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4. DÖRDÜNCÜ BÖLÜM

4.1. Aristoteles ve Mevlânâ’nın Mutluluk Erdemine Dair Görüşlerinin

4.1.5. Cesaret

O desconhecimento por vezes paralisa, por vezes estimula atitudes vãs, quando não equívocos. No porão de nossa história, mesmo quando tudo não mais era breu, permanecia a inércia. Era preciso começar a jornada, mas por onde? Cabia inventar um começo. O estranho universo da arte de curar insinuava seus labirintos antes da existência de seus seguros trajetos. Foi nesse labirinto que teve início esta caminhada.

a) Medicina prévia

Conta George Doyle Maia (1995) que, no Brasil colônia, a arte de curar era praticada principalmente por curandeiros ou curadores – aqui entendidos como

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Uma das gratas “descobertas” desta pesquisa foi o encontro com a farta produção de pesquisadores da Casa de Osvaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), no Rio de Janeiro, que, de forma orquestrada, têm buscado contribuir com a reescrita da história da medicina brasileira.

todos os praticantes de diversas vertentes e facetas da arte. Sob essa designação, encontravam-se cirurgiões (que praticavam amputações, tratamento de fraturas, ferimentos e ulcerações, cauterização de tumores, lancetamento de abcessos e trepanações), barbeiros (cujas práticas diziam respeito ao emprego de bichas, ventosas e escarificações, pequenas cirurgias, cortes de cabelo e barba além de extração de dentes), sangradores (responsáveis por sangrias), algebristas (que cuidavam de fraturas, torções e luxações), boticários (responsáveis pela preparação e comércio de medicamentos), cristeleiras (responsáveis por lavagens intestinais), parteiras, padres jesuítas (responsáveis pelos mais diversos tipos de assistência), pajés e negros libertos e escravos, esses últimos – pajés e negros – responsáveis pela aproximação da arte de curar com a feitiçaria, a magia e o sobrenatural. Além desses, a medicina era praticada

por uns poucos physicos,6 título concedido àqueles que se formavam nos cursos

de medicina das Universidades de Coimbra,7 Paris e Montpellier.8 Mas, também

estes tinham uma formação precária, já que a prática clínica e a formação de base experimental integravam um futuro que ainda estava por se construir.

Conforme Santos Filho (1991a), as expressões cirurgião barbeiro e cirurgião formado circularam durante bastante tempo. Ambas referiam-se aos agentes mais afeitos às práticas acima atribuídas aos cirurgiões. A diferença é que os cirurgiões barbeiros aprendiam o ofício se exercitando como aprendizes ou auxiliares de cirurgiões mestres em seus próprios estabelecimentos (muitos atendiam em casa mesmo). Os cirurgiões formados, por sua vez, eram aprendizes que participavam do atendimento e, com sorte, de curso teórico-prático nos hospitais. A distinção que hoje não nos faz ter dúvidas acerca das atribuições de um barbeiro se processou ao longo do século XIX. Segundo Figueiredo (1999) ela ocorreu

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Santos Filho (1991a) estima que, em 1794, na sede do Vice-Reino (Rio de Janeiro) existiam apenas nove físicos e 29 cirurgiões.

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Dados colhidos por Soares (2001) informam que, no século XVII, nela estudaram 37 brasileiros, no século XVIII, 107 e no século XIX (até 1861) 32. Braga (apud Carvalho, 1996), informa que, em 1772, catorze brasileiros se matricularam no curso de medicina dessa universidade. No ano seguinte, 62. Entretanto, cabe informar que nem todos os formados retornavam ao Brasil para exercer a medicina.

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Segundo dados colhidos por Carvalho (1996), doze brasileiros estudaram medicina em Montpellier entre 1777 e 1793.

principalmente devido à da especificidade construída no processo de formação, já que, cada vez mais, passou-se a exigir do cirurgião uma formação formal e, por fim, acadêmica, ao passo que a formação do barbeiro manteve sua informalidade e generalidade na arte de manipular objetos cortantes. Entretanto, constatou a pesquisa da autora que, ainda no início do século XX, eram comuns aos barbeiros as práticas referidas no parágrafo anterior, o que sugere que, no imaginário popular, perdurou uma sobreposição de representações (“funções”). Aos barbeiros muito interessou a proximidade e sua confusão com os cirurgiões, ao passo que a esses últimos interessava a demarcação, por um lado, do distanciamento com os barbeiros e, por outro, sua aproximação e associação com os físicos/médicos.

