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CULTURAL

Em 1982 a Unesco realizava, na Cidade do México, sua Conferência Mundial sobre Políticas Culturais. O evento marcaria época, repercutindo de maneira profunda sobre as intervenções posteriores da entidade e a execução das políticas culturais dali em diante, em todo o mundo.

Na ocasião, o braço das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura propôs a adoção de abordagens políticas capazes de enfatizar um conceito amplo de

cultura, capaz de incluir, “além das artes e das letras, os modos de vida, os direitos fundamentais do ser humano, os sistemas de valores, as tradições e as crenças” (UNESCO,

1982). A nova definição de cultura ampliava seu escopo para abranger o conjunto dos traços distintivos, espirituais e materiais, intelectuais e afetivos, capazes de caracterizar determinada nacionalidade ou segmento social. Passavam a ser considerados, para efeito de elaboração e implementação das políticas culturais, a memória, os conjuntos e peças do patrimônio material e imaterial e as representações diversas construídas no âmbito de linguagens como o artesanato, a música, a literatura, a dança, o teatro, a arquitetura, o vestuário, as artes visuais e audiovisuais.

A adoção de determinado entendimento por uma agência das Nações Unidas tem significado, antes de tudo, político-institucional. Indica o estágio final da formação de um consenso, que passa a ser então aceito como pressuposto incontornável para o avanço das políticas sociais.

É inegável, porém, que esse consenso político não poderia existir senão sobre a base de uma convergência teórica. Nesse terreno podemos identificar, como fonte imediata do conceito de cultura adotado pela Unesco, as conquistas da antropologia moderna. Não

por acaso LARAIA (2009, p. 27), citando Alfred Kroeber, assegura que “a maior

realização da Antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e clarificação

do conceito de cultura”.

A primeira definição de cultura de um ponto de vista antropológico foi formulada por Tylor. Esse autor concebia a esfera cultural como um “todo complexo”, englobando conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábito

adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade. Segundo LARAIA, “com essa

definição Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana, além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à ideia de

aquisição inata, transmitida por mecanismos biológicos” (2009, p. 25).

Essa visão amplia-se e desenvolve-se na antropologia até os tempos atuais. Hoje, mesmo não havendo uma definição antropológica standard, não é difícil identificar entre as mais diversas correntes antropológicas uma ideia comum sobre a cultura: a de que esta envolve a esfera da significação e dos funcionamentos simbólicos subjacentes a uma dada ordem social. Como afirma LARAIA (2009, p. 63), citando Murdock, os antropólogos sabem muito bem o que é cultura; divergem, apenas, no momento de exteriorizar esse entendimento.

A ideia surgida na antropologia se espalhou por correntes teóricas e disciplinas as mais diversas, alcançando a sociologia, a história e a teoria cultural. Como explica o historiador britânico Peter BURKE,

“Hoje (...) seguindo o exemplo dos antropólogos, os historiadores e outros usam o termo ‘cultura’ muito mais amplamente, para referir-se a quase tudo que pode ser aprendido em uma dada sociedade — como comer, beber, andar, falar, silenciar e assim por diante. Em outras palavras, a história da cultura inclui agora a história das ações ou noções subjacentes à vida cotidiana. O que se costumava considerar garantido, óbvio, normal ou ‘senso comum’ agora é visto como algo que varia de sociedade a sociedade e muda de um século a outro, que é ‘construído’ socialmente e portanto requer explicação e interpretação social e histórica.” (1989, p. 21)

Com base nessa formulação, Burke postula ser a cultura um “sistema de

significados, atitudes e valores compartilhados, e as formas simbólicas (apresentações,

artefatos) nas quais eles se expressam ou se incorporam” (Id. Ibid. p. 21).

