área dos estudos de comunicação contribuíram para a construção de paradigmas nocivos à visão materialista histórica. A primeira dessas posições herdou seu aparato conceitual da engenharia de sinais e, em particular, da Teoria Matemática da Comunicação (ou Teoria da Informação). É característico dessa visão o modelo abstrato de emissor e receptor operando invariavelmente no plano de uma generalidade operatória.

Os meios de comunicação são vistos, nessa perspectiva, como não mais que dispositivos, e as relações sociais entre pessoas concretas são abstraídas do processo

através do modelo de “emissor-canal-receptor”, cuja única problemática é a do ruído, isto

é, a da economia e eficiência na transmissão da informação (Cf. AZEVEDO, 2000). Se contribui sobremaneira para o entendimento (e a operacionalidade) da comunicação concebida como uma gama de meios técnicos, essa visão obscurece a compreensão dos meios como tecnologias sociais — dependentes, portanto, das relações históricas entre os homens.

Uma outra posição é a da pesquisa funcional-administrativa de extração predominantemente norte-americana. Esta não pode ser inteiramente desvinculada do primeiro paradigma. Trata-se na verdade, até certo ponto, de um seu desenvolvimento ou de uma extrapolação para o campo da sociologia. Caracteriza-se pela criação de uma

separação artificial entre meios de comunicação “naturais” e “tecnológicos”. O objetivo é

claro: focar os estudos de comunicação nos últimos, tratando os primeiros como não problemáticos e abandonando-os, frequentemente, à linguística e à semiótica.

Williams cita duas razões pelas quais esse paradigma seria inaceitável. Em primeiro

os mais modernos meios de comunicação social não podem deixar de incluir formas de linguagem de uso cotidiano, entre elas a mais primitiva das mímicas. E em segundo lugar porque, nas palavras de WILLIAMS,

“O agrupamento de todos ou quase todos os meios mecânicos e eletrônicos como ‘comunicação de massa’ esconde (sob a cobertura de uma fórmula tirada da prática capitalista, na qual uma ‘audiência’ ou ‘público’, sempre socialmente específico e diferenciado, é visto como um ‘mercado massificado’ de opinião e de consumo) as variações radicais entre os diferentes tipos de meios mecânicos e eletrônicos. De fato, em suas divergências, eles carregam necessariamente tanto relações variáveis com a ‘linguagem comum do dia a dia’ e com ‘situações face a face’ (o exemplo mais óbvio é a diferença radical de uso e de situação comunicativa entre a imprensa e a televisão) quanto relações variáveis entre as relações comunicativas específicas e outras formas de relação social (a extensão e composição variável do público e a variabilidade das condições sociais de recepção — o público reunido do cinema; a audiência televisiva com base nos lares; a leitura em grupo; a leitura isolada).” (2011, pp. 71-72)

Algumas variantes desse segundo paradigma chegam a reconhecer as diferenças entre os diversos meios técnicos, mas apenas para sucumbir em um determinismo tecnológico onde relações sociais de produção, ao invés de determinarem os meios, são por eles determinadas. Essa é a posição de um Marshall McLuhan, por exemplo. Os meios de comunicação são reconhecidos como meios de produção, mas in abstrato, pois, por um lado, determinam os homens e, por outro, são os únicos meios que determinam características sociais humanas. Opera-se assim, como de resto em todo o paradigma, o

isolamento da “comunicação de massa” em relação à totalidade do progresso histórico

material do ser humano.

Uma terceira posição acabou sendo disseminada nos círculos marxistas e chega a

permitir certa acomodação ao conceito burguês de “comunicação de massa”: é a visão que

opera uma sutil separação entre meios de comunicação e meios de produção. Na base desse paradigma encontra-se a acepção do termo “produção” em sentido bastante estrito, ligado ao paradigma fordista. Nessa perspectiva, a única forma possível de produção é a de objetos empírico-materiais isoláveis — efetivamente, mercadorias voltadas à

comercialização no sentido tradicional do “toma-lá-dá-cá”. Nessa forma de ver as coisas,

produtos intangíveis, como um filme ou uma música, são negligenciados. Fica bastante evidente o quanto tal concepção é dependente do modelo de base e superestrutura, no qual a comunicação e a cultura são vistos como processos de segunda ordem em relação ao complexo forças produtivas-relações de produção.

Uma correção de rumo dessa posição torna-se ainda mais importante no século XXI, no contexto da explosão das chamadas indústrias criativas, processo que alguns,

seguindo CASTELLS (2009), denominam “sociedade da informação”, e outros, como CEVASCO (2003), qualificam como “era da cultura”. Nessa perspectiva, é necessário estar

apto a compreender a cultura em sua fluidez, e não apenas como conjunto de produtos

acabados. Também é necessário fugir das formas pretensamente “universais”, buscando

apreender os aspectos dinâmicos e variáveis que os meios podem assumir em sociedades específicas.

A fim de facilitar o caminho para tais retificações, é importante limpar o terreno conceitual. Segundo WILLIAMS (2000, pp. 87-88), na tentativa de compreensão dos

fenômenos culturais a contraposição entre “material” e “espiritual” muitas vezes ajuda

pouco. Ao invés de tal dicotomia, seria melhor partir da distinção entre dois objetos de estudo: 1) as relações entre os meios materiais de produção cultural e as formas sociais dentro das quais são usados, e 2) as relações entre esses meios materiais, as formas sociais e as formas específicas que constituem uma produção cultural manifesta. Aos mais familiarizados, fica claro que o primeiro objeto tem sido mais explorado no âmbito da sociologia da cultura, enquanto o segundo pode ser estudado, de diferentes formas, no plano da tradição humanística, desde que baseada no método histórico (pois as abordagens

idealistas e metafísicas examinam as “formas específicas” da cultura em si mesmas, e não em conexão com “meios materiais” e “formas sociais”).

O modelo teórico proposto por Williams parte da ênfase na dimensão material da cultura. Podemos afirmar, de um ponto de vista materialista, que não há cultura sem linguagem. E, desde que sigamos na mesma perspectiva, podemos também dizer que a linguagem só existe concretamente como comunicação. Vejamos então, neste tópico, como esses princípios teóricos gerais podem servir à articulação, no plano teórico- metodológico, da moderna concepção materialista da cultura. Comecemos pela descrição dos meios de produção cultural na obra de Williams. Buscaremos verificar de que maneira a análise dos dispositivos técnicos da comunicação, contextualizada no complexo das relações e forças produtivas gerais, pode fornecer um quadro teórico-conceitual enriquecido, de um ponto de vista materialista histórico, sobre a realidade da cultura contemporânea.