Excetuando os físicos, que tinham formação universitária9 e condições

econômicas para viabilizá-la, todos os outros curandeiros brasileiros são caracterizados como humildes, sem nenhuma ou com baixa instrução, não raros identificados como negros e mulatos (Santos Filho, 1991a). Antes da criação de cursos específicos no Brasil – que datam oficialmente de 1808 –, restava àqueles sem posses que se ocupavam da arte da cura poucas alternativas de formação. Uma era cair nas graças de umas poucas municipalidades que podiam, se quisessem, conceder pensões de estudo no exterior; outra a freqüência a cursos isolados sobre cirurgia e anatomia em iniciativas muito modestas em Hospitais nas Capitanias de São Paulo, Minas Gerais e da Bahia (Lobo, 1964; Sales, 1971; Santos Filho, 1991a). Contudo, a alternativa mais comum era a obtenção das cartas de licenciamento pleiteadas aos delegados de Físico-Mor e Cirurgião–Mor, cargos estes da Fisicatura metropolitana portuguesa, até 1782; depois, quando da extinção da Fisicatura, pelos delegados da Junta do Protomedicato e, a partir de 1808, de novo pela Fisicatura após a extinção da Junta. Até então, o processo que permitia aos interessados pleitear uma carta de licenciamento era, como já esboçado na diferenciação entre cirurgião barbeiro e cirurgião formado,

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Em Portugal, a Universidade foi criada em Lisboa (1290) e transferida para Coimbra em 1308. Desde sua fundação até 1493, manteve uma só cadeira de medicina. A partir de então, até 1540, foram duas. Em 1545, totalizava cinco cadeiras. Um curso de medicina propriamente dito só se instalou em 1772, com a reforma pombalina (Santos Filho, 1991a).

basicamente o seguinte: estes deveriam acompanhar de dois a quatro anos a atividade de um “mestre” habilitado – o que era o mais comum – ou freqüentar a enfermaria de algum hospital, onde, além de praticarem como enfermeiros ou ajudantes, ocasionalmente poderiam ter acesso a aulas de cirurgia e anatomia. Tendo como comprovar a “experiência” adquirida num ou noutro processo, podiam requerer seu exame perante os delegados para obtenção da carta.

Digno de registro é a observação de Maia (1995) sobre a idoneidade das cartas expedidas, já que nem sempre eram obtidas por meios lícitos. Denúncias oficiais enviadas à Coroa informavam a maneira como os delegados da Junta fiscalizavam a prática médica na Colônia e a forma como expediam as cartas de licenciamento. Em 1787, por exemplo, Martinho de Mello e Castro, governador da Capitania da Bahia, oficiava que

Na própria cidade poucos são os médicos [...]. Por esta razão, [os enfermos] no aperto da necessidade, recorrem aos cirurgiões, que os medicam com mais pontualidade, [entretanto até] desta assistência estão sendo privados por que o Juiz Comissário de Medicina os inibe do curativo,10 condena e procede à captura contra eles. Os sangradores, que comumente são pardos ou pretos, que aprendem com outros tais se não têm com que satisfaçam as mesmas condenações, são capturados e proibidos do exercício de sangrar e tirar dentes [...]. É de notar que se eles são remediados e pagam os emolumentos do exame, são aprovados e nunca jamais reprovados, podem imediatamente exercitar as suas ocupações, muitas vezes sem os requisitos necessários (apud Lobo, 1964, p. 6-7).

Se esse pequeno trecho pode sugerir em que termos se realizava o atendimento individualizado dos enfermos, o coletivo não se dava em melhor situação. No Rio de Janeiro, por exemplo, a assistência hospitalar ocorria em uns poucos estabelecimentos militares e religiosos. Esses hospitais eram carentes de recursos humanos e materiais e

Voltados para os pobres, [...] destinava[m]-se a acolher os deserdados de toda sorte. Quase sempre, somente aqueles a quem faltava um teto e/ou o concurso de algum parente dirigiam-se [...] para os hospitais [...]. Locais de isolamento e reclusão [...] – todos notavam – não passavam de depósitos de infelizes em sua última escala para a morte (Soares, 2001, p. 21).

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Curativo aqui tem o sentido amplo de “ser curado” dos males e moléstias e não o restrito que se refere, por exemplo, aos cuidados de higienização e proteção de ferimentos, esta sim, prática típica dos cirurgiões daquele tempo.

