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Essa breve exposição sobre a relação entre o concurso de IED e o crescimento econômico é importante no intuito de se mensurar em que medida a entrada de capitais estrangeiros produz, de fato, efeitos benéficos às economias receptoras e quais as possíveis recomendações de política relevantes às mesmas. Analogamente, a questão dos possíveis fatores determinantes de investimento parece-nos de suma importância. Investigar se os fatores políticos e, em especial, a participação ou não em instrumentos

internacionais sobre investimento nos ajuda a compreender a real relevância destes para a captação de investimentos, tanto do prisma do investidor quanto do lado do Estado receptor.

Uma das idéias aqui estudadas refere-se aos efeitos positivos gerados pela entrada de IED por meio de transferência de tecnologia e de conhecimento via technological spillover. Isso porque o IED não só contribui para aumentar o nível de capital físico da economia receptora, mas também a melhoria do capital humano, proporcionando retornos crescentes do estoque agregado de capital. Um maior desenvolvimento tecnológico estimula o crescimento econômico e o IED é, nesse sentido, um potente instrumento de transferência de tecnologia aos países importadores de capital (Castro, 1997).

Entretanto, o grau de geração de externalidades positivas por parte da admissão de IED parece depender, para vários autores, de algumas pré- condições encontradas nas economias anfitriãs. A mais relevante delas é a capacidade de absorção de novas tecnologias por estas, o que nos remete ao estudo do grau de complementaridade entre o IED e o investimento doméstico: em economias nas quais há nível de escolaridade elevada (Lipsey, 2000), nas quais a distância tecnológica entre exportadores e importadores de capital é pequena (Mello, 1999, Persson e Blomström, 1983, Blomström et al, 1992) ou onde o estoque de capital humano é suficiente (Borensztein et al, 1995), o concurso de IED tende a ter efeitos benéficos. Outras pré-condições encontradas variam entre o grau de abertura externa (Castro, 1997, Balasubramanyam et al, 1996, Nair-Reichert e Weinhold, 2001), a infra- estrutura instalada (Agosin e Mayer, 2000), a qualidade do IED (Agosin e Mayer, 2000, Correa e Kumar, 2003), entre outros.

Pode haver casos, contudo, que a entrada de IED acarrete o fenômeno do crowding out, prejudicando sensivelmente o investimento doméstico e as firmas locais. Tal fenômeno parece ocorrer em alguns casos específicos, sobretudo quando o IED é distribuído de maneira semelhante ao

investimento doméstico (Agosin e Mayer, 2000). Em outras palavras, quando o IED parece não ter a qualidade necessária (Correa e Kumar, 2003), seja em relação aos baixos insumos tecnológicos trazidos, seja devido a uma concorrência com as empresas locais, esses capitais externos podem ter efeitos benéficos reduzidos ou até mesmo negativos.

Os estudos empíricos apontam, em geral, para a conclusão de que a entrada de IED nas economias em desenvolvimento afeta as taxas de crescimento positivamente, embora esta relação possa não ser, em alguns casos, incondicional. De fato, a maioria dos autores aqui analisados aponta para os efeitos benéficos do concurso de capitais estrangeiros, sobretudo devido à contribuição das transferências de tecnologia e know-how organizacionais das EMNs para as firmas locais.27 Mesmos os analistas que levantam a hipótese de que nem sempre as externalidades geradas pelos IED, não negam que esses investimentos podem trazer benefícios às economias locais.

Nos casos específicos em que a qualidade do IED não seja apropriada ou que exista, por razões acima mencionadas, substituição do investimento doméstico pelo IED, ocorrendo o fenômeno do crowding out, o Estado receptor pode valer-se de algumas medidas regulatórias, como a promoção de aprendizado local de técnicas, o desenvolvimento da capacidade de alocar insumos tecnológicos trazidos pelas EMNs, além de medidas para selecionar a qualidade do IED segundo os objetivos de desenvolvimento do país. Por outro lado, tendo em vista a concorrência entre os PED pela alocação de IED na esteira do enorme afluxo registrado na década de 90, parece não mais fazer sentido investigar se o IED é prejudicial ou não aos PED, mas sim verificar as

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A análise empírica dos estudos sobre a relação entre o IED e o crescimento econômico aponta para o fato revela, em geral, que resulta ultrapassada a agenda teórica globalista e dependentista, muito em voga nas décadas de 70 e 80, com os trabalhos da CEPAL e de análises sistêmicas, como Immanuel Wallerstein, Samir Amin, além de Emir Sader, no Brasil. Devido à sua capacidade de geração de externalidades positivas, a necessidade de captação de IED tem sido, assim, uma necessidade, tanto para os países desenvolvidos quanto para os PED.

possibilidades de maximização de ganhos e minimização de eventuais riscos oriundos dos fluxos de investimento.

