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F. VEKİLİN VEKALET İLİKİSİ ÇERÇEVESİNDE ALDIKLARINI

2. BORÇLAR KANUNU MD. 393 HÜKMÜ KAPSAMINDA

Os bens podem ser objeto da relação jurídica, entretanto, deve-se esclarecer qual o exato sentido jurídico deste conceito. Entende-se por bem tudo aquilo que é passível de apropriação e dotado de valor econômico. Oscar Barreto Filho conceitua bens como: “Sob o ângulo jurídico, bens são valores materiais ou imateriais, que podem ser objeto de uma relação de direito. Compreendem, no seu significado, coisas corpóreas e incorpóreas, fatos e abstenções humanas (obrigações).” 36

Verifica-se que o CC de 2003 manteve a mesma noção de bem do código de 1916 (Livro II - “Dos Bens” - arts. 79 até 103), trazendo, contudo, uma inovação, estabeleceu como bem a energia com valor econômico (art. 83, I), que já era assim classificada pelo doutrina. Portanto, o legislador de 2003 nada mais fez do que privilegiar o conceito de bens amplamente utilizado e exposto pela doutrina majoritária.

A teoria do direito privado utiliza-se da classificação dos bens para facilitar a aplicação das normas jurídicas, sendo que cada categoria de bem tem o seu regime próprio. Tradicionalmente, os bens são classificados da seguinte forma: a) quanto à sua natureza (que podem ser divididos em: corpóreos e incorpóreos, móveis e imóveis, fungíveis e infungíveis, consumíveis e inconsumíveis, divisíveis e indivisíveis, singulares e coletivos); b) quanto ao interesse relacionado ao sujeito da relação jurídica (públicos e privados); c) quanto aos outros bens (principais e acessórios); e d) quanto à sua

35 BARRETO FILHO, Oscar. Teoria do Estabelecimento Comercial. São Paulo: Max Limonad, 1969, p.

32. Neste mesmo sentido Carlos Alberto da Mota Pinto destaca: “Facilmente se distinguem, assim, as noções de objecto de u direito e de conteúdo do mesmo direito. O objecto é aquilo sobre que recaem os poderes do titular do direito. O conteúdo é o conjunto dos poderes ou faculdades que o direito subjetivo comporta.” PINTO, Carlos Alberto da Mota. Op. Cit., p. 330.

36 BARRETO FILHO, Oscar. Op. Cit., p. 33. Neste sentido: BEVILÁQUA, Clóvis. Código Civil Comentado. V. 1. 11a. Ed. Atualizada por Achilles Bevilaqua e Isaias Bevilaqua. Rio de Janeiro:

Forense, 1956; MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito Privado, Tomo II. Rio de Janeiro: Editor Borsoi, 1955, p. 9.

comercialização 37. A noção de bem e suas classificações interessam para determinar o

que compõe o estabelecimento empresarial, conceito este que será exposto no próximo capítulo.

O patrimônio por sua vez pode ser entendido como uma universalidade de direito (conceito presente no artigo 91 do CC) e, assim, definido como o complexo de relações jurídicas dotadas de valor econômico e pertencentes a uma pessoa, porém, distinto destas 38. A definição econômica também é importante para o direito, em que ele é caracterizado como o ativo, reduzindo-se o passivo, se existente39. Por ativo deve ser entendido o conjunto de direitos que compõe o patrimônio (apenas direitos patrimoniais, contudo as expectativas de direito dotadas de valor econômico e aquelas situações nas quais há lesão em direitos personalíssimos, pois geram direito à indenização e, desta forma, passíveis de ser apreciadas economicamente, também podem fazer parte), já o passivo é definido como o conjunto de obrigações, como assim leciona Pontes de Miranda:

“Ao conceito de conjunto de direitos, pretensões, ações e exceções, que enchem o patrimônio, e se diz ativo, opõe-se o conceito de passivo, que é o conjunto de deveres, obrigações e situações passivas das ações e exceções, patrimoniais. O passivo apenas diminui (=ameaça diminuir) o patrimônio, ou êsse se diminui pela prestação que o titular faz com algum ou alguns de seus elementos, ou pela execução forçada, a começar pela penhora.” 40.

37 AMARAL, Francisco. Op. Cit., p. 304.

38COMPARATO, Fabio Konder. Op. Cit., p. 793.

39 O direito pode se valer deste conceito, principalmente quando está tratando de normas jurídicas

atinentes à proteção dos credores, em que o ativo patrimonial livre é aquele que realmente interesse na garantia destes. Neste sentido: MIRANDA, Pontes de. Op. Cit. Tomo V, 1955, p.372; e BARRETO FILHO, Oscar. Op. Cit., p. 48 e 51. Sylvio Marcondes escreve que: “Na unicidade das relações ativas e passivas do titular do patrimônio é que se encontra, precisamente, o princípio fundamental de toda organização do crédito, de vez que, por efeito dela, o devedor responde, por suas obrigações, com todos os seus bens, os quais constituem, assim, a garantia dos credores.” MARCONDES, Sylvio. Questões de Direito

Mercantil. São Paulo: Saraiva, 1977, p. 126.

Três são as características principais do patrimônio: unidade do conjunto de direitos e obrigações de uma pessoa41, sua natureza econômica e sua vinculação a um

sujeito. Entretanto, tais características não impõem quaisquer restrições à possibilidade de uma pessoa possuir mais de um patrimônio além daquele geral, denominado de especial ou separado 42.