É preciso que se diga, entretanto, que o moderno conceito ampliado de cultura percorreu uma longa trajetória antes de se tornar, por meio da Unesco, compreensão comum da comunidade internacional. O desenvolvimento da moderna antropologia foi, sem dúvida, um marco importante. A partir dele, um entendimento determinado sobre a

ideia de cultura tornou-se comum a um amplo conjunto de disciplinas humanísticas. Porém, já a antropologia da primeira metade do século XX não representava exatamente um ponto de partida. Na verdade, o que ela fazia era incorporar ecos de vozes distantes, mais precisamente de certos movimentos lítero-filosóficos que marcaram a ascensão da moderna civilização urbano-industrial.

Cultura e desenvolvimento

Conceito de largo poder explanatório, apropriado a uma compreensão abarcante das dinâmicas simbólicas, a ideia de cultura possui grande importância para a sociologia e as humanidades, tendo se tornado, nas últimas décadas, objeto de crescente interesse por parte de filósofos, sociólogos, historiadores e antropólogos. Esse processo acompanha a crescente influência política dos funcionamentos simbólicos nas sociedades contemporâneas.

O conceito de cultura não nasceu pronto e acabado; sofreu, ao contrário, diversas mutações semânticas no decorrer da história. A rigor, a palavra vem do latim colere, que

ao longo do tempo abarcou significados tão díspares quanto os de “habitar” (daí os termos “colônia” e “colono”), “adorar” (daí a palavra “culto”) e “cultivar”, nos sentidos de “cuidar da lavoura” e “colher”. Portanto, o que um dia se referiu às noções de habitação, cultivo e

labor e foi usado, mais tarde, para designar as artes, a literatura e a música, hoje se refere ao conjunto das noções subjacentes à vida cotidiana.

O que fica claro é que, pelo menos até o século XVIII, a noção de cultura designava sempre uma atividade particular. Mais ou menos nesse período começa a se tornar um substantivo abstrato, que designa a atividade geral de cultivo do intelecto tanto na acepção individual quanto na social. Nesse sentido, a palavra passa a não mais se referir a quaisquer

particularidades, mas a valores e significados gerais. “Uma das medidas do valor de cultura, como as artes, era justamente que estas destilavam esses valores ‘universais’”

(CEVASCO, 2003, p. 24).

O termo sofre então, ao longo do tempo, sucessivas ampliações semânticas, que correspondem, na realidade, à extensão das conquistas da humanidade no terreno do desenvolvimento socioeconômico. Tais conquistas acabam por ampliar o significado social e a importância política dos funcionamentos simbólicos. As próprias noções de desenvolvimento e bem-estar cada vez menos podem ser entendidas, nos dias de hoje, sem algum recurso à noção de cultura. Assim, poderíamos dizer que, se o desenvolvimento

econômico de uma nação define seu nível de bem-estar material, a qualidade desse desenvolvimento é expressa, em grande medida, pelo progresso cultural. Dito de outro modo, a questão sociocultural é capaz de nos revelar em que medida o crescimento econômico de fato está se convertendo em desenvolvimento humano.

Em seu trabalho sugestivamente denominado A ideia de cultura, Terry Eagleton faz coro com essa apreciação. Após lembrar que a palavra remete, em seus primórdios, à noção de trabalho, ele destaca como um termo antes usado para significar uma atividade

material passou a designar, com o passar do tempo, uma espécie de “entidade espiritual”.

“A palavra, assim, mapeia em seu desdobramento semântico a mudança histórica da própria humanidade da existência rural para a urbana, da criação de porcos a Picasso, do lavrar o solo à divisão do átomo (...) Talvez por detrás do prazer que se espera que tenhamos diante de pessoas ‘cultas’ se esconda uma memória coletiva de seca e fome.” (EAGLETON, 2005a, p. 10)

Como fica claro, é possível mapear, por meio de mudanças semânticas nas palavras, transformações sociais ocorridas ao longo da história, assim como as reações a essas transformações. Inversamente, podemos dizer que são os caminhos e descaminhos das lutas por democracia e desenvolvimento que, ao alterar as condições sociais, possibilitam o despertar de novas percepções sobre a sociedade e o mundo. A história do conceito de cultura, como veremos a seguir, nada mais é que a história dessas novas percepções.

O movimento romântico e o nascimento da ideia