Na descrição de Patto (apud Gondra, 2000, p. 11), funcionavam ao mesmo tempo como

...enfermarias, hospícios, asilos, e orfanatos, nos quais se praticava a caridade segundo os mandamentos da irmandade de Misericórdia de ´curar os enfermos, remir os cativos, visitar os presos, cobrir os nus, dar de comer aos famintos, dar de beber a quem tem sede, dar pouso aos peregrinos e enterrar os mortos´.

Como se pode brevemente notar, até a chegada da Corte, é num quadro de total penúria, em que faltavam condições, conhecimentos e recursos, e no qual concorriam diferentes práticas, que a arte de curar era exercida por aqui. Os curandeiros praticavam a medicina que lhes era possível na escassez dos físicos licenciados. Os licenciados tinham que se arranjar com os parcos conhecimentos que possuiam. O médico, como agente social, não gozava de prestígio nem reconhecimento e os conhecimentos da medicina oficial e da “praticante” se embricavam numa cultura que impôs à medicina brasileira um lento processo de conquista de legitimidade e autonomia, de especialização e monopolização de saberes e práticas. Ainda no início do século XX – se é que não impõe até hoje – esse processo impunha aos médicos estratégias novas na luta contra curandeiros e charlatães (Pereira Neto, 1995 e 2001).

A data de 1808 é, entretanto, uma data emblemática, já que foram as conseqüências a longo prazo da chegada da Corte que desencadearam necessárias mudanças socioculturais para tirar do atraso a antiga Colônia e inserir o Brasil num processo civilizador. É lugar comum na literatura tanto a observação de que a situação emergencial da chegada da Corte exigiu providências na implantação de várias instituições políticas, econômicas, culturais e sociais, que mudaram hábitos e costumes, como a que, por anos, permaneceram inalteradas rotinas políticas e culturais que remontavam ao século anterior. Para entender minimamente essa ambivalência, vejamos como alguns autores analisam algumas rupturas e permanências ligadas à chegada da Corte.

b) Algumas implicações do aportamento e do tempero cultural luso-brasileiro Data de estampa, a chegada da Corte se presta a múltiplas demarcações que se completam. O fato catalisou, desencadeou, abortou diferentes processos que seria esforço vão aqui elencar. Basta marcar, entretanto, que todas as possibilidades ao fato atreladas não autorizam a restringi-lo a um novo “marco zero” da história brasileira.

Do ponto de vista da dominação política – para citar um exemplo marcante e bem conhecido – talvez tenha sido um catalisador. Carvalho (1996) atribui nem tanto à chegada da Corte – fator importante, mas não exclusivo para solução monárquica adotada no Brasil –, mas à formação intelectual da elite brasileira as condições favoráveis à manutenção dessa dominação, em que pese, de fato, a implantação emergencial de novas instituições. Segundo sua análise, o tipo de socialização promovida pela Universidade de Coimbra produziu um fenômeno único na América Latina: uma homogeneidade na elite dirigente. A formação coimbrã afastava seus estudantes do libertário iluminismo francês e buscava garantir um treinamento adequado às futuras ocupações no funcionalismo público, tendo por base uma concepção de Estado monárquico e capacidade de governo absolutista.

Dessa forma, construída pela formação e praticada na burocracia estatal, essa homogeneidade “...fazia com que o fortalecimento do Estado constituísse para ela [elite] não só um valor político como também um interesse material muito concreto” (Carvalho, 1996, p. 37), o que acabou viabilizando um destino para o Estado Imperial brasileiro bem diferente do de seus pares na América Espanhola: por um lado, conseguiu manter sua unidade geopolítica; por outro, “...se não evitou um período inicial de instabilidades e rebeliões, não chegou a ter uma única mudança irregular e violenta de governo [...] e conservou sempre a supremacia do governo civil” (Carvalho, 1996, p. 11-12). Orgulhavam-se os políticos envolvidos no Governo Imperial de “...apontar as vantagens do sistema

brasileiro sobre os governos militares das repúblicas vizinhas” (Carvalho, 1996, p. 47).

