Na exploração existe uma nora (Figura 56) e um poço (Figura 58), que pela sua localização, são normalmente apelidados de “nora de cima” e “nora de baixo”.
A “nora de cima” tem uma área de 11 m2 (diâmetro de 3,75 m), com uma profundidade total de 6, 56 m, com uma altura média de água de 6,42 m. A “nora de baixo” tem uma área de 17 m2 (diâmetro de 4,66 m), com uma profundidade total de 13 m, com uma altura média de água de 7,3 m. Ambas estruturas possuem uma mina cada uma (Figuras 57 e 59), funcionando como nascente e em simultâneo como depósito. A água é elevada por duas electrobombas submersas de 1,1 kW e 1,5 kW (“nora de cima” e “nora de baixo” respectivamente), que funcionam em simultâneo ou eventualmente em separado no abastecimento da água de rega.
Figura. 56. Nora ou “Nora de cima” Fig. 57. Pormenor do interior - “Nora de cima”
Figura. 58. Poço ou “Nora de baixo” Figura. 59. Pormenor do interior - “Nora de baixo”
A água é distribuída por condutas subterrâneas de 63 mm de diâmetro, com hidrantes em todas as parcelas. Desta forma, ainda que manualmente, é possível sectoriar toda a rega da exploração (Figura 60).
Figura. 60. Planta geral das condutas de rega, de acordo com levantamento actual
Ainda que ao longo dos anos de funcionamento da Horta de S. José não há memória de falta de água e por forma a assegurar as disponibilidades hídricas de toda a produção agrícola actual e eventual proposta de aumento de produção realizámos um estudo para averiguar a quantidade de água disponível e o tempo de recuperação das mesmas (quantidade de água recuperada em função do tempo) após um dia normal de rega, em cada uma das “noras”.
Este estudo foi feito em duas épocas distintas (Maio e Setembro), por forma a observar o comportamento das “noras” antes do Verão e após o Verão, quando os níveis freáticos se encontram em níveis mais baixos.
Terminado o estudo, que consistiu em várias medições, antes e depois de períodos de rega normais, verificámos que a recuperação de água em ambas estruturas foi rápida, no entanto, e por uma questão de coerência, optámos por ter em conta os valores de recuperação das últimas medições realizadas no mês de Setembro. Assim, verificámos que, após um dia normal de rega o consumo total equivale em média a uma descida do nível da água (em ambas “noras”) de 65 cm e em termos de recuperação verificámos que em média, a subida do nível da água se traduz em 16,5 cm/h, ou seja 2,31 m3/h.
Verificámos também que, de Maio a Setembro, os níveis de água descem em média 93 cm de altura de água, fenómeno directamente relacionado com a descida de nível dos níveis freáticos e que não compromete de forma nenhuma a rega da Horta.
Assim, se multiplicarmos o caudal/hora por 24 h e por sua vez multiplicarmos o resultado por 31 dias (2,31 m3 x 24h x 31dias=1719 m3) facilmente percebemos, como comprovaremos mais à frente, que só o caudal relativo à recuperação das “noras” nos assegura as necessidades hídricas da exploração em caso de alteração e /ou ampliação.
4.6 Avaliação das necessidades hídricas das culturas no mês de Julho
Partindo do principio que na Horta de S. José se cultiva alface, feijão-verde, espinafre, abóbora-menina, tomate, pimento, alface, alho francês, brócolo, couve coração de boi, couve portuguesa, couve lombarda, pepino, courgette, nabo, ervilha e fava, além das fruteiras já referidas, pretende-se averiguar com algum rigor as necessidades hídricas das culturas por forma a propor alterações e/ou ampliações na estrutura produtiva da Horta.
Portanto, realizámos um cálculo das necessidades hídricas de todas as culturas, durante todo o ano agrícola (Anexo XII). No entanto, e por forma a facilitar a análise, consideramos apenas, e a título de exemplo, as necessidades de todas as culturas instaladas no mês de Julho (radiação e ET0 máximos).
Também a título de exemplo, considerou-se a cultura do tomate ao ar livre (por ser a cultura mais exigente em água) realizada na exploração, no mês de Julho, no estado de desenvolvimento mais exigente (Kc máximo), com cobertura de plástico e com sistema gota-a- gota.
Portanto, a necessidade em água do tomateiro pode ser determinada mediante a seguinte fórmula:
ETc = Kc × ET0
Para obter o valor da evapotranspiração cultural do tomateiro (ETc), consideramos um Kc de 1,15, que representa o coeficiente cultura relativo ao desenvolvimento máximo do tomateiro, segundo dados tabelados da FAO (Alen et al., 1998) e o valor médio mensal de ET0 para o mês de Julho (Quadro 14), calculado através do CropWat da FAO. O resultado deste cálculo foi de 6,24 l/m2/dia (1,15 × 5,43 mm).
Quadro 14. Valores médios mensais de ET0
MESES ET0 Janeiro 0,95 Fevereiro 1,34 Março 1,96 Abril 2,76 Maio 3,64 Junho 4,43 Julho 5,43 Agosto 5,26 Setembro 3,78 Outubro 2,41 Novembro 1,42 Dezembro 0,99
Os valores calculados reflectem alguma margem de segurança, uma vez que algumas das restantes culturas apresentam Kc máximo ligeiramente mais baixos do considerado, e que nem todas as culturas estão efectivamente em desenvolvimento no período de maior exigência hídrica. Na realidade a água disponível permitirá regar uma área substancialmente superior à área determinada.
Actualmente, no mês de Julho (Quadro 15) em que as exigências hídricas são maiores, a área total regada ronda os 0,9 ha.
Quadro 15. Quantidade de água total a aplicar actualmente nas culturas instaladas, no de mês Julho Cultura Ciclo Área Volume util Volume total
Total água Total água
(meses) (ha) (m3) (m3)
Tomate Abril a Agosto 0,08 79,53 93,57 Pimento Abril a Agosto 0,04 26,51 31,19 Alface 4 Julho e Agosto 0,04 41,97 49,38 Laranja Janeiro a Dezembro 0,57 440,74 518,51 Tangerina Janeiro a Dezembro 0,13 100,52 118,26
689,27 810,91
Totais (m3)
Fonte: Adaptado do quadro das necessidades hídricas do Anexo XII
Com proposta de ampliação e/ou alteração, nos meses de Julho em que as exigências hídricas são maiores, a área total regada ronda os 1,50 ha (Quadro 16).
Quadro 16. Quantidade de água total a aplicar nas culturas instaladas no mês de Julho, com ampliação e/ou alteração
Cultura
Ciclo Área Volume util Volume total
Total água Total água
(meses) (ha) (m3) (m3)
Tomate 1 Março a Setembro 0,12 161,56 190,07
Tomate 2 Maio a Outubro 0,12 84,29 99,17
Tomate 3 Maio a Outubro 0,12 84,29 99,17
Courgette 2 Junho a Setembro 0,08 91,22 107,32
Alface 3 Junho e Julho 0,12 66,94 78,75
Alface 4 Julho e Agosto 0,12 46,85 55,12
Courgette* Maio a Agosto 0,04 43,79 51,51
Tomate 2* Março a Agosto 0,05 46,18 54,33
Laranja Janeiro a Dezembro 0,57 454,98 535,27
Tangerina Janeiro a Dezembro 0,13 87,91 103,42
1168,01 1374,13
* Culturas em estufa
Totais (m3)
Na realidade, em qualquer uma das situações o caudal necessário é inferior ao caudal estimado no capítulo da avaliação das disponibilidades hídricas (1719 m3), o que assegura as necessidades hídricas das culturas.