O patrimônio especial ou separado, destacando-se daquele geral, constitui um conjunto de relações destinadas para fins específicos, afetados por uma norma jurídica, um bom exemplo para este estudo esta no patrimônio da massa falida, que nas palavras de Oscar Barreto Filho: “Trata-se, com efeito, de uma certa massa destacada do patrimônio do devedor, compreensiva de direitos e obrigações, sujeitos à execução coletiva e destinada ao fim da sua liquidação para satisfação dos credores.” 43 Pontes de Miranda cita o exemplo da herança, asseverando que “(..) há os patrimônios

separados, tal como a quota herança, que se não ‘funde’, completamente, no

patrimônio do herdeiro e fica como trecho de outro colorido no patrimônio do herdeiro e

41 Mauro Brandão Lopes considera a unidade do patrimônio sua principal característica, destaca o

doutrinador: “(...) a unidade do patrimônio nessa pertinência total a uma única pessoa se prende a aspecto que lucidamente ressaltam tanto Sylvio Marcondes como Oscar Barreto Filho - o nexo interno segundo o qual o titular responde por todas as suas obrigações com todos os seus bens, a que aqui agora se reduzem direitos. Este nexo estabelece verdadeira unidade do patrimônio, (...); nesse nexo, com inegável acerto, vê Sylvio Marcondes a razão primordial para que se considere o patrimônio como universalidade de direito, ao observar que o vínculo indicado, que é ‘o princípio fundamental de toda a organização de crédito’, ‘infunde ao patrimônio o caráter de universalidade de direito’ (...) Mas o nexo interno da garantia encontra a razão de sua existência no caráter dinâmico inerente a todo patrimônio, mais ou menos acentuado conforme a atividade do titular, de modo que é preciso de início configurar esse cárater dinâmico. (...) Esse caráter do patrimônio, como categoria de direito, marca-o como entidade homogênea, na qual se situam sucessivos negócios jurídicos em função dos quais ele se transforma, com incessante entrada e saída de novos valores ativos e com concomitante criação e desaparecimento de valores passivos; marca-o como entidade homogênea de necessária consistência interna já que todos os negócios que determinam a sua transformação se prendem à atividade do mesmo titular, i.e., obedecem a objetivos que lhe dão essa consistência, porque por mais variados que sejam têm eles próprios o seu critério unificador.” LOPES, Mauro Brandão. A Cisão no Direito Societário. São Paulo: RT, 1980, p. 183/186.

42 MIRANDA, Pontes de. Op. Cit., Tomo V, 1955, p. 377 e 378. Neste sentido AMARAL, Francisco. Op.

Cit., 330. MORAES FILHO, Evaristo de. , V. I....p. 145/146.

como a própria herança que se pode distinguir das quotas e dos patrimônios dos herdeiros.” 44

Existem várias doutrinas discutindo a natureza jurídica do patrimônio. Apesar da existência dessas diferentes correntes, percebe-se que a noção de patrimônio mais aceita na doutrina hoje conjuga alguns aspectos das diversas teorias, entretanto, os debates em torno da natureza do patrimônio não vêm a interessar nesta monografia, pois conforme bem elucidou Oscar Barreto Filho:

“Como se verifica, trata-se, no fundo, de uma questão de palavras; uma vez reconhecido que, no patrimônio de uma pessoa, pode haver acervos ou massas de bens, susceptíveis de responsabilidades por certos compromissos, exclusivos ou preferenciais, tanto faz chamá-los ou não de patrimônios separados: as consequências jurídicas que disse dimanam serão as mesmas.

Temos por assentado, com Paulo Cunha, que não se pode deixar de distinguir certos agrupamentos dentro da totalidade das relações jurídicas de carácter pecuniário de uma pessoa; neste sentido, é lícito afirmar que cada pessoa pode ter mais de um patrimônio. E, mais, que o patrimônio de uma pessoa, sendo divisível, é suscetível de repartir-se em várias universalidades, de direito, distintas uma das outras. Não se pode negar a evidência de que o conjunto dos bens de uma pessoa pode ser subdividido, para efeitos de responsabilidades por dívidas, em diversas massas de bens, sujeitas a regimes de responsabilidade diferentes (os regimes matrimoniais, a herança). ” 45

Além do mais, a questão a respeito da sucessão na alienação de ativos empresariais considerados como um estabelecimento empresarial (conceito diferente de patrimônio) tem regras jurídicas específicas, que escapam das normas gerais sobre patrimônio, pertencentes à teoria geral do direito privado. Portanto, as definições e debates a respeito das características e natureza do patrimônio, bem como suas consequências em relação à sucessão, não são de fundamental importância para nosso estudo, servindo apenas para traçar as linhas básicas e gerais do direito privado.

44 MIRANDA, Pontes de. Op. Cit., Tomo V, 1955, p. 377. 45 BARRETO FILHO, Oscar. Op. Cit., p. 56/57.

O que importa aqui é que o patrimônio da pessoa, dotado das suas três características principais, responde integralmente por suas obrigações, constituindo a garantia dos credores46. No caso de uma sociedade empresária de responsabilidade

limitada (limitadas e anônimas), é constituído um patrimônio especial ou separado, formado pelas contribuições dos investidores, que passará a ser o patrimônio da pessoa jurídica, estando, pela determinação da norma jurídica, a responsabilidade dos investidores limitada àquela contribuição efetuada47, ao contrário daquelas sociedades onde a responsabilidade é ilimitada, em que a norma jurídica não limita a responsabilidade dos investidores ao patrimônio separado ou especial, respondendo os investidores com todo o seu patrimônio 48.

Quanto às responsabilidades das pessoas jurídicas envolvidas em operações de transferência de ativos empresariais, as questões que surgem são o tema deste estudo e, portanto, tentar-se-á solucioná-las nos capítulos a seguir.