Ao longo de seu trabalho sobre a formação da elite política imperial, Carvalho (1996) procura mostrar o processo de nacionalização dessa elite, dada, principalmente, pelo declínio da geração coimbrã que se esgotava por volta da metade do século – período até o qual durou a fase de acumulação de poder de Estado – e pela colocação do Estado como maior empregador dos letrados que ele mesmo formava. Esse processo de nacionalização teceu as condições de possibilidade para a constituição efetiva do Estado brasileiro e sua tomada de consciência como nação; consciência nacional que, em suas múltiplas manifestações, pode traduzir facetas da inserção do Brasil no processo civilizatório (Elias, 1994). Mas, sem contradição, concomitante a essa nacionalização da elite, a instalação de novas instituições possibilitou também um certo movimento de europeização da população que obrou a construção de novos hábitos e costumes. A vida, ao se tornar cada vez mais urbana, materializava novas condutas na reordenação dos comportamentos individual e coletivo, público e privado. Neles apareciam preocupações até então inéditas com as formas de ser, de estar, de pensar e de se relacionar (Machado et al., 1979; Costa ,1989 e Lima 1996).

A medicina brasileira deu sua contribuição no processo de nacionalização/europeização de costumes e dela iremos tratar ao falar da illusio médica e da produção do conhecimento médico no século XIX. Por ora, ainda com base na discussão do aportamento, gostaria de sugerir – com Schwarcz (1993) – que ele desencadeou o início da história institucional no Brasil, na qual pode ser inserida uma história da medicina. História que se produziu em conjugação com essas mudanças socioculturais e encerrou duplo movimento. Um no qual seu espaço social se viu conformado por fatores externos, tais como, a situação político-econômica e a sociocultural geral. Outro no qual sua economia interna perspectivou seus próprios rumos, estes, por sua vez, capazes de

modificar, em maior ou menor grau, a conformação sociocultural geral que lhe cercava.

A título de caracterização, na trilha dos fatores externos, vale a pena chamar a atenção para uma certa herança cultural. Já foi exposto o que pensa Carvalho sobre a formação da elite política imperial. Esse historiador é enfático ao atribuir à influência coimbrã parte da coesão dessa elite. Ao analisar a reforma pombalina, nela vê um iluminismo que se atrelou aos interesses do fortalecimento do poder estatal engajado numa recuperação econômica. Para ele,

Tratava-se fundamentalmente de colocar a educação em condições de ser útil ao esforço de recuperação econômica. No que se refere a Coimbra, a nova orientação [iluminista bastante diversa da francesa] levou à ênfase nas ciências naturais, pois delas, sobretudo da mineralogia e da botânica, se esperavam contribuições no sentido de renovar ou inovar a exploração dos recursos naturais das colônias, especialmente do Brasil (Carvalho, 1996, p. 57).

Carvalho (1996, p. 58) não deixa de notar que a Universidade de Coimbra produziu um

...notável grupo de cientistas. Muitos deles eram brasileiros e alguns ainda militavam na política à época da Independência [...]. Mas, embora [...] comprometidos com o objetivo de promover o progresso científico e técnico, em termos políticos o comportamento desses cientistas não se distanciava muito do dos juristas. Certamente se preocupavam menos com a manutenção da ordem e com a centralização do poder [...]. Mas no fundo eram frutos do Iluminismo português, politicamente conservador[...]. Os líderes mais radicais dos movimentos libertários antes da independência tinham formação francesa ou puramente brasileira.

Rousseau e Voltaire eram leituras proibidas em Coimbra. E houve quem defendesse, já no debate constituinte de 1823, que “...nenhum governo [podia] tolerar que em quaisquer aulas se ensinem, por exemplo, as doutrinas do contrato

social do sofista de Genebra” (apud Carvalho, 1996, p. 75).11 Não escapa à

análise desse autor o fato de o Governo português nunca ter permitido a instalação de estabelecimento do ensino superior nas colônias: era uma questão política cujo relaxamento podia acarretar liberdades indesejadas. O Governo

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Veremos no capítulo seguinte que a leitura de Rousseau parece ter sido uma das maiores influências na produção do conhecimento médico brasileiro concernente `educação e à educação physica.

sabia que “...um dos mais fortes vínculos que sustentava a dependência das colônias era a necessidade de vir estudar a Portugal” (Lacombe, apud Carvalho, 1996, p. 60) e queria que assim continuasse. A situação do ensino superior no Brasil colônia só se alteraria mesmo com a vinda da Corte.12

Faltava instrução generalizada nas terras brasileiras. A formação universitária era um privilégio para poucos. Em Coimbra esse privilégio tornava-se um meio muito eficaz na produção dos produtores e reprodutores da nossa cultura que, como já sinalizado, comportavam tanto uma nacionalização como uma europeização de suas práticas. Mas Coimbra não era a única possibilidade de formação, principalmente depois que se instalaram os cursos superiores no Brasil. Carvalho (1996, p. 75) reconhece que o conservadorismo coimbrão

