No Brasil, alguns estudos relacionam saneamento com empoderamento ou com alguma de suas dimensões componentes: participação social, organização, transparência, autoconfiança, controle social.
Lopes et al. (2000) da Companhia de Engenharia Rural da Bahia (CERB), trabalhando com comunidades rurais baianas em projetos de implantação de sistemas simplificados de abastecimento de água e módulos sanitários reconheceram a importância do desenvolvimento comunitário para a participação ativa dos seus membros em todas as etapas do projeto, desde a concepção do sistema até a operação. O quadro verificado pelos técnicos desses projetos, antes da intervenção social, era caracterizado por descompromisso, desorganização, dependência, despreparo técnico e ausência de iniciativa das comunidades, com efeitos deletérios sobre os sistemas existentes, cuja operação era altamente deficiente; verificou-se, ainda, que o Estado investia nos sistemas e acabava perdendo os investimentos. O trabalho social visando à transformação desse quadro envolveu o fortalecimento e a criação de grupos e associações, capacitação de lideranças, treinamento de operadores dos sistemas, educação sanitária e ambiental, formação em associativismo e cooperativismo, desenvolvimento de relações interpessoais nos grupos, posturas de cooperação e partilha, redução de conflitos, melhoria da comunicação intra e intergrupos e preparação dos grupos para a ação de gestão dos sistemas, em cada comunidade. A gestão continuada dos sistemas, estabelecida como autogestão, com auxílio das Prefeituras Municipais para a manutenção mais complexa, pode se constituir em fragilidade desse tipo de projeto, na medida em que as direções das associações comunitárias mudam, ao longo do tempo, o operador local, por não ter vínculo
58 empregatício, também pode se mudar, de localidade ou de emprego, a sustentabilidade financeira do projeto pode ficar ameaçada, a capacitação inicial pode ficar esmaecida e, enfim, a população, com outras preocupações, dentre as quais, a necessidade de gerar renda, pode se descuidar dos sistemas de abastecimento de água.
Moraes et al. (2002), ao estudar o caso do município de Pintadas, no semiárido baiano, a 255km de Salvador, verificou a longa luta dos movimentos populares buscando garantir à população direitos fundamentais à sua sobrevivência, dentre os quais, o direito à água, à terra, à saúde, ao trabalho e à educação, o que culminou com a eleição de uma prefeita (oriunda do movimento popular) comprometida com tais questões, rompendo um longo ciclo de gestões públicas caracterizadas por atos ilegais, dentre os quais a perseguição política, e improbidade administrativa. Nesse contexto, a participação dos diferentes segmentos sociais, desde 1988, com apoio de agências de cooperação internacionais, dava visibilidade e legitimava a diversidade de interesses e projetos, ao mesmo tempo em que se aproximava de um controle social maior da gestão pública, direcionando-a para os interesses e necessidades da maioria da população, fortalecendo seu sentimento de partilha e solidariedade. Neste caso específico, os principais serviços demandados pela população eram o abastecimento de água, via cisternas coletoras de águas de chuva, e esgotamento sanitário, que foi atendido através de fossa seca ventilada (MORAES et al., 2002). O projeto de intervenção tinha como objetivos a participação da população e do Poder Público do município em suas fases de planejamento, execução do projeto de engenharia, implantação dos sistemas e avaliação das ações de saneamento. As estratégias de participação preconizadas compunham um processo de reflexão e de reeducação dos dirigentes, servidores municipais, população, professores e alunos (MORAES et al., 2002). O movimento social teve como um de seus resultados a eleição de uma prefeita, que implantou ações de descentralização da gestão, valorizando a participação e o controle social pela população, concentrando investimentos e esforços em políticas sociais, especialmente as de saúde, educação, habitação, saneamento, geração de emprego e renda; em todas essas áreas houve melhorias de gestão, e ainda ampliação de serviços e construção de mais unidades de saúde e educação, estradas e no sistema de abastecimento de água, coleta e disposição de resíduos sólidos (MORAES et al., 2002).
Desenvolvendo uma pesquisa sobre o capital social de 27 comunidades rurais no Ceará, atendidas pelo Projeto São José (o principal executor das obras dos projetos de abastecimento de água e esgotamento sanitário das comunidades participantes do SISAR), Khan e Silva
59 (2005) concluíram que as associações comunitárias apresentam um nível médio de acumulação de capital social e que os recursos alocados pelo Projeto São José contribuíram para esse índice. Segundo esses autores, a metodologia de capital social vem sendo utilizada para fortalecer as comunidades pobres através do desenvolvimento da confiança mútua, do associativismo e da construção de redes sociais.
Souza e Freitas (2009), estudando as percepções de usuários de serviços de esgotamento sanitário na localidade de Campo Leal, do município de Sumidouro (RJ) relativas à forma como foram implantados módulos sanitários, concluiu que os resultados alcançados foram insatisfatórios quanto aos objetivos propostos pela intervenção (contribuir para o desenvolvimento do campo, estancar o êxodo rural, melhorar a qualidade de vida da população rural), por adotar estratégia de implantação sem a participação da comunidade alvo e sem o seu empoderamento. Os autores, afirmam que:
Um saneamento nessa perspectiva (de desenvolvimento sustentável e de promoção da saúde) deverá ir além da implementação de tecnologias orientadas para atender às metas de programas burocráticos de prevenção de doenças estabelecidas por atores que têm poder de decisão e estão situados fora do lugar (SOUZA; FREITAS, 2009, p. 67).
Sarmento, em seu estudo de 2001 sobre a situação do esgotamento sanitário e sistemas de abastecimento de água em algumas regiões brasileiras, observou, em relação ao SISAR que a existência de um agente externo (Governo do Ceará, por meio da CAGECE) conduzindo o processo de mobilização social das comunidades precisava se revestir de cuidados, para não incorrer na manipulação das comunidades, levando-as tão somente a ratificarem decisões tomadas externamente, numa estrutura de cima para baixo.
Uma estratégia significativa para promover a inclusão e uma participação empoderadora da comunidade é o controle, que ela pode assumir, dos fundos financeiros do projeto (WALLERSTEIN, 2006); isso se pode verificar, até o ano de 2012, no SISAR, como apontam os dados levantados em campo e corroborados pela CAGECE/GESAR. No entanto, o governo do Estado está mudando este procedimento, passando a adotar a licitação eletrônica, supostamente para melhorar a eficiência no uso dos recursos, o que contraria os resultados dos dados empíricos disponíveis no SISAR.
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