Com relação aos possíveis determinantes de investimento, algumas conclusões relevantes podem ser aqui traçadas. Em primeiro lugar, malgrado terem adquirido importância cada vez mais presente nos dias atuais, os fatores não-tradicionais de atração de investimento, como os fatores complementares de produção, o nível educacional, os fatores de custo, entre outros (Nunnenkamp e Spatz, 2002), não parecem ser mais importantes que os fatores tradicionais, a exemplo do tamanho da economia, do crescimento do PIB, da população, da dotação de recursos naturais, dos fatores de risco, etc. Pode-se dizer que, no máximo, os primeiros se equivalem aos últimos na atração de IED para os PED. O fator tamanho de mercado, quesito tradicional de atração de investimento, mostrou-se um dos mais significativos condutores de IED (Wheeler e Mody, 1992, Campos e Kinoshita, 2003, Nonnemberg e Mendonça, 2004, Garibaldi et al, 2001, Tsai, 1994). O baixo custo da mão-de-obra, a presença de recursos naturais, além da proximidade geográfica revelaram-se, também, importantes fatores tradicionais da atração de investimentos (Campos e Kinoshita, 2003, Garibaldi et al, 2001).

No que tange aos fatores não-tradicionais de atração de investimentos, o quesito que mostrou maior destaque nos trabalhos analisados (UNTC, 1992, Nunnenkamp e Spatz, 2002) é a existência de capacidade instalada de P&D e o grau de disseminação de escolaridade e know-how como importantes atrativos de investimento intensivos em tecnologia. A estabilidade macroeconômica, entendida aqui como um conjunto de pré-requisitos indispensáveis para o bom funcionamento da economia anfitriã (baixos índices de inflação, dívida e déficit públicos sob controle, etc.), aparece como outro fator importante para a captação de IED pelos PED, reduzindo os riscos e as incertezas para a tomada de decisão do investidor (Nonnemberg e Mendonça, 2004, Campos e Kinoshita, 2003, Garibaldi et al, 2001).

Entre os fatores não-tradicionais aqui analisados, o grau de participação em instrumentos internacionais de investimento e a existência ou não de barreiras legais ou técnicas à admissão de IED mostraram-se bastante significativos, embora não determinantes (Correa e Kumar, 2003). Ao criar um ambiente jurídico mais favorável ao concurso de capital estrangeiro, os países emergentes receptores desses influxos sinalizam com uma importante medida de fortalecimento da confiança (confidence building measures). Na esteira da liberalização econômica e da concorrência internacional pela atração de IED com qualidade por parte dos PED, a simples participação em instrumentos internacionais de investimento, que defina garantias de proteção legal e de tratamento equânime entre o IED e o investimento doméstico, constitui, em si, relevante atrativo para capitais estrangeiros.28

Talvez uma importante distinção deva ser feita entre os conceitos de ambiente de investimento (investment climate) e oportunidade de investimento (investment opportunities). A mera existência de oportunidades de investimento em um país “x” pode não ser fator suficiente se o investidor tiver de enfrentar um ambiente desfavorável ao seu capital. Analogamente, um ambiente favorável ao investimento, como um regime liberalizante à entrada de IED, pode ser insuficiente se não houver, na economia receptora, oportunidades concretas de ganhos para os investimentos.

Assim, a participação de um país em um tratado internacional de investimento, bilateral, regional ou multilateral, é valiosa medida de construção de um ambiente favorável ao investimento estrangeiro, embora insuficiente na ausência de políticas efetivas que criem oportunidades de ganhos efetivos para investidores. Esse é o mesmo ensinamento da UNCTAD:

“(...) in all probability, an FDI, which would otherwise not have taken place in a host country, would still not take place even if the country signs up to an multilateral framework

28 Vide, para isso, o florescimento dos APPIs na década de 90, alcançando, em 2003, o

in investment (MFI); nor would an FDI which would otherwise have taken place, be lost to a host country because it is not a signatory to an MFI. An MFI would not by itself make up for those conditions that at present deter investment in developing and least developed countries. National legislation and transparent procedures which facilitate and provide security for foreign investment, and the development of basic infrastructure for the installation and operation of production units are issues to be resolved through a reorientation of domestic policy measures. These conditions can be provided within the framework of a stable macroeconomic policy regime, and by a stable political leadership that is committed to development, and not by an MFI.”29

C A P Í T U L O 2

Os instrumentos que regulam os