1. BİRİNCİ BÖLÜM
1.1. Mutluluk Fenomeni Üzerine Tarihten Bu Güne Kısa Bir Ufuk Turu
1.1.1. Aristoteles ve Mevlânâ Öğretilerini Mutluluk Bağlamında
Sem dúvida, a pesquisa que maior repercussão e circulação teve até o momento estudando as relações entre higienismo e educação física foi a da professora
Carmen Lúcia Soares.38 Entendendo a educação física como disciplina – sentido
amplo – necessária à construção de um novo homem que se enquadrasse à nova ordem política, econômica e social que se instalava no século XIX, busca a autora demonstrar como ela se torna a manifestação física desse novo ordenamento, já que encarna e expressa a preocupação com a disciplina e o controle do gesto.39
Soares focaliza o conhecimento sobre o corpo produzido pelos médicos higienistas como uma das formas de dominação social que foi encampada pelo Estado buscando controlar as grandes massas urbanas. Nele a educação física era tida como o conjunto de cuidados corporais e higiênicos que ajudavam a prevenir doenças e a manter a saúde. A prática de exercícios físicos não era a educação física; mas, apenas, uma entre outras medidas higiênicas que a integravam. O controle do Estado se expressava na ideologização burguesa das políticas médicas e no processo de escolarização que se instalava. Buscava-se a construção de novas subjetividades.
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Intitulada O pensamento médico-higienista e a educação física no Brasil: 1850-1930, sua dissertação de Mestrado foi defendida na PUC-SP, em 1990. Posteriormente, foi publicada, com algumas modificações, pela Editora Autores Associados (Soares, 1994).
No caso do Brasil, não escapa à autora que as questões pertinentes à saúde, à higiene e ao corpo dos indivíduos estivessem em pauta para a elite dirigente desde os tempos coloniais. Sua análise ressalta que foi no Império e na República que ganharam força como moralidade sanitária. Primeiro, as políticas públicas, via práticas higienistas, intervieram na família, depois, na escola; forjava-se uma pedagogia higiênica.
Soares, apoiando-se nas reflexões de Jurandir Costa Freire, mostra-nos que essa pedagogia pregava a incapacidade de as famílias criarem seus filhos, porquanto eles deveriam ir ternamente à escola. Essa pedagogia visou a produzir o típico indivíduo urbano de nossos dias, que tem no corpo uma obsessão,
...moral e sentimentalmente centrado em sua dor e seu prazer; socialmente racista e burguês em suas crenças e condutas; finalmente, politicamente convicto de que da disciplina repressiva de sua vida depende a grandeza e o progresso do estado brasileiro. (Freire, apud Soares, 1994, p. 92)
Parte desse perfil teria sido forjado nas escolas. A educação do povo, nessa perspectiva, é vislumbrada como uma das formas de consolidar o processo civilizatório imposto pelo capital. A chave para a resolução dos problemas da nação seria a eliminação da ignorância do povo.
É sabido que um dos porta-vozes desse projeto de escolarização foi Rui Barbosa e é no estudo de suas idéias que Soares capta que a noção de educação como algo capaz de transformar a sociedade aparece vinculada a outra: a da necessidade de se tornar nosso povo “saudável”. Era preciso dar ouvidos à Higiene, era preciso acentuar sua importância na escola. Teorias foram importadas e seletivamente assimiladas pela elite intelectual no Brasil. Quanto à educação física e à ginástica, partes integrantes das propostas de Higiene, estas vão aparecer em leis, reformas e programas educacionais, sendo, já na década de 1920, tema em pauta em diversos eventos. Soares interpreta essa evidência
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como sendo a expressão concreta dos cuidados com o corpo normatizados pelo pensamento médico-higienista.
Gostaria de observar que, dentre as muitas contribuições trazidas por esse estudo, encontra-se o registro de uma importante questão que, para muitos, passa despercebida. Ela nos chama a atenção para a distinção entre dois
sentidos para a expressão educação física.40 Seu trabalho não se ocupa com a
elucidação das tensões envolvidas na construção desses sentidos que, embora inicialmente imbricados, vão se particularizando, mas abre espaço para isso. Essa é uma das questões que pretendo retomar.
Enfim, é com esse estudo de Soares que passa a ser corrente41 na educação
física brasileira a idéia de que a gênese da educação física no Brasil está atrelada ao projeto de (re)ordenamento social desencadeado pela implantação do capitalismo que, necessariamente, passava pelas propostas de higienização social – incluída aí sua proposta educacional –, de formação moral e disciplinar que garantisse o controle na esfera individual e coletiva, de regeneração/aperfeiçoamento da raça e de construção/inculcação de um sentimento de identidade nacional, de brasilidade.
Nunca é demais repetir, com ela, que as bandeiras que flamejaram com e a partir do discurso médico-higienista não se dirigiam (somente) “à nossa área” e sim a um projeto político, econômico, social e, por que não, cultural para o Brasil.
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Soares atenta para uma diferenciação entre educação física (“cuidados corporais e higiênicos considerados pelos médicos como necessários à prevenção das doenças e à manutenção da saúde” – p. 34) e Educação Física (“forma de intervenção na realidade social [que opera] tanto ao nível corporal dos indivíduos isoladamente, quanto ao nível do ´corpo social´” – p. 41). Essa forma de intervenção é disciplinar – no duplo sentido –, “...voltada ao ‘corpo biológico’ [individual] para, a partir dele, moralizar a sociedade além de ‘melhorar e regenerar’ a raça” (p. 42). É tomada como “educação do físico” (p. 42) e se materializa na instituição escolar como “conteúdo curricular” (p. 60) denominado ginástica. Em estudo subseqüente, a autora vai estudar a ginástica de maneira mais alargada, como manifestação da cultura corporal que é ressignificada e sistematizada. O hiato registrado entre a educação física (CLS)/educação physica (FP) e Educação Física (CLS)/educação física (FP), bem como a forma como a ginástica é tratada nesse processo, com os meus anos de estudo e diálogo com a autora, foram se tornando um incômodo intelectual. Tomando a grafia de Soares, ia me perguntando como a educação física “virava” Educação Física. Esse incômodo tornou-se uma das motivações e uma das principais inquietações da minha tese.
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Entretanto, na historiografia, o que se faz presente é a idéia de que, “a área” dele teria sido vítima ou, na melhor das hipóteses, cúmplice. A compreensão de uma educação física “instrumentalizada” pelo capitalismo, ou conseqüência da modernidade ou do processo civilizador (versões explicativas mais recentes na historiografia) parece deixar escapar a microanálise42 que possibilita pensar, no detalhe, a construção das condições de possibilidade que permitiram o engendramento do campo, até porque é muito recente a interpretação que levanta voz em sentido contrário.
...se o higienismo cometeu erros e foi usado para defesa de interesses específicos, como muitos autores já demonstraram, nos cabe agora considerá-lo como um movimento que propagou-se na história da Educação Física brasileira, até mesmo consolidando nossa área [...]. A historiografia que tratou da construção desses fatos, cometeu injustiças com estes profissionais do passado com duras críticas [...]. Devemos compreendê-los dentro de sua historicidade [...] [já que] estamos cometendo o erro de olharmos, somente, para as obsessões estéticas de segmentos específicos da sociedade, e perdendo a oportunidade de conhecer um pouco do idealismo de Hollanda Loyola, Fernando de Azevedo e outros, buscando as raízes de nossa área (Góis Júnior, 1998, p. 301).