...contrasta[va] com o comportamento político dos que se formaram em outros países europeus, sobretudo na França, e dos que se formaram no Brasil, aos quais, estranhamente, parecia ser mais fácil entrar em contato com o iluminismo francês. As academias, as sociedades literárias, as sociedades secretas, formadas no Brasil, e as próprias rebeliões que precedem a independência exibem quase que invariavelmente a presença de elementos [médicos] formados na França ou [padres] influenciados por idéias de origem francesa.

A influência da ilustração luso-brasileira é sublinhada por Ferreira (1996), ao rastrear os vínculos que a institucionalização da medicina brasileira oitocentista teve com esse movimento. Esse autor reafirma que a base ideológica desse movimento se assentou no absolutismo ilustrado e reconhece nesse iluminismo à portuguesa as mesmas nuances que Carvalho. Sua síntese aponta que, de maneira geral, o absolutismo ilustrado calcava-se numa concepção de Estado que investia na educação do príncipe, visando a torná-lo um esclarecido. Seu esclarecimento é que proporcionaria a implementação de reformas ilustradas voltadas para o bem-estar de seus súditos. Entre elas, a educação se apresentava como carro-chefe. Na prática, avalia Falcon (apud Ferreira, 1996, p.

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Além das Faculdades de Medicina, são instaladas a Real Academia dos Guardas-Marinhas (1808), a Real Academia Militar (1810), a Academia de Belas-Artes (1820). Escolas explicitamente dedicadas à formação das elites políticas, como as faculdades de direito, só foram criadas após a Independência. Registra-se ainda a Escola de Farmácia (Ouro Preto, 1838), a Escola de Minas (Ouro Preto, 1876), a Escola Central (1854) que tirou a engenharia civil da Academia Militar e, posteriormente, foi transformada na Escola Politécnica (1874) (informações colhidas em Carvalho, 1996).

40), “...esse reformismo buscou a modernização do aparelho do Estado, sua secularização e seu enriquecimento, sem abrir mão do poder absoluto do monarca e da estrutura social vigente”.

A influência do absolutismo ilustrado se fez sentir na realeza lusitana no interstício final do século XVIII a meados do século XIX, mas não da mesma forma como na Inglaterra ou na França. Ferreira (1996, p. 46) observa que, no início,

Não era interesse dos governantes ilustrados portugueses promover ou incentivar uma reforma social e educacional que tivesse na ciência sua pedra angular. O intento era modernizar a economia portuguesa sem abalar o sistema político vigente baseado no absolutismo monárquico, e muito menos colocar em risco o domínio sobre o Brasil. As atividades científicas foram incentivadas dentro de limites determinados pelo projeto político-econômico...

Seguindo seu argumento, significa dizer que o escasso, porém presente, desenvolvimento no Brasil daquilo que era considerado produção científica13 foi fortemente marcado pelo estatismo que recobriu o movimento cientificista luso- brasileiro – uma das portas para a institucionalização da medicina no Brasil – cuja peculiaridade foi ter sido inibido e depois promovido pelo próprio Estado.

A transferência para o Brasil do Governo português intensificou a institucionalização da ciência com a marca desse despotismo esclarecido. Assinalarei, mais à frente, algumas marcas desse despotismo. Por ora, cabe retomar o caráter emblemático das primeiras iniciativas desencadeadas pelo aportamento, trilhando, mais convictamente, pela sua economia interna. Registro, então, uma seqüência de episódios colhidos na bibliografia que vão compondo – como veremos, não sem tensão – e fornecendo as primeiras pistas para problematizar a paisagem da medicina brasileira nas primeiras décadas do século XIX. Sempre que percebidos, elementos macroestruturais serão pontuados.

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Dentre outras iniciativas, Ferreira (1996) destaca a criação da Academia Científica do Rio de Janeiro (1771-1772) e sua sucessora, a Sociedade Literária do Rio de Janeiro (1786-1790), a criação de jardins botânicos em Belém do Pará (1796) e, depois da chegada da Corte, no Rio de Janeiro e em Pernambuco, a instituição de cursos superiores de formação e a produção e circulação de uma imprensa médica no Brasil, na primeira metade